A um dos problemas da metafísica chama-se «antinomia da constituição». Este problema consiste no seguinte: uma estatueta de Napoleão Bonaparte é feita a partir de uma porção de bronze fundido. Aparentemente, a estatueta e o bronze de que é feita são apenas um objecto: a matéria que constitui um constitui a outra. Mas pensando um pouco, constatamos que têm propriedades diferentes: não começaram a existir ao mesmo tempo, a estatueta não sobrevive a certo tipo de mudanças qualitativas no bronze (refundição, por exemplo) ao passo que o pedaço de bronze sobrevive. Imaginemos adicionalmente que a estatueta de Napoleão é fundida e o bronze vertido num molde de uma estatueta do Duque de Wellington. Dado que a relação de identidade é transitiva (se A é B e se B é C então A é C), parece que se o pedaço de bronze é idêntico à estatueta de Napoleão e se o mesmo pedaço de bronze é idêntico à estatueta de Wellington, então a estatueta de Napoleão e a estatueta de Wellington são o mesmo objecto: pelo menos parece não haver dúvida de que são numericamente idênticos, ainda que não sejam qualitativamente idênticos. (Este problema coloca-se também para a identidade de pessoas ao longo do tempo). A ideia de que dois objectos podem partilhar a mesma localização espacial viola um dos nossos pressupostos fundamentais acerca de objectos particulares. Como resolver a antinomia? Será que dois objectos podem coabitar na mesma região do espaço? Será que não há «pedaço de bronze» nem «estatueta» mas «apenas matéria»? Será que nenhum dos objectos existe? Será que a estatueta não é, estritamente falando, um objecto mas apenas uma propriedade do bronze?
Imaginemos agora a seguinte experiência mental:
Numa exposição de mobiliário, alguém observa uma cadeira que em todos os aspectos se assemelha exactamente a um cepo de madeira. Não fora encontrar-se numa exposição, qualquer pessoa a confundiria com um cepo, embora continuasse a ser possível sentar-se nela. A pessoa chama a atenção de outra: «olha esta cadeira».
Outra pessoa, algures numa floresta, encontra um cepo, que não foi desenhado por qualquer artista e que em todos os aspectos é exactamente semelhante à cadeira da exposição anterior. O nosso campista usa o cepo para se sentar e descansar as pernas. O homem exclama, «este cepo é uma bela cadeira!»
Intuitivamente, parece que a antinomia da constiuição se aplica no primeiro caso mas não no segundo. Não parece que haja realmente dois «objectos» só por se chamar «cadeira» ao cepo. Será isto uma objecção à ideia de que a antinomia da constituição é um problema real? O que pensa o leitor?
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