28 de fevereiro de 2009

J. S. Mill

Todo o silenciar de uma discussão constitui uma pressuposição de infalibilidade.

Nigel Warburton

Quem quer que silencie alguém porque acredita que a opinião da outra pessoa é falsa, pressupõe a infalibilidade.
 A Very Short Introduction to Free Speech

23 de fevereiro de 2009

borlistas / free riders

No que diz respeito à adaptação portuguesa do termo "free rider", cheguei à conclusão de que a melhor adaptação será "borlista". Pela razão de as adaptações que remetem para a ideia da "boleia" e do indivíduo "que anda à boleia" serem imprecisas.
Por um lado, o termo inglês para "indivíduo que anda à boleia" é "hitchhiker" e não "free rider". Por outro lado, não é claro que um "hitchhiker" seja um "free rider". Exemplos de "free riding" são andar à boleia sem o conhecimento de quem nos dá boleia ou usar a ligação "wireless" à Internet do nosso vizinho sem que este saiba. Quando nos dão voluntariamente boleia, nada disso está em desacordo com aquilo a que Nozick chama o "princípio da justiça na transferência": uma distribuição de possessões é justa se teve lugar a partir de uma distribuição anterior justa, sem violar os direitos seja de quem for. O borlista, o "free rider", é precisamente aquele que transgride o princípio de justiça na transferência. Outro exemplo:
Podemos pensar que ao darmos dinheiro a um músico na rua, estamos a fazer "caridade" e que este é um "free rider", mas tal raciocínio está errado. Na verdade, o músico de rua está a dar-nos algo em troca e é ainda mais honesto do que o músico que nos atrai para uma sala de espectáculos e, depois de nos cobrar 50 euros, até pode dar um espectáculo medíocre e no entanto ninguém se queixa. O artista de rua dá-nos o mesmo produto e cada um só paga na medida do valor que atribui ao produto, o que até pode ser injusto para o músico de rua, caso alguém o fique a apreciar durante muito tempo e lhe deixe 10 cêntimos no chapéu quando até dispõe de riqueza mais do que suficiente para lhe dar mais sem ser prejudicado. Temos de fazer tábua rasa dos nossos preconceitos quando é preciso avaliar quem é e quem não é "free rider". Um maltrapilho pode não ser um "free rider" e, por outro lado, muitos "free riders" podem andar de fato e gravata. Um "hitchhiker", por exemplo, pode estar a compensar-nos, impedindo a solidão de uma viagem longa, havendo assim uma troca justa e não uma transferência injusta de custos.
Por estas razões, creio que a melhor adaptação para português é a expressão "borlista".

22 de fevereiro de 2009

sobre a expressão "filosofia" e o seu uso

A filosofia lida frequentemente com aquele tipo de expressões que todos sabemos usar nos contextos triviais mas em que raramente pensamos com alguma coerência e sistematicidade. Entre elas conta-se expressões como "música", "arte", "direitos", "entidade" e, obviamente, "filosofia".

Na sua maioria, as pessoas usam a palavra filosofia para descrever aquilo a que um filósofo chamaria com maior propriedade «conjunto de crenças acerca de coisas intriviais». Contudo, não só a filosofia pode ser acerca das coisas mais triviais, como não consiste num conjunto de crenças. As crenças são aquilo com que o trabalho filosófico começa e são também parcialmente aquilo que resulta do trabalho filosófico. Assim, por exemplo, ao pensar filosoficamente na questão do livre-arbítrio, podemos alcançar a crença de que um universo indeterminista seria tão problemático para o livre-arbítrio como um universo determinista, mesmo que não resolvamos a questão do livre-arbítrio. Os filósofos adoptam estratégias diferentes na tentativa de lhes responder, estratégias que passam a testar usando argumentos, contra-argumentos, experiências mentais, contra-exemplos, etc.

No ensino tradicional com que todos os que de nós frequentaram cursos de filosofia em Portugal contactaram, nada se faz para corrigir esta tendência para identificar "uma filosofia" com "um conjunto de crenças sobre assuntos intriviais", deslocando a atenção dos argumentos, contra-argumentos, experiências mentais e contra-exemplos, como coisas menores, ou, no linguajar de alguns professores mais ideológicos: "metafísica de sapateiros" (esta foi de facto a expressão usada por um docente quando um aluno leitor da Crítica usou uma tradução minha do "Por Que Não Nada" de Earl Conee numa aula de "metafísica", ou melhor dizendo, numa aula de paráfrases fraseológicas para impressionar aqueles a quem se rotula como "sapateiros").

O resultado é que as pessoas pensam que qualquer conjunto de afirmações meio malucas, muito gerais, nunca sustentadas com argumentação cuidada, constituem "a filosofia" de Fulano ou Sicrano. Assim, as minhas ideias malucas acerca de educação musical, por exemplo, serão a minha "filosofia" da educação musical. Deste ponto de vista, qualquer religião, porque consiste num corpo de afirmações, tem uma "filosofia nuclear" ou seja, uma "cosmovisão", que se considera sinónima de "filosofia".

