21 de dezembro de 2009

Colher os louros e recusar a culpa



Julian Baggini chama-nos a atenção no texto "Trouxe-vos Paz e Prosperidade!" para o tique dos políticos que consiste em colher os louros que não merecem e rejeitar a culpa que merecem. Tudo porque há uma confusão com o raciocínio causal. Tradução de Vítor Guerreiro.

7 comentários:

  1. Desidério,

    Não será ingénuo atribuir aos políticos a frase "porque há uma confusão com o raciocínio causal"? Eu tenho quase a certeza que eles sabem que estão a cometer esse erro mas persistem nele porque, talvez sim, há uma confusão com o raciocínio causal, ou ignorância, dos espectadores, leitores ou ouvintes.

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  2. Parece-me que o exemplo do Tony Blair é perfeito para explicar esta falácia. Já o exemplo da União Europeia não me parece particularmente... exemplificativo (peço desculpa pela redundancia).

    Concordo quando o autor diz "Mas a afirmação de que a UE foi efectivamente a causa desta paz e prosperidade exige mais indícios do que a declaração destes dois factos". A paz e prosperidade na Europa é um fenómeno extremamente complexo, certamente função de inúmeras variáveis e acontecimentos. No entanto, não me parece que a afirmação de que há alguma correlação entre a UE e a paz e prosperidade seja abusiva. O contra-exemplo com a Noruega não é eficaz, por um lado porque ninguém afirma que só os paises da UE têm paz e prosperidade, por outro lado porque ninguém diz que a UE apenas trouxe paz e prosperidade aos países que a ela aderiram. O facto de um conjunto de paises tão relevante para a geopolítica global viver em paz e prosperidade durante tanto tempo terá certamente um impactto positivo em muitos outros países que com eles se relacionam de alguma forma. Finalmente, podemos até apresentar um qualquer país do mundo que teve ainda mais paz e prosperdiade do que a europa nos últimos 30 anos, mas isso não demonstra que a UE não foi um factor decisivo, na melhor das hipóteses pode provar que haveria outros caminhos para chegar a esse objectivo.

    Concluíndo, se bem que o tema do artigo é interessante e que podemos tropeçar em falácias destas quando escutamos os políticos e não só a falar, julgo que o efeito dramático que se pretendia demonstrar com um exemplo tão pujante como o apresentado se perde, correndo o risco de retirar força ao artigo.

    Estou a imaginar que se eu pretendesse apresentar esta falácia a um conjunto de amigos menos virado para o raciocínio crítico, rapidamente me "arrumavam" com a pergunta retórica "não me digas que acreditas que a UE não teve qualquer efeito na paz e prosperidade que se viveu na Europa nos últimos 30 anos?!".

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  3. A questão não é a de a UE "ter tido algo a ver" com a paz na Europa (pelo menos parte dela) nas últimas décadas. Imaginemos que vou estudar oboé e concluo o curso no conservatório. A loja onde comprei o oboé "tem algo a ver" com a minha conclusão do curso, mas não há uma relação de causa-efeito entre ter comprado o oboé naquela loja e ter concluído o curso.

    O ónus da prova, no exemplo, recai sobre quem quer colher os louros, ou seja, entre quem sugere uma relação de causa-efeito (tenha ou não a coragem de a afirmar explicitamente) entre um acontecimento e outro. É que "ter a ver" e ser causa de são coisas diferentes.

    O que está em causa na afirmação do presidente da comissão europeia não é o afirmar que nenhum outro conjunto de países fora da UE conseguiu paz e prosperidade mas que ESTE conjunto de países teve paz e prosperidade POR CAUSA da UE. É que o "ter a ver" é compatível com a ideia de que mesmo com outra configuração de coisas, outra sequênciade acontecimentos, teríamos paz e prosperidade na mesma.

    Este tipo de raciocínios é normalmente usado para justificar o injustificável - a UE "tem a ver" com a paz dos últimos anos, logo, os cidadãos da UE estão moralmente obrigados a aceitar seja o que for de mais questionável que lhes decidamos impor. É reminiscente daqueles refrões "Ah, mas o Salazar livrou-nos da guerra!" ou das justificações da violência estatal na ex-URSS com base na ideia de que os bilhetes para o teatro eram baratos.

    A questão é saber se é legítimo inferir uma relação de causa-efeito directa entre as duas coisas, uma incompatibilidade entre um dado resultado e quaisquer outras sequências de acontecimentos alternativas. E o ónus da prova recai sobre quem invoca a relação e causa efeito, não sobre o céptico.

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  4. Vitor, não creio que em geopolítica haja relações de causa-efeito, no sentido estrito do termo que propões. Os acontecimentos são tão complexos e dependem de tanta coisa que não conseguiremos nunca dizer que "isto causou aquilo", mas apenas que "isto contribuiu fortemente para aquilo".
    Se vamos por aqui deitamos por terra todas as alegações de causa-efeito em política, e não apenas as que foram exemplificadas.

