15 de dezembro de 2009

O ensino da filosofia e a sociedade é que não me deixa


Ao mesmo tempo que o Aires respondeu à entrevista do Domingos, também eu respondi e aproveito para postar aqui as perguntas e as minhas respostas. Aproximam-se em alguns aspectos das do Aires. A resposta à questão 3 liga-se também com o último post do Desidério.


1.        Para si qual poderá ser a importância da filosofia no Ensino Secundário? Porque é que a filosofia poderá ser importante no currículo escolar e de que modo contribui para os objectivos globais do Ensino Secundário?
Tenho o hábito de fazer uma distinção que aprendi com alguns filósofos: o que tem valor intrínseco e o que não tem valor intrínseco, isto é, tem somente valor instrumental. Uma coisa tem valor intrínseco se só depende de si mesma para poder existir. Por exemplo, a felicidade tem valor intrínseco, mas o dinheiro não. Pelo contrário, o dinheiro tem um valor instrumental, já que é um meio para alcançar felicidade. Mas o dinheiro por si só não garante felicidade. Ora, o saber e o conhecimento, entre o qual, a ciência e a filosofia, tem valor intrínseco dado o seu carácter formativo. Por valor formativo entendo aquilo que sem a escola uma pessoa é incapaz de aprender. Somos capazes de aprender a safar-nos na vida sem escola, mas dificilmente aprendemos bem filosofia sem a escola. É este o modo como encaro a importância da filosofia no ensino. Ela, conjuntamente com a matemática, a física, biologia, etc. tem muito mais valor que as novas disciplinas como Área de Integração, Área de Projecto ou cidadania, que não são água nem peixe já que não constituem corpos de saber e conhecimento organizados com conteúdos insubstituíveis. Este é o contributo da filosofia, o de dotar os estudantes de competências fundamentais para a vida, tal como saber pensar.

2.       Segundo a sua experiência quais são os desafios actuais do ensino da filosofia?
O ensino da filosofia em países como Portugal estão infectados pela formação pós moderna dada nas universidades e seria necessário proceder a grandes upgrades no conhecimento e nos currículos universitários. O discurso corrente em filosofia é o da desconstrução, do relativismo, do subjectivismo e esse discurso, herdado directamente dos maus exemplos da má filosofia alemã ou francesa estão a roer a filosofia, bem como todas as chamadas ciências humanas e sociais. A filosofia, como qualquer saber não morreu no século xvii. Houve mais avanços significativos no século xx que são esmagados pelo discurso pós moderno do pós guerra, da morte da razão, da irracionalidade, etc. e a nossa academia está minada por esse pensamento. Seria necessária maior abertura académica à filosofia anglo saxónica do século xx, precisamente aquela que tem mostrado maiores avanços e progressos para a filosofia. Sem esse passo estou convencido que a filosofia só pode interessar a meia dúzia de pseudo iluminados. Depois há que descomplexificar tudo o que envolve a divulgação da filosofia. É estranho a filosofia que se ensina nas universidades. Um professor universitário português é capaz de escrever uma obra que promete ser profunda, ao nível do mais profundo que se investiga em filosofia, mas ao mesmo tempo é incapaz de escrever uma boa introdução da sua área de ensino. Os académicos manifestam um profundo desprezo pelas obras de divulgação e introdução. Ao mesmo tempo vemos no mundo filósofos como James Rachels, Thomas Nagel ou Peter Singer, que trabalham nas melhores universidades do mundo, mas escrevem pequenas e enriquecedoras obras de divulgação. Ora esses livros são a porta de entrada de muita gente para a filosofia. O mesmo acontece em Portugal à nova geração de cientistas. Quase todos se confessam devedores da colecção Ciência Aberta da Gradiva. O poder dos bons livros de divulgação é enorme na formação dos jovens numa disciplina e muitas das vezes a sua principal porta de entrada. Este passo está ainda por dar em Portugal. Somos ainda muito complicados e arrogantes. Falta-nos humildade e simplicidade.

3.       Como ensinar filosofia a uma actual juventude pós-moderna interessada apenas na imagem, no fragmento e no hedonismo?
A pergunta pressupõe uma ideia que considero falsa. Eu perguntaria de outra forma: como ensinar filosofia pós moderna a uma juventude que aprecia acima de tudo a objectividade e a verdade? É que este é o problema central no ensino da filosofia. O meu contacto de quase 15 anos de ensino tem mostrado essa realidade. Os alunos interessam-se, e muito, pela filosofia quando a praticam de forma clara e rigorosa. Ao mesmo tempo odeiam-na quando ou estudam história da filosofia, limitando-se a decorar o que os outros pensaram, ou quando se entra na lenga lenga do relativismo e de que o que vale são as opiniões de cada um. Em regra, os alunos adolescentes não apreciam a conversa pós moderna e não se deixam embalar em conversa fiada. Por outro lado, deixa-me referir que os adolescentes em regra estão mais dispostos à verdade que a maioria dos adultos, pelo que até é mais fácil ensiná-los a filosofar do que aos adultos. Mas pegando ainda no teu conceito, o hedonismo. Praticamente não existe momento da história em que jovens não sejam levados pelo hedonismo, pela sedução do imediato. Isso nem me parece mais característico da nossa época do que qualquer outra. Mas é precisamente porque nessas idades são despertados pelo hedonismo que também  se questionam sobre os seus pressupostos morais, políticos, existenciais, etc., pelo que nem aqui vejo qual o problema do hedonismo. Isso soa-me, sinceramente, a preconceito dos adultos que também foram ou são mais hedonistas que o adolescente tipo.

