19 de dezembro de 2009

Quando o público é privado e o privado público



Uma das situações mais caricatas das sociedades lusófonas é a ideia de que é aceitável fazer leis sobre a ortografia. Isto deveria ser encarado com estranheza, se nestas sociedades a liberdade política e social fosse uma mentalidade enraizada e não uma importação do estrangeiro. Porque um princípio elementar de liberdade é que só se deve legislar quando não legislar teria efeitos previsivelmente piores do que legislar, o que contrasta com o princípio de todos os regimes totalitaristas, segundo o qual se deve legislar ao máximo, para assegurar o controlo, sobretudo mental, das populações.

Sem legislação sobre a ortografia, ficaríamos na mesma situação que temos quanto à gramática: esta não é determinada por legislação, mas apenas por quem faz gramáticas, vingando as gramáticas mais influentes — ou seja, aquelas que as pessoas, livremente, preferem. Com a legislação, ficamos numa situação em que a ortografia não resulta livremente das escolhas das pessoas, mas antes da imposição de uma clique de pessoas influentes que usam o poder político para impor as suas idiossincrasias aos outros. Este é um caso para dizer que o público — instituições que ganham sem razão poder político — é privado, pois não tem qualquer controlo democrático efectivo, ao passo que o privado, os editores e autores que publicam gramáticas livremente, é público, pois são as escolhas livres das pessoas que determinam quais são as gramáticas mais influentes e quais são as menos influentes.

Coisas da vida.

8 comentários:

  1. Desidério, este é um tema a respeito do qual nada sei, mas sobre o qual gostava de formar uma opinião.

    Pelo que leio neste post e do que li de posts anteriores do Vitor Guerreiro e outros tendo a concordar que legislar sobre ortografia não é um bom princípio.

    O que é que se passa noutros países? Dizem-me, por exemplo, que em França a Academia de Letras (ou algo assim) estipula a tudo o momento quais as palavras a utilizar. Por exemplo, sempre que surge uma nova tecnologia e todo o seu jargão esta instituição determina as traduções oficiais e válidas dessas palavras. Por isso não têm software mas sim logiciel, entre outras coisas.

    Em Portugal verifica-se que tendemos a adoptar uma carrada de estrageirismos, nos dias que correr quase todos de origem inglesa. Se bem que concordo que é um disparate dizer que a partir de agora em vez de "projecto" escrevemos "projeto", já me parece que alguma intervenção deveria haver para evitar que qualquer dia tenhamos metade do nosso vocabulário em comum com os ingleses. Ou então isto não tem importância nenhuma, e faz parte do desenvolvimento cultural e linguístico de um povo.

    Assim pergunto:
    Como é que outros países defendem a sua lingua?
    Achas que se deve dar total liberdade às transformações da língua, mesmo que isso implique adoptarmos vocabulário de outros povos?
    No mesmo seguimento, parece-me que dentro de 1 geração (duas, no máximo), vamos passar a escrever como se de sms se tratasse. Verifico que a rapaziada mais nova já escreve os seus k, lol, msn e afins não só nos sms mas também noutros contextos.

    Se não devemos legislar, devemos deixar a lingua fluir com total liberdade?

    ResponderEliminar
  2. A língua é das pessoas, e as pessoas devem poder usá-la como querem. A ideia de defender a língua parece-me disparatada porque todas as línguas são dinâmicas e evoluem em contacto com outras línguas, e em resultado dos usos que lhes queremos dar. Para comprar batatas e escrever SMS, um certo tipo de uso da língua serve. Mas para escrever um artigo sofisticado sobre o Sol ou a segunda guerra mundial, esse mesmo registo linguístico não serve. Cada macaco no seu galho.

    A língua inglesa não está em maiores dificuldades do que a francesa, apesar de esta última ser objecto de legislação centralista, e a primeira não. Ironicamente, apesar de ser proibido, toda a gente em França diz "weekend", mas com pronúncia francesa, em vez de usarem o obrigatório por lei "fin de semaine." E qual é o problema disso?

    ResponderEliminar
  3. li o post e, salvo melhor opinião, discordo por uma razão muito simples a legislação a que se refere o autor do post será eventualmente (?) a do acordo ortográfico. pois aqui não se trata de estar ou não sob a alçada do Legislador, e muito menos do que é público ou privado. Na minha modesta opiniao do que se trata é tão somente de uma uniformização racional da escrita enquanto países faladores da mesma língua. In extremis, o corolário do que se diz no post levaria a que não houvesse razão para aulas de "hortografia" e que todos "podecem iscrever como lhes apetessesse" a gramática é tb ela importante na medida em que é preciso saber que é diferente "fazer isto porque me apetece" de "foi a razão por que eu fiz isto". Para além disto, considero que independentemente do dicionário ou gramática que se compre, sejam eles de que editora forem, a não ser que contenham erros, terão todas as mesmas regras ortográficas e gramaticais.

