11 de dezembro de 2009

Operadores de crença



Uma confusão comum é pensar que a suspensão da crença em relação a qualquer afirmação p implica não aceitar a afirmação “Não acredito em p.” Isto é falso e resulta de uma compreensão deficiente do operador de crença “acredita que.” Vejamos as diferenças:
  1. O Asdrúbal acredita que p
  2. O Asdrúbal não acredita que p
  3. O Asdrúbal acredita que não p
Dizer que o Asdrúbal suspende a crença em relação a p é dizer que ele não tem a crença de que p (1 é falsa). Sem dúvida, isto implica que 3 seja falsa: se ele suspende a crença quanto a p, não pode crer que não p.

Mas suspender a crença implica que 1 não é verdadeira, implica que ele não tem a crença de que p.

A confusão é pensar que 2 é o mesmo que 3. Mas é muito diferente. 3 é crer na falsidade de p, ao passo que 2 não é crer na falsidade de p, mas apenas não ter a crença de que p é verdadeira. E isso é implicado pela suspensão da crença. Se a pessoa suspende a crença relativamente a p não só não acredita que p como também não acredita que não p.

Outra confusão é pensar que suspender a crença relativamente a p é não ter qualquer tipo de atitude relativamente a p. Mas isso não é suspender a crença; é nunca ter pensado em p. Por exemplo, quem nunca ouviu falar no Jink Rwoany, um famoso filósofo norueguês que tem a característica de ninguém jamais ter ouvido falar dele (talvez porque acabei de o inventar), não pode suspender a crença quanto à existência ou inexistência de Jink; essa pessoa não só não acredita que Jink existe, como também não acredita que ele não existe; não tem crença alguma sobre Jink.

Ora, não ter qualquer atitude de crença quanto a p implica não acreditar que p. E por isso não ter a crença de que p é algo que é comum a quem suspende a crença quanto a p e a quem não tem qualquer género de crença quanto a p. Mas não ter qualquer tipo de atitude perante p é muito diferente de suspender a crença quanto a p; suspender a crença quanto a p é ter uma atitude doxástica quanto a p, e não não ter qualquer atitude doxástica quanto a p.

6 comentários:

  1. Desidério, alguns comentários ao teu post anterior estavam mesmo a pedir este esclarecimento. Alguns leitores fizeram confusão com o âmbito da negação: na tua afirmação tem um âmbito longo, pois rege o próprio operador de crença, mas para alguns leitores tinha (erradamente) um âmbito curto, não se aplicando ao operador de crença.

    Dito isto, creio que te enganaste ao escrever «Mas suspender a crença implica que 1 é verdadeira».

    Certamente querias escrever «Mas suspender a crença implica que 1 NÃO é verdadeira».

    Ou não?

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  2. Parece-me que o correcto é

    «Mas suspender a crença implica que 2 é verdadeira, implica que ele não tem a crença de que p.»

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  3. Aqui é claro:

    "Se a pessoa suspende a crença relativamente a p não só não acredita que p como também não acredita que não p." Ou seja, suspender a crença implica 2 e 3. Também implica, obviamente, que 1 não é o caso (uma vez que é a negação de 2).

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  4. Viva,

    Penso que o Desidério foi esclarecedor e concordo com o AA na sua correcção; porém, tenho algumas dúvidas que surgiram numa discussão acerca das categorias teológicas de ateu e agnóstico.

    Aparentemente, e sendo p "acreditar que Deus existe" um teísta é alguém que mantém 1). Até aqui tudo bem mas parece-me haver confusões quanto à aplicação das restantes categorias. Um ateísta forte parece-me ser alguém que mantém 3) e um ateísta fraco/agnóstico parece ser alguém que mantém 2): confessam que a questão da validade de p não é decidível.

    Ora, há quem não distinga um ateísmo forte do fraco e mantenha que um ateu é sempre alguém que se rege por 2). Nesse caso, o que seria um agnóstico?

    Por outro lado, embora seja correcto dizer que todos nascemos em 2), não será inevitável que face a todo o conhecimento científico que incorporamos e à questão da causa primeira, associada a p, que 2) se torne impossível de manter e se acabe por ceder a 1) ou 3)?

    Cumprimentos

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  5. Parece-me que este esclarecimento a respeito dos operadores de crença não resolve o dilema da acção.

    Relativamente à crença, temos 3 posições possíveis. Até aqui tudo bem, e o "suspender a crença" não me levanta dúvidas.

    O problema surge quando temos que escolher entre 2(DOIS) cursos de acção, em que um é o mais correcto se p e o outro é mais correcto se "não p".

    "Outra confusão é pensar que suspender a crença relativamente a p é não ter qualquer tipo de atitude relativamente a p "
    Mas então qual é a atitude que tomas relativamente a p (o aquecimento, neste caso)? E se suspendeste a crença, como é que decidiste por essa atitude? Moeda ao ar? Análise probabilistica tipo Pascal?

    Note-se que estou a falar daquelas acções concretas que têm um custo associado, ou seja, em que estamos a abdicar de valor em troca de não contribuir para o aquecimento. Argumentar dizendo que mais vale não contribuir para o aquecimento porque assim estamos do "lado da segurança" e abdicámos de muito pouco não serve; com o dinheiro que gastamos nisso podemos fazer muitas coisas, entre as quais ajudar quem precise.

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  6. Obrigado pelas correcções, Aires e Parente! Já corrigi o post.

    Jaime, suspender a crença quanto a p implica ter uma atitude quanto a p porque preciso pelo menos de considerar a possibilidade de p ser verdadeira, o que implica por sua vez ter consciência de p. No exemplo que dei, tu não suspendes a crença relativamente ao Jori porque não tens qualquer tipo de crença relativamente ao homem porque nunca tinhas ouvido falar dele.

    Parece-me que o problema que estás a levantar está relacionado com o que diz James no The Will to Believe: em alguns casos, não agir porque suspendemos a crença quanto a p, tem consequências, e até as mesmas consequências que teria crer que p é falsa.

    Especificamente no que respeita ao aquecimento global isso não se verifica. Suspender a crença relativamente a 1) existência de aquecimento global, 2) 1 ser antropogénico e 3) ser possível fazer alguma coisa quanto a 1 cujos custos não sejam superiores a aprender a viver com 1, não implica andar por aí a mandar carbono para o ar à maluca. Eu nem tenho automóvel! O que implica é não embarcar ir às manifestações dos verdes, nem financiá-los, nem promovê-los. Na verdade, se pensares bem, quem defende 1, 2 e 3 não está realmente disposto a fazer coisa alguma — usa apenas isso como arma política. Dos verdes, quem está disposto a pagar a carne ao triplo do preço, por esta ser taxada para desincentivar o consumo? Quem está disposto a pagar os automóveis ao triplo do preço pela mesma razão? Ou os transportes públicos? Quem está disposto a que nas cidades se apaguem todas as luzes às 23 horas, e se proíba todos os espectáculos nocturnos? Todas estas medidas simples diminuiriam as emissões de carbono. Mas tenho leve crença de que nenhuma das pessoas que batem no peito e se manifestam quanto ao aquecimento global está disposta a aceitá-las.

    Quanto ao ateu/agnóstico, farei outro post.

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