30 de dezembro de 2009

Escola e ensino


A Sara Raposo discute aqui brevemente a falta de curiosidade intelectual dos seus alunos. É um tema recorrente e importante. Vale a pena fazer alguns esclarecimentos.

Primeiro, isto sempre foi assim, em toda a história da humanidade. As pessoas inteligentes e com interesses intelectuais sempre foram uma pequeníssima minoria. A ilusão de que isso não ocorria no passado resulta de as pessoas se esquecerem dos colegas que tinham no tempo em que eram alunos do secundário. Ou então resulta de serem filhos de famílias privilegiadas, e por isso estudaram em colégios e escolas de elite, rodeados de alunos de famílias que estimulavam os estudo nos seus filhos. Como eu não era filho de famílias privilegiadas e não andava em escolas de elite, em toda a minha vida escolar conheci uns três ou quatro colegas que tinham interesses intelectuais como eu. Os outros, mesmo quando estudavam, faziam-no pragmaticamente, só para ter notas boas (ou por pressão familiar, ou para entrar na universidade).

Segundo, a Sara tem razão ao dizer, com o desencorajamento que se lhe adivinha nas entrelinhas, que perante o desinteresse activo dos alunos nenhuma competência científica e nenhuma sensibilidade didáctica, por parte do professor, transforma monos em jovens intelectualmente activos, curiosos e inteligentes. Mas não tem toda a razão. A Sara é o que é — uma professora superlativa, como eu gostaria de ter tido quando era aluno — mas a maior parte dos professores têm o mesmíssimo desinteresse pelos livros e pela cultura que a Sara detecta nos alunos. E portanto os alunos olham para professores como a Sara como pessoas dedicadas mas algo bizarras. Nenhuns outros professores falam de livros nas aulas ou levam livros para as aulas, além dos manuais. Nenhuns outros professores manifestam curiosidade intelectual, gosto pela filosofia, pela matemática, pela astronomia, pela história. Ora, quando se defende que o desinteresse dos alunos seria combatido com maior competência científica e mais sensibilidade didáctica, o que se quer dizer é que se todos os professores fossem como a Sara, a Sara teria menos alunos que se estão completamente nas tintas.

As escolas constituem a pior coisa que aconteceu ao ensino. Porque o burocratizou e chamou para a profissão pessoas que não têm quaisquer interesses intelectuais e que consequentemente são professores incompetentes, agravando o desinteresse prévio dos alunos pela vida intelectual. Infelizmente, ninguém conhece qualquer alternativa credível às escolas.

8 comentários:

  1. Caro Desidério, por muito respeito que me mereça, não posso concordar com as suas palavras. Quando diz que «...a maior parte dos professores têm o mesmíssimo desinteresse pelos livros e pela cultura que a Sara detecta nos alunos» denota uma arrogância descabida. Não concordo consigo. Se existe uma classe profissional com interesse pelos livros é a dos professores. Há dados estatísticos que demonstram isso. Posso ainda reforçar esta ideia com a experiência de ensino que possuo e que me levou a ter uma percepção transversal: a maior parte dos professores interessa-se pela leitura. Se o Desidério não concordar com esta ideia, digo-lhe que ela vale tanto como a sua. Outra falácia aparece quando diz: «Nenhuns outros professores falam de livros nas aulas ou levam livros para as aulas, além dos manuais...». Caro Desidério, como é possível dizer isto? a ideia que possui da escola é anacrónica. Actualmente existe um grande número (este quantificador vale tanto como o seu) de professores que lê, que se actualiza e que possuem uma cultura invulgar. Mesmo em localidades do interior, são os professores que tomam a dianteira na dinamização cultural. Não é por acaso que a vereação da cultura surja como uma ocupação do professorado. felizmente que, actualmente, a escola é uma boa alternativa. caro Desidério, reduzir as alternativas, omitir outros factores poderosíssimos que influenciam os jovens e focalizar a crítica não é intelectualmente correcto. Mas, já nos vamos habituando quando se fala de professores.

