31 de dezembro de 2009

Jornal Público não adopta acordo ortográfico


No editorial de ontem do jornal Público, 30 de Dezembro, lê-se que aquele jornal não adoptará a nova ortografia:
Nós, no PÚBLICO, sobretudo não compreendemos para que serve [o acordo ortográfico] e, incapazes de entender a necessidade e as vantagens de uma norma global para o português, decidimos não o adoptar. Vamos continuar a escrever a nossa língua como a escrevemos hoje. [...] O Governo e os seus aliados da CPLP acreditam que o Acordo é fundamental para afirmar o português no mundo, aproximar os povos e reforçar a união entre os oito países lusófonos. Numa frase, os seus defensores — que incluem respeitados linguistas — argumentam que estamos a falar de um acordo instrumental e estratégico para o futuro. Se todos estes argumentos são utópicos, há um que se destaca como particularmente incompreensível: o de que o português, sem o acordo, terá não duas ortografias oficiais mas oito e que tal “não pode acontecer numa língua que pretende ser universal”. Ora o inglês — essa, sim, uma língua universal por excelência e a do nosso tempo — é a língua oficial de mais de 50 países e não consta que haja um acordo planetário com regras a aplicar por essa enorme variedade de culturas, tons, pronúncias e grafias. Excluindo a polémica sobre a “tradição” do português e o papel das consoantes mudas e as suas variações nos oito países da CPLP, há ainda uma última e fatal fragilidade neste acordo – as regras definidas são facultativas. Para que serve então um acordo global se, afinal, é indiferente escrevermos António ou Antônio?

Boas notícias, para quem considera que a nova ortografia é uma vergonha política e linguística. Eis um resumo dos meus argumentos contra a nova ortografia:

1) Não se deve legislar sobre a ortografia, tal como não se legisla sobre a gramática. É totalmente inútil legislar sobre a ortografia. Nada se melhora fazendo tal coisa. Não há legislação sobre a gramática nem sobre a fonética e não há qualquer anarquia gramatical nem fonética.

2) A nova ortografia não unifica a língua portuguesa. Ao passo que antes tínhamos duas ortografias tradicionais, uma brasileira e a outra portuguesa, agora passa-se a ter várias ortografias dentro de um só país, pois a nova ortografia é na prática uma regra que diz que, com poucas excepções, cada qual escreve como lhe der na gana. Portanto, a nova ortografia não unifica; desunifica. (Leia-se este artigo.)

3) Todas as reformas ortográficas feitas por via legislativa dificultam o acesso à cultura, sobretudo das famílias mais carenciadas dos países mais carenciados, pois nos livros das bibliotecas de que dependem passam a ler uma ortografia errada.

4) Todas as reformas ortográficas que não surjam naturalmente pela escolha das pessoas que escrevem a língua é uma forma artificiosa de afastar as pessoas das bibliotecas e da história da sua língua, pois torna-lhes cada vez mais difícil ler livros com mais de um par de décadas. Nos países lusófonos, ao contrário do que ocorre noutros países, nenhuma pessoa com um grau médio de instrução escolar é capaz de ler um livro com oitenta ou noventa anos, porque a ortografia recebeu tantas mudanças que é como se todo esse legado bibliográfico estivesse na prática escrito em língua estrangeira.

24 comentários:

  1. Excelentes notícias! Espero que a maioria dos editores tenha esta atitude, embora não esteja muito optimista quanto às possibilidades reais de abafarmos esta porcaria no berço. O peso das ideias macacas é demasiado forte uma vez lançado para o mundo pelo veículo certo: indivíduos obtusos carregados de prestígio e secundados pela arbitrariedade política.

    Isto não passa de uma luta macacal motivada pela preocupação de que a variante brasileira se torne globalmente predominante em relação à variante "luso-portuguesa". É como se os britânicos de repente ficassem muito preocupados com a predominância do inglês americano através do cinema e quisessem nivelar a ortografia para que não se pudesse dizer que a variedade americana é mesmo predominante. No entanto, os britânicos não se dão a este tipo de disparates e só ganham com isso: qualquer pessoa medianamente instruída naquela língua pode ler David Hume tal como está no original sem precisar de um "dicionário" mal feito por mais um linguista obtuso.

