5 de dezembro de 2009

Constituição

A um dos problemas da metafísica chama-se «antinomia da constituição». Este problema consiste no seguinte: uma estatueta de Napoleão Bonaparte é feita a partir de uma porção de bronze fundido. Aparentemente, a estatueta e o bronze de que é feita são apenas um objecto: a matéria que constitui um constitui a outra. Mas pensando um pouco, constatamos que têm propriedades diferentes: não começaram a existir ao mesmo tempo, a estatueta não sobrevive a certo tipo de mudanças qualitativas no bronze (refundição, por exemplo) ao passo que o pedaço de bronze sobrevive. Imaginemos adicionalmente que a estatueta de Napoleão é fundida e o bronze vertido num molde de uma estatueta do Duque de Wellington. Dado que a relação de identidade é transitiva (se A é B e se B é C então A é C), parece que se o pedaço de bronze é idêntico à estatueta de Napoleão e se o mesmo pedaço de bronze é idêntico à estatueta de Wellington, então a estatueta de Napoleão e a estatueta de Wellington são o mesmo objecto: pelo menos parece não haver dúvida de que são numericamente idênticos, ainda que não sejam qualitativamente idênticos. (Este problema coloca-se também para a identidade de pessoas ao longo do tempo). A ideia de que dois objectos podem partilhar a mesma localização espacial viola um dos nossos pressupostos fundamentais acerca de objectos particulares. Como resolver a antinomia? Será que dois objectos podem coabitar na mesma região do espaço? Será que não há «pedaço de bronze» nem «estatueta» mas «apenas matéria»? Será que nenhum dos objectos existe? Será que a estatueta não é, estritamente falando, um objecto mas apenas uma propriedade do bronze?

Imaginemos agora a seguinte experiência mental:

Numa exposição de mobiliário, alguém observa uma cadeira que em  todos os aspectos se assemelha exactamente a um cepo de madeira. Não fora encontrar-se numa exposição, qualquer pessoa a confundiria com um cepo, embora continuasse a ser possível sentar-se nela. A pessoa chama a atenção de outra: «olha esta cadeira».

Outra pessoa, algures numa floresta, encontra um cepo, que não foi desenhado por qualquer artista e que em todos os aspectos é exactamente semelhante à cadeira da exposição anterior. O nosso campista usa o cepo para se sentar e descansar as pernas. O homem exclama, «este cepo é uma bela cadeira!»

Intuitivamente, parece que a antinomia da constiuição se aplica no primeiro caso mas não no segundo. Não parece que haja realmente dois «objectos» só por se chamar «cadeira» ao cepo. Será isto uma objecção à ideia de que a antinomia da constituição é um problema real? O que pensa o leitor?

2 comentários:

  1. Provavelmente a minha pergunta irá paecer ingênua, mas a observação de que "A ideia de que dois objectos podem partilhar a mesma localização espacial viola um dos nossos pressupostos fundamentais acerca de objectos particulares."
    não desconsidera o tempo?
    Sou inclinada a pensar que " não há «pedaço de bronze» nem «estatueta» mas «apenas matéria»"

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  2. Olá,

    Há um sentido trivial em que a observação não descura o tempo (a antinomia resulta do facto aparente de dois objectos ocuparem ao mesmo tempo a mesma região do espaço), e há outro sentido mais específico em que o descura (é o que vai afirmar a teoria de que a estatueta não é um objecto e sim uma parte temporal do pedaço de barro).

    A observação não desconsidera o tempo porque no momento em que a estatueta de Napoleão existe o pedaço de bronze também existe (ou assim parece). A ideia é que temos dois objectos que partilham as mesmas partes espaciais: o pedaço de bronze e a estatueta. À partida trata-se de dois objectos porque têm propriedades diferentes: o pedaço de bronze sobrevive a mudanças qualitativas que destroem a estatueta, etc. Outra forma de imaginar o problema é assim: fundimos a estatueta e ficamos com um pedaço de bronze. A estatueta deixou de existir. Contudo, se não havia dois objectos feitos das mesmas partes espaciais, como é que um objecto deixou de existir e no entanto temos ainda um objecto, o pedaço de bronze, que é espaciotemporalmente contínuo com a estatueta?

    Há uma tentativa de responder a este problema - a chamada "teoria da substituição" - que afirma que ao verter o bronze no molde, o pedaço de bronze deixa de existir para dar lugar à estatueta, e quando a estatueta é fundida novamente, deixa de existir para dar lugar a outro pedaço de bronze, distinto do primeiro. Esta teoria é suspeita porque identifica suspeitosamente as categorias de objectos que existem com as palavras que estamos habituados a usar para referir objectos reais - por exemplo, "estatueta". Parece estranho dizer que não existem estatuetas (ou que não são objectos) porque os nossos hábitos linguísticos nos levam a pensar que existem.

    Há outra tentativa de reposta ao problema que consiste em dizer que a estátua é uma parte temporal do pedaço de bronze. Assim, aquilo que parecia um discurso sobre objectos diferentes é na verdade discurso sobre partes temporais de uma mesma substância. Esta teoria está comprometida com o perdurantismo, ou seja, com a ideia de que os objectos não "existem inteiramente" em cada momento, sendo antes a soma das suas partes temporais. O pedaço de bronze no momento t1 não é o pedaço de bronze "todo", tal como as minhas mãos e pernas não são a totalidade de mim.

    Mas vamos deixar esta teoria para um post posterior.

    A teoria de que "só há matéria" enfrenta uma objecção espinhosa: se tanto o pedaço de bronze como a estatueta são idênticos à "matéria" que precede ambos, parece que a estatueta já existia antes de ser vertida no molde e continua a existir depois de a fundirmos novamente para fazer outra estatueta. Intuitivamente, a estatueta é criada quando vertemos o bronze no molde. O pedaço de bronze é criado quando preparamos a liga de cobre e estanho. Mas a matéria não pode ser criada meramente modificando a sua forma ou disposição. Não destruímos o bronze quando fundimos a estatueta. Mas se "só há matéria" então... parece que não destruímos coisa alguma ao fundir a estatueta. Seja o que for que existia, continua a existir e já existia antes de ser vertido em moldes. Mas se a estatueta foi destruída, o que era?

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