17 de novembro de 2009

Telegrapho de parabéns e nova secção

O Telegrapho está de parabéns pelos quatro anos, mas sobretudo pela lucidez de não embarcar em ideias feitas que parecem bonitas mas são uma desgraça anunciada.

E por falar em ideias feitas, vou inaugurar neste post uma nova secção: ideias feitas. Em cada um destes posts apresenta-se uma ideia feita: ideias muito comuns, que andam por aí no ar, geralmente muito tolas, e que muitas vezes pretendem transmitir sofisticação mas só conseguem mostrar preguiça em pensar e uma genuína capacidade para macaquear sem pensar o que se ouviu. Ao fim de algum tempo será informativo ver a lista destas ideias feitas.

Eis a primeira ideia feita, que surgiu numa conversa com o leitor que se identifica como Miguel:
As pessoas preferem sapatos e o Prince à física, história, filosofia, matemática, etc., porque umas pessoas muito mal-intencionadas, os capitalistas, querem vender dessas coisas em vez das outras.
Refutação:
Isto é ver a relação de causalidade de pés para o ar. Quem vende é que atende ao que as pessoas querem, não são as pessoas que atendem ao que quem vende quer. Se mais pessoas quisessem concertos de música erudita e menos pessoas quisessem futebol, haveria mais das primeiras coisas e menos das segundas.
Esta ideia feita é particularmente adequada para começar precisamente porque a essência das ideias feitas é a vontade que tantas pessoas têm de imitar as pessoas à sua volta, precisamente o mesmo que explica que tanta gente prefira futebol à literatura de arte.

38 comentários:

  1. Refutacao 'a refutacao: se quem vende e' que atende ao que as pessoas querem, entao quem vende nao precisaria de recorrer 'a publicidade; pelo contrario, se isso fosse verdade, seriam os consumidores que recorreriam 'a publicidade para convencer os produtores a produzir aquilo que lhes interessa a si proprios, os consumidores.

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  2. Mas o que e' tolo aqui e' apenas a sua sintese da disucssao que tivemos (para la' da sobranceria gratuita, mas ta' bem, dou o desconto).

    E' claro que existe mais gente a querer consumir o futebol. E' um efeito de feedback positivo, never heard about that? (tambem e' so' pro' efeito de sofisticacao que eu invoco esta cena do feedback?). Senao vejamos: quanto tempo demora a educar um individuo medio a apreciar o futebol e quanto tempo demora a educar o gosto pela musica erudita? Quer ter a fineza de responder, dar uma estimativa a esta pergunta?

    Caso o tempo medio para ganhar o gosto ao futebol for muito menor do que para aprender a musica erudita, diga-me la' qual dos negocios da' potencialmente um maior lucro? Nao sera' o futebol? .... aaaaahhhh, juntemos isso ao imperativo da maximizacao do lucro para os accionistas e temos uma explicacao por que razao um capitalista CEO que nao e' pior ser humano do que voce ou outra pessoa e' levado a optar por impingir o futebol. Feedback positivo, e' verdade: uma vez que o numero de apreciadores do futebol comeca por ser maior, por efeitop de manada e por convivio, temos cada vez mais malta a preferir o futebol.


    O que e' que me falta para conseguir pensar pela propria cabeca

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  3. Há umas instituições que gastam milhões todos os anos ao erário público e que se chamam… escolas. Do ensino primário ao universitário, tudo por lá se ensina. Há até lá umas coisas chamadas “livros.” E em alguns países quase metade da população com menos de 30 anos tem uma graduação.
    Qual é a diferença no comportamento das populações? Praticamente nenhuma. Basta ver a própria internet: a frivolidade e o disparate são endémicos. Isto nada tem a ver com conspirações económicas. As pessoas, mesmo dando-lhes todas, todas, as oportunidades para conhecer a astronomia ou a filosofia ou a história ou a matemática, preferem a pipoca em filmes tolos norte-americanos, a cerveja em ambientes insalubres com muita gritaria e palermices e sapatos de marca.
    Não é a economia que molda primariamente as pessoas, são as pessoas, com as suas escolhas, que moldam primariamente a economia. Esta é a principal direcção da causalidade. Claro que também é verdade que a economia molda não primariamente as pessoas, mas sem a primeira direcção da causalidade o mundo não teria nem metade da frivolidade que tem. Gasta-se milhões em cultura e ciência e os resultados são quase nulos; gasta-se centenas a publicitar a Coca-Cola e os resultados são óptimos. Isto acontece porque a Coca-Cola responde ao que as pessoas realmente querem, ao passo que a astronomia e a poesia não.
    Logo, a publicidade não é a refutação da refutação. É a confirmação da refutação, pois só a frivolidade endémica do género humano explica que a publicidade a certos itens tenha tanto sucesso ao passo que a publicidade a outros tem tão pouca.

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  4. Eis outro exemplo: entre-se numa livraria. Não se pode dizer que estamos no domínio do mais absolutamente frívolo. Para ler mesmo um romance de cordel ou um livro tolo de conspirações ou auto-ajuda é preciso mais força de vontade e determinação do que para ficar no bar a arrotar e beber cerveja.

    Ora bem, mas o que se vê na livraria? Que livros se vendem mais? Os mais frívolos. Com raras excepções. É mais fácil vender um livro que anuncia como enriquecer pelo poder quântico da atracção espiritual do que um livro simples que explique os aspectos mais fascinantes da origem do universo.

    Haverá também aqui uma conspiração dos editores, esses ladrões desavergonhados? Dos livreiros, esses capitalistas consumados? Não. Para a maior parte deles, tanto faz vender X como Y; e muitos editores e livreiros são-no por amor à profissão, mas vêm-se gregos para conseguir vender um livro bom, e têm de recorrer ao lixo. Seria igualmente fácil vender livros de matemática, mas a verdade é que as pessoas preferem livros de frivolidades. E por isso há mais livros desses do que de matemática.