    Qual a relevância para a qualidade da literatura britânica, a qualidade daquilo que se escreve, saber que uma das variantes da língua é mais ou menos predominante? A generalização do inglês americano faz que a literatura inglesa seja pior do que seria noutras circunstâncias?

    Em suma: nada disto tem a ver com a língua em si, mas com o restabelecimento possível do império perdido, dado que não é possível restabelecê-lo tal como os saudosistas mais hardcore gostariam.

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  2. Na edição de ontem do Público, alguns editores, muito sensatamente, declararam que adoptariam ou não a nova ortografia consoante os seus autores o quisessem ou não. A má notícia disto é que infelizmente em Portugal, erradamente, e ao contrário de países como os EUA ou o Reino Unido, não se considera que os tradutores são autores.

    Assisti na minha vida a um bom rol de mentiras políticas perpetradas impunemente. Umas mais graves do que outras. Esta é mais uma. Vende-se às pessoas a ideia de que a nova ortografia unifica — mas não unifica. Vende-se às pessoas a ideia de que a nova ortografia dá força internacional à língua — mas não dá. Vende-se às pessoas que a nova ortografia simplifica por ser mais próxima da fonética — mas isto é falso, pois as consoantes mudas em Portugal desempenham um papel fonético que não precisam de desempenhar no Brasil, dada a maneira diferente como abrem e fecham as vogais ao falar. De modo que esta é mais uma mentira política.

    Pior ainda. Subitamente, dados erros, ambiguidades e inconsistências linguísticas do texto do acordo ortográfico, chegou-se brilhantemente à ideia de que afinal o que era preciso era haver um vocabulário oficial da língua. Como se não houvessem dicionários! Bom, mas então a Academia Brasileira fez um. Mas este vocabulário ‘oficial’ viola o texto do acordo! Pior. Agora os portugueses fizeram mais um, outro está a ser feito e um terceiro poderá ser feito. Portanto, ficaremos com quatro vocabulários ‘oficiais’ da língua portuguesa… inconsistentes entre si e com o acordo ortográfico assinado pelos países lusófonos. Eis a mentira da unificação linguística em todo o seu esplendor.

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  3. é incirvel a manipulação e a ignorância... antónio ou antônio? então e ouro? e oiro?
    Não se deve legislar sobre a ortografia? então e a reforma de 1911 e a de 1945?
    ai as consoantes mudas!... sabia que em 1910 se escrvia auctor com C? moreu porque lhe tiraram o C?
    De uma vez por todas:
    Este acordo não influencia a forma como falamos mas sim a forma como escrevemos. A norma escrita é e sempre foi uma convenção.
    A língua não é nossa, é de quem a fala, isto é de 230 milhões de pessoas no mundo.
    É de uma ingenuidade patética dizer que tanto politicamente como economicamente este acordo só favorece o Brasil. Este acordo favorece sobretudo Portugal e o futuro da sua sobrevivência como nação soberana e independente.
    Para as gerações vindouras é absolutamente indiferente a forma como actualmente escrevemos. Só alguém com uma total falta de noção do que é a evolução de uma língua e da sua norma escrita poderá achar que esta é imutável.
    É relevante e de extrema importância para Portugal que a língua falada no Brasil (por 180milhões) seja chamada de português (porque o é!) e que não se autonomize passando a chamar-se brasileiro como muitas das opiniões que circulam pela internet reclamam.
    Dentro de cem anos é determinante que a língua falada no Brasil e em Portugal seja a mesma e que não se considere que existe uma língua menor falada por apenas 10 milhões de habitantes de uma sub-região da Europa dominada económica e politicamente por Espanha e pela sua língua: o castelhano.
    E é bom que ninguém se esqueça que os países africanos de língua oficial portuguesa irão sempre adaptar-se à ortografia Brasileira.
    Eu também tenho alguma pena entre outras coisas de perder as consoantes mudas.
    Mas tenho a noção clara da importância geopolítica que este acordo tem para Portugal.
    E se este desacordo existe é porque Portugal ao contrário de outros países europeus (Inglaterra e Espanha) nunca possuiu uma academia da língua realmente forte e competente que convencionasse de forma universal o modo comum de escrever português.
    que se assuma de uma vez por todas, e por todos nós, que a língua que temos é a mesma e que o sotaque nada tem a ver com a norma escrita. Isto era o que a maioria da população deveria perceber.
    Com o novo acordo ortográfico do “português” eu posso perder o c (mudo) de acto que tanto gosto. Mas o que é que isso importa ao meu filho em 2050. Nada. Tal como mãe já foi mai e é mãe outra vez. O que importa isso sim. é que todos (230 milhões de pessoas no mundo) falamos o mesmo idioma
    ass: Miguel

