1 de dezembro de 2009

Pensamento moral


Argumento no artigo "Como Não Compreender a Moral" que há uma ilusão central que impede algumas pessoas de compreender o pensamento genuinamente moral: a ilusão de que as minhas preferências me dão uma razão para agir que as preferências alheias não me dão. E o que pensa o leitor?

22 comentários:

  1. Oi Desidério

    concordo com você. Mas a tese de que todas as preferências pessoais têm o mesmo peso moral enfrenta a seguinte objeção:

    P1) De um ponto de vista imparcial, todas as preferências pessoais são igualmente importantes.

    P2) A minha dedicação a uma série de preferências, como estudar a maior parte do dia, pressupõe que essas preferências são mais importantes que outras, como acabar com a fome no mundo.

    C) Logo, tenho que abandonar a dedicação a uma série de preferências que são importantes para mim, tendo em visto a preferência de outras pessoas, como as que morrem de fome no mundo.


    Se não me engano Thomas Nagel apresenta uma objeção desse tipo no "Visão a Partir de Lugar Nenhum". Penso que ele também esteja de acordo com a sua posição e não me lembro agora se ele dá uma resposta para essa objeção. Parece-me que um dos pontos fortes nessa objeção é que a distinção entre ações moralmente louváveis que são obrigatórias e ações moralmente louváveis que não são obrigatórias desaparece: admitindo que todas as preferências são iguais eu serei compelido a agir moralmente em casos em que eu não seria anteriormente.

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  2. Eu não defendi que todas as preferências são iguais, nem penso tal coisa. O que defendi é que se as minhas preferências me dão razões para agir, as tuas preferências também me dão razões para agir. Defendi que negar isto é presumir que as minhas preferências, só por serem minhas, são mais importantes.

    De nenhuma destas ideias se segue que todas as preferências estão a par. Segue-se apenas que entre a tua preferência para fazer X e a minha preferência para fazer o mesmo, não há em si diferença moral, a não ser que outros factores introduzam uma diferença.

    É compatível com qualquer destas ideias a existência de preferências mais importantes que outras. Por exemplo, a preferência do meu vizinho de não ser torturado é mais importante do que a minha preferência de ficar tranquilamente a ler quando podia telefonar à polícia e impedir que ele fosse torturado.

    Posto isto, será moral ficar a estudar filosofia quando há pessoas a morrer à fome? Sim, desde que outras pessoas estejam a tentar resolver esse problema. Do facto de uma preferência alheia impor um dever moral geral à humanidade não se segue que impõe esse dever a toda a gente ao mesmo tempo. Se isso fosse assim, as pessoas que estão a combater a fome seriam também imorais, porque não estão a salvar a vida das pessoas que levam tiros na Bronx ou as crianças italianas que estão nos hospitais a morrer de cancro. Já agora, seriam também imorais porque não estariam a cumprir o seu dever de ensinar filosofia aos meus alunos.

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  3. É curioso que parece ser intuitivo que nós somos os maiores responsáveis pela nossa própria felicidade, e uma vez que para atingir essa felicidade é necessário a realização de nossas preferências, logo há a impressão de que nós somos os maiores responsáveis pela realização das nossas preferências. Mas disso não se segue que as nossas preferências devam ser consideradas mais importantes ou urgentes que as alheias necessariamente, não é mesmo?
    Há casos em que sim, minhas preferências são prioridade, e casos onde não são. E é o exercício da imparcialidade que me permite distinguir ambas, certo?
    E outra pergunta, supondo que não ouvesse dicotomia entre a minha preferência e a do outro, ainda assim seria possível dilema moral?

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  4. Vou arriscar uma resposta, apesar de estar afastado da literatura da área há séculos.

    Supondo que não ouvesse diferença de importância entre a minha preferência e a do outro, ainda assim seria possível um dilema moral?

    Penso que sim, se aceitarmos alguma versão de teoria ética consequencialista, como um tipo de utilitarismo, por exemplo. Se admitirmos que o critério ético que norteia nossas decisões é maximizar a felicidade do maior número de pessoas, então a quantidade de preferências é que conta. Numa das versões do Trólei, em que podemos escolher matar uma ou quatro pessoas, a segunda opção será a pior, mesmo que todas as preferências sejam igualmente importantes.

