18 de dezembro de 2009

Filosofar para quê?

Sendo eu engenheiro de formação e profissão e estando a dedicar agora bastante tempo à filosofia, muito amigos me perguntam: mas afinal para que é que isso serve? Qual é o gozo? Porque é que te deu agora para aí?
Nem sempre é fácil responder a essa questão, muito menos quando é colocada por alguém que está de fora da filosofia. Este post é uma tentativa de abordar a questão.

O mundo em que vivemos é extremamente complicado! As acções que temos que desempenhar, as decisões que temos que tomar, os julgamentos que temos que fazer… para tudo isto necessitamos de recolher informação, processá-la e actuar / decidir.
E isto acontece desde os primórdios da vida na Terra, entre o momento em que acordamos até aquele em que adormecermos: podemos comer isto?, devemos fazer aquilo?, por aqui será seguro?, atravesso a rua aqui ou ali?, visto isto ou aquilo?, que telemóvel comprar?, que software utilizar?, que livro ler?, em que acreditar?...

Ora é incomportável processar toda esta informação constantemente para que cada acção/decisão/julgamento seja feito em plena consciência e com toda a segurança. Aparecem então as regras heurísticas e os pressupostos. Para conseguirmos viver, temos que simplificar a nossa interacção com o mundo, senão morremos soterrados em decisões que não conseguimos tomar – sucumbimos à inacção!
Como faria o ser humano primitivo para determinar se um determinado bicho era venenoso? Pelo aspecto e pela cor, talvez.
Como escolhemos um televisor? São muito poucos os que processam toda a informação relevante para a escolha de uma televisão a comprar: tamanho, resolução, tomadas, número de cores, frequência, peso, estética, qualidade, garantia, etc, etc, etc. Quais são as regras heurísticas que nos ajudam na escolha de uma televisão? A marca, a classificação num dado teste, a opinião de um amigo, a opinião do vendedor.
Como decidimos que livro comprar? Muitas vezes lemos a contra-capa, sabemos quem é o autor, eventualmente a editora e já está. Não vamos ler artigos, comentários ou críticas para cada livro que compramos. Seguramente que a maior parte das vezes não ponderamos toda a informação a que teríamos acesso.
Arriscaria dizer que a grande maioria das nossas decisões e julgamentos é feito com base em processos de natureza semelhante: regras heurísticas e pressupostos.

Assim, a nossa vida baseia-se em regras de algibeira e pressupostos. Aceitamos um código de conduta que nos foi transmitido pela sociedade em que nos inserimos, aceitamos um código de valores que nos é transmitido por uma igreja ou líder espiritual, acreditamos que o mundo é tal como o percepcionamos, acreditamos que nós somos aquilo que julgamos ser,…

Vivemos assim como que dentro de uma bolha, constituída por regras, crenças e pressupostos explícitos ou implícitos. Esta bolha permite-nos viver uma boa vida (não confundir com uma vida boa), interagir com os demais, prosperar, brincar, crescer, rir e chorar. É esta a nossa vida quotidiana, e sem esta bolha protectora e orientadora a vida como a conhecemos não seria possível. Necessitamos dela e sem ela, provavelmente, não conseguiríamos viver.

Acontece que a bolha que nos protege e guia neste mundo tem também um efeito perverso: esconde o mundo de nós! Quando crescemos são-nos transmitidas todas estas regras e pressupostos, e muitas vezes não nos apercebemos que são apenas isso mesmo – regras e pressupostos – e pensamos que são factos, o modo como o mundo funciona. O mundo vai ficando cada vez mais distante de nós, e nós cada vez mais fechados na bolha.

E é aqui que entra a filosofia!
Quanto a mim, a filosofia pretende olhar para o mundo sem ser através da bolha. Vamos esquecer as regras, pressupostos e valores que nos transmitiram e vamos olhar para o mundo com o olhar crítico da razão. O que se passa de facto lá fora? Será que as coisas são como as vemos? Será que Deus existe? O que devemos fazer? Como devemos actuar? Como podemos saber o que quer que seja?...
Ao olhar assim de frente para o mundo rapidamente descobrimos que muitas das regras e pressupostos que suportam as nossas acções e julgamentos estão desfasados da realidade. Ganhamos também consciência que muitos desses pressupostos são errados ou incertos, e que muitos outros não passam de pressupostos.

Assim, quando filosofamos, várias coisas acontecem.
Por um lado, esse filosofar pode ter consequências práticas e concretas, e tal é especialmente visível no que respeita à ética, justiça e política.
Por outro lado, ganhamos uma clara consciência da existência dessa bolha e, se bem que continuemos a viver com ela, essa consciência tem impacto naquilo que somos, fazemos, pensamos e sentimos.
Finalmente, o mundo torna-se muito, mas muito mais interessante! Quando tentamos ver o mundo para além das barreiras que naturalmente construímos, verificamos que as coisas mais simples se tornam extremamente interessantes e isso, só por si, já vale a pena.

Agora que releio o post, verifico que ressaltam daqui vários aspectos da Alegoria da Caverna, de Platão, e do Matrix. Tal não é surpreendente; o que a filosofia faz é mostra-nos que aquilo que pensamos ser a realidade talvez não seja bem assim, e que existem outras possibilidades.

