8 de dezembro de 2009

O erro é de Russell?


O propósito da filosofia é começar com algo tão simples ao ponto de não parecer digno de mencionar, e acabar com algo tão paradoxal que ninguém o acreditará. (Russell, "A Filosofia do Atomismo Lógico", 1918)
Já vi esta frase repetida muitas vezes, e merece ser repetida, como muitas coisas maravilhosas que Russell escreveu na sua vastíssima e importante obra, tanto filosófica quanto de intervenção social e política. Mas esta afirmação é um disparate.

É um disparate se for mal compreendida. E é mal compreendida sempre que se pensa que o que Russell afirma é próprio da filosofia, distinguindo-a de outras actividades humanas.

Na verdade, começar pelo banal e acabar no inverosímil é a única maneira de proceder. A ilusão metodológica é precisamente pensar que há maneiras de começar em grande, sem ser a partir das banalidades mais simples. E essa é uma das razões pela qual a pseudociências e a filosofia mal feita nada fazem que seja cognitivamente relevante.

Até nas artes começamos pelo banal e acabamos numa sinfonia. Começamos pelo solfejo. Pelo treino físico dos dedos. Pela atenção à postura do corpo. Coisas banais, portanto.

Nas ciências e nas matemáticas começamos por observações e raciocínios muito banais. Tão banais que parece que nem vale a pena começar por aí, mas antes pelas ideias tonitruantes, depois de se subir à montanha com o estômago vazio e se ter descido com a cabeça ainda mais vazia.

O que há de peculiar na filosofia é a segunda parte da afirmação de Russell: depois de começar pelo banal, chegamos a ideias que ninguém quererá aceitar. Na ciência, chega-se a ideias que as pessoas aceitam. Porquê a diferença?

Aplicação tecnológica, nada mais. Fosse a física exactamente o que é, ou a astronomia, ou a matemática, mas sem aplicações práticas que dão dinheiro e conforto, e ninguém aceitaria a autoridade dos cientistas. É a autoridade dos cientistas que faz a generalidade das pessoas aceitar ideias quase ininteligíveis de tão complexas — sobre átomos, o Big Bang, a dinâmica de fluidos, números imaginários, etc. Mas a autoridade dos cientistas só foi conquistada por via do dinheiro e da aplicação prática, e não pela razoabilidade das teorias. Para a generalidade das pessoas não há qualquer diferença entre uma afirmação sobre quanta e uma afirmação sobre espíritos invisíveis — excepto que no primeiro caso há aplicações tecnológicas que funcionam e dinheiro que corre, ao passo que no segundo tudo se fica pela conversa fiada.

As teorias filosóficas têm menor grau de aceitação popular do que as científicas não por qualquer defeito epistémico que tenham, mas por falta de poder social. Mas em ambos os casos se começa com o banal e se acaba com o contra-intuitivo e o inverosímil e o difícil de compreender.

6 comentários:

  1. Mas o facto de a física e outras ciências permitirem "aplicações tecnológicas" e a filosofia não, será algo tão trivial como o seu "nada mais" sugere? A dificuldade de muitas pessoas acharem plausíveis certas teorias filosóficas explicar-se-á apenas assim?
    A discussão acerca da possibilidade da vida ser um sonho distinguir-se-á da discussão acerca da hipótese da luz já ter sido mais rápida ou do peso da hereditariedade na inteligência apenas pela possibilidade de aplicação tecnológica?
    O DM defende mesmo isso?

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  2. O que faz a diferença é a aplicação tecnológica. Mas não é isso que faz a diferença epistemológica. A aplicação tecnológica faz a diferença de prestígio e poder sociais.

    Se algo faz a diferença epistemológica não é nem o facto de se começar pelo banal nem o facto de se acabar com teorias muitíssimo complexas. Isso tanto ocorre na melhor filosofia quanto na melhor ciência.

    A confusão é pensar que o que dá prestígio social dá, por causa desse prestígio social, relevância epistémica. Se acaso a aplicação tecnológica da ciência lhe dá peso epistémico, não pode ser por causa do prestígio social que isso acarreta.

