15 de dezembro de 2009

A sociedade é que não me deixa


A Cultura, os Livros, a Ciência, as Artes, a Espiritualidade — tudo isto é Maravilhoso, mas a sociedade, superficial, não se interessa por essas coisas. A sociedade é materialista e hedonista e etc. Ah, se não o fosse...
É comum ouvir-se ou ler-se este lugar-comum. E eu penso que é uma mentira que esconde algo. Nomeadamente, o desinteresse que tem quem lhe dá voz pelas coisas que diz preferir. Depois, é mais fácil deitar as culpas para cima dos outros, e assim manter a auto-imagem de que nós somos realmente Superiores, Cultos, Artísticos, etc.

Mas tudo isto é mentira. Quem tem este tipo de discurso não são as pessoas das classes tão desfavorecidas que não podem escolher dedicar-se à ciência, às artes ou à cultura; pelo contrário, são pessoas da classe média, com casa própria, às vezes mais de uma, automóvel, televisão de plasma, telemóveis dos caros e férias pagas. São pessoas que se quiserem têm o tempo e os recursos para ler, estudar, visitar museus ou exposições de arte. Apenas não o fazem porque na verdade preferem frivolidades a tudo isso — mas não o querem admitir.

A vida de praticamente todos os artistas, cientistas ou filósofos é um teste contínuo à força de vontade, uma luta constante contra todos os obstáculos das frivolidades do dia-a-dia, que nos roubam tempo e tornam mais fácil não fazer o que mais valorizamos. E é curioso que é tanto mais alta a probabilidade de não se dar voz às ideias feitas que estou a denunciar quanto mais a pessoa realmente se dedica às artes, ciências ou cultura.

É argumentável que as ideias feitas que estou a denunciar têm origem numa consciência vaga de que se estivéssemos rodeados de pessoas dedicadas às artes, ciências e cultura também nós teríamos a força de vontade necessária para nos dedicarmos a essas coisas, em vez de ficarmos a criar barriga vendo futebol e novelas, arrotando e bebendo cerveja. Mas isto é na verdade uma ilusão. Quem escolhe uma vida frívola sente-se muito aborrecido se tiver de passar um fim-de-semana sozinho a ler um livro ou se tiver de escrever um artigo ou de pintar um quadro ou de aturar uma conversa de duas horas que não seja frívola e não inclua dez pessoas aos berros. E é por isso mesmo que escolheu a vida frívola.

Em suma, a ideia feita consiste em culpar a sociedade por não nos deixar ser o que na realidade não temos interesse em ser — pois se o tivéssemos sê-lo-íamos — mas queremos fingir que temos interesse em ser por pensar vagamente que isso dá estatuto.

5 comentários:

  1. Todo esse discurso serve para refletir um "glamour" mesquinho. Não há vontade de quem clama por isso, busca por isso, pois, se realmente quer, nada o impede de alcançar a não ser si mesmo.
    Alguns deterministas justificam estas escolhas à sentença em um papel. A determinação de algo, de um gosto, de uma ação e uma vontade, passa pela livre deliberação de fazer escolhas e não apenas reclamar por elas.
    E lembro, Filosofia é vontade, como você já disse, não é status ou autoridade.

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  2. Belo artigo. Reflecte um auto-exame que deveríamos fazer com mais frequência. Não me vou por a filosofar porque não gosto de o fazer. Contudo, compreendo e entendo muito bem a mensagem do artigo (ao menos penso que sim).

    Este nosso hábito de por a culpa nos outros... é geralmente sintoma de que algo em nós vai mal...

    Cumprimentos,

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  3. A atitude natural, normal, nunca é avaliar com justeza uma situação. É procurar no mundo a causa da nossa desgraça. Vemos isto todos os dias: uma pessoa arranca com o automóvel mais ou menos ao mesmo tempo que outra, nenhum dos dois vê o outro, dão um toque ligeiro sem consequências. O primeiro impulso é berrar ao vizinho "Não me viu?". Mas o próprio tão-pouco viu coisa alguma.
    O sapato fica preso entre duas pedras da calçada. O primeiro impulso não é pensar que andar de saltos altos em certos pavimentos torna provável aquele acontecimento. O primeiro impulso é bradar "Fazem o passeio assim!"

    Culpamos a cidade onde nascemos, os vizinhos que temos, o mundo, a política, o não ter nascido antes, o não ter nascido depois, a língua que falamos, a língua que não falamos, o ter nascido num país e não noutro, ou noutro e não noutro ainda...

    Tudo menos parar, pensar: "que tipo de mundo quero ter?", "que tipo de pessoa quero ser?" - e agir em consonância, com gestos simples, acessíveis, mas que não têm resultados ruidosos nem chamam a atenção nem salvam o mundo de uma só penada, nem dão carisma, nem ares de Alta Intelectualidade.

    Ah, como eu seria um Grande Artista... se todos à minha volta não fossem viciados na Nintendo.

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  4. Caro Desidério,

    Concordo com você. Cada pessoa precisa de objetivos e lutar com todas as forças, abrir todos os caminhos para alcançá-los.

    É claro que cada um é responsável pelo que conquista. No entanto subestimar o poder do ambiente e reponsabilizar o indivíduo por todos seus inveses leva a uma frustração desnecessária.

    Um exemplo claro disso está no artigo que postei em meu blog: Moderador covarde da Veja.

    []'s
    Cacilhas, La Batalema

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  5. Tentar se ver livre desses, digamos, falsos impulsos sociais, é realmente uma luta difícil. Somos bombardeados intensamente por todos os lados para dar valor as mais diferentes frivolidades do mundo atual (não gosto de chamar Mundo Moderno porque o Mundo é sempre moderno na época em que se encontra).

    Ótimo artigo Desidério. Sempre que posso recomendo o blog criticanarede. Bom trabalho!

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