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  5. Porque é que a imparcialidade é um requisito crucial do pensamento moral?
    Não pressupõe a imparcialidade em si mesmo um juízo moral particular.
    A imparcialidade é um requisito ou o produto de uma moral particular,segundo a qual devemos dar tanto valor as nossas preferências como às preferências de outrem?

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  6. A imparcialidade não é um requisito do pensamento moral no sentido de ser um pressuposto que, sem qualquer razão, decidimos aceitar. É antes o resultado de uma reflexão prévia elementar, que mostra que as minhas preferências não têm precedência sobre as preferências alheias, em igualdade de circunstâncias. Pensar moralmente não é pensar apenas em satisfazer preferências (para isso não é preciso pensamento moral) mas pensar nas razões que há para satisfazer umas preferências em vez de outras. Caso houvesse razões para dar precedência às minhas preferências, o que aliás seria uma excelente ideia, as pessoas teriam o dever de satisfazer, antes de mais, as minhas preferências. Não vejo mal algum nisso, e é até uma perspectiva que, por alguma razão misteriosa, me atrai bastante. Infelizmente, não encontro uma boa justificação para ela.

    Quanto aos dilemas, parecem-me inevitáveis, seja qual for a teoria do bem ou do correcto que se adopte.

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  7. Bah, Desidério, acho que forçaste a barra ao chamar de “idiota” a máxima do “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti”. A palavra "idiota" me soa exagerada e chega aos meus ouvidos com um tom de leve preconceito ou superioridade, e a sua inserção no texto me parece desprovida de fundamentação.

    Os exemplos que tu deste para demonstrar a "idiotia" da máxima me parecem extrapolar um pouco o "âmbito de incidência" (não encontrei locução melhor) da máxima. Observo que a maioria das pessoas circunscreve – e com boas razões – a interpretação da palavra "faz" (do "faz aos outros") a questões morais relevantes, como infligir dor, matar, roubar, mentir, etc. Aí, não vejo por que ela não faça sentido. Dou um exemplo concreto: "não inflijas dor aos outros, pois tu não gostarias que os outros te infligissem dor". Essa particularização (e tantas outras) da máxima me parece razoável e apta a constituir uma regra moral prima facie válida. Decerto que a máxima toma como parâmetro a "normalidade" do que as pessoas sentem e desejam; assim, surgiriam dificuldades (para a maioria das pessoas, que alegadamente não são masoquistas) se um indivíduo masoquista (que gosta de sentir dor em determinadas circunstâncias) invocasse a aplicação da máxima no tocante a infligir dor.

    Eu tenho a impressão de que os exemplos que tu apresentaste no texto, Desidério, tais como a doação de livros de filosofia (de que tu adorarias ser o donatário, ao passo que outras pessoas não fariam nenhuma questão), não estão compreendidos no campo de incidência da máxima. Eu não consigo expressar adequadamente o que eu quero dizer com "campo de incidência" (talvez essa locução denuncie a minha formação em Direito), mas intuo que o campo de incidência da máxima não inclua coisas triviais como aquelas que tu mencionaste.

    Por outro lado, e se a máxima fosse reformulada para "satisfaz as preferências primordiais dos outros, assim como tu gostarias que os outros satisfizessem as tuas"?

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  8. Começando pela máxima reformulada, é mais uma manifestação da incapacidade para pensar eticamente, pois procura justificar a importância de satisfazer as preferências dos outros com base na satisfação das preferências do eu: faz-me isto a mim que é para eu então fazer a ti; cata-me para eu te catar depois. O eu continua no centro, e os outros são como apêndices. Ou seja, esta máxima manifesta uma vez mais a ideia indefensável de que o eu é mais importante do que os outros.

    Considere-se a seguinte ideia: “Todos os objectos gravitam em torno do meu umbigo.” Isto não é apenas falso. É idiota. É idiota porque é obviamente falso. Ora, a máxima “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti” está ao mesmo nível de falsidade óbvia. E por isso é idiota.