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  5. Nao, nao e' igualmente facil escrever um livro de matematica como escrever um livro de disparates. Essa devia ser uma das pistas.

    Voce claro nao responde ao que lhe poderia por a teoria em causa. Custa mais escrever matematica, demora mais tempo, ha' menos gente qualificada para isso, e' muito mais dificil la' chegar, mas.. para voce um desempregado e' um gajo que e' preguicoso e nao quer trabalhar, e um ignorante e' um gajo que nao e' virtuoso, qualquer dia escreve um livro sobre a origem genetica das preferencias culturais da maralha e ainda acaba por concluir que existe uma linhagem genetica de eleicao .... resta saber em que seccao da livraria e' que vai ser exibido essa sua obra.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. E outra coisa, pense a titulo de exemplo no caso das mulheres/homens da limpeza. Esta' 'a espera que essa malta va' ponderar calmamente os argumentos a favor e contra a evolucao das especies, ou a evidencia experimental para a mecanica quantica, ou ver filmes do Kaurismaki? Se calhar nunca mais quereriam trabalhar nas limpezas. E quem e' que nos ia limpar as casas e os escritorios? Todo o problema comeca aqui.

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  8. Embora a opinião do Miguel me pareça de facto, uma ideia feita, devo concordar com esta. Passo a explicar-me: toda esta questão gira à volta do consumismo(e do capitalismo que, por sua vez, apela ao consumismo) e da suposta aversão das massas à cultura. O problema nesta situação, é que as massas dão mais valor ao material do que à cultura, ao conhecimento, pois são diariamente bombardeadas com marketing, marketing este que abusa das mentes dos menos informados, dos mais incultos, ao os persuadir a adquirirem bens materiais dos quais, na maior parte das vezes, nem sequer precisam. Isto é nefasto no aspecto em que o capital e o material são mais valorizados sob as próprias pessoas como indivíduos que são, com uma personalidade, com todas as características que lhes são únicas. A cultura, por sua vez, apela a reflectir, a pensar, a perseguir a verdade sobre o que nos rodeia e a sermos pessoas mais activas na sociedade em que nos inserimos, ao nos tornarmos mais conhecedores e pessoas mais sensatas, racionais. A cultura de um indivíduo contribui para que este não seja facilmente manipulável pelo que o rodeia(governo, marketing, dogmas religiosos, etc. que se tentam aproveitar das massas facilmente manipulaveis seja com interesses financeiros ou outros), pois aquele que não é culto, é ingénuo, vive iludido num mundo de aparências e futilidades e contenta-se na sua ignorância e indiferença.
    Para concluir, penso que não é tanto uma questão da oferta variar consoante a procura, mas uma questão de se aproveitar da ingenuídade das pessoas de forma a tornar a procura maior do que o que seria normal/necessário.
    Música erudita, assim como a cultura em geral, é menos popular do que o futebol porque não é tão apelativo ao exigir das pessoas uma determinada "sensibilidade" para o entender. Ao fazer uma análise de uma obra literária, por exemplo, é preciso reflexão. Futebol é mero entretenimento e não tem outro objectivo se não esse, o que o torna atractivo às pessoas em geral, e é por isso que vende mais(que é o objectivo do capitalismo: vender, gerar lucros).
    Espero ter sido suficientemente sucinta na minha argumentação. :)

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  9. Obrigado pelos parabens. Tem sido 4 anos interessantes e de enriquecimento para mim. Gostaria de ouvir comentários ao facto de "net killed journalism star", dos efeitos preversos da net nos efeitos da verdade dos factos, e se a auto-regulação que proponho (que como auto nunca existirá ou será aceite por todos) em algo contribui para a dignificação de quem de facto e com autoridade divulga a verdade.

    cumprimentos

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  10. Olá, Renato

    O mundo não é perfeito e a maior parte só podemos fazer o que é possível fazer, sem que isso garanta os resultados que desejamos. A auto-regulação é um passo certo na direcção certa, e é de aplaudir. Só tenho uma sugestão: que a tua identidade seja mais imediatamente visível no blog. Considero que um dos factores que atrapalha a qualidade da informação e do debate na net é o anonimato.

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  11. Quanto à dificuldade de escrever livros de matemática, isso é irrelevante, dado que há tantos livros desses já escritos — mas as pessoas preferem os outros. A verdade que muitas pessoas consideram desagradável acerca da humanidade é que a maior parte das pessoas, dada a possibilidade de escolher, preferem novelas e futebol a astronomia ou história.
    A leitora anónima Efemeridade também não tem razão, pois não está a ver que é o facto de as pessoas preferirem o fácil que o torna mais vendável, o fácil não é mais vendável porque os capitalistas o prefiram vender. Na verdade muitos capitalistas não vendem o mais fácil, mas nunca conseguem vender tanto quanto se vende o menos fácil. Os livros de qualidade de astronomia, história, filosofia, física, etc., estão hoje em dia disponíveis — mas qualquer pessoa gasta mais dinheiro em futebol ou automóveis ou televisões do que nesses livros.
    Um dos males da humanidade, resultado da falta de experiência de vida, é a incapacidade para compreender modos de vida muito diferentes dos nossos. A verdade é que a maior parte da humanidade, mesmo tendo todas as condições para preferir outras coisas, prefere frivolidades. Penso que isso deve ser respeitado. E penso que é de uma sobranceria inaceitável vir dizer que essas pessoas são todas manipuladas, e é só por isso que não têm… os mesmíssimos gostos que eu. Isto é uma tolice. É como dizer que os homossexuais só são homossexuais porque foram manipulados para o serem.

