14 de dezembro de 2009

O ensino da filosofia

Há algumas semanas atrás, Domingos Faria, aluno de mestrado em ensino de filosofia na Universidade do Minho, pediu-me para responder a um pequeno questionário sobre o ensino da filosofia no ensino secundário. Eis as perguntas, seguidas das minhas respostas:





1. Para si qual poderá ser a importância da filosofia no Ensino Secundário? Porque é que a filosofia poderá ser importante no currículo escolar e de que modo contribui para os objectivos globais do Ensino Secundário?


O acesso ao conhecimento é, em meu entender, um dos mais importantes direitos das pessoas, pois o conhecimento, além de ter valor intrínseco, é uma condição necessária para o seu desenvolvimento pessoal e profissional, contribuindo para a sua autonomia intelectual. A ignorância, ao invés, contribui para a desigualdade de oportunidades e reduz a liberdade dos cidadãos, coisas que qualquer estado deve combater. Os estados têm, assim, o dever de garantir aos seus cidadãos o acesso ao conhecimento e a escola (não apenas no ensino secundário) serve precisamente para isso. Ora, dado que o conhecimento é um direito das pessoas, que o estado tem de garantir, e dado que a filosofia é uma das áreas centrais do conhecimento, segue-se que a filosofia é importante na formação dos cidadãos.


2. Segundo a sua experiência quais são os desafios actuais do ensino da filosofia?


O ensino da filosofia corre, nos últimos anos, o risco de se esvaziar, tornando-se uma espécie de ensino para a cidadania e outras coisas do género, que são tudo menos filosofia. O desafio principal é, assim, devolver a filosofia e os problemas filosóficos à disciplina de Filosofia. Isso não é fácil, dada a formação pseudo-filosófica que muitas das nossas universidades têm dado a muitos dos actuais e futuros professores. Numa palavra, é preciso reintroduzir os conteúdos filosóficos no ensino de filosofia, o que não se faz sem apostar fortemente numa boa formação dos professores da disciplina.


3. Como ensinar filosofia a uma actual juventude pós-moderna interessada apenas na imagem, no fragmento e no hedonismo?


Não sei se a juventude é pós-moderna e o hedonismo não representa qualquer problema para a filosofia. Alguns dos mais interessantes filósofos, como Mill, defendiam o hedonismo. Os hedonistas podem interessar-se muito por filosofia, até porque a filosofia pode dar muito mais prazer do que jogar PlayStation. Só há uma maneira de a actual juventude se interessar pela filosofia, que é quem lhes ensina filosofia se interessar realmente por filosofia. A filosofia é naturalmente interessante.


4. Considera que os actuais programas de filosofia são adequados a esta juventude?


Os actuais programas de filosofia não são adequados a esta juventude nem a outra qualquer. Isto porque tem de se fazer um esforço enorme para se encontrarem lá os conteúdos filosóficos. Ao contrário do que muitas pessoas supõem, a juventude aborrece-se com a falta de filosofia nas aulas de Filosofia. E tem toda a razão.


5. Que alterações faria nos programas para um maior estímulo dos alunos?


Metia problemas filosóficos e eliminava toda a conversa pseudo-filosófica, sociológica, psicológica, além dos 'tiques' filosoficamente tendenciosos. E tornava o programa bastante mais curto para se poderem discutir com calma os problemas.


6. Quais são, na sua opinião, os temas que mais e menos interessam aos alunos?


Os que menos interessam são, sem sombra de dúvida, os chamados "temas-problemas" propostos pelo programa, que lhes parecem catequese sociológica vaga e disfarçada. Os alunos gostam de ser respeitados e, portanto, não gostam de se sentir intelectualmente manipulados (dizendo-lhes o que devem pensar), mesmo quando não têm consciência disso.


Também não se interessam muito pela filosofia da ciência, dado não terem os conhecimentos empíricos necessários para compreender bem o que está em causa.


Os que mais lhes parecem interessar são o problema do livre-arbítrio, a ética, a filosofia política,  a filosofia da religião (existência de Deus) e lógica. Sublinho que alguns destes conteúdos não estão explicitamente no programa, mas com algum esforço...


7. Que metodologias são usadas na suas salas de aulas de filosofia?


Começar sempre por confrontar directamente os alunos com os problemas filosóficos, utilizando exemplos simples ou situações concretas, reais ou imaginárias. E deixar os alunos dizer tudo o que entenderem, fomentando a discussão aberta, mas disciplinada.


