7 de dezembro de 2009

Esquecimento global

Um aspecto curioso do moralismo é a defesa de que algo tem de ser feito, mas pelos outros -- pelos governos, pela sociedade, seja por quem for, mas não por mim. É assim que alguns defensores de causas ecológicas se fazem transportar de jipe, ou comem bifes volumosos. Podemos chamar a isto o problema do esquecimento global: as moralistas ideias bonitas são convenientemente esquecidas quando chega a hora de mudar comportamentos que não queremos mudar. Vem isto a propósito deste facto: a produção de carne para alimentação é o segundo maior emissor de gases que provocam o efeito de estufa. Leia aqui.

17 comentários:

  1. Esse parece ser o problema da diferença entre louvável e obrigatório.Podemos pensar neste problema de duas formas:

    -Ou as pessoas não perceberam de fato o que é o problema do aquecimento global e que isso implica que deveríamos mudar nossos hábitos. Um variação disso é dizer que compreendem que há o problema do aquecimento global, mas não conseguem enxergar que a sua mudança faria a diferença. De qualquer forma, é um argumento de que se houvesse a compreensão do que é o bem isso implicaria em fazer o bem, ser o bem por si só já o tornaria obrigatório.

    -Ou as pessoas compreendem o problema do aquecimento global e que a sua participação é importante, ou seja, sabem o que é o bem, mas ainda assim não se sentem compelidas o suficiente para agir de acordo com o que é o bem. É dizer que ser o bem não implica necessariamente em que seja obrigatório por si só.

    Talvez o problema seja: ainda que se diga que é obrigatório moralmente, isso não implica que seja obrigatório legalmente por exemplo. E as pessoas são imorais e amorais frequentemente, não basta ter bons argumentos. Não estou defendendo a irracionalidade, apenas constando que ela é bastante frequente, o que implica nesse tipo de comportamento apático, ou até mesmo maldoso, frente ao moralmente obrigatório.

    Dito isso tudo, parece que de nada adianta dizer qual é a melhor resposta moral, se esta resposta pode não ser eficiente na tarefa de inspirar pessoas a agir de acordo com ela, a dar uma espécie de "senso de obrigatório". De fato, a moralidade parece muito mais próxima da inspiração que da coação.

    É por isso que a hipocrisia parece se alimentar desses descompaço entre louvável e obrigatório.

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  2. Orwell escreveu que o que o motivava a escrever era denunciar a mentira política. Confesso que uma das minhas motivações é denunciar a mentira moralista: botar discurso bonito, desde que não implique mexer uma palha. A conversa ecológica é um desses moralismos contemporâneos.

    Pior: vendo o que tu vês, que saber que algo é errado não motiva as pessoas a deixar de o fazer, os activistas entram então no jogo da manipulação. Ou seja, procuram manipular as pessoas de modo a agirem como eles pensam que elas devem agir. O problema disto é que para contornar a primeira mentira embarcamos noutra mentira, socialmente pior porque mais perigosa. Uma sociedade é tanto mais perigosa, politicamente, quanto mais os comportamentos das pessoas forem o resultado da manipulação irracional e não da escolha livre.

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  3. Os economistas usam uma expressão feliz que é "distorção de incentivos". Ajudados pela psicologia e partindo do pressuposto que as pessoas reagem a estímulos, há uma distorção de incentivos quando por exemplo, a polícia circula a 200 km/h numa via em que o máximo é 120 km/h.Em Portugal por exemplo existe uma clara distorção de incentivos quando os políticos que lutam contra a corrupção, usam o poder em benefício próprio. A expressão do ecnomês aplica-se bem ao caso que falas no post.

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  5. Desidério, quisera eu entender a razão pela qual criaturas como a formiga são cooperativas com grande grupo do seu bando, mas a humanidade não consegue ser. Um biólogo poderia dizer que a formiga é assim pois compartilha mais do seu gene com mais indivíduos, e que de alguma forma ela é programada para tal comportamento.Eu gostaria de pensar que a razão humana poderia ser mais efetiva que um determinismo genético, mas aí a discussão seria outra, e bem complicada também para o espaço de um comentário.

    Seu texto me lembrou bastante uma experiência mental no "Porco Filósofo"(imagino que você já deve ter lido, acho que já vi algo sobre ele no Crítica) que é a seguinte:

    Um ativista ambiental que faz exposições da mensagem " o impacto do uso de aviões no aquecimento global", mas que justamente utiliza o avião para espalhar a sua mensagem pelo mundo. Ora, utilizar o avião é incoerente com o trabalho de divulgação que ele próprio faz, óbvio. Mas, por ele estar fazendo divulgação, no caso dele seria permissível? O personagem da experiência mental justifica-se com o argumento de que a ação dele isoladamente é de impacto desprezível, e que deixar de voar por esta razão não teria impacto algum, e que o necessário é uma mudança mais profunda, que todos colaborem,e também de natureza política.