    Podemos argumentar que as pessoas interpretam a máxima de modo a querer dizer “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti -- mas começa por escolher, entre as coisas que gostarias que te fizessem, aquelas que todas as pessoas, ou quase, gostariam que lhes fizessem a elas.” A idiotia não é menor neste caso, mas resulta agora de se usar uma frase que quer dizer batatas para a interpretar como se quisesse dizer cebolas.

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  9. Talvez se possa sumarizar de modo razoavel um criterio etico para a vida e orgqanizacao sociais numa simples frase (embora esteja longe de ser completa). Aqui vai:

    de cada um de acordo com suas capacidades, a cada um de acordo com suas necessidades

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  10. Réplica a Desidério Murcho (em três partes):

    "Podemos argumentar que as pessoas interpretam a máxima de modo a querer dizer 'faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti - mas começa por escolher, entre as coisas que gostarias que te fizessem, aquelas que todas as pessoas, ou quase, gostariam que lhes fizessem a elas.' A idiotia não é menor neste caso, mas resulta agora de se usar uma frase que quer dizer batatas para a interpretar como se quisesse dizer cebolas."

    Por que só a tua interpretação é correta? Por que vale interpretar a máxima como referente a livros de filosofia e não vale interpretá-la como referente a coisas que tu desejarias que os outros te fizessem (desde que essas coisas fossem normalmente desejadas pela maioria das pessoas)?

    Será que a tua interpretação não é mais cebola que a interpretação da maioria das pessoas?

    Na minha opinião, Desidério, tu estás descontextualizando a regra de ouro, principalmente estás descontextualizando a regra de ouro na forma em que foi posta por Jesus (e que é a versão mais difundida). Jesus provavelmente aludiu a necessidades básicas do ser humano, e não a coisas banais ou caprichosas (Mt 7, 9-12):

    "Quem de vós dá ao filho uma pedra, quando ele pede um pão? Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedirem! Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. Nisto consiste a Lei e os Profetas.”

    É certo que as palavras que Jesus utilizou para cunhar a máxima, se forem tomadas de modo isolado, comportam legitimamente qualquer tipo de interpretação que substitua o verbo genérico "fazer" por qualquer outro verbo ou outra expressão mais concreta, como “dar livros de filosofia”, “oferecer cachaça (ou Coca-Cola ou uísque ou congênere)”. E é certo que muitos se ergueriam contra a máxima alegando que não gostam disso ou daquilo e que a máxima coonesta a entronização do eu como pilar do pensamento moral. Outros aproveitariam para enfiar suas preferências mais inconfessáveis (e mais singulares) no lugar da locação “faz [ao outro] o que você gostaria [...]”, a fim de desmoralizar a máxima.

    Só que, se esse procedimento vira moda... Nenhuma frase, nenhum discurso permanece de pé.

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  11. A máxima “faz aos outros o que tu gostarias que os outros te fizessem” pode ser concebida como um convite a se colocar no lugar do outro. Se o outro se encontra numa situação de dificuldade e eu me coloco no seu lugar, eu imagino que tipo de apoio o outro gostaria de receber, por exemplo. Mas é claro que eu faço isso imaginando que tipo de apoio EU gostaria de receber no lugar dele. Nesse sentido, é claro que o “eu” sempre será o ponto de partida ou o centro de referência, pois só um “eu” é capaz de se colocar no lugar de um “outro”. Mas, daí a considerar que a máxima é egocentrista, vai uma larga distância. No fundo, a interpretação mais corrente da máxima pressupõe uma igualdade básica entre as pessoas e uma identidade ou semelhança entre todas as coisas que as pessoas racionais desejam. Essa interpretação pressupõe uma coleção de coisas desejáveis (principalmente de necessidades cuja satisfação é desejável) que seria aplicável a todos os seres humanos. Ela pressupõe também que os homens atinjam um nível tal de racionalidade que eles consigam discernir essas coisas universalmente desejáveis. Ela se apoia na crença de que as necessidades básicas (ou os bens básicos) do ser humano são universais. Em dada situação, as necessidades que eu tenho são iguais às do meu vizinho que se encontra numa situação essencialmente semelhante à minha. Então, o fato de eu me colocar no lugar do outro representa um esforço para tentar reconhecer de quais necessidades básicas o outro carece em dada circunstância – necessidades básicas de que eu também careceria no lugar dele, porque as minhas necessidades básicas e as dele são as mesmas em face das mesmas circunstâncias. Não se trata de eleger os “meus meus gostos pessoais como critério para o que devemos fazer aos outros”, e sim de identificar as necessidades básicas comuns a todos, necessidades que clamam por satisfação num determinado caso. O postulado de que existem necessidades básicas e de que elas são universais certamente é controvertível. Muitas objeções poderiam ser levantadas contra a universalidade das necessidades ou contra a imprecisão do conceito de “necessidade” ou do de “básica”. Mas o postulado não parece ser de uma falsidade ululante que justifique chamá-lo de idiota.