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  2. Indique-me lá esses dados estatísticos. A minha experiência como formador de professores do ensino secundário durante vários anos era sempre a mesma: os professores não conhecem, na sua maioria, o que se publica na sua área, não têm sequer livros em casa e nunca falam de livros aos alunos. Há excepções, sem dúvida. Mas são apenas excepções. Infelizmente.

    Gostaria que me indicasse esses dados estatísticos de que fala. Repare que quem é formador tem um leque mais alargado de experiência do que quem está apenas numa escola, ou em algumas escolas apenas. E note ainda que os professores que na altura faziam formação eram apesar de tudo dos mais interessados, pois nunca dei formações de fantasia, como é o caso da maior parte, pelo que suponho que à partida um bom número de professores que faziam as minhas formações eram dos mais interessados. Mas mesmo esses eram de uma ignorância bibliográfica atroz.

    Falou erradamente em falácia, dado que uma mera afirmação não envolve raciocínio e se não envolve raciocínio não pode envolver falácia porque uma falácia é um erro de raciocínio.

    Há professores muito bons? Há, como a Sara, que tem feito um trabalho de qualidade impressionante. Infelizmente, a Sara é uma excepção. A generalidade dos professores de filosofia do ensino secundário nada lê excepto os manuais, e mesmo esses mal. Esta é a impressão que não apenas eu tenho, mas têm também os meus muitos colegas e amigos que são professores do ensino secundário.

    Mas talvez o aquiete um pouco se eu lhe disser que nas universidades o panorama não é muito mais feliz.

    E isto nada tem a ver com arrogância, porque não considero que uma pessoa que tem interesses culturais é superior a outra que não os tem.

    Devo acrescentar também que não considero que ter interesses na cultura-espectáculo, a cultura do foguete, que sempre acompanha o poder político, de autarquias ao governo central, seja sinónimo de ter interesses culturais. Na verdade, na maior parte das vezes, é até incompatível com ter interesses culturais.

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  3. Caro Desidério, compreendo o seu ponto de vista se tivermos determinados referentes. Contudo, ao mudarmos os referentes somos capazes de vislumbrar assuntos que outros têm que nós não temos. Também lhe posso dizer que falo com alguma autoridade. Sem ter a experiência do Desidério, também realizei, frequentei e avaliei acções de formação. Assim sendo, devo dizer-lhe que assisti a óptimas acções, devidamente enquadradas no que se refere aos públicos e graus de ensino. No que se refere a acções de formação da área científica, frequentei algumas,constatando haver formandos que possuíam um considerável leque de leituras. O facto de se leccionar uma área não significa que as pessoas não conheçam outras temáticas. Quanto a acções de formação realizadas por mim, devo dizer-lhe que aprendi muito. A diferença está na postura com que se lecciona. Por vezes o exercício de poder torna as pessoas acríticas e pouco espontâneas. A horizontalidade é fundamental, pertinente e difícil. Acima de tudo, devemos partir do princípio que os outros sabem coisas que não sabemos.
    Por fim, uma referência às suas objecções. Se o que disse não pode ser considerado falacioso por que não foi a concretização de um raciocínio, então foi uma constatação que fez. Ora,qualquer constatação exige um raciocínio, sob pena de cairmos numa redução absoluta. Da mesma forma poderei dizer que os políticos são corruptos. Isso é perigoso e injusto. Quanto à cultura do foguetório, creio que não me expressei bem. O que queria dizer era a presença de reconhecimento que em certos lugares se verifica face ao dinamismo cultural do professor. Conheço inúmeros casos de professores que desenvolveram projectos muito válidos ao nível da acção cultural em muitas autarquias, sem me referir ao foguete. Uma última nota: seria interessante as editoras mostrarem as classes profissionais que mais compram livros, inclusive os seus.

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  4. Olá,

    Desidério, agradeço as tuas palavras elogiosas. Talvez sejam um pouco exageradas. Algumas das melhorias no meu desempenho como professora e no trabalho do Dúvida Metódica devem-se ao teu papel na tradução e divulgação de livros de Filosofia fundamentais.