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  3. Penso que o Russell foi muito infeliz com essa afirmação. Se há algum propósito em qualquer atividade filosófica genuína é responder questões como a de saber se deus existe ou o que torna uma ação moralmente apropriada. Se a teoria que resulta dessa tentativa for paradoxal ou contra-intuitiva é algo que só interessa num segundo momento. Além disso, podemos propor tanto respostas contra-intuitivas como respostas intuitivas, seja na ciência ou na filosofia. Por exemplo, a constatção científica de que a nossa galáxia é apenas uma entre bilhões e a constatação filosófica de que a opinião verdadeira não consiste em conhecimento são ambas aceitáveis e perfeitamente intuitivas. Aonde está o elemento paradoxal nesses casos? Russell está equivocado.

    A argumentação do Desidério, dissociada da afirmação do Russell, ainda assim precisa de uma modificação. A idéia de que começamos pelo banal e acabamos no inverosímil é uma tese forte e difícil de ser defendida. De fato, penso que ela se aplica em alguns casos,mas não em todos. Por outro lado a tese mais fraca de que começamos pelo banal e acabamos com algo mais complicado é mais fácil de ser defendida. Concordo com essa tese.

    Sobre o motivo que leva as pessoas a acreditarem na autoridade dos cientistas e não na autoridade dos filósofos há também a falta de rigor metodológico instituído em certos meios acadêmicos de filosofia que não ocorre no meio acadêmico científico. A filosofia hojé é como a ciência no séc XVII: a física de Newton era ensinada com o mesmo entusiasmo que pseudociencias como a alquimia - a instituição acadêmica não separava essas coisas. na filosofia ocorre o mesmo: teorias de filósofos como Williamson são colocadas no mesmo nível (isso quando levadas em consideração!) de bagunças conceituais de intelectuais como Deleuze, por exemplo.

    Outra razão associada a este problema é a falta de consenso: a crença na autoridade faz mais sentido quando não há discordância em todos os pontos do debate, o que ocorre muito na filosofia, mas não na ciência.

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  4. Quando o Desidério diz "As teorias filosóficas têm menor grau de aceitação popular do que as científicas não por qualquer defeito epistémico que tenham, mas por falta de poder social.", isso é verdade sobre o que a maioria acha (o que se reflecte sobre o poder social dos filósofos modernos) mas não no real impacto que a filosofia teve e tem no tecido social presente. O que seria da nossa moderna sociedade aberta sem o contributo filosófico de nomes como Locke, Hume, Madison, Jefferson, Mill e tantos tantos outros. Talvez por parecer um dado tão adquirido hoje em dia, por parecer um passo civilizacional irreversível (que, infelizmente, não é), não fazemos tributo suficiente a essa gente, filósofos de tempos em que era perigoso filosofar, e a quem tanto devemos a nossa liberdade.

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  5. «As teorias filosóficas têm menor grau de aceitação popular do que as científicas não por qualquer defeito epistémico que tenham, mas por falta de poder social.»

    Como o Matheus fez notar, não é bem assim: a falta de consenso entre os filósofos é muito superior à falta de consenso entre os cientistas. Isto pelo menos no que respeita às ciências mais «duras», que são também as que têm mais prestígio social. A enorme falta de consenso entre os filósofos quanto a praticamente todas as questões centrais da filosofia é um facto que eu posso provar com um link:

    http://philpapers.org/surveys/results.pl

    Abraços,
    Pedro Galvão

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  6. Olá, Pedrovski!

    A falta de consenso é um defeito epistémico? Não me parece. Na verdade, pode ser uma virtude. E no caso da filosofia, a falta de consenso é muitas vezes, mas nem sempre, uma virtude. Veja-se o consenso que existe no seio de uma seita religiosa. Isso é epistemicamente virtuoso? Claro que não.

    E acreditas que as ciências têm prestígio social por causa do consenso entre cientistas? Nesse caso por que razão a medicina tem mais prestígio social do que a matemática pura?

    Estou disposto a conceder que o consenso tem alguma influência causal no prestígio social atribuído a uma dada área de estudos. Mas essa influência causal será diminuta comparada com a aplicabilidade tecnológica. O que a malta quer é jogos de computador, automóveis, microondas, e tal, e isso é que dá prestígio à ciência. Tivéssemos nós hoje exactamente a química, física e biologia que temos, mas sem aplicações tecnológicas, e essas ciências seriam vistas como aberrações de gente que faria melhor se ocupasse o tempo com coisas mais úteis, como ordenhar vacas ou fazer chouriços.

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