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  4. Muita retórica, erros de ortografia, mas não respondeu aos argumentos:
    1) Como se unifica a língua, se podemos escrever com duas ortografias?
    2) Se a língua é de todos, por que razão só uns podem legislar e obrigar os outros as escrever como eles querem?
    3) Se a língua é só uma, mas com diferentes sotaques, por que não pode ter diferentes ortografias, que respondem aos diferentes sotaques, como ocorre com a língua inglesa, por exemplo, que é uma só, mas tem vários sotaques e várias ortografias?
    4) Não respondeu ao argumento das bibliotecas. As sucessivas reformas ortográficas alienam os lusófonos do seu próprio património linguístico, dado que não conseguem ler os livros publicados há apenas umas décadas.
    Não explicou também onde foi buscar a ideia de que sem esta falsa unificação ortográfica os brasileiros quereriam chamar “brasileiro” à sua língua — esta ideia é falsa e revela uma brutal ignorância. O único museu da língua portuguesa que existe está em S. Paulo, e não em Lisboa. Além disso, a língua é muito mais além da ortografia — é gramática e fonética. E não há legislação sobre a gramática nem sobre a fonética; aceitando o seu argumento, é urgente legislar, não vão os brasileiros fazer outra língua — e lá se vai o seu sonho imperialista de conquista do mundo.

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  5. Talvez em 2050, quando os nossos putos tiverem 40 anos, não lhes importe escrever "fato" em vez de "facto", tal como a mim não importa escrever "anarquia" em vez de "anarchia". Mas de certeza que importa a um puto de 10 anos ser agora obrigado a interiorizar uma ortografia depois de passar os últimos anos a aprender uma diferente. Em que é que isto ajuda os miúdos, ou seja quem for?

    Em que consiste a importância "geopolítica" do acordo? Fazer muito barulho, interferir na liberdade das pessoas, desperdiçar recursos, avacalhar a língua com mudanças impositivas desnecessárias, para fingir que se vai erguer o quinto império a partir da bruma? Para fingir que o português é uma língua de macacos que mandam, por oposição aos macacos que ouvem os macacos que mandam, e que estes são os da ponta da Europa e não os outros?

    Que benefícios nos trouxeram as reformas ortográfiacs de 1911 e 1945? Sim, quando aprendi a escrever comecei desde logo por escrever "anarquia" e não "anarchia". E depois? Se nunca tivesse havido reformas ainda escreveríamos "anarchia". E depois? Os linguistas e os políticos ficaram mais inteligentes por se passar a escrever "anarquia"? Não parece. Continuam pelo menos tão burros como eu, portanto... deixem-me escrever sossegado à minha maneira e pelo menos vão aprender a escrever decentemente. O que já li da prosa vinda da mão dos "respeitados linguistas" em panfletos sobre o acordo mete medo ao diabo.

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  6. Para ver os enormes benefícios das sucessivas reformas ortográficas basta visitar o Projecto Gutenberg em português (http://www.gutenberg.org/browse/languages/pt): quase todas as obras são irrelevantes lá estarem porque ninguém as consegue ler adequadamente. Parecem outra língua, porque têm outra ortografia. No entanto, podemos puxar obras inglesas do mesmo período histórico, do séc. XIX, e ler sem problemas.

