23 de dezembro de 2009

Justificação de crenças


Poucas pessoas se dão conta de que a maior parte do nosso conhecimento é conhecimento por testemunho: nenhum de nós pode saber primitivamente senão uma parte pequeníssima de tudo o que se sabe. É por isso risível que algumas pessoas pensem que todos os argumentos de autoridade são inválidos -- porque nesse caso, nenhum de nós teria argumentos válidos a favor das proposições mais elementares das ciências ou da história, excepto se formos cientistas ou historiadores. E mesmo o conhecimento que um cientista ou historiador tem depende, na sua maior parte, do testemunho de outros.

Neste sentido, uma parte importante da tradição epistemológica com origem em Descartes, e claramente visível numa parte importante da epistemologia do séc. XX, como os Os Problemas da Filosofia, de Bertrand Russell, é enganadora, pois procede como se fosse possível a cada agente cognitivo ter justificação primitiva para as suas crenças fundamentais. A partir do momento em que se vê que isto é falso, vê-se que os processos sociais de justificação de crenças são muitíssimo importantes, e têm sido negligenciados. E é por isso que Mill é epistemologicamente mais interessante do que ele mesmo aparentemente sabia, pois escreveu preto no branco, em Sobre a Liberdade, que "As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento" -- e isto num contexto em que dá como exemplo a física de Newton.

O texto de George Orwell que acabo de publicar, e a que dei o título "Como Sei que a Terra é Redonda?", coloca em evidência de maneira vívida e intuitiva o facto anti-cartesiano de que nenhum ser humano tem justificações primitivas para a maior parte das suas crenças, e poderá ser um texto importante para os alunos se darem conta deste aspecto crucial da epistemologia.

6 comentários:

  1. Assim que se pode comprovar e testar, nas mesmas condições e chegando aos mesmo resultados, comprovamos algo. Isto pelo menos em ciência.
    Muitas vezes temos de confiar nos cientistas dada a complexidade de alguns assuntos, no entanto não acreditamos a toa, pois sabemos, porque pequenas provas perceptíveis a todos, que em situações iguais chegaríamos aos mesmo resultados. É uma confiança em provas dadas, muito diferente da fé.

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  2. Quando alguém que confia na ciência está muito ansioso por mostrar que esta confiança é diferente da fé religiosa, já sei que é mesmo igual.

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  3. Desidério, não me leves a mal, mas essa nem parece tua!

    Isso mata a discussão já aqui. Se eu tento argumentar que a confiança é diferente da fé, então é porque é mesmo igual; se eu não tento, então é porque não sei justificar a diferença.

    Só temos duas saídas: ou o ponto crítico da tua afirmação está no "ansioso", mas esse adjectivo acaba por ser um pouco arbitrário (sei lá eu se o Micael está ansioso ou não...); ou o ponto crítico está no "tenta", e aceitas que a crença na ciência poderá ser diferente da fé, desde que ninguém o tente defender...

    Já sei!
    Se tentares apresentar um contra-argumento a isto que estou a dizer, então é porque me dás razão... :-)

    Bom Natal!
    Jaime

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  4. Olá, Jaime

    Talvez tenhas razão, mas não tenho realmente paciência para a batalha pueril que existe em tantos blogs entre os crentes em Deus e os crentes na Ciência. O artigo de Orwell nada tem a ver com a ciência. Nem o meu post. Tem a ver apenas com um aspecto crucial da nossa estrutura epistémica: é profundamente social. Os cientistas, como todas as outras pessoas, aceitam a maior parte das suas crenças por testemunho. Podemos agora ir ver em que condições esse testemunho é justificador e em que circunstâncias não o é. Na verdade, Clifford já o deu um bom pontapé de saída nesse debate. E há muito a dizer sobre isso. Mas nem o post nem o artigo de Orwell é sobre isso. De modo que quem o lê como se fosse sobre isso é porque está demasiado ansioso para provar que a sua fé de eleição é melhor do que a dos outros.

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  5. Aliás, repara que ou eu tinha o género de reacção que tive, ou apagava o comentário, pois é completamente irrelevante face ao conteúdo quer do post quer do artigo do Orwell.

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  6. Este é o novo link para o Mill: http://criticanarede.com/liberdadedeexpressao.html.
    E este é o novo link para o Orwell: http://criticanarede.com/credulidade.html

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