    Julian Baggini coloca muito bem a questão quando diz que isso é um paradoxo pois:
    "Na verdade tudo isso é um plano de louvável ilusão. O esforço coletivo funciona, não o individual. Porém a menos que as pessoas achem que o esforço individual importa, você não será capaz de reunir o coletivo"

    Objetivo da ética é fazer uma reflexão sobre a ação humana, e também prescrever a melhor ação, certo? Nada de novo, eu disse uma banalidade. É por esta razão que a hipocrisia é irracional.Não é possível separar o discurso da ação, pois se não há coerência entre ambos, isso não invalida o discurso nele mesmo, mas significa que o discurso não é forte o suficiente para mudar a ação sequer de quem o profere.

    Desidério, este descompasso me incomoda profundamente...

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  6. Parece-me que o comentário de Barbara denúncia uma posição que partilho (talvez mesmo não sendo a sua posição). Se só agimos às vezes do modo que julgamos correcto, mas defendemos e tentamos levar outros a agirem como julgamos correcto, isso continua, ainda assim, a ser melhor (de uma perspectiva utilitarista) do que

    (1) agir às vezes do modo que julgamos correcto e não levar mais ninguém a agir dessa forma

    (2) não agir nunca do modo que julgamos correcto e não levar mais ninguém a agir dessa forma (a que julgamos correcta)

    Pelo menos numa certa perspectiva utilitarista, não me parece que haja qualquer problema em agir de um modo que se considera incorrecto, porque potencia um efeito indesejável, se os efeitos desejáveis dessa acção forem superiores (muito menos se a acção facilitar ou for necessária para os efeitos desejáveis). Negar isto (ou algo semelhante) parece-me implicar colocar-se numa perspectiva deontológica.

    Concordo com o Desidério quando diz que a conversa ecologista muitas vezes esconde manipulação, moralista, política, etc. Contudo, a ideia do homem capaz de fazer escolhas livres neste aspecto é um romantismo que quanto mais tarde for abandonado, mais tarde teremos efeitos desejáveis em grande escala.

    As pessoas são capazes de ter as suas escolhas, mas precisam de as querer fazer, precisam de tempo, precisam de levantar a cabeça para além das suas vidas e ver as coisas de uma perspectiva mais abrangente. Acontece que algumas pessoas (por exemplo políticos, filósofos, cientistas, etc.) passam as suas vidas atentas a perspectivas gerais. Isto leva muitas delas a quererem influenciar as outras, que provavelmente são a maioria, e que só olham para as suas casas e os seus quintais.

    A manipulação, parece-me, é um conceito característico de uma ética deontológica. Se todos fôssemos manipulados para agir de certa forma em dada ocasião para que isso bloqueasse catástrofes naturais que podem extinguir a vida na terra (ou pelo menos quase toda), seria isso mau? O problema de fundo será sempre escolher o que fazer e se aquilo que se escolhe implicará o que se pretende. Mas muitas pessoas não querem tomar escolha alguma, e deste modo colocam em risco todas as outras que escolhem. Em questões tão abrangentes como as alterações climáticas, aquelas que não escolhem fazer algo em relação às mesmas seriam uma ajuda preciosa ou talvez necessária, quem sabe, para todos.

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  7. A minha influência no aquecimento global é desprezível mas a influência de muitas pessoas não. Se eu deixasse de fazer a minha vida normal, as consequências disso para o aquecimento global eram nulas. Por isso, uma acção individual, neste caso, por si só, não vale nada.

    É como ir votar: a probabilidade de o meu voto servir para alguma coisa é desprezível. Quero que as outras pessoas vão votar porque senão a democracia não funciona, mas as consequências do meu voto são nulas.

    Será esta posição imoral? Não, porque dou tanto valor às minhas preferências como às dos outros. A minha satisfação por viajar de carro é muito maior do que o ténue efeito que andar a pé teria no ambiente e da satisfação que lhe estaria associada. Se eu controlasse um grupo grande de indivíduos, ou se a minha pegada ecológica fosse absurdamente grande ao ponto de parar de poluir fazer uma diferença, então já passaria a andar pé. Por isto é que não há nenhuma contradição entre poluir e defender mais medidas estatais para limitar a poluição. Só as medidas estatais têm um alcance grande e esse é o único que interessa. O aquecimento global pertence àquele tipo de causas para as quais uma acção individual não vale nada e, para fazer as coisas sozinho, mais vale estar quieto. Só se acharmos que as acções individuais são operações de marketing para chamar a atenção do povo é que elas fazem sentido. Mas aí estamos a falar de acções de marketing: podem resultar ou não, mas não são moralmente boas nem más.