    Quanto ao primeiro aspecto a que te referes, a ideia de que eu, ingenuamente, estaria a pressupor um passado mais perfeito à luz do qual avaliava a minha experiência presente, não me parece que corresponda àquilo que escrevi.

    O facto da maior parte dos indivíduos de épocas históricas diferentes terem encarado o conhecimento de forma instrumental e não terem curiosidade por aprender, não é nada de novo. Não existiu uma época de ouro da humanidade. Julgo até que devemos desconfiar da pureza com que o passado, às vezes, é reescrito pela memória.

    O que eu pretendi salientar é o facto de alunos, cuja pretensão é irem para a universidade, manifestarem como natural e legítima a sua aversão à leitura (como é aberrante pensarem assim e pretenderem prosseguir os estudos). A novidade não é que a boçalidade exista, mas o facto desta ser assumida publicamente (como se fizesse sentido) pela maioria. Antes eu não via acontecer isto nas aulas, agora vejo.

    Penso que para o desinteresse dos alunos pelo trabalho intelectual poderá contribuir o mesmo tipo de atitude que encontramos nalguns professores, tal como dizes. Todavia, ainda que este seja um factor importante, julgo que é simplista ver aí a principal razão dos males que enfermam o ensino. Há outros factores exteriores à escola que são da responsabilidade dos próprios alunos, dos encarregados de educação, do ambiente social (que não promove nem reconhece o mérito; da ausência de perspectivas de emprego…), entre outros. Assim, por mais extraordinário que seja desempenho do professor, poderá não conseguir que os seus alunos aprendam ou se interessem por aprender.

    O facto de existirem tantos professores pouco empenhados e incompetentes, e que eles próprios não lêem livros nem valorizam o conhecimento, acaba também por ser um reflexo desses factores exteriores, pois a escola não é uma coisa isolada e à parte da sociedade. Esses professores são um produto deste sistema. A escola e a sociedade influenciam-se mutuamente, mas é ingenuidade pensar que a influência da escola possa ser maior.

    Parece-me que a realidade é pior do que tu pressupões: imaginemos que alguns dos professores de Filosofia (e de outras disciplinas dos anos anteriores ao secundário) que não se actualizam cientificamente e não investem nas aulas passavam a fazê-lo (e tinham condições de trabalho para o fazer).
    Significaria isso que passávamos a ter as salas de aula repletas de alunos interessados em aprender e com curiosidade intelectual?

    Não creio. Haveria melhorias, haveria mais alunos interessados, mas creio que a maioria continuaria desinteressada, pois o problema de fundo manter-se-ia. Com efeito, aquilo que se passa nas escolas é o reflexo de muitos outros problemas que se encontram na sociedade: a valorização dos bens materiais em detrimento dos intelectuais; a valorização do prazer imediato em vez do esforço; a ausência de perspectivas em relação ao futuro; o facilitismo; a cultura da cunha, etc. E, por mais excelentes que sejam os professores, não podem fazer-lhe frente.

    Isto é realismo e não pessimismo!

    Cumprimentos.

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  5. Sara, desculpe imiscuir-me nas suas ideias, mas não percebo por que diz que há «imensos professores incompetentes». Porquê «imensos»? A sua visão realista resume-se a que realidade, à sua? A minha não será. À sua escola? Então, lamento. Tornou-se um lugar comum dizer estas coisas. Espero que, como reacção ao relativismo, não possamos cair num pretenso absolutismo. Não será mais realista dizer que a grande maioria dos professores é competente? Esta minha ideia vale tanto como dizer que há uma imensidão de professores incompetentes. Não vou por aí.