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  7. Os reformistas ortográficos são como pessoas que querem fazer um shopping center modernaço numa igreja do séc. XV para afirmarem e modernidade do país perante o mundo. E não vêem que é precisamente essa atitude que é provinciana.

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  8. Caros

    Ainda sobre isto, creio que o debate está inquinado por não se explicar que língua é uma coisa e grafia outra. O acordo apenas estabelece uma norma ortográfica, ou seja, a forma tida por correcta de se escrever; a língua falada no Brasil já é diferente da que se fala em Portugal e acordo algum conseguirá mudar isso. Creio que este acordo é desnecessário, a espaços mal fundamentado, e que vem criar um problema onde ele não existia. Mas da necessidade de uma norma ortográfica, sobre isso julgo que ninguém duvida. E neste caso a decisão é sempre política, embora deva ser fundamentada por lexicólogos e linguistas. Além disso, muita gente que hoje se atém a determinados termos e formas ortográficas esquece-se de que estas, em alguns casos, já resultam do acordo de 1945.
    Bom ano a todos

    Pedro Bernardo

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  9. Olá, Pedro

    Sim, ninguém põe em causa que tenha de haver norma ortográfica. Mas nem todas as normas precisam de ser legisladas e firmadas em lei. Não há leis ortográficas a reger muitas línguas cultas, mas mesmo assim existem normas que as regem — só que essas normas emergem naturalmente da publicação de vocabulários, dicionários, gramáticas e quaisquer outros livros. A língua latina era a única na Europa que tinha uma norma gramatical e ortográfica, em pleno séc. XIII, por exemplo — mas apesar disso nenhuma lei a regulamentava.

    A ideia de legislar tudo e alguma coisa tem uma raiz bem localizável e é uma coisa relativamente recente: o estado moderno. Os excessos napoleónicos e prussianos encaram o estado como uma espécie de deus a que tudo tem de se submeter, um deus da Razão. Esta mentalidade teve a sua manifestação mais horrível nos fascismos europeus. E os países que mais se deixaram influenciar pelos ideais do estado fascista — um estado geometricamente perfeito, um hino à Razão — foram precisamente os estados que começaram a fazer leis para mudar as ortografias. Os outros estados encaram a norma ortográfica como algo que não carece de intervenção do estado para funcionar bem, reservando-se ao estado um papel de intervenção onde ela realmente for necessária.

    Quanto à ortografia que temos, ela já é o resultado da legislação ortográfica. Eu não esqueço que se escreve hoje como não se escrevia no tempo de Eça — meu Deus, até o nome do homem foi adulterado! Ele assinava “Eça de Queiroz” e não “Queirós.” Todavia, não me passa pela cabeça agora obrigar as pessoas a escrever com a ortografia do séc. XIX. Fazer isso seria fazer como os reformistas actuais, que querem obrigar por lei as pessoas a escrever como eles acham que se deve escrever. Sim, a ortografia actual resulta de anteriores reformas ortográficas impostas legislativamente; mas sobre isso nada posso fazer. Contudo, posso argumentar que não devemos persistir no mesmo erro fascista de legislar sobre a ortografia. Afinal, nada posso fazer quanto ao facto de a riqueza de muitas famílias portuguesas resultar de terem explorado escravos africanos, há três séculos. Mas posso argumentar que não se deve continuar a permitir o mesmo aconteça hoje.

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  10. O pensamento normal sobre a legislação deveria ser: é permitido tudo aquilo que não é expressamente proibido. (legisla-se apenas sobre aquilo que faz sentido legislar)

    O pensamento português (e latino em geral) sobre o assunto é: tudo o que não é expressamente permitido é proibido. (legisla-se sobre tudo, ou então "é o caos").

    Depois na prática vê-se onde está o caos.