4.       Considera que os actuais programas de filosofia são adequados a esta juventude?
Os programas começam por não ser adequados à própria filosofia. Nós temos programas de filosofia abertos, praticamente sem conteúdos. Á partida a ideia é boa, já que se dá liberdade aos professores de decidirem se ensinam Derrida, Ricoeur ou o Zé da Esquina. Desde que abordem os temas, tudo vale. O resultado é desastroso. E temos provas factuais desse desastre, que são os manuais de filosofia. Qualquer pai minimamente interessado em saber o que aprende o seu filho na escola, se pegar no manual mais adoptado do país de filosofia para o 10º ano, é capaz de questionar para que raio perde tempo o filho com histórias daquelas que o manual apresenta. Esta liberdade do programa foi o que desencadeou. Chega-se ao ponto de desprezar completamente os conteúdos da filosofia e, em seu lugar, colocar a história da formiga Z pretendendo mostrar aos alunos, sem os questionar sequer, como a formiguinha é um exemplo de emancipação do ser humano face às peias e amarras da civilização e da organização social. Isto faz-me pensar mais numa filosofia sociologizada do que propriamente em filosofia. Isto choca-me até porque temos uma história da filosofia tão rica e retira-se aos jovens a possibilidade de discutir os argumentos de Descartes ou Stuart Mill para discutir a mensagem dogmática de um filme de animação. Curiosamente, por comparação, se olharmos para os programas e manuais de filosofia de países com uma cultura mais sólida que a nossa em filosofia verificamos algo oposto, isto é, os programas nem são abertos nem descuidam os conteúdos. Com efeito, nesses países, as universidades são melhores e as formações também, de modo que um licenciado em filosofia sai da universidade com mais cultura filosófica do que um licenciado de filosofia em Portugal. Isto é um ciclo vicioso: porque saímos mal formados, somos incapazes de elaborar um programa com conteúdos precisos. Porque estamos inflamados do discurso pos moderno, pensamos que fazer um programa com conteúdos precisos é tiranizar a filosofia. Só não pensamos que faltar com as oobrigações ao conhecimento e à razão é ainda mais tirânico.
Por outro lado, o que se passa com a filosofia não lhe é de todo exclusivo. Corresponde a uma visão mais geral do ensino, aquela que é apoiada ainda pelo ideal romântico. Ainda assim é justo também dizer que aqui há uns anos as coisas eram ainda piores.

5.       Que alterações faria nos programas para um maior estímulo dos alunos?

Os alunos precisam de ferramentas práticas e elaboradas para pensar criticamente. No 10º ano introduziria as noções elementares de lógica formal e informal, sem aquela opção entre a lógica aristotélica e a lógica clássica. Para quê ensinar a aristotélica quando temos a clássica que resulta precisamente de um aperfeiçoamento da aristotélica e tem um âmbito de aplicação aos argumentos muito mais vasto?
Sobretudo é necessário pensar um programa da disciplina que seja transversal e útil para a vida de todos os alunos. Não podemos esquecer que a filosofia é uma disciplina de formação geral e é preciso ter a noção muito clara que a maioria dos nossos alunos não querem seguir estudos em filosofia. Então, qual a razão de estudar filosofia em todas as áreas de estudos do secundário? Precisamente porque a filosofia oferece uma capacidade formativa que mais nenhuma outra disciplina oferece. E qual é essa capacidade formativa? É a de ensinar os jovens a pensar com consequência e clareza as questões fundamentais da vida. Se encaramos o ensino da filosofia tendo em mente este pressuposto, certamente que teremos cuidado em apresentar aos estudantes a disciplina com mais rigor, com conteúdos precisos e principalmente com conteúdos filosóficos e não outros, como o exemplo que usei acima da Formiga Z.
Depois introduziria em cada unidade os problemas centrais e básicos da filosofia, como os da filosofia da arte, da mente, filosofia moral, etc. Em cada problema fazia a exposição clara das principais teses em discussão.

6.       Quais são, na sua opinião, os temas que mais e menos interessam aos alunos?
Se expostos com clareza, os problemas centrais da filosofia despertam um interesse quase natural nos estudantes. A vantagem dos problemas da filosofia é que são problemas básicos da vida dos seres humanos, que as pessoas, sem formação elementar em filosofia, têm dificuldade em discutir. Qual é o jovem que nunca se questionou sobre se o gosto no juízo estético é objectivo ou subjectivo, se deus existe ou não, se é moralmente certo ou errado matar animais para os comer, etc.? o que menos interessa aos estudantes é conversa fiada de base de eduquês.

7.       Que metodologias são usadas na suas salas de aulas de filosofia?

A discussão de problemas tal como aprendemos com Sócrates. Uma discussão activa, em que o professor expõe os problemas e os sujeita à discussão. Nas aulas de filosofia, faz-se filosofia se discutirmos com os alunos os problemas. Para isso é precisa uma grande preparação e experiência, mas é muito agradável poder ver os alunos interessados em discutir os problemas.
Rolando Almeida
Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco, Funchal

Sem comentários:

Enviar um comentário