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  12. Desiderio, voce esta' a tornar-se algo repetitivo. Todos sabemos que as pessoas consomem mais coisas rascas do que obras artisticas ou cientificas de qualidade. Simplesmente, quem almeja por um pensamento racional e e' curioso procura perceber as razoes e os mecanismos inerentes a essa fenomenologia. Pelo contrario, voce propoe que tomemos isso como dado de partida, indiscutivel, nao passivel de discussao ou explicacao racional. As pessoas sao como sao porque assim o sao e teem todo o direito a isso.
    E, neste ultimo caso, voce esta' a incorrer numa confusao conceptual: confunde o direito que assiste a qualquer um de fazer as suas opcoes (que, alem disso, ninguem aqui colocou em causa) com a tentativa de explicacao racional de porque razao as pessoas teem em grande numero os comportamentos socio-economicos e culturais que teem. Sao coisas diferentes: os direitos e a descricao racional do exercicio desses direitos. Eu nao devia ter necessidade de lhe explicar esta distincao conceptual.

    As nossas aproximacoes 'a questao distinguem-se entao do seguinte modo: 1) para o Desiderio e' um axioma que "as pessoas sao como sao" e isso e' o dado de partida; 2) para mim, a abordagem racional deve ter como ponto de partida os seres humanos com as suas propriedades originais, sem os distinguir uns dos outros 'a partida, e em seguida procurar perceber os mecanismos e as razoes que os levam a diferenciar-se uns dos outros do ponto de vista do comportamento em sociedade.

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  13. APENAS PARA COMPLETAR O QUE ESCRVEI ACIMA:

    "as pessoas sao como sao" querendo com isso dizer que existe 1) uma grande maioria que se interessa apenas por coisas tolas independentemente das oportunidades que lhes sao proporcionadas de aceder 'a alta cultura; 2) existe uma pequena minoria "virtuosa" que se interessa pela alta cultura

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  14. Esclarecimento adicional:

    Para evitar mal-entendidos, eu nao assumo 'a partida uma hipotese do tipo "blank slate", ok?
    A distincao entre o inato e ambiental esta' imersa num nevoeiro muitissimo denso.
    Simplesmente, ninguem sabe (i) identificar e medir as propriedades iniciais, 'a nascenca, relevantes para classificar os seres humanos; (ii) e, menos ainda, como mapear essas eventuais propriedades iniciais para os comportamentos culturais na idade adulta. Por isso, e' metodologicamente mais sensato e prudente assumir que estatisticamente as capacidades humanas serao relativamente procximas de pessoa para pessoa. Vamos errar em casos individuais, mas e' muito provavel que acertemos nas tendencias gerais.

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  15. Dada a observação pertinente relativamente ao meu comentário por parte de Desidério, presumo então que não fui bem clara na minha opinião.
    Na minha opinião, o consumismo está fortemente ligado à manipulação de massas. Penso que o fácil é vendável porque além de ser naturalmente atractivo junto das massas, também há um marketing agressivo associado a este. A forma de marketing agressivo que me ocorreu de momento à mente foi a publicidade de marcas em novelas, por exemplo. Suponhamos que numa dada novela dirigida a adolescentes, a personagem principal, X, aparece na novela com roupas de marca Y. Ora, é sabido que a maioria dos adolescentes, como pessoas facilmente influenciáveis que são(generalizando), vêem os seus ídolos em determinadas personalidades, ficcionais ou não, e procuram imitar os seus comportamentos, estilo e outros aspectos relacionados. Isto levará vários adolescentes a imitarem o seu ídolo, o que, consequentemente, os levará a comprarem roupas de que nem precisavam, mas como aquela personagem que eles idolatrizam as usa, eles pensam que "também têm que as usar". Se não a usar, é considerado um "excluído". O que eu vejo de errado nisto é o facto de se aproveitarem de mentes facilmente manipuláveis como as dos adolescentes ao originarem estes fenómenos de "modas" e lhes "impor" bens materiais de que estes não precisam, com a finalidade de gerar lucros astronómicos.
    O consumismo também está fortemente ligado ao Natal. É quase considerada uma obrigatoriedade oferecer prendas no Natal, situação apoiada pelos media que não se cansam de relacionar Natal unicamente ao espírito consumista e gastador. Os "capitalistas" que nos impõem estilos de vida consumistas, prometem-nos a suposta "verdadeira felicidade" nos bens materiais. Ou seja, as pessoas preferem frivolidades porque também são levadas a crer que com isso, terão uma vida melhor, serão mais felizes. Respeito o facto das pessoas serem movidas por futilidades materiais, pois tal como Desidério referiu, e com toda a razão, não temos todos os mesmos gostos e isso deve ser respeitado. Apenas não concordo com a forma como são levadas a satisfazer a ganância dos capitalistas que lucram com esta situação ao levarem as pessoas a consumirem mais e mais do que nem sequer precisam. Penso que é aí que as massas pecam, ao se deixarem levar pelo consumismo que tantas vezes, não cumpre as promessas de "felicidade" tantas vezes lhes prometidas.

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  16. Já agora, outra ideia feita que apanhei nos comentários, de relance: " o futebol é uma actividade rasca, mas ler livros não é". A ideia é mais ou menos esta, ainda que tenha sido transmitida com outras palavras.
    Refutação: Há livros que são rascas e o futebol não é necessariamente rasca somente porque é do gosto da maioria. Há certamente aspectos rascas no futebol, como há aspectos nobres.

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  17. O que se passa é o seguinte. Não é possível explicar o género de sociedade em que vivemos sem que esse género de sociedade resulta das preferências das pessoas. Explicar o género de pessoas que existem por causa do género de sociedade que temos é inverter a ordem principal da explicação. Primariamente falando, temos a sociedade que temos porque as pessoas são como são; as pessoas não são como são primariamente por termos a sociedade que temos. Claro que, secundariamente, as pessoas são como são porque são influenciadas pela sociedade em que se inserem. Mas numa sociedade livre, com imensas oportunidades e escolhas, esta influência causal é muito menor.