    Quando alguém invoca a regra de ouro como uma razão para agir num caso concreto, vem a reboque da regra o pano de fundo (de pormenores e exemplos) que preenche o significado da regra, que contribui para esclarecer que tipo de desejos ou gostos ou necessidades podem ser solicitados a outrem ou proporcionados a outrem.

    Um argumento contrário à regra de ouro poderia afirmar que a maneira como a regra está fraseada (a sua expressão literal) enfraqueceria a credibilidade da minha tese. (Para relembrar, eu defendo que as pessoas utilizam – e entendem – a máxima não para impor suas preferências pessoais aos outros, e sim para resolver problemas morais relevantes; defendo também que é arbitrária uma interpretação da máxima que exclua essa possibilidade de entendimento.) Mas eu retrucaria que a regra de ouro nada mais é do que precisamente uma máxima: um título, um slogan, um resumo apertado de uma doutrina suplementar que desenvolve pormenorizadamente os critérios de aplicação da regra. Essa regra, aliás, pertence à tradição moral do ocidente, um de cujos ingredientes são os valores e preceitos judaico-cristãos (e a regra de ouro se inclui nessa categoria). Inclusive as religiões orientais (e as culturas orientais) conhecem a regra de ouro, só que com roupagens diversas. Portanto, eu arrisco que é muito provável que um não-cristão ocidental, quando invoca a regra de ouro como razão para agir, recorre (muitas vezes sem saber) a critérios de aplicação fornecidos pela doutrina (de origem cristã) que esmiúça e justifica a regra.

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  12. De qualquer maneira, eu concordo que a máxima possa ter lá seus defeitos. Eu só estou convicto de que é um erro extrair das vísceras dela um suposto elogio ao individualismo ou ao egoísmo. A regra de ouro, aliás, é muito bem complementada pela parábola do bom samaritano. Acho difícil alguém sustentar que a parábola do bom samaritano escamoteie uma ode ao individualismo ou ao egoísmo. E é plenamente aceitável interpretar a parábola do bom samaritano como uma exemplificação da regra de ouro. Alguém aí tacharia de egocentrista o ato de o bom samaritano ajudar o judeu caído por terra? E se viesse à mente do samaritano, ao enxergar o judeu moribundo à beira da estrada, o pensamento de que ele (samaritano) deveria fazer ao judeu aquilo que ele (samaritano) gostaria que o judeu lhe fizesse se ele (samaritano) estivesse no lugar do judeu? E se, inspirado por essa iluminação súbita, o samaritano resolvesse ajudar o judeu? Em suma: se o samaritano, ao estender a mão ao judeu, agisse norteado pela regra de ouro – essa que “manifesta uma vez mais a ideia indefensável de que o eu é mais importante do que os outros” –, sua ação seria egocentrista (ou reveladora de que o eu do samaritano fosse mais importante do que o eu do judeu)? E se essa regra de ouro passasse pela cabeça do levita e do sacerdote (os dois primeiros viajantes que depararam o judeu moribundo e o ignoraram, de acordo com a parábola) e os impelisse a socorrer efetivamente o judeu moribundo porque ambos não gostariam de estar na pele do judeu, essa conduta do levita e do sacerdote (inspirada pela regra de ouro) seria realmente manifestadora da “incapacidade para pensar eticamente”? Afinal, em matéria de moral, não é o resultado que costuma ser decisivo?

