6 de novembro de 2009

Sugestões que Adorno nunca aprovaria


As palavras de Stephen Davies, que o Vítor postou, parecem-me bastante acertadas. Talvez Davies acabe até por ser algo caridoso com Adorno.

Penso que a reverência durante algum tempo dispensada a Adorno no meio filosófico se deve menos ao nível e acuidade da sua reflexão filosófica e mais ao facto, pouco comum, de ser um musicólogo encartado que usa abundantemente esse conhecimento técnico para tirar conclusões bastante fortes acerca da natureza e do valor da arte. Adorno parecia falar com uma autoridade na matéria que faltava a muitos outros.

Entretanto, são já muitos os filósofos da arte com uma sólida formação musical, como Peter Kivy, Roger Scruton (que é compositor com obra publicada) e o próprio Davies, ao lado de quem a autoridade de Adorno é menos impressionante. Actualmente, as ideias daqueles são muitíssimo mais bem articuladas e filosoficamente interessantes, mas também mais discutidas do que as de Adorno. E mesmo musicólogos com um grande pendor filosófico como o prestigiado Carl Dahlhaus (com várias obras publicadas entre nós) afirma que grande parte das ideias de Adorno não passam de «meras analogias verbais sem qualquer base factual, mas cuja origem e aparente plausibilidade se devem a um uso francamente ambivalente de palavras como 'geral' e 'particular'», não hesitando em «subordinar as questões de facto aos seus objectivos filosóficos», como quando desclassifica liminarmente tanto a música popular como a de Stravinsky.

Esquecendo agora a ideia de Adorno de que a arte tem uma função política e contrariando a recomendação de dar música dodecafónica ao povo para o libertar do jugo da modernidade repressora, arrisco a avançar com três sugestões musicais que ele nunca aprovaria: música popular e ... Stravinsky. Precisamente!

A primeira sugestão é de uma música cuja simplicidade quase artesanal me surpreendeu. Trata-se do álbum xx dos The xx, um grupo de duas raparigas e dois rapazes pós-adolescentes de Londres. Não há energia a borbulhar, como seria de esperar de recém-adolescentes, nem palavras de ordem de protesto enraivecido. Há antes contenção, sussuro e uma musicalidade pouco previsível, tirada de um baixo, duas guitarras eléctricas e uma caixa de ritmos. Lembra vagamente alguns grupos dos anos 80, como Young Marble Giants e, mais vagamente, The Sound. Destaco sobretudo quatro canções: Heart Skipped a Beat, Fantasy, Shelter e Infinity.

O segundo disco não passa de belas e lentas melodias, cantadas com uma voz invulgarmente quente e musical e acompanhadas por uma instrumentação discreta e envolvente, o que já não é pouco. Numa audição distraída chega a parecer banal, mas é tão banal como as canções de Roy Orbinson, cujo universo musical é claramente evocado aqui pelo escocês Richard Hawley. Há influências do folk americano (que eu não costumo apreciar particularmente) e um uso intensivo do efeito de eco na voz e do trémolo na guitarra, que acabam por resultar muito bem, como em algumas das melhores canções de Chris Isaak. Destaco as canções As the Dawn Breaks, Open up Your Door, Remorse Code e, em especial, Soldier On. O álbum chama-se Truelove's Gutter.

Finalmente, Stravinsky. Não o primitivista da Sagração da Primavera nem o dodecafonismo da sua fase final (sim, Stravinsky foi como Picasso na pintura: experimentou um pouco de tudo). É o Stravinsky neoclássico num disco duplo que reúne a Sinfonia Op. 1, a Sinfonia em Três Andamentos, a Sinfonia em Dó e a Sinfonia de Salmos, dirigidas pelo próprio compositor. Sugiro sobretudo a primeira delas, que começa com um primeiro andamento irresistível. Mas este disco tem ainda um bónus especial: uma sessão de ensaios com o compositor (é muito interessante ouvir os seus comentários e interrupções) e outra a falar da sua vida e obra.

Espero que Adorno não leve a mal.

7 comentários:

  1. A intenção do post foi mesmo mostrar às pessoas que há mais e melhor filosofia da música na tradição em que filósofos como Adorno não se inscrevem. Que as opiniões superficiais proferidas com léxico semi-incompreensível não são últimas palavras a ser aceites acriticamente, com o respeito sepulcral devido às coisas remotas, inatingíveis.

    Há muita filosofia de qualidade, lúcida, legível, inteligível, estimulante, que induz o leitor a pensar por si em vez de ficar deslumbrado com o peso mágico das palavras esotéricas, e aceitar sem pensar coisas como o dodecafonismo ser a expressão da anarquia na música porque "destrói a hierarquia tonal".

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  2. Aires,
    Aproveito o momento para te dar a sugestão de ouvires os Raveonettes. São um duo sueco que pratica rock n roll, uma mistura de Julee Cruise com Richard Hawley e Jerry Lee Lewis. Fazem um rock de síntese de excelentes referências, um híbrido estético que é um brinco.

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  3. Caro Aires,

    Conheces a obra do marxista-leninista Eisler? Sabes por que é que ele abandonou o dodecafonismo?

    Escrever, ou acrescentar algo, sobre os disparates do Adorno sem perceber por que é os marxistas-leninistas (ou seja, os únicos marxistas que chegaram ao poder) as repudiam é pouco informativo.

    E uma vez mais apelo aos da responsáveis da "crítica": não citem J. S. Mill, sem avisarem os leitores que vocês, de facto, comprovadamente, abominam o que ele defendia.

    Com a vossa inultrapassável hipocrisia, ao fingirem que concordam com J. S. Mill, afastam os verdadeiros liberais de J. S. Mill.

    Vocês não têm mesmo vergonha nenhuma na cara?

    Pedro Saragoça Martins

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  4. Caro Pedro,

    Sim, conheço a obra de Hans Eisler. E daí?

    Abandonou o dodecafonismo? E importas-te de nos informar porquê?

    O que sei é muito pouco e penitencio-me por isso. Sei que abandonou a Alemanha e a sua música foi proibida durante o nazismo, catalogada como "Entartete Musik" (Música decadente). Fugiu para os Estados Unidos e depois foi expulso daí, regressando à Alemanha. Isso mostra o quê acerca das ideias de Adorno?

    Há muita coisa que eu não percebo, incluindo o teu comentário sobre Adorno e os marxistas-leninistas. Mas tens aqui todo o espaço que quiseres para me esclareceres sobre o assunto. Isto se te dignares perder o teu tempo com algo mais do que ler o que aqui se escreve e mandar umas bocas.

    Quanto ao resto, as tuas palavras falam por si. São bem esclarecedoras do civismo e do nível argumentativo exibido. Parabéns.

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  5. Rolando, estive a ouvir Raveonettes e sinceramente fiquei algo perdido: não encontrei lá nada que me parecesse Julee Cruise nem JL Lewis e muito menos Richard Hawley. Aquilo soa a anos 80 por todos os lados: The Primitives, Jesus and Mary Chain e coisas assim. Ouvi mal?

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  6. Não sei. Se cruzares Cruise com Hawley e Lewis é capaz de dar qualquer coisa aproximado.

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  7. Olá,

    Para conhecer uma crítica atual, bem fundamentada e devastadora ao dodecafonismo, eu recomendo fortemente a leitura do livro "A Geometry of Music: Harmony and Counterpoint in the Extended Common Practice" (Oxford Studies in Music Theory) Hardcover – March 21, 2011
    by Dmitri Tymoczko.

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