    Os meus contra-exemplos não foram refutados. Não vivemos numa sociedade em que Beethoven ou a matemática estejam escondidas dos olhos do povo. O povo que entra num shopping pode entrar numa loja que vende televisões ou numa que vende livros, mas escolhe a primeira. E se escolher a segunda, vai directamente às prateleiras de auto-ajuda.

    A explicação a que me oponho é que as pessoas fazem isto, coitadas, porque foram manipuladas. Além de ofensivo, isto é implausível. Outras pessoas não fazem essas escolhas das maiorias. Porquê? Estão magicamente para lá das garras da manipulação? Não, simplesmente experimentaram o frívolo, não acharam graça, e procuraram outras coisas. As outras experimentaram outras coisas, nomeadamente na escola, não gostaram nem um bocadinho, e procuraram outras coisas. Explicar isto com determinismo social é ofensivo e implausível.

    Quanto à ganância dos capitalistas... E que tal a ganância dos não capitalistas, que querem obrigar as pessoas a gostar de Mozart e quando não gostam declaram que elas foram vítimas de manipulação e que a sua escolha não foi genuinamente livre. A verdade é que quem vende frivolidades presta um serviço inestimável a quem gosta de frivolidades, ao passo que os intelectuais tudo o que fazem a essas pessoas é aborrecê-las e chamar-lhes nomes feios.

    Associada a esta ideia feita está outra: a de que ganhar dinheiro é feio. Lá iremos.

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  18. Desiderio, voce nao responde aos meus argumentos. Assim nao vale. De qualquer modo, e' evidente que existem relacoes causais nos dois sentidos. Eu nao o nego. Tento encontrar explicacoes para os sentidos, e se voce ler com atencao o que eu escrevi verificara' que aponto causalidade nos dois sentidos. Claro que, 1) perante duas actividades que existem esforco diferente; 2) accoes de promocao e marketing muito mais fortes para a rasquice do que para a alta cultura (va' fazer um estudo dos gastos na publicidade da roupa de marca com os correspondentes na ciencia ), a probabilidade e' enorme de que fiquemos pelo rasca. Pela simples razao de que e' mais facil. Voce esta' a comparar batatas com sinfonias. Custa muito mais ler matematica ou fisica do que ver um jogo de futebol. Eu consigo fazer as duas coisas. Mas sou incapaz de apreciar danca, i.e. sou capaz de assistir a alguns espectaculos de danca e gosto de alguns, mas sou incapaz de destrincar a qualidade e as contribuicoes actuais mais originais. Agora, supondo que nao me estou a penas a armar, sou um gajo sofisticado (porque leio coisas de fisica) ou sou uma besta com interesses tolos (porque nao sou capaz de apreciar danca)?

    Claro que o Rolando tem toda a razao: o futebol nao e' necessariamente rasca, mas e' mais facil de assistir especialmente se um tipo como eu teve uma catrefada de ammigos na infancia que so' pensavam em futebol e, com os quais aprendeu o tema.

    E, merda!, nao e' feio ganhar dinheiro. Va' inventar tretas para outro lado. Ja' escrevi, repeti, expliquei que nao ha' problema em ganhar dinheiro. Essa insistencia na distorcao do que eu digo torna-se irritante.

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  19. O argumento da causalidade do marketing para as preferências das pessoas não funciona de modo algum — nem sequer historicamente. As pessoas não eram particularmente mais dadas à cultura no tempo de Aristóteles — ou apenas há 70 anos — mas nessa altura não havia marketing, que surge apenas em força depois da segunda guerra mundial.

    Eu respondo aos argumentos. Mostro que os argumentos não funcionam apresentando contra-exemplos atrás de contra-exemplos. O próprio argumento da facilidade é um tiro no pé, pois pressupõe que as pessoas preferem o que é mais fácil — ver futebol — em vez de o que é mais difícil — ler Eça. Ora, isso é precisamente o que eu afirmo: são as preferências das pessoas que tornam mais fácil ganhar dinheiro a dar chutos numa bola do que a fazer matemática; não são as conspirações dos capitalistas que fazem primariamente as preferências das pessoas, mas sim as preferências das pessoas que moldam primariamente o que é mais lucrativo vender. Outra razão para o argumento da conspiração não funcionar é que há capitalistas a ganhar dinheiro com livros de qualidade, por exemplo — só que nunca ganham tanto quanto os que vendem lixo.

    O capitalismo põe a nu a verdade porque se limita a responder às preferências das pessoas. E a verdade é que a generalidade das pessoas prefere frivolidades a outras coisas, e esta preferência não resulta 1) da conspiração dos capitalistas, nem 2) da falta de oportunidades isto porque A) caso as pessoas tivessem outras preferências os capitalistas que agora vendem livros de qualidade ganhariam mais dinheiro do que os que vendem futebol e B) as pessoas dos países razoavelmente ricos têm à sua disposição toda a cultura que quiserem, relativamente barata, mas não a querem, nem dada.

    Outra objecção ao argumento da facilidade é o seguinte. Não é verdade que X) as pessoas preferem o mais fácil nem que Y) as frivolidades são mais baratas. Quanto a Y, é muito mais caro organizar um jogo de futebol ou um concerto do Michael Jackson do que um recital de piano ou uma sessão de poesia. Quanto a X, basta ver a brutal dedicação e as horas imensas de treino necessárias para coisas como jogar certos jogos de computador ou fazer surf, para ver que não é por ser mais fácil que os miúdos preferem essas coisas, mas antes que é porque as preferem que não se importam de se esforçar tanto para as fazer. Esforçassem-se eles 25% a estudar como se esforçam nessas coisas e todos teriam nota máxima ou próximo disso.