    Só o que defendo é que, diante de situações reais moralmente relevantes, a regra de ouro fornece (para a maioria das pessoas, maioria que alegadamente tem apreço por coisas ditas “normais”) um bom farol de como agir.

    Por fim, entendo que convém usar com parcimônia e com critério a palavra "idiota", pois ela exprime um juízo de valor do qual transparecem ou sentimentalismo (que só teria justificação se o alvo tachado de “idiota” fosse notoriamente disparatado, como uma pregação nazista), ou falta de boa argumentação, ou desqualificação do outro ou da ideia do outro. Aliás, não é uma regra do debate intelectual racional (inclusive da seção de comentários desta ótima revista de filosofia) evitar insultos? “Idiota” não é uma palavra utilizada quando se quer insultar outrem? Não é assim que as pessoas a entendem? Ou o insulto dirigido não à pessoa do outro, mas à ideia ou à crença do outro, vale?

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  13. Há muitas ideias idiotas; ideias mal pensadas, que visam uma coisa, mas ocultam o seu oposto. Derrida poderá ter exagerado ao defender que isto ocorre com todo o discurso — até porque nesse caso ocorreria com o dele também — mas é sem dúvida verdade que em muitos discursos o que se diz e o que se oculta no seu seio são coisas opostas.

    Supostamente, a regra de ouro visa o altruísmo. Mas, na verdade, oculta no seu seio uma incapacidade radical para o altruísmo, elegendo o eu, e as suas preferências, como medida e razão da acção. Por exemplo, é possível usar esta máxima para defender a discriminação social. Tome-se o caso do casamento dos homossexuais. Como não sou homossexual, não desejo para mim esse direito, logo excluo os outros desse direito. Uma das coisas piores do mundo é disfarçar o simples preconceito com princípios filosóficos ou religiosos supostamente sofisticados, mas que na realidade estão mal pensados.

    Haverá casos em que temos de usar o raciocínio analógico para decidir o que fazer por alguém? Sim, mas são raros. Nesses casos, não posso perguntar ao outro o que ele prefere, e posso raciocinar que é natural ele preferir aproximadamente o mesmo que eu, sobretudo se for algo de básico — como satisfazer a fome, ou a sede. Mas na maior parte dos casos não preciso de tal coisa — preciso apenas de ouvir o outro, de lhe perguntar quais são as suas preferências, em vez de lhe impor a minhas como medida das que ele deveria ter. E é aqui que a máxima falha. Mas não se limita a falhar. É idiota precisamente porque almeja a ser, ou é assim interpretada, a expressão máxima do altruísmo, quando na verdade é a expressão da incapacidade radical para o altruísmo. É por isso que não é apenas uma máxima moralmente errada — é idiota. É como querer acabar com a discriminação baseada na cor da pele passando a considerar que os brancos são inferiores aos negros.

    Finamente, é muito diferente chamar idiota a alguém e dizer que uma ideia é idiota. Não chamei idiota seja a quem for. Evidentemente, quem acredita numa ideia a que apelidei de idiota, correcta ou incorrectamente, poderá sentir-se ofendido, com todo o direito. Mas esse direito não pode atropelar o meu direito de apelidar de idiota meras ideias. Imaginemos agora que não tenho razão. Então, apenas disse uma falsidade tola e nada há a fazer senão lamentar a minha tolice ou erro. Por outro lado, posso ter razão, mas nesse caso quem acredita que a regra de ouro é a expressão maior do altruísmo pode pura e simplesmente mudar de ideias, continuando intactas todas as suas restantes crenças. Em qualquer dos casos, nenhum dano efectivo foi provocado pela minha escolha de terminologia. A irritação é ser-se obrigado a pôr em causa ideias muito queridas e que tínhamos como sólidas e inabaláveis. Quanto a isto, só posso dizer: bem-vindo à filosofia.

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  14. Caro Desidério,

    Concordo em grande parte com a tua análise da regra de ouro, mas tenho que concordar com o Bernardo relativamente à tua utilização do adjectivo "idiota".