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  11. Ok, estou a ser obtuso. Não é só uma pancada latina. Suponho que seja comum a todas as tradições de totalitarismo político, o que inclui a eslava, a grega e outras. É curioso como as culturas do "desenrasca" e do "dá a volta" são invariavelmente culturas habituadas à arbitrariedade e à ubiquidade do polícia e do padre. "Dar a volta" torna-se uma questão de sobrevivência.

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  12. Esse aspecto do desenrascanço está bem retratado, ainda que brevemente, no 1984 de Orwell. A Júlia é assim; não tem qualquer preocupação política, ao contrário do Wilson. Apenas quer desenrascar-se, conseguir safar-se nas malhas do regime totalitarista em que vive. Presumivelmente, o totalitarismo terá sempre a sua mão cheia de pessoas que visam sobretudo desenrascar-se.

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  13. De acordo, mas reparem que neste caso apenas o acordo é objecto de legislação. E estamos perante uma norma sem sanção (ninguém é punido - por lei, pelo menos - por dar erros, em alguns casos infelizmente). Mas o conceito de erro pressupõe também o de norma (e esta é necessária: para o ensino, para a documentação oficial, etc.). Mas concordo que em Portugal se mexeu demasiado neste assunto, ao contrário do inglês e do espanhol, estes sim, universais. Mas quis principalmente chamar a atenção para a confusão que vai grassando entre língua e ortografia.
    Cumprimentos

    Pedro Bernardo

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  14. Pedro, se quer a minha opinião, a pressa com que se fazem e desfazem ortografias na língua portuguesa (temos várias ortografias desde a implantação da república, que foi onde começou a desgraça) é sinal de atraso cultural e de oportunismo político. Em vez de se fazer o que realmente conta para estabelecer normas orgânicas (normas que emergem naturalmente do uso que a pessoas fazem da língua), que é publicar livros de qualidade, da autoria de linguistas (gramáticas, dicionários, prontuários, estudos históricos), em vez de se fazer circular a publicação entre os países lusófonos, nada disto se faz. Faz-se leis sobre a ortografia, porque isso é mais fácil de fazer — e tudo fica na mesma, mas com a impressão de que agora somos mais modernos porque já não escrevemos “farmácia” com “ph.” Com modernices destas não vamos longe.

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  15. Parabéns!Considero excelente a inicitativa. Mesmo porque não há um porque pausível para isso que fizeram. Talvez falta do que fazer. Aqui no Brasil, a imprensa do amém, literatos e congêneres enfiaram o rabo entre as pernas e aceitaram caladinhos. O povo, alheio, segue a moda antiga. Em breve, certamente, vão decretar a proibição do regionalismo e, em sequência, os sotaques diferenciados.
    Grande abraço,
    Juarez Campos
    Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

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  16. Maria Fernanda Pinto26 de março de 2010 às 14:40

    Vivo em Paris e como é obvio nunca me esqueci da minha língua. Escrevo e falo em eventos, por gosto, para espalhar conhecimento sobre factos importantes e para ajudar a “integrar” Portugal nesta Europa, pois os portugueses não precisam disso!
    A partir do momento em que o sr. Cavaco e Silva decidiu, definitivamente, assinar o acordo ortográfico, eu decidi só escrever em francês, porque vivo num país que me ensinou que não se vende a língua, apesar dela ser falada em vários outros países, de maneira diferente!!!
    Passámos a escrever Wagner com W, dizem os compatriotas? E dantes escrevia-se como?
    E podemos utilizar Y e K? E dantes como escrevíamos Kafka? Cáfeca? E uma lâmpade de 100 watts? Úótes? Ridículo meu Deus, a um ponto! O português não caiu em desuso, é transformado para agradar a gregos e a troianos!
    Nesse caso, como aprendi a língua portuguesa num dos melhores colégios de Lisboa, que ainda é uma referência hoje e no tempo em que nem os alunos nem os pais eram ignorantes, não abdico dela, mas perante isto vou deixar os portugueses a falar futebol, cozido à portuguesa, bacalhau à Bràs, folhetins televisivos e a dizer mal uns dos outros à vontade, na língua do acordo. Adeus, moi, je passe à la langue de Molière, sans trop de peine!
    Maria Fernanda Martins da Cruz Pinto