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  6. Olá, Sara
    Compreendo melhor agora o que dizes: “A novidade não é que a boçalidade exista, mas o facto de esta ser assumida publicamente (como se fizesse sentido) pela maioria. Antes eu não via acontecer isto nas aulas, agora vejo.” Mas eu diria que isto é bom, Sara, e não mau. Só te parece que é mau porque pensas que se a sociedade não fosse o que é, terias muitos alunos seriamente empenhados. Mas não terias. Terias apenas alunos instrumentalmente interessados — ou porque teriam vergonha de ser ignorantes ou porque queriam um emprego ou por qualquer outra coisa, mas não por verem o valor intrínseco da filosofia, da história, da matemática, etc. O que se passa hoje em dia, e que tu pensas que é negativo, é que dado haver muito mais liberdade de escolha de estilos de vida, e mais recursos económicos, e mais tempo livre, as pessoas escolhem o que realmente gostam. E o que realmente gostam, na maior parte dos casos, são tolices a que nem tu nem eu achamos graça. O que não gostam, o que não valorizam, é o conhecimento, a leitura, nem mesmo a leitura de entretenimento — porque há outros entretenimentos que preferem à leitura, como os jogos, o convívio, a praia, o cinema, as compras, a música comercial. O que me parece que estás a ver mal é que pressupões que se a sociedade não fosse o que é os alunos não seriam o que são — estás a ver a causalidade ao contrário. É porque os alunos são como são, é porque as pessoas são como são, que a sociedade é como é. Esta é a direcção primária da causalidade.

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  7. Daniel, onde estão esses dados estatísticos de que falava? Agora já diz que eles não existem, mas deviam existir. Você está a ver as minhas afirmações, e as da Sara, como um ataque à classe dos professores. E reage corporativamente. Ora, isso não tem qualquer interesse, porque eu não tenho também qualquer interesse em atacar a classe dos professores. Apenas exprimo a opinião que formei e continuo a ter depois de anos de contacto com professores. Você diz que tem uma experiência diferente. Óptimo. Espero que seja você a ter razão e que seja eu que tenha tido azar ao longo de tantos anos de contacto com professores.

    Uma última nota, relativamente à cultura do foguete. Dinamismo cultural no ensino tem de se traduzir em publicações. Se não se traduz em publicações de qualidade, não passa de vapor. Com tanta carência de materiais de ensino e divulgação de qualidade — carência que é evidente dada a necessidade de andar o tempo todo a traduzir o que os outros noutros países publicam — seria de esperar, caso o Daniel tivesse razão, uma profusão de materiais didácticos e de divulgação de altíssima qualidade sobre o Egipto antigo, os Maias, lógica e química. Onde estão esses livros e artigos?

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  8. Professor Desidério, com grande interesse li seus comentários . E é com muito pesar que devo admitir que o quadro pelo senhor apresentado é realidade em grande parte das instituições, onde há alunos sem sede de saber e, o que é mais grave, professores desinteressados. Como coordenadora pedagógica, constato muitas vezes, assim como a professora Sara, o desânimo dos alunos (especialmente quanto a algumas disciplinas, entre as quais filosofia),mas os professores também vivem queixosos da profissão. Muitos chegaram à sala de aula porque a licenciatura foi o curso mais fácil de ingressar ou por outro motivo qualquer; poucos desejavam realmente ensinar. Há também as outra inúmeras dificuldades da profissão, que podem desmotivar até os educadores mais apaixonados. Essa realidade é ainda pior quando se trata das séries iniciais do Ensino.
    A meu ver, um dos grandes males que a Educação enfrenta hoje é o desleixo de certos profissionais quanto a sua formação. Eles não se atualizam, não saem de suas respectivas áreas de atuação para expandir seus horizontes. Creio que isso tudo é fruto de um sistema universitário falho, mas não cabe aqui essa discussão...
    Exemplificando o diagnóstico da minha realidade profissional, na escola onde trabalho recebemos livros (de filosofia sobre virtudes)de presente no dia dos professores,e somente um professor demonstrou gosto pelo mesmo, o professor de Química. Acredito que o interesse dele por leitura se deva ao ambiente familiar, ao fato de ter estudado em bons colégios e, principalmente, o desejo de saber.
    Também presencio boas experiências, como na área de literatura,da professora A. Carolina (sua aluna) que desperta grande interesse pelos livros em seus alunos. O mérito da questão é graças ao fato da mesma ser uma contínua estudiosa e leitora assídua.

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