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  20. Já agora, só mais uma coisa. Parece-me delirante pensar que acaso se gastasse na ciência e cultura o mesmo dinheiro em marketing que se gasta com frivolidades as pessoas desatariam todas a prezar tanto a ciência e a cultura como hoje prezam frivolidades. E porquê? Porque isso vai contra toda a experiência que temos da natureza humana. Dadas amplas oportunidades para escolher entre frivolidades e cultura ou ciência, em liberdade, as pessoas escolhem na sua esmagadora maioria as primeiras, não por terem sido manipuladas para isso, mas porque é isso que realmente gostam.

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  21. Desiderio, voce sabe muito bem que antes de entrarmos na era industrial, as pessoas viviam no limiar da subsistencia. So' depois da II Guerra Mundial, as sociedades de abundancia material se comecaram a generalizar. As pessoas nas sociedade de subsistencia nao tinham qualquer oporti=unidade para se dedicar 'a cultura, excepto uma pequenissima minoria. Voce sabe isso muito bem, por isso o seu contra-exemplo "historico" nao funciona.

    Em seguida, e' voce que insiste no argumento da "conspiracao". Nao existe conspiracao nenhuma. Todas estas questoes sao discutidas em publico, no Financial Times, nas business s, no teatro, no cinema, por todo o lado...

    Quanto ao esforco que os miudos gastam nas suas proprias actividades entre as quais fazer surf, nao vejo qualquer motivo para desaprovar, nem sequer para as considerar actividades menores. O surf, o montanhismo, e todas essas actividades sao contra-exemplos 'a vida passiva do consumidor apatico. Coloco-as ao mesmo nivel da matematica, da filosofia, do cinema etc Esses vivem uma boa vida.

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  22. Sim, mas nessas sociedades as pessoas com meios e tempo livre dedicavam-se na sua maior a frivolidades. No entanto, não havia marketing. Logo, a ideia de que as pessoas se entregam a frivolidades por causa do marketing é falsa. É ao contrário: o marketing de frivolidades existe porque as pessoas gostam de frivolidades.

    É tão frivolo passar o dia a jogar futebol na praia como passar o dia em casa a ver televisão. Ora, o meu argumento é que não é por se mais ou menos fácil que as pessoas se entregam a uma coisa ou outra, mas apenas porque gostam do que fazem -- e se calham a gostar de uma coisa que exige muita perícia e muito esforço, entregam-se a esse esforço e dedicam-lhe o tempo necessário. Portanto, não é por ser mais difícil e exigir mais esforço e perícia que as pessoas não se entregam mais à cultura ou à ciência e menos às frivolidades, mas apenas porque preferem as frivolidades às outras coisas. E têm todo o direito às suas preferências.

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  23. Esta sua passagem é significativa: "Não vejo qualquer motivo para desaprovar". O problema é precisamente a ideia de desaprovar o que não gostamos de fazer. Eu não desaprovo que se fique em casa a ver futebol ou novelas ou passar o dia na praia a fazer surf. Apenas digo que as pessoas preferem maioritariamente essas coisas em liberdade e não por estarem a ser manipuladas. E têm todo o direito a preferir essas coisas. Com que critérios se poderá dizer que as pessoas não deveriam entregar-se a isso? Ah, já sei: é porque temos a teoria de que no fundo, no fundo, as pessoas não escolhem fazer isso -- são manipuladas pelos capitalistas para fazer isso.

    Ou seja, argumenta-se em círculos:

    1. Começamos com a teoria da conspiração capitalista para desaprovar o modo de vida que, segundo todos os indicadores, é pura e simplesmente o que as pessoas realmente preferem.
    2. Depois justificamos a nossa desaprovação pelas escolhas das pessoas porque não são realmente escolhas livres, e por isso temos o direito de as desaprovar. Mas a única razão que havia desde o início para adoptar a teoria da conspiração capitalista era a ideia algo vaga de que ninguém no seu perfeito juízo pode preferir uma vida frívola.

    Ora, o que eu estou a fazer é precisamente a pôr em causa esta ideia algo vaga e a declarar que devemos aceitar a realidade tal como ela parece que é: as pessoas preferem, na sua maioria, em liberdade, e sem manipulação, frivolidades.

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  24. Na verdade, aos circulos vai esta discussao, isto so' me faz lembrar as discussoes que tinha ha' uns anos com o Joao Miranda.

    As pessoas sao frivolas, seja. Esta' tudo explicado, nao mais ha' para dizer.

    E os desempregados sao uns gajos preguicosos que nao querem trabalhar. E os pretos so' gostam de sexo e nao querem trabalhar. Ta' bem.

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  25. As regras da discussão são as seguintes:

    Argumento
    // objecção
    -- Resposta à objecção

    Novo argumento
    // Objecção
    -- Resposta à objecção

    E não:

    Argumento
    // Objecção
    -- Vá dar uma volta

    Para cada argumento e objecção sua apresentei contra-argumentos e objecções e exemplos históricos e análises. Em nenhum dos meus argumentos, objecções, etc., falei de pretos nem de desempregados que não querem trabalhar.

    É difícil abandonar ideias feitas confortáveis, sobretudo quando têm um grão de verdade, pois basta uma pessoa agarrar-se a esse grão de verdade e pronto. Mas alguma probidade é suficiente para ver que o grão de verdade de uma ideia não torna a ideia completamente verdadeira, e pode até ser um obstáculo à desmontagem do que ela tem de falso.

    Ora, é evidente que as pessoas são influenciadas pelo marketing; mas isso não é suficiente como explicação porque não explica a atracção inicial que as pessoas têm pelo frívolo brilhante, e que sempre tiveram, mesmo quando não havia marketing. Ao passo que a ideia de que a chamada sociedade de consumo apenas reflecte as escolhas livres das pessoas e os seus modos de vida preferidos tem muitíssimo maior poder explicativo, apesar de aceitar evidentemente que também há causalidade ao contrário. Mas a primária, a fundamentalmente explicativa, é a causalidade que vai das escolhas das pessoas para a natureza da sociedade em que vivemos, e não a oposta. Sem escolhos ideológicos e sem ideias feitas que se agarram como lapa à rocha, isto devia ser evidente depois de alguma análise serena.