5 comentários:

  1. A filosofia permite-nos compreender melhor a realidade; esta revela mais textura do que parece ter à primeira vista. Mas, neste caso, nada de diferente há quanto à filosofia, que a distinga de outras áreas de estudo, como a astrofísica, a história ou a química. Todas estas disciplinas resultam da nossa curiosidade intelectual e permitem-nos compreender melhor a realidade. Penso que só se torna difícil explicar por que razão alguns de nós gostamos de filosofia a pessoas destituídas de curiosidade intelectual, e para as quais a natureza da realidade é indiferente, desde que possa ser instrumentalizada para os nossos fins, alguns dos quais são perfeitamente mesquinhos (note-se como é preciso explicar por que se estuda filosofia, mas não por que se é produtor de novelas ou treinador de futebol).

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  2. Muito bom o texto. A filosofia é isto mesmo que nos permite emergir dos pensamentos comuns em busca de nossos próprios. Põe-nos em busca das verdades. Talvez não as encontremos todas, mas como é bom esse caminhar, não é?

    Convido-o para fazer uma visita em meu blog http://laurindo-fernandes.blogspot.com/ e já tenho esta página entre as que sigo. Se puder fazer-me uma visita lá, agradeço. Abraços.

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  3. Olá Jaime,
    Fiz da filosofia a minha profissão, ensinando-a aos adolescentes. Tenho um compromisso profissional com ela e muitas são as vezes que ainda me questiono como seria o mundo para mim se não estudasse e ensinasse filosofia. Isto vai de encontro ao que diz o Desidério: não sinto qualquer privilégio por ver uma partezinha do universo com a filosofia. A minha descoberta maior com a filosofia é que mesmo com ela não consigo ver quase nada. Essa sensação tenho-a desde muito novo quando entro numa livraria. Queria saber mais de tudo. Mas quando entro num tasco também tenho uma sensação quase igual. Não costumo fazer como os artistas pimba e dizer que já era miúdo e já a filosofia me corria no sangue. Conforto-me por dizer que a filosofia é um encontro com o qual me sinto feliz. Coloca à prova alguns dos meus preconceitos e como sempre gostei de desafios talvez a filosofia seja a forma de me desafiar. Por outro lado, fora de mim, estou convencido que a filosofia tem muito a dizer sobre todos nós e esse compromisso realiza-se com paixão. O teu texto é muito precioso já que vem de alguém que está biograficamente fora da fil.
    abraço

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  4. Desidério, tanto a astrofísica como a história (a química não tanto) têm sido áreas a que dediquei algum tempo. Leio muita coisa de história, e tento aprofundar alguns temas. Relativamente à astrofísica também li bastante, e fui astrónomo amador durante algum tempo.
    Nada de muito sofisticado ou profundo, mas são áreas que me despertam bastante interesse e como tal gosto de ler sobre elas.

    Quanto a mim, e no que respeita a esta "bolha" que mencionei, julgo que nenhuma destas áreas a atravessa. Quero dizer que a filosofia obriga-nos a pensar e a colocar em causa elementos fundamentais daquilo que somos, daquilo em que acreditamos e daquilo que julgamos certo ou errado. Por exemplo, uma questão tão simples como "todos os homens são iguais", que é uma proposição com que muitos concoradariam sem pensar muito, revela-se um labirinto intricando quando analisado com mais detalhe (isto no seguimento do artigo recente que publicaste). Ora a astrofísica olha para o Universo, mas olha através da tal bolha de crenças e pressupostos. O mesmo se passa com a História, e provavelmente com a Química.

    O que quero dizer é que quando estudo filosofia fico com uma sensação de que quase nada é como eu pensava até hoje, que tudo muda de textura (para utilizar uma expressão tua) quando analisado com mais profundidade e de espírito aberto mas crítico. Ora quando estudo astrofísica, história ou outra coisa qualquer tal não acontece. É claro que aprendo coisas que não sabia antes, umas nada intuitivas e muito surpreendentes; mas ainda assim não sinto que tenha o impacto de mudar a forma como vemos o mundo.

    Talvez, para pegar no debate lançado sobre a filosofia da ciência, a ciência só dê aqueles "saltos quânticos" quando se associa à filosofia: teoria heliocentrica, teoria da relatividade e outras. Aqui sim, estamos a falar em quebrar a bolha, ver as coisas de outra forma e colocando em causa aquilo que julgávamos saber.

    Admito que não esteja a ser claro, isto é mais um sentimento em relação à filosofia do que um argumento para convencer quem quer que seja.

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  5. Ah, sim, compreendo agora melhor o que queres dizer. O que se passa é que a filosofia é a análise cuidadosa das nossas crenças mais básicas, ao passo que o mesmo não acontece tipicamente na ciência, apesar de acontecer por vezes. Pode-se fazer ciência uma vida toda sem nunca pôr uma crença básica em causa, mas isso não é possível em filosofia.

    Por “crença básica” entende-se uma crença que justifica muitas outras crenças, mas cuja justificação não é fácil ver qual é. Nagel exprime isto muito bem no início do seu maravilhoso Que Quer Dizer Tudo Isto?

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