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  17. Olá.
    Chego a este blog com muito tempo de atraso, lamentavelmente, mas gostaria de deixar um comentário a título de contribuição para a reflexão feita aqui.
    O acordo ortográfico, parece-me, foi urdido na surdina e revelado apenas quando já não se podia mais opinar ou discutir. Fiquei perplexo ao saber que o acordo era endossado por "autoridades" linguísticas de meu país (o Brasil) a quem eu costumava respeitar, sob argumentos pífios de "internacionalização" da língua.
    Ainda que eu concorde com os colegas portugueses que escreveram que o acordo define (ou busca definir) a forma escrita da língua, posso pensar, por exemplo, na vasta gama de diferenças lexicais em uso em Portugal e no Brasil: puto e miúdo x menino; bicha x fila; fato x terno e tantas outras. Não vejo discrepância, mas riqueza. A fixação das formas não torna a língua estática, uma vez que seus usuários é que determinam suas mudanças ao longo do tempo. E mesmo línguas como inglês e francês também sofrem modificações no correr de sua evolução.
    A pergunta sobre a real necessidade de um acordo transoceânico sobre a ortografia da língua ainda está por ser respondida. A quem ela, de fato (ou de facto) interessa?
    Há lacunas demais no acordo e mais ainda na sua urdidura. Eu, como estudante da língua, tenho paixão por ela em todas as suas variantes, porque cada uma amplia minha visão de mundo ao traduzir para o meu universo o universo de diferentes falantes dessa mesma e diferente língua ao redor do mundo.
    Um grande abraço a todos.

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  18. Concordo, Flávio. O que faz realmente falta é a capacidade para acolher as diferenças linguísticas das diferentes maneiras de falar e escrever o português, e não uma tentativa ditatorial de as eliminar.

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  19. Antes de mais, parabéns pelo primeiro espaço cibernético onde encontro uma discussão interessante sobre este assunto tão polémico e sem os já frequentes ataques viscerais das duas fações totalmente pró ou totalmente contra.

    Queria apenas levantar algumas questões para as quais não tenho necessariamente resposta.

    Não é possível conceber a língua escrita sem norma, seja ela emanada do legislador ou da autoridade linguística, já que é essa norma que nos facilita a comunicação. A língua escrita está diretamente dependente da língua falada (e não o contrário), por isso penso que é natural que, se há alterações na língua falada, estas se reflitam na ortografia. Daí termos um século pejado de mudanças, porque de facto estas ocorreram aos mais variadíssimos níveis linguísticos. Talvez, as mudanças ocorram agora mais depressa, o que não seria de admirar dadas todas as inovações tecnológicas.

    A norma é isso mesmo, uma norma, uma regra, que pressupõe a existência de muitas variantes (sobretudo as faladas), mas que jamais as poderá anular, sendo que não acredito que este acordo o faça. Não partilho desse receio.

    O português é também uma língua falada por muita gente no mundo e não é difícil, durante uma viagem, encontrar alguém que fale português como primeira ou segunda língua. Cada língua é um caso e, no caso do português, é o Brasil o foco que atrai a maior parte daqueles que querem aprender a nossa língua e, como acredito que uma norma para o português a nível mundial não desvirtua a língua, prefiro ter uniformizada uma ortografia que é entendida, ao nível escrito, pela grande maioria dos falantes do português.

    Mas o facto é que este argumento não o seria se na verdade, as mudanças de que falamos não tivessem já ocorrido no português europeu falado. A verdade é que as consoantes mudas já nem sequer indicam tempo, o hiato, como acontece, por exemplo, em italiano atto para acto. Tornaram-se muda, obsoletas, marcas de uma maneira de falar que já não existe. E assim, também a ortografia deve refletir a forma como falamos. Acredito que, no fundo, a discussão gira toda ela à volta daquilo que alguns consideram ser a perda da marca etimológica da palavra, algo que mexe com algum sentimento de perda de identidade, de pertença, e será isso que desperta tanto ódio contra o acordo.