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  26. Eis outro aspecto interessante. As pessoas todas têm imenso interesse na cultura e na ciência. Mas os capitalistas malévolos manipulam-nas para venderem Coca-Cola e televisões de plasma porque é mais fácil de fazer dessas coisas do que livros de história e museus de ciência. Mas... como explicar então que os capitalistas não tenham esse mesmo interesse imenso pela cultura e pela ciência que todas as pessoas teriam se não fossem manipuladas?

    Tudo isto é ridículo. Se mais pessoas preferissem cultura a frivolidades, daria muito mais lucro vender cultura do que frivolidades. E para o comerciante tanto faz vender uma coisa ou outra -- além de que muitos comerciantes e editores têm realmente um interesse marcado em vender cultura, mas infelizmente não conseguem sobreviver muito bem só com isso.

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  27. Desiderio, eu apresentei aqui muito mais argumentos do que voce. Voce nao respondeu sequer a metade. Nao e' crime. Mas e' desinteressante. Voce apenas insiste nesse tom de pretensa superioridade no debate querendo ensinar as regras da argumentacao e da troca de ideias que voce proprio nao tem como habito cumprir demonstra que nao tem qualquer interesse na troca de ideia mas so' se interessa em falar para a plateia. Muito bem. E' uma opcao frivola a que tem pleno direito. Boa sorte no Cato.

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  28. ARGUMENTO DO MARKETING: se não fosse o marketing, as pessoas prefeririam ciência e artes às frivolidades.
    Contra-argumento 1: Quando não havia marketing as pessoas não preferiam tais coisas apesar disso. Resposta: mas nessa altura a maior parte das pessoas limitava-se a subsistir. Objecção: sim, mas mesmo quem era rico e tinha imenso tempo dedicava-se na sua maior parte às frivolidades e não às ciências ou artes.

    Contra-argumento 2: O marketing dos produtos que não são frívolos existe, mas não tem o apelo do outro. Resposta: mas isso é porque há mais dinheiro para fazer o marketing frívolo. Objecção: sim, mas isso é porque as pessoas compram mais frivolidades do que das outras coisas. Se comprassem mais das outras coisas, haveria cada vez mais coisas dessas e cada vez mais marketing a livros de ciência, por exemplo, e cada vez menos a automóveis.

    ARGUMENTO DA FACILIDADE: é mais fácil ser Michael Jackson do que Mozart e é por isso que os capitalistas impingem uma coisa mas não a outra.
    Contra-argumento 1: é muitíssimo difícil jogar alguns jogos ou fazer surf, mas as pessoas treinam e treinam e treinam sem fim até conseguirem. O que não querem é perder tempo com cultura ou ciência ou estudo. Resposta: mas o surf até é bom. Objecção: a discussão não é sobre juízos de valor, sobre o que é bom ou mau, mas sobre se as pessoas preferem frivolidades ou cultura. O argumento da facilidade era que só preferem frivolidades porque são mais fáceis. Mas isto não funciona porque há muitas frivolidades bem mais difíceis do que muitas coisas que não são frívolas, e há muitas mais pessoas a entregar-se com afã e entusiasmo às primeiras do que às segundas.

    ARGUMENTO DO MERCADO: as pessoas preferem frivolidades porque os capitalistas querem vender frivolidades e não das outras coisas.
    Contra-argumento: é ao contrário: há mais frivolidades do que das outras coisas porque as pessoas compram mais frivolidades do que das outras coisas. Objecção: isso é só porque as pessoas não têm oportunidades de escolher as outras coisas. Resposta: isso é mentira, pois as pessoas que entram numa livraria ou uma universidade têm todas as condições para preferir outras coisas, mas acontece que preferem as coisas mais frívolas — quanto mais frívolas, melhor.

    ARGUMENTO DA CAUSALIDADE: claro que o que se vende resulta das escolhas das pessoas, mas as escolhas das pessoas também resultam do que se promove.
    Contra-argumento: a direcção primária da causalidade é das preferências das pessoas para o que se consegue vender mais e não o contrário, pois a direcção contrária é ininteligível como causalidade primária: seria como dizer que só há ovos porque as pessoas querem fazer omeletas. O capitalista, para se tornar capitalista, tem de começar por vender o que as pessoas querem realmente comprar, porque antes de elas começarem a comprar o capitalista nem sequer é um capitalista e portanto nem tem poder para poder fazer marketing para manipular as pessoas. Objecção: Mas afinal sempre há causalidade que explica a frivolidade aparente das pessoas! Resposta: não; só existe essa direcção causal secundariamente, depois de existir a primeira. Sem a primeira, não existiria a segunda. Objecção: mas porquê? Resposta: ver acima; são as escolhas das pessoas que começam por dar a quem vende frivolidades maior poder económico do que quem vende cultura, e nada impediria essas escolhas de dar maior poder económico aos segundos e não aos primeiros.

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  29. Desiderio, voce distorceu o meu argumento inicial. Eu comecei por falar de consumismo, nao de "frivolidades". "Frivolidade" e' algo que nao sabemos bem o que e', nem eu concordo consigo na classificacao do que e' futil e do que nao e'. Praticar surf nao e', na minha opiniao, uma actividade futil justamente porque exige um esforco, uma disciplina e uma sofisticacao numa actividade desportiva. Isso nao e' futil, na minha opiniao. Alem de que acontece em comunhao com a natureza e e' uma actividade, em principio, totalmente desligada do consumismo puro. TAnto quanto a ciencia ou as artes. Claro que ha' a prancha e varios aderecos, na ciencia existem os computadores, os microscopios, os telescopios, etc

    O argumento do marketing nao e' meu. Eu nao disse que as pessoas preferem a roupa de marca 'a ciencia ou 'a arte EXCLUSIVAMENTE devido ao marketing. O modo como apresenta o argumento sugere implicitamente que a relacao causal e' unica e exclusiva. Eu nao disse isso.
    Simplesmente, o marketing aproveita necessidades primarias das pessoas (vestir, etc), reforca e redirige as pulsoes mais primitivas dos sete humanos (como a competicao, a comparacao, o desejo de status) para a adopcao de simbolos e sinais que sao mais facilmente comercializaveis. Estas pulsoes primitivas nao sao exclusivas dos "tolos", encontram-se exactamente da mesma forma nos cientistas e nos artistas. Simplesmente, como estes conseguiram elevar-se a actividades e modos de vida mais sofisticados e complexos, essas pulsoes primitivas de competicao e status expressam-se na degladiacao de teorias, obras, livros, e por ai' fora.