    Nem todas as coisas são assim. É incoerente pedir mais distribuição de riqueza e ser rico e não distribui-la. O objectivo é atenuar o sofrimento de pobres e não acabar com o sofrimento de TODOS os pobres. Por isso é que o socialismo de festa é uma treta mas o ecologismo de festa não, porque a minha acção de ajudar os pobres é relevante mas a de não poluir não.

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  8. O argumento do João poderia ser aplicado a qualquer problema de ética prática para desculpabilizar acções que os indivíduos sabem ser moralmente más mas que preferem continuar a fazer. Pior, rende completamente a moralidade ao poder político ou estatal: para acção moral x, x só pode ter efeitos se for sancionada e imposta pelo estado.

    Imaginemos que há um mercado de escravos na rua, que as pessoas têm razoável consciência de que é imoral comprar seres humanos para lhes limpar a casa, mas que o fazem na mesma só porque dá muito jeito. Um utente desse "serviço", com um pouco de consciência pesada mas indisposto a mudar o seu comportamento afirma: "Bom, se o estado impusesse o fim disto, daí resultaria algo visível - talvez amanhã acabasse. Mas se eu me coíbo de o fazer, a probabilidade de os meus vizinhos o fazerem continua a ser elevada. Portanto, vou comprar um escravo."

    Muitos defendem, contra a ideia da primazia da economia, a primazia do político. A mim parece que a precedência é moral: primeiro temos de decidir que tipo de mundo queremos, e agir em consonância com isso.
    É verdade que a minha decisão de me tornar vegetariano não vai resultar em amanhã toda a população mundial ser vegetariana. Mas isso não significa que 1) não seja a decisão correcta a tomar, 2) não tenha resultados visíveis - por exemplo, quase toda a gente que se torna vegetariana por razões morais o faz motivada por discussões com outros. Foi o caso do próprio Peter Singer.

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  9. Mas Vítor, repare que a decisão de comprar um escravo é imoral porque a preferência da pessoa que é escrava de não ser escravizada é superior à minha preferência de ter alguém que trabalhe lá em casa.

    Repare que eu não fui ao ponto de dizer que essa decisão é imoral, porque ainda estou confuso sobre o que a moral é. Apenas disse que se tomarmos o princípio da igualdade na consideração de interesses como máxima moral, então a decisão de poluir, individualmente, não é imoral.

    O próprio Peter Singer, o paladino deste princípio, não o leva a sério, porque se o fizesse não doaria só 30% dos seus rendimentos aos africanos. Doaria muito mais! Teria de levar uma vida miserável, porque há sempre mais um africano desesperado que podemos ajudar.

    Ser vegetariano tem um efeito relevante: a morte de menos animais. A minha preferência por comer carne é inferior às preferências dos animais que como de não serem comidos. Já o efeito de andar a pé é de tal forma desprezível para atenuar o aquecimento global do planeta que a minha acção individual por si só não vale nada. Mais vale estar quieto.

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  10. O meu argumento não poderia ser aplicado a qualquer problema da ética prática: só àqueles em que a minha acção individual, por si só, não tem efeitos nenhuns. A isto, ironicamente, o princípio de igualdade na consideração de interesses me obriga, se eu o aceitar.

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  11. Resumindo: mesmo que a minha decisão de não poluir pareça não ter efeitos visíveis, isso não é directamente relevante para saber se estou moralmente obrigado a fazê-lo. Basta ter boas razões morais para o fazer, ter consciência delas, compreendê-las. Isto independentemente de ser consequencialista ou não. Por ínfimos que sejam os resultados da minha acção, resultam de uma acção que é racionalmente obrigatória para agentes morais.

    De resto, a obrigatoriedade moral nada tem a ver com imposições estatais. Se todos fossem obrigados a ser vegetarianos amanhã, isso até poderia ter enormes consequências benéficas mas nada teria a ver com moralidade. À primeira oportunidade de contornar o poder ou o polícia, as pessoas voltariam aos mesmos hábitos que nem por um milhão de argumentos estão dispostas a largar. A obrigatoriedade moral não vem do estado mas da minha consciência. Vem do facto de conhecer os melhores argumentos disponíveis para agir de certo modo, não conhecer qualquer objecção cogente contra tais argumentos, e continuar a agir segundo as minhas preferências, ignorando tudo o resto.