Outra consequência perversa deste estado de coisas é a consolidação do desprezo popular pela filosofia como coisa excêntrica e desligada da realidade. Preconceito que os praticantes da fraseologia barata para oprimir "sapateiros" em nada contribuem para diminuir e tudo fazem para perpetuar. Admirável é também que os alunos sejam obrigados a aceitar, numa aula de filosofia, que um professor rejeite o seu trabalho com base num gracejo arbitrário e elitista deste calibre, sem que sinta a necessidade de defender argumentativamente a sua posição ou por que raio de razão acha que fazer paráfrases incríticas de Heidegger é mais filosófico do que pensar disciplinadamente numa questão metafísica, sem demonstrações de erudição vazia para oprimir "sapateiros". O que acha o leitor?

21 de fevereiro de 2009

Câmara Clara, sobre arte e surrealismo

Estarei amanhã (domingo) à noite no programa da RTP2 Câmara Clara, de Paula Moura Pinheiro, para uma conversa sobre arte, humor e surrealismo com o crítico de arte Rui-Mário Gonçalves.

Não se trata bem de uma discussão filosófica, mas de uma conversa sobre história e crítica de arte, com algumas incursões filosóficas. Aqui fica a sugestão, para quem se interessa pelo assunto.

20 de fevereiro de 2009

O "ranking" dos leitores


Terminou a votação dos nossos leitores para escolher o mais importante filósofo do século passado. O critério foi o mais alargado possível, pois foi simplesmente o que cada um entendesse. Os 125 votantes colocaram Russell no primeiro lugar, a uma apreciável distância do segundo, Wittgenstein, e do terceiro, Heidegger. Já fora do pódio, seguiram-se Popper, Sartre, Frege e Quine, por esta ordem. O menos votado foi Rorty, com apenas um voto.

Fiquei surpreendido, pois estava à espera que Wittgenstein ganhasse e que Sartre tivesse mais votos. O primeiro porque é daqueles nomes que surgem nas discussões a propósito de tudo e de nada. E o segundo porque era um lugar-comum na formação académica de muitos de nós - bom, pelo menos dos quarentões, como eu. Mas penso que o primeiro lugar está muito bem atribuído e que a votação em Russell é justa.

Considero menos justo os lugares de Kripke e de Rawls, sobretudo do primeiro. Isto porque Kripke - o único da lista que ainda está vivo - apresentou ideias e argumentos fundamentais para a discussão contemporânea de várias disciplinas filosóficas, como a metafísica, a filosofia da linguagem e a filosofia da mente. E Rawls porque revitalizou a filosofia política contemporânea, dando origem a uma das mais intensas discussões filosóficas das últimas décadas.

Há ainda a registar o facto de 5% dos votantes escolherem outro nome, que não os da lista. Dado que nesses 5% podem caber nomes como Habermas, Foucault e Ricoeur, por um lado, ou Putnam, Nozick, Williams, Carnap, Davidson e Singer, por outro, fica-se com a ideia que a lista inicial é equilibrada e não é tendenciosa.

Já agora, para quem vê as coisas por países, na lista de 12 filósofos há 4 americanos, 3 alemães, 2 franceses, 1 austríaco, um austro-britânico e um britânico.

O que vos parece tudo isto?

19 de fevereiro de 2009

Filosofia Pública

A colecção Filosofia Pública, dirigida por Pedro Galvão, tem agora uma secção especial na Crítica, aqui. Nesta colecção foram já publicados dois títulos: A Ética do Aborto, org. por Pedro Galvão, e O Que é a Arte?, org. por Carmo D'Orey. O terceiro título deverá sair em breve, foi organizado por mim, e tem o título Viver Para Quê?

Esta colecção cumpre um papel muitíssimo importante em Portugal, pois não há infelizmente o hábito de publicar antologias de textos. As antologias são fundamentais para professores, estudantes e público em geral, pois disponibilizam artigos originalmente publicados em revistas académicas e que de outro modo ficariam inacessíveis ao grande público, e não apenas por não estarem originalmente escritos em português.

Infelizmente o ritmo da colecção tem sido mais lento do que todos desejamos, e a sua distribuição nas livrarias, ao que me dizem, não tem também sido das melhores, infelizmente. Quanto a este último aspecto talvez os leitores possam ajudar, encomendando títulos desta colecção na sua livraria, e oferencendo esses livros aos amigos. Fica a sugestão.

18 de fevereiro de 2009

Paradoxos multiculturalistas

Como grande parte das ideias feitas, o multiculturalismo hoje em dia em moda é a meu ver insustentável por vários motivos. Um dos quais é a sua incoerência. Julian Baggini exprime bem este problema no pequeno texto especialmente traduzido para a Crítica por Vítor Guerreiro que acabei de publicar: "O Paradoxo do Pão Indiano", retirado do livro que no Brasil tem o título O Porco Filósofo, mas cujo original é The Pig That Wants to Be Eaten and 99 Other Thought Experiments.