    Como é óbvio, tens/temos o direito de discordar com toda e qualquer ideia, e tens/temos também o direito de manifestar esse desacordo. Aqui a expresão "bem-vindo à filosofia" aplica-se em grande.

    Parece-me no entanto que adjectivar com termos "fortes" as ideias com que não concordamos não é uma boa estratégia apesar de, como dizes, termos o direito de o fazer. Ter o direito a fazer algo está longe de significar que o devemos fazer. O risco de desvirtuar a discussão é brutal, e o valor acrescido é muito pouco ou nulo.

    Imagina que eu tinha começado este comentário dizendo que acho uma idiotice ou estupidez defender o direito a chamar outras ideias de idiotas como tu fizeste, seguindo-se depois a exposição do meu argumento. Tens de concordar que isto dificilmente contribuiria para elevar o debate!

    Percebo que a tua ideia fosse marcar uma posição forte relativamente a uma ideia que é tão difundida e partilhada por muitos, muitas vezes sem percebermos o que ela contém ou implica. Mas podemos marcar uma posição forte e de rotura sem utilizar adjectivos insultuosos.

    Dizer que a ideia x é idiota transmite um forte desacordo, mas dificilmente convida à discussão e certamente que não transmite a mensagem "bem-vindo à filosofia".

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  15. Concordo que o uso do termo "idiota" corre o risco de provocar uma corrida às armas, tornando o desejável debate em mera fanfarronice. Nesse sentido, não é desejável usar termos fortes como esse. Este é um bom argumento contra o uso do termo.

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  16. É a primeira vez que vejo alguém conceber a regra de ouro como potencialmente justificadora da discriminação social. Mas essa tese não tem pé nem cabeça: advogar tal possibilidade extrapola de maneira tão chocante o uso habitual da regra de ouro que não é nenhum pouco convincente. Nem a própria Igreja Católica fundamenta a sua condenação ao homossexualismo nessa regra. O incauto defensor da discriminação social citado no teu exemplo (aquele que utilizaria a regra de ouro para recusar direitos aos homossexuais), se tivesse um pouquinho de juízo, levaria o pensamento adiante e concluiria, baseado na mesma regra de ouro, que ele não gostaria de ser discriminado por sua orientação sexual (independentemente de qual fosse), logo não deveria discriminar qualquer pessoa em razão da respectiva orientação sexual.

    Se a gente levasse a sério as tuas premissas, a gente jogaria na lata do lixo a máxima “os pactos devem ser cumpridos” (que, quer queira, quer não, tem vigência não só na nossa moral, como também no direito das obrigações) só porque ela legitima o mandante de um homicídio exigir do pistoleiro contratado que cumpra a encomenda de matar Fulano. Ou então a gente deve jogar no lixo a máxima que proíbe o roubo só porque ela não se aplica quando uma pessoa rouba um pedaço de pão para saciar a fome. Desidério, tu cometes um erro crucial: ignoras que todas as regras (todas as sentenças que contenham alguma palavrinha deôntica) contêm exceções implícitas. Isso se deve ao fato de a formulação de regras decorrer de generalizações do que ordinariamente acontece. Os anglófonos falam em under inclusiveness e over inclusiveness: alguns casos necessariamente deixam de ser incluídos na regra, ao passo que outros são mal-incluídos. Outros falam em defeasibility, um conceito semelhante. Não vejo por que esses conceitos – até onde eu saiba, surgidos no contexto da teoria do direito – não possam ser estendidos à moral. Um autor brasileiro da área do direito (Humberto Ávila) comenta isso: “A proibição de entrada de cães em restaurantes deve-se ao fato de que os cidadãos normalmente possuem cães e que eles, via de regra, causam mal-estar aos clientes. Qualquer cão está proibido de entrar. E se for um filhote recém-nascido, enrolado numa manta nos braços da dona? Um cão empalhado? Um cão utilizado pela Polícia para encontrar drogas ou um suspeito do tráfico de drogas? Nesses casos, o aplicador [do direito positivo], em vez de meramente focalizar o conceito de ‘cão’, deverá avaliar a razão justificativa da regra para decidir pela sua incidência. Sendo a razão justificativa da regra que proíbe a entrada de cães a proteção do sossego e da segurança dos clientes, poderá decidir a respeito da aplicação da regra aos casos mencionados.” Essas exceções implícitas jamais implicam a invalidade da regra; ao contrário, reforçam o seu núcleo, eliminando do campo da sua incidência os casos que, embora se encaixem no antecedente da regra, colidem com a finalidade da regra.