    Quanto ao resto, voce continua a afirmar que as pessoas preferem mais frivolidades (que,repito, continua a ser algo de indefinido e que eu nao formulei) do que artes e ciencias e que e' essa relacao causal que explica a estrutura capitalista. Afirma, mas nao demonstra. Mas que, em grandes numeros, as pessoas preferem telenovelas a matematica e' evidente. Basta saber contar, e eu nunca contestei isso. A questao e' de saber por que motivo as pessoas preferem produtos e actividades standartizadas e massificadas do que outras actividades. O marketing e' determinante, ate' porque essas actividades crescem e ganham novos adeptos com o marketing.

    A sua "teoria" basicamente nao explica nada. A titulo de exemplo, ate' ha' 10-15 anos o futebol era dirigido essencialmente a homens, poucas mulheres assistiam ao futebol. Com a queda do muro, a expansao dos media, a abertura ao Este Asiatico, etc, foi percebido que era util atrair novos espectadores que nao tinham a tradicao do futebol. A estrategia foi de marketing puro, criar nomes sonantes com clubes ingleses (era dificil promover nomes alemaes ou francesses na Asia), criar uma serie de merchandising, promover os jogadores mais glamourosos (tenho de me esforcar para nao me desatar a rir aqui, mas foi assim), promocao desses jogadores em revistas femininas e do coracao. Resultado: hoje, em todo o mundo, onde antes existia e onde nao existia a tradicao do futebol, a audiencia do futebol passou a ser mista. A natureza humana e' a mesma, os homens e as mulheres os mesmos sao, o jogo e as suas regras nao mudaram, nada mudou. Apenas mudou a publicidade e com isso mudaram as preferencias das pessoas.

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  30. O que voce nao da' a importancia devida e' ao argumento da dificuldade. E" dificil e nao e' natural uma pessoa elevar-se 'a alta cultura. E' necessaria a conjugacao de numerosos factores. E' algo de iminentemente social, que mistura o despertar individual da curiosidade para certo assunto ou actividade, com a efectiva e simultanea aquisicao de experiencia (o que pressupoe, pelo menos, um emissor benevolo) e aquisicao de auto-confianca. Acontece que na nossa sociedade a conjugacao destes factores ainda e' de pequena probabilidade. Logo, continuam a alta cultura (chamemos-lhe assim) continua a ser restrita a uma minoria. A

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  31. (as minhas desculpas pelos inumeros "typos")

    A dificuldade dos jogos de computador nao e' comparavel 'a dificuldade da matematica. Por exemplo.

    O jogo de computador exige muita pratica e desembaraco em actividades repetitivas. E' imediatamente compreensivel do ponto de vista conceptual e imediata o estabelecimento da relacao com a experiencia humana comum.

    A matematica exige uma enorme capacidade de abstraccao e imaginacao conceptual (que tem de ser treinada), uma relacao nao evidente com a experiencia previa, e exige por isso um contacto pessoal directo com alguem (uma ou mais pessoas) que transmitam tudo isso. A escola e' algo de maravilhoso, mas infelizmente raras sao aquelas onde isto e' efectivamente transmitido. O mesmo se aplica a outras ciencias e outras formas de arte sofisticadas. etc

    E' patetico sugerir que o marketing poderia transmitir esta experiencia e este saber matematico tal como promove marcas e gadgets. E' impossivel, nao funciona.

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  32. Bom, o que você agora está a dizer é que o que sempre disse: o marketing funciona porque as pessoas são tal que permitem que funcione. Ou seja, a direcção primária da causalidade explicativa é da natureza humana para os efeitos do marketing e não o contrário. A generalidade das pessoas prefere frivolidades, sempre preferiu e sempre preferirá, por mais que se faça marketing de ciência ou cultura, por mais que se faça universidades ou ensino de excelência, porque a generalidade da população não tem o género de aptidões que lhe permitiriam apreciar as artes, a cultura ou a ciência. Isto é o que eu sempre disse desde o início. O "consumismo" não é primariamente consequência causal do marketing; o marketing que permite o consumismo só funciona porque as pessoas preferem tolices como ver futebol a saber mais sobre a estrutura do cosmos. A sua ideia inicial era que era por causa do marketing que as pessoas são consumistas. O que eu sempre disse e ainda não foi refutado é que é porque as pessoas são frívolas que o marketing funciona. Com muitas pessoas o marketing não funciona. Porquê? Porque têm o género de aptidões que as faz não ter interesse por frivolidades, mas antes por outras coisas. Essas aptidões podem ser mais ou menos desenvolvidas, mas o fundamental não se pode mudar. Não se pode fazer um porco apreciar a vida de um Sócrates, nem um Sócrates a de um porco, por mais marketing que se use. Daí a ideia feita. A ideia feita é que a "culpa" é dos capitalistas. Não. Os capitalistas limitam-se a usar a frivolidade humana, que já existia, para vender tolices. Se não o fizessem, a tolice humana continuaria, mas as pessoas seriam menos felizes. O que é preciso compreender é que para um jovem frívolo o surf ou os jogos de computadores é o único género de actividades de que ele pode gostar; matemática ou filosofia é algo que só o aborrece. E qual é o problema? Por que raio de razão toda a gente haveria de ser um Saramago? Por que razão as pessoas não podem realizar-se comprando carros, casas, televisões de plasma, telemóveis caros, etc? Este moralismo hipócrita é insustentável.