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  12. Vitor, o argumento do Joao nao implica a desresponsabilizacao individual --- apenas tenta demonstrar que a accao ecologica individual e' ineficiente, enquanto apenas a accao colectiva pode ser eficiente. Por isso, o que o argumento do Joao implica e' que faz parte da responsabilidade individual ter uma accao politica no sentido de aumentar as probabilidades de diminuir a pegada ecologica media. Ou seja, melhor planeamento urbano, melhores transportes publicos, etc etc

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  13. Imagine-se 1000 pessoas numa praça a gritar com toda a força. Se eu decidir parar de gritar, isso dificilmente terá um efeito imediato, visível, no ruído produzido pelos outros. Mas ainda assim, é verdade que o ruído é produzido pela acção das 1000 pessoas. Se cada um continuar a gritar a pretexto de que o seu silêncio é irrelevante, jamais teremos silêncio.
    É também ininteligível afirmar que o meu comportamento não tem quaisquer efeitos no resultado geral. Pode não resultar em algo esmagador, como uma força celeste a calar os 1000 ao mesmo tempo, mas é falso que não tenha efeitos, pois o ruído resulta causalmente das 1000 vozes e não de um "monstro" com uma voz que vale por mil. Essa ilusão leva as pessoas a pensar que só o estado pode agir de um modo relevante - é preciso outro "monstro" para nos guiar e salvar. Falso: são as nossas decisões acerca de que mundo queremos ter que determinam o curso da realidade. Os estados limitam-se a reagir aos desejos das pessoas. Nos anos 70 e 80 era muito mais difícil ver secções para vegetarianos nas lojas e mercados. Mas isso sucede hoje não porque o estado tenha obrigado milhares de pessoas a tornar-se vegetarianas mas porque muitas se vieram a tornar com o tempo, por meio de persuasão racional (pelo menos nos casos em que a motivação é moral e não "exótica" ou "teosófica" ou algo assim). As decisões individuais são o que mais impacto tem na realidade... muito mais do que o voto, na quase totalidade dos casos.

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  14. "Mas Vítor, repare que a decisão de comprar um escravo é imoral(...)"

    Repare que eu não fui ao ponto de dizer que essa decisão é imoral (...)"

    Aqui troquei-me todo. Acho que se percebeu o que quis dizer.


    Nunca defendi que a obrigatoriedade moral tem a ver com obrigações estatais mas apenas que uma acção individual, neste caso, por si só, nada vale.

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  15. A equacao accao colectiva = accao estatal nao e' valida.

    Percebe-se melhor o que eu quero dizer se reconhecermos que o modelo urbanistico de suburbios que se espalham por
    quilometros e quilometros implica a necessidade de usar o carro para qualquer deslocacao trivial como ir ao supermercado, ou ir a um cafe, ou ir a uma livraria. Se esse modelo urbanistico nao for alterado -- e isso exige uma coordenacao de esforcos --- as consideracoes eticas sao inuteis porque ninguem as pode aplicar.

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  16. Vítor,

    O vegetarianismo e o ecologismo não são casos análogos, porque o comportamente individual de um vegetariano tem efeitos relevantes que o comportamento individual de um ecologista não tem - menos animais morrem. O ecologismo só vale alguma coisa se for, de alguma forma, global.

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  17. Surgiram aqui ideias interessantes, apesar de laterais ao meu post. O meu post protesta contra a mentira moralista, que se manifesta no uso que alguns grupos fazem da ecologia só para ganhar poder e aparecer em público. Ao mesmo tempo que não param certos comportamentos que poderia parar e que muito ajudaria a causa ecológica; é o caso do consumo de carne.

    O meu post não protesta contra a ideia de que em alguns casos é necessário coordenar acções e proibir comportamentos. É perfeitamente legítimo fazer pressão pública e política para, por exemplo, explicar às pessoas por que razão é imoral comer carne. Mas pode-se fazer pressão de duas maneiras: irracionalmente ou racionalmente.

    Uma questão interessante que surgiu aqui é: um caso em que a pressão irracional obtenha resultados mas a racional não, é preferível, pelo menos de um ponto de vista utilitarista? À primeira vista sim. E isso daria razão a quem anda a manifestar-se violentamente nas ruas pondo fogo a carros e batendo em polícias, só para aparecer na televisão.

    Mas eu desconfio que mesmo Mill veria que a mais longo prazo não é preferível optar pela manipulação e pela mentira, mesmo que se obtenha bons resultados a curto prazo. Isto porque se fizermos uma sociedade na qual a manipulação e a mentira vingam, mesmo que seja por boas causas, mais tarde ou mais cedo a manipulação e mentira vão vingar, mas a favor de más causas.

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