8 comentários:

  1. Há que continuar a desenvolver o gosto pela sabedoria, se os alunos não se apaixonarem pelo conhecimento de que serve estudar? Só para ter bons empregos e ganhar mais? Parece-me demasiado materialista essa visão.

    ResponderEliminar
  2. Aquilo a que chamamos "materialismo" é inadequadamente assim chamado. As ansiedades quanto a ter automóveis, televisores, casas com piscina, etc, não tem a ver com objectos físicos ou matéria. As pessoas identificam a liberdade com o poder e associam a posse de certos objectos a símbolos de poder. Nada disto tem a ver com o desejo dos objectos propriamente dito. Não é pelo tecido que os putos querem t-shirts com o C. Ronaldo nem é pelo conforto e pela poupança de energia que alguém pode desejar um Ferrari.

    Nesse caso também sou materialista, porque desejo ter livros, dinheiro para livros, para leitores de pdf's, para discos de música, leitores de mp3 e outras coisas com as quais posso aquecer o espírito e aprender alguma coisa.

    ResponderEliminar
  3. Aires Almeida

    Há muito tempo que ando com esta pergunta para fazer a um professor de filosofia do ensino secundário e já agora aproveito.

    Tenho andado, com humildade cristã, a ler os livros de filosofia do ensino secundário. Como não sabia qual era o melhor comprei 5 edições diferentes, todas recomendadas pelo Rolando. Verifiquei que no "A Arte de Pensar" se aponta, algumas vezes, como exemplo de qualquer coisa a frase "Deus não existe". Quando se chega à filosofia da religião, e até antes, é natural que essa discussão se coloque. Como classifica um professor um aluno crente que acreditando com base na fé que Deus existe não é capaz de o justificar filosoficamente?

    ResponderEliminar
  4. Parente,
    Olá, como está? Permita-me entrar na discussão: o professor classifica esse aluno da mesmissima forma que um outro que acredita na objectividade do gosto, por exemplo, mas não é capaz de o justificar filosoficamente. O que importa não é no que o aluno acredita. Isso é lá com ele ou pelo menos não é com as aulas de filosofia. Se o problema é filosófico por que razão não tem de procurar justificações racionais e filosóficas? Imagine lá que o mesmo aluno numa aula de matemática acredita que o resultado para um exercício é X, mas quando interrogado diz não saber justificar (apesar de ter acertado no resultado). Como é que o professor o classifica? O professor até pode achar que o aluno é um génio da lâmpada que conseguiu chegar ao resultado certo. Acontece que o aluno pode lá ter chegado por pura sorte. É por essa razão que não basta enunciar resultados ou as nossas crenças, mas apresentar com clareza a justificação ou justificações que temos para as crenças.

    ResponderEliminar
  5. A questão de saber se é epistemicamnte defensável a crença em Deus na ausência de justificações é, ela mesma, apresentada e discutida no manual A Arte de Pensar, 10.º ano, pp. 101-111.

    ResponderEliminar
  6. Caro António Parente,

    Fez muito bem em colocar a pergunta.

    O Rolando já se antecipou e, em termos gerais, concordo com ele. O professor de filosofia não deve classificar as crenças de fulano ou beltrano, pois não é esse o objectivo da discussão filosófica. O que interessa é a discussão racional acerca da existência (ou inexistência de Deus) e a capacidade do aluno para apresentar e avaliar argumentos.

    Um aluno que se recuse a discutir as suas crenças básicas é um aluno que recusa a discussão filosófica. Mas nem mesmo o aluno que invoca a fé para justificar a sua crença na existência de Deus está excluído da discussão filosófica.

    Por exemplo, o aluno pode acreditar que Deus existe e tentar mostrar que a fé é uma justificação tão boa como qualquer outra. Pode também ser capaz de apresentar objecções aos argumentos a favor da inexistência de Deus. Pode até apresentar boas objecções aos argumentos a favor da existência de Deus, dado que não os considera suficientemente fortes para justificar a sua crença com base neles.

    O que se avalia é, então, a sua compreensão do problema e dos argumentos em causa, além da sua capacidade para levantar boas objecções e para apresentar boas respostas a objecções que lhe são feitas, etc.

    ResponderEliminar
  7. Rolando Almeida, Aires Almeida e Desidério Murcho

    Obrigado pelas respostas.

    ResponderEliminar
  8. O que quer dizer com "eliminar" do ensino de filosofia a "conversa sociológica"; e também a "catequese sociológica"?

    ResponderEliminar