A Sara Raposo discute aqui brevemente a falta de curiosidade intelectual dos seus alunos. É um tema recorrente e importante. Vale a pena fazer alguns esclarecimentos.
Primeiro, isto sempre foi assim, em toda a história da humanidade. As pessoas inteligentes e com interesses intelectuais sempre foram uma pequeníssima minoria. A ilusão de que isso não ocorria no passado resulta de as pessoas se esquecerem dos colegas que tinham no tempo em que eram alunos do secundário. Ou então resulta de serem filhos de famílias privilegiadas, e por isso estudaram em colégios e escolas de elite, rodeados de alunos de famílias que estimulavam os estudo nos seus filhos. Como eu não era filho de famílias privilegiadas e não andava em escolas de elite, em toda a minha vida escolar conheci uns três ou quatro colegas que tinham interesses intelectuais como eu. Os outros, mesmo quando estudavam, faziam-no pragmaticamente, só para ter notas boas (ou por pressão familiar, ou para entrar na universidade).
Segundo, a Sara tem razão ao dizer, com o desencorajamento que se lhe adivinha nas entrelinhas, que perante o desinteresse activo dos alunos nenhuma competência científica e nenhuma sensibilidade didáctica, por parte do professor, transforma monos em jovens intelectualmente activos, curiosos e inteligentes. Mas não tem toda a razão. A Sara é o que é — uma professora superlativa, como eu gostaria de ter tido quando era aluno — mas a maior parte dos professores têm o mesmíssimo desinteresse pelos livros e pela cultura que a Sara detecta nos alunos. E portanto os alunos olham para professores como a Sara como pessoas dedicadas mas algo bizarras. Nenhuns outros professores falam de livros nas aulas ou levam livros para as aulas, além dos manuais. Nenhuns outros professores manifestam curiosidade intelectual, gosto pela filosofia, pela matemática, pela astronomia, pela história. Ora, quando se defende que o desinteresse dos alunos seria combatido com maior competência científica e mais sensibilidade didáctica, o que se quer dizer é que se todos os professores fossem como a Sara, a Sara teria menos alunos que se estão completamente nas tintas.
As escolas constituem a pior coisa que aconteceu ao ensino. Porque o burocratizou e chamou para a profissão pessoas que não têm quaisquer interesses intelectuais e que consequentemente são professores incompetentes, agravando o desinteresse prévio dos alunos pela vida intelectual. Infelizmente, ninguém conhece qualquer alternativa credível às escolas.

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