    De qualquer forma, parece-me que o que o artigo pretende é demonstrar que há apropriações claramente abusivas de fenómenos positivos, aproveitando-se uma qualquer relação de sequência ou sobreposição cronológica para inferir uma causa de um determinado efeito, e recolher os louros que daí resultam.
    É neste contexto que não me parece que o exemplo da UE seja um bom exemplo, pois estou convencido que de facto o advento da UE poderá ter tido uma contribuição relativamente forte (e não só "teve a ver com") com a paz e prosperidade na europa nas últimas decadas. Claro que o artigo não é feito à medida para mim, mas acredito que haverá muita gente a crer nessa relação de causa-efeito, e isso é que retira alguma da força ao texto.

    Podemos agora interpretar o artigo como advogando que o ónus da prova está com quem defende a relação de causa-efeito, mas isso é mudar de assunto, pois o que me parece ser o objectivo do texto é demonstrar que é comum os políticos apropriarem-se de sucessos que não foram seus, e não que é comum os políticos apropriarem-se de sucessos sem provar adequadamente que foram seus.

    Finalmente, a questão de utilizarem o argumento da causa-efeito para justificarem o injustificável é outro assunto. Não é a crença de base (A) em que a UE foi a causa (simplisticamente, claro) da paz e prosperidade que deve ser contestada, mas sim a utilização dessa crença para justificar o (B) injustificável. Claro que se de A se inferisse B (o que não é o caso, já agora) teriamos motivos acrescidos para justificar essa crença, mas não é por causa de B decorrer de A que A é verdadeira ou não.

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  5. Jaime,

    Por que razão a jogada de colher os louros ou sugerir ligações causais tem sequer valor retórico? Por que fazê-la de todo? Consideremos este exemplo:

    Seria mentira afirmar que a ex-URSS não contribuiu de modo algum para o esforço de guerra para vencer a Alemanha nazi. Teria sido possível vencer a guerra sem a resistência soviética? É argumentável, ou discutível... não interessa agora saber. Agora, por que razão um membro do politburo entre 1945 e 1990 se daria ao trabalho de sugerir uma relação de causa-efeito simplista entre a contribuição soviética e a derrota nazi? - para justificar coisas que nada têm a ver com o esforço de guerra em si. Os russos também venceram as tropas napoleónicas 140 anos antes e não foi graças ao bolchevismo nem graças ao czarismo que isso sucedeu. Ou seja, é perfeitamente possível um regime dar um contributo para algo sem que a natureza do próprio regime tenha qualquer relevância para o resultado.

    Dito isto, mesmo aceitando a tua objecção, o comentário do Baggini mantém-se válido. Imagine-se que digo "Contribuí para a tua paz nos últimos 40 anos" e que isto é de facto verdade? E daí? A única razão para o invocar é num argumento onde queremos obter assentimento numa proposição a partir do reconhecimento deste facto extrínseco. Creio que o nome para isso será "argumentum ad baculum" - um tipo de falácia. E a ideia do artigo era precisamente mostrar que embora os políticos não sejam especiais nisto - apenas o fazem mais frequentemente porque têm empregos que os obrigam a mentir - recorrem frequentemente à confusão entre conjunções causais e conjunção não causais para vender falaciosamente crenças que não têm realmente justificação à luz da razão.

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  6. Peço desculpa de intrometer-me nesta discussão filosófica, que considero bastante interessante, mas queria simplesmente chamar novamente a atenção para o exemplo utilizado pelo autor do livro citado, para justificar as suas conjecturas sobre a prosperidade da UE.

    O grande desenvolvimento da Noruega deve-se em grande parte á existência de petróleo no seu «off-shore», cujos rendimentos permitiram aos cidadãos desse país o elevado nível de vida de que gozam e que lhes proporcionou, na altura própria, poderem rejeitar a adesão à União. Também por essa razão puderam resistir incólumes aos problemas da crise económica actual, o que não aconteceu com outros países europeus fora da UE (veja-se o caso da Islândia).

    Queria ainda referir que concordo com a frase inicial atribuída a Durão Barroso e não vejo que nessa constatação de factos se possa inferir uma apropriação indevida pelos políticos, das conquistas que a UE conseguiu.

    Não tendo lido o livro em análise, mas porque o tema global me parece interessante, espero que o autor tenha sido mais feliz na escolha dos seus restantes argumentos para justificar o facto indesmentível da tendência dos políticos, e não só, de utilizarem falácias na tentativa de valorizarem a sua actuação.

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  7. O novo link do artigo é este: http://criticanarede.com/louros.html

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