3 de dezembro de 2009

Uma ilusão metodológica recorrente



Para saber se temos leite no frigorífico não fazemos a dança da chuva. Levantamos as ancas do sofá e vamos lá ver. Para saber se nos enganámos no troco do jornal não jejuamos primeiro para limpar a alma. Pegamos no lápis e raciocinamos. Em geral, na vida, sabemos as coisas ou directamente ou inferindo de outras coisas. E isto nada tem de mágico, nem de misterioso, nem de especial.

A ciência e a filosofia é apenas a extensão disto. Mas como o que queremos saber é muitíssimo mais difícil, fazemos duas mudanças apenas. Primeiro, procuramos erros, activamente. Segundo, somos mais sistemáticos.

A magia, as astrologias e as filosofias mal feitas têm em comum a ilusão de que o género de actividade cognitiva que usamos no dia-a-dia tem de ser abandonada quando se trata de tentar saber Coisas Importantes, colocando no seu lugar Métodos Especiais. O que há de comum a estes Métodos Especiais é que temos de Abandonar a Sensatez, passando a usar as palavras para se dizer coisas que ou não se entendem bem ou são evidentemente tolas. Mas como abandonámos as nossas práticas cognitivas mundanas, não nos apercebemos de que são tolas. Daí a estranheza: vemos pessoas que sabem fazer trabalhar um microondas, ou que conduzem um automóvel e que em toda a sua vida usam as práticas cognitivas normais que o resto da humanidade também usa; mas quando desatam a falar de filosofia ou Assuntos Profundos entram Noutra Dimensão e tudo fica turvo, lamacento, misterioso e, sobretudo, intelectualmente trapaceiro.

Que razão haverá para pensar que os Métodos Especiais, que nunca são usados excepto para dizer Coisas Especiais, são mais fidedignos do que as nossas práticas cognitivas usuais, que provam todos os dias que funcionam?

Nenhuma. É essa a ilusão.

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