    Que seria se não houvesse mudanças ortográficas? Ao ler o Eça, não teríamos a mais pequena pista sobre as peculiaridades ortográficas (e fonéticas) da língua na época em que ele viveu, porque a escrita teria sido sempre igual! As mudanças também geram riqueza. Nenhum anglófono que não estude Middle English consegue perceber Shakespeare, mas aqueles que o estudam podem falar-nos do modo como, provavelmente, era diferente a pronúncia das palavras naquela altura.

    Por último, uma pequena provocação... de facto, o inglês não necessita de acordo, porque nenhum país anglófono ousará desafiar as autoridades linguísticas britânicas e norte-americanas. O acordo é implícito! Mas e os alemães, que planearam e implementaram, também não sem grandes polémicas e prenúncios do abismo, um acordo que normaliza a ortografia entre três países, Alemanha, Áustria e Suíça, de uma língua riquíssima em variantes regionais?

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  20. Obrigado pela serenidade, e pela verdade, raras nos defensores do acordo.

    Começando pelo fim, tanto temos exemplos de países que fazem legislação linguística, como países que a não fazem. Isto significa que em vez de darmos exemplos, temos de dar é argumentos a favor de uma ou outra coisa. O exemplo anglófono serve de contra-exemplo à tese de que é necessário legislar sobre a ortografia porque caso contrário seria a anarquia. O exemplo alemão não é contra-exemplo à tese de que não é possível legislar sobre a língua, porque ninguém defende tal tese.

    É preciso distinguir as reformas ortográficas das unificações ortográficas. A nova ortografia não unifica a ortografia portuguesa e brasileira; em alguns casos, desunifica, como “perspectiva” e “aspecto”, que na ortografia anterior se escrevia do mesmo modo nos dois países e na nova ortografia se escreve de maneira diferente. Assim, a nova ortografia é uma mentira, vendida como se unificasse, mas não unifica. Nem dá passos nessa direcção, pois elege como critério a pronúncia, que é precisamente o que separa os tantos falares da nossa língua.

    As mudanças ortográficas, como as lexicais ou gramaticais, podem ocorrer de duas maneiras: natural e gradualmente, por força do uso livre que as pessoas fazem da língua, como acontece com o léxico; ou artificialmente, por imposição legislativa. As segundas podem ser bem ou mal feitas. Quando são mal feitas, estão sempre a exigir retoques. É o que aconteceu com as reformas ortográficas sucessivas que tivemos na língua portuguesa.

    Quanto à aceleração das mudanças linguísticas devida a inovações tecnológicas, pode ocorrer; mas pode ocorrer também o contrário: a cristalização de certos aspectos da língua. As derivas de pronúncia estão em desaparecimento acelerado, desde a implantação da televisão e da crescente mobilização das populações. Mas o léxico tende a integrar mais palavras mais depressa do que antes, porque há mais comunicação e mais comunicação escrita entre fronteiras linguísticas. A ortografia tende a cristalizar-se e não a mudar com a crescente banalização da palavra escrita — a menos que se faça intervenções desnecessárias, como é o caso da fantasia actual nova ortografia. Portanto, o mundo é mais complexo do que sugere o Ricardo no seu interessante e ponderado comentário, que agradeço.

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  21. Se é Lei; cumpra-se. É lei então...

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  22. Depende, cara Healsilu, até a Lei responde a certos preceitos. Se a Lei tem como objectivo estabelecer uma ordem, então uma regulamentação que cause desordem não pode, por essência, considerar-se lei. É o caso do Acordo Ortográfico. Lamento mas comigo jamais contará.

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  23. Em 1500 era lei vender pessoas, a que se chamava "escravos."

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  24. Que valor podem os alunos, as novas gerações dar à ortografia impostas pelos idiotas e outros ignorantes? nenhuma.... que cada um escreva como entende... pois é a mensagem que nos enviam os "sábios" que decidem das normas da escrita do Português

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