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  33. Mais curioso ainda é que onde deveria encontrar-se outro género de interesses, não se encontra. Como você mesmo disse, para muitos académicos o interesse principal não é pelas ideias, mas pelo estatuto social que querem ter, pela impressão que querem provocar nos colegas. Ou seja: mais frivolidade. Retire-se o estatuto social associado à cultura e à ciência e a maior parte dos que hoje dizem interessar-se por essas coisas perdem subitamente o interesse. Isto é uma previsão que, a verificar-se, reforça a minha tese.

    Basta pensar que, geneticamente, os seres humanos são caçadores-recolectores. Por que raio de razão haveria a generalidade destes seres ter interesse em ciências e cultura e tudo isso? Isso é uma disfunção de apenas alguns.

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  34. Desiderio, voce pelo menos ja' admitiu que o marketing de facto molda os comportamentos das pessoas. Inicialmente, negava essa ideia.

    De seguida, da' uma interpretacao para esse facto,
    com a qual eu parcialmente concordo. Sim, e' a natureza humana que permite que o marketing funcione, sim sao as pulsoes e as emocoes mais primitivas que sao utilizadas pelo marketing.

    Nao concordo, ou melhor, nao encontro evidencia solida no sentido de que essa diferenciacao entre os que vao para a alta cultura, e os que nao vao, resulte de uma diferenca essencial na sua estrutura ou propriedades biologicas. Como se os "nao frivolos" fossem uma especie de super-homens, ou classe genetica e/ou biologicamente 'a parte dentro da mesma especie. Nao e' possivel fazer experiencias controladas para distinguir -- mesmo apenas de um ponto de vista meramente fenomenologico --- se uma mesma pessoa sujeita a pressoes externas e historia de vida distintas teria sempre o mesmo comportamento cultural. E mais longe ainda estamos de compreender os eventuais mecanismos biologicos (suponho) atraves dos quais a diferenciacao e' acontece. O que voce defende e' uma especie de biologismo mistico, como se existisse uma essencia ou uma propriedade magica que caracteriza aqueles que ascendem 'a vida superior do pensamento e os distingue do ser humano normal.

    Por fim, resta a questao primordial de saber se os comportamentos das pessoas requerem explicacao racional. Eu julgo que sim. Dizer que uns sao frivolos e outros nao e' de uma pobreza assustadora. Nao diz nada. E" como dizer que quem criou o mundo foi Deus ponto. E' puro misticismo, pura magia. E' uma palavra para mascarar (nem sequer serve para parametrizar) a nossa ignorancia. Lembre-se do Levi-Strauss de quem se falou tanto ha' poucas semanas. Existirao formas extremament diversas de sociedade no planeta, o seu criterio de "frivolidade" ser-lhes-ia inaplicavel ou inutil, ja' que nao havendo ciencia ou filosofia nessas sociedades tal como nos as entendemos, voces correria todos a "frivolo". Criterio inutil, portanto.

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  35. Ou seja, do seu ponto de vista é simplista pensar que a generalidade dos seres humanos prefere frivolidades, mas não é simplista pensar que só preferem frivolidades porque são manipulados pelas forças sociais.

    A mim parece-me pensamento mágico pensar que tais forças sociais poderiam ter surgido se a natureza humana não fosse essencialmente frívola.

    E parece-me biologicamente impossível que a espécie humana fosse tal que a generalidade das pessoas adorassem Mozart. A generalidade das pessoas não precisa de ter o género de aptidões que lhe permitem apreciar Mozart, porque só precisam de ter o género de aptidões que lhe permite sobreviver na savana, e para fazer isso basta depender dos poucos seres humanos que têm o género de aptidões que lhes permite resolver problemas novos complexos, e que por terem essas aptidões consideram essas coisas fascinantes, ao passo que os outros as consideram aborrecidas.

    É por causa de ideias erradas acerca da natureza humana que a generalidade das utopias são pesadelos totalitaristas. Porque se planeiam sociedades boas para intelectuais, mas que são opressoras para a generalidade das pessoas. A generalidade das pessoas não querem Mozart — querem Michael Jackson; não querem filosofia — querem astrologia. E não preferem umas coisas às outras por causa do marketing, mas porque é essa a sua constituição. E qual é o problema disso? Porquê essa sanha de querer obrigar as pessoas a prezar o que alguns intelectuais (dizem) que prezam?

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  36. "Ou seja, do seu ponto de vista é simplista pensar que a generalidade dos seres humanos prefere frivolidades, mas não é simplista pensar que só preferem frivolidades porque são manipulados pelas forças sociais."

    Esta sua tirada apenas demonstra que voce ignora deliberadamente o que eu escrevo, e distorce do modo que lhe da' jeito para repetir pela enesima vez as suas palavras de ordem. Fiquemos por aqui.

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  37. Mas ainda me estou ao rir com esta ideia de que os nossos antepassados caçadores-recolectores desenvolveram nas savanas as aptidoes para o uso dos televisores plasma, telemoveis, automoveis e novelas televisivas. Nao sei se isto e' o achado do ano em biologia ou em antropologia, ou ambos. Pronto, nao chateio mais.

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  38. O que os nossos antepassados desenvolveram foram aptidões que depois têm aplicação para a frivolidade, mas não para a ciência. Por exemplo, uma valorização extrema das hierarquias sociais e uma procura incessante pela satisfação imediata de necessidades primárias. Num regime de grande escassez de calorias, faz sentido ter pendor para ingerir o máximo de calorias possível, pois não se sabe quando vamos voltar a comer; mas quando as calorias passam a estar facilmente acessíveis no dia-a-dia, isso dá obesidade.

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