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  17. No final, teu raciocínio incorre em circularidade: tu dizes que a regra de ouro é idiota porque é a expressão da incapacidade radical para o altruísmo, e por isso ela é idiota. Mas tu não demonstras minimamente aquilo que tu queres provar (que ela seja expressão da incapacidade radical para o altruísmo). Tu só tentas demonstrar que existem aplicações virtuais da máxima inconsistentes com o propósito declarado dela (o propósito de mostrar aos homens quais ações são boas). Só que essas aplicações são tão insólitas que jamais seriam invocadas por um indivíduo moralmente competente – e dotado de um mínimo de inteligência.

    Não tenho nenhum problema em reconhecer que a regra de ouro tenha uma base fincada no “eu”. Aliás, acho que nem poderia deixar de ser. A minha intuição me diz que o pensamento moral tem que partir do “eu”. Se eu não sei o que é bom para mim, como vou saber o que é bom pro outro? Será que é sempre possível saber o que é bom sem que isso (aquilo que for realmente bom) seja primeiramente inferido das minhas circunstâncias pessoais? Eu acho que uma criança somente consegue compreender que são dolorosos os tapas que ela dá no coleguinha (e que portanto ela não deve surrar os coleguinhas) quando ela se dá conta de que a reação que o coleguinha sente é a mesma que ela sente quando alguém lhe desfere um tapa. Por isso, eu repito: a regra de ouro é um ponto de partida e é um resumo. Tem falhas?? Pode tê-las. Mas está longe de ser idiota, como apregoa o nobre filósofo.

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  18. Transcrevo um trechinho de um artigo escrito pelo John Finnis na Enciclopédia Stanford de Filosofia (http://plato.stanford.edu/entries/aquinas-moral-political/):

    "One's affirmative responsibilities are all conditioned by circumstances, and mostly are (conditional) implications of the Golden Rule of doing to or for others what you would wish them to do to or for you. For both these reasons, one cannot make sound judgments about what one should be doing – that is, about what is the “mean” of reasonableness – unless one's wishes are those of a person who understands the opportunities and the circumstances well, and whose concerns and intentions are those of someone whose reasonableness is not corrupted or deflected either by sub-rational desires and aversions or by deformations of will such as pride or presumption. Such a person has the virtues, intellectual and moral, and virtue is thus, and in these respects, required for sound moral judgment. Sometimes the mean of reason, properly assessed by someone of true virtue, calls for heroic virtue (say, immense courage) far beyond conventional measures or expectations of reasonableness, moderation, and the like."

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  19. "Posto isto, será moral ficar a estudar filosofia quando há pessoas a morrer à fome? Sim, desde que outras pessoas estejam a tentar resolver esse problema."

    Não, porque não há pessoas suficientes a tentar resolver esse problema. A preferência de um africano de não morrer à fome é muito superior às preferências de muitos alunos de serem bem ensinados.

    Considerarmos igualmente os interesses de toda a gente, olhando apenas ao seu grau e não de onde são provenientes, leva-nos a consequências bizarras. Por exemplo, a minha decisão de comprar livros para a escola no início do ano é imoral, porque a minha satisfação de estudar pelos livros é muito inferior à satisfação de africanos de comerem condignamente (podia dar-lhes o dinheiro dos livros). A igualdade na consideração de interesses obriga-nos a descer absurdamente o nosso nível de vida, porque há sempre mais uma criança africana que podemos ajudar. Obriga-nos a não ter casa, carro, livros e a trabalhar demasiado para ganhar o máximo de dinheiro possível, pois o nosso interesse em não ter uma vida miserável é muitíssimo inferior aos interesses de africanos que de outra forma não ficariam satisfeitos, se não os ajudássemos.

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  22. Link actualizado para o artigo: http://criticanarede.com/pensamentomoral.html

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