    ResponderEliminar
  4. O erro da leitora do comentário anterior é pensar que sem legislação cada qual iria escrever como lhe apetecesse. Isto é falso. Não há legislação sobre a ortografia inglesa, mas não há qualquer anarquia ortográfica. E não há legislação sobre a gramática portuguesa, e também não há anarquia gramatical. Por isso, não há razão para pensar que sem legislação sobre a ortografia haveria anarquia ortográfica.

    Note-se, aliás, como este é o género de justificação de todo o estado totalitário: sem mais esta lei, que regula X, X seria uma anarquia -- quando na verdade, sem mais essa lei sobre X, X não seria uma anarquia. O estado apenas precisa de legislar sobre X para controlar os cidadãos, nada mais.

    ResponderEliminar
  5. A ideia de que o estado tem de intervir para defender a cultura ou a língua é incompatível com a democracia. Por uma razão muito simples:

    Não tenho de aceitar à força a ideia de que

    a) é preciso defender a língua ou que tal coisa sequer é possível.
    b) não tenho de ser nacionalista.
    c) não tenho de achar que a língua é um problema de estado ou uma questão de "desígnio nacional"
    d) não tenho de acreditar em desígnios nacionais
    e) mesmo que eu defenda qualquer ideia sobre o cultivo da língua, não sou obrigado a concordar com os teóricos do acordo.

    Em democracia o estado, se tem algum papel, não serve para enfiar ideologias pela goela dos cidadãos abaixo.

    Depois, mesmo que, num cenário possível, a língua mudasse a tal ponto que fosse substituída por outra coisa qualquer... qual o problema? Não foi assim que surgiram as línguas modernas?
    O que é relevante é saber se publicamos bons livros, originais ou traduções, e não qual o estado particular de "evolução" da língua que temos. É ridículo obrigar as pessoas a escrever como agrada ao Dr. Malaca Casteleiro a pretexto de que, magicamente, amanhã temos génios a escrever e a comunicar através do Atlântico.

    Pessoalmente, isto só me dá cada vez mais vontade de deixar de escrever em português. Acaba-se o disparate.

    ResponderEliminar
  6. Certo. Foram apresentados bons argumentos relativamente à não legislação / regulamentação sobre a língua. É claro que em qualquer conversa onde se adiantem estes argumentos virá a resposta: mas isto é o nosso património cultural; qualquer dia estamos todos a falar inglês; não podemos admitir que a língua se desvirtue desta maneira; etc.

    Julgo que esses argumentos não colhem, mas das vezes que tentei avançar um pouco nesta discussão não consegui passar desta "barreira". é lixado...

    Bem, mas a questão que coloco agora é outra. Do ponto de vista económico, Portugal tem todo o interesse em "colar-se" aos países que falam português, particularmente ao Brasil. Ao partilharmos uma língua ficamos, supostamente, mais próximos. Portugal, dada a proximidade cultural com o Brasil, pode funcionar um pouco como a ponte entre a Europa e este país. No fundo, passamos a "representar" mais de 300 milhões de pessoas junto da CE.

    Imaginemos, a bem do argumento, que de facto há vantagens estratégicas e económicas nesta proximidade cultural. Será que nesse caso poderá fazer sentido forçar um pouco a aproximação do português utilizado pelos dois países?

    ResponderEliminar
  7. Jaime, são boas as questões que levantas. Começando pelo fim: a aproximação entre os países lusófonos é vantajosa; mas isso não se consegue com acordos ortográficos. Na verdade, o que mais nos une, culturalmente, é a ortografia. Onde estamos mais afastados é na gramática, no léxico e, sobretudo, na pronúncia e na produção cultural, que não transita de países para países. Ora, nenhuma ortografia comum vai resolver estes problemas. Pior: o acordo ortográfico foi feito com base em pressupostos teóricos incoerentes, pois procura aproximar a ortografia da fonética — mas é precisamente na fonética que as diferentes maneiras de falar o português se afastam! O acordo é uma mentira política; não serve para dar maior peso internacional aos países lusófonos porque não serve sequer para os aproximar linguisticamente, quanto mais cultural e economicamente.

    Quanto ao património cultural, para ser um património cultural que valha a pena preservar são necessárias duas condições. Primeiro, que seja de todos e não de quem usa o poder político para mandar os outros escrever como eles querem; segundo, que os donos da língua — todos os lusófonos — a queiram preservar.

    Acresce ainda um aspecto curioso. Não se preserva uma igreja barroca deitando abaixo paredes, mandando instalar ar condicionado e marquises de alumínio. Preserva-se mantendo-a como era.

    Ora bem, de onde virá a ideia de que se preserva a língua mudando-a artificialmente a cada 50 anos? Entre-se numa biblioteca pública: quase nenhuns daqueles livros são hoje legíveis precisamente porque as sucessivas reformas ortográficas não preservaram a língua. Ao passo que um inglês pode ler um livro de Hume publicado no séc. XVIII, nós não conseguimos ler o Eça nem o Pessoa em livros publicados no séc. XIX, porque a ortografia foi completamente avacalhada por reformas ortográficas sucessivas. Como se pode chamar a isto preservação da língua?

    ResponderEliminar