16 de fevereiro de 2009

Palavrões, filósofos e pensadores


Acabei de publicar a página referente ao mais recente livro da colecção Filosoficamente, da Bizâncio: Não de F**** o Juízo: Crítica da Manipulação Mental, de Colin McGinn, de quem já publicámos nesta colecção o excelente Como se Faz um Filósofo. Neste seu mais recente livro, McGinn faz uma análise deambulatória do conceito de psicofoda, que ele defende ser um género peculiar de manipulação mental.

Esta pequena análise, assim como a de Harry Frankfurt, Da Treta, exibe uma peculiaridade relevante para a discussão que teve lugar neste blog sobre os maus pensadores da moda actual. Penso que uma das razões pelas quais os ensaios de pessoas como Frankfurt, McGinn, Orwell e outros não interessam a quem se interessa pelos bons maus pensadores é que a prosa destes autores não serve primariamente para apaziguar a alma e não está recheada de referências culturais que são boas para mandar bocas pretensiosas em ocasiões propícias. Ao invés, implicam da parte do leitor uma capacidade para seguir ideias cuidadosamente articuladas ao longo de várias páginase têm uma intenção exclusivamente cognitiva, características sobremaneira desinteressantes para quem procura apaziguar a alma com discursos inspiradores. Mas, claro, por isso mesmo é que muitos outros leitores preferem estes pensadores aos bons maus pensadores da moda.

O autor do melhor comentário, neste post, à psicofoda dos bons maus pensadores recebe gratuitamente em casa um exemplar deste livro. Este passatempo é apenas para moradores em Portugal, termina no próximo dia 20 às 23:50, e é promovido pela Bizâncio.

14 de fevereiro de 2009

O Segredo

Dado o sucesso do self-help “como ser um bom mau pensador em cinco lições e meia” convém aqui revelar o segredo por trás do mesmo. Tem-se perguntado sobre o que torna estas cinco regras práticas conducentes a um bom mau pensador e nem sempre é claro o porquê. Para mais, dado que uns pensadores são melhores nuns pontos que noutros é difícil de os classificar. Um pensador, por exemplo, um filosofo marxista, pode ser exímio no ponto 5 “Pregue altivamente contra qualquer coisa abstracta” e apresentar deficiências graves no ponto 2 “Nunca argumente.” Enquanto um outro pode ter um domínio completo sobre esta última regra.
Uma dificuldade contígua é a de que ser bom a alguma coisa requer esforço e para que nos esforcemos devidamente convém saber o fim, o objectivo do nosso esforço.

A esta altura, decerto que ao bom mau pensador já lhe ocorreu que o objectivo pretendido é o de ser mau pensador, pelo que esta prelecção seria ociosa. O que decerto é um raciocina exemplar para um bom mau pensador na medida em que evita qualquer compreensão maior da questão. No entanto como queremos ajudar todos aqueles que sonham com ser grandes maus pensadores, convêm excepcionalmente e com precaução tentar iluminar a questão.
Este segredo não deve continuar nas mãos de uns poucos privilegiados. Todos os grandes maus pensadores a souberam, se não explicitamente, implicitamente. Está, afinal de contas ao alcance de qualquer um que seja diligente.

O segredo, a regra de ouro, de qualquer bom mau pensador é a procura activa do estreitamento mental. Evitar activamente qualquer compreensão, iluminação, clareza ou contacto com a realidade na actividade intelectual. O segredo está em evitar, nos discursos, nos livros ou artigos que se publica que causem qualquer aumento cognitivo no leitor. O que, como todos sabemos não é fácil. As distracções saem caras e por vezes mesmo nos livros dos grandes maus pensadores se encontra passagens de verdadeira inteligência e insight. Mas no mundo competitivo em que vivemos ser realmente bom a qualquer coisa não é fácil.

Como exercício deixo ao leitor o trabalho de demonstrar como da regra de ouro se podem extrair as cinco regras mencionadas em “como ser um bom mau pensador em cinco lições e meia”

13 de fevereiro de 2009

Como ser um bom mau pensador em cinco lições e meia

  1. Não pense coisa alguma. Limite-se a pegar, baralhar e voltar a dar aquilo que os bem-pensantes querem ouvir. Coisas como um elogio masturbatório dos livros, da Cultura Europeia (com maiúscula), da cultura aborígene, ou de qualquer outra ideia feita.
  2. Nunca argumente. Limite-se a dizer que as coisas são assim, sem dar ao leitor qualquer razão para pensar que realmente são assim. Isto porque se apresentar argumentos, obrigará o leitor a raciocinar, ficando por isso perigosamente a um passo de se atrever a discordar de si — vendo imediatamente quão fácil é fazer tal coisa. Lembre-se: para ser um bom mau pensador é crucial nunca pensar seja o que for, mas dar a sensação que pensa realmente coisas profundas.
  3. Use muitas palavras, referências e citações que amedrontem o leitor e o façam pensar que ele não está à sua altura. Isto não só tem a vantagem de ocultar o facto de o bom mau pensador nada pensar realmente, como dá também ao leitor a ideia de que o autor é erudito, quando na verdade ser erudito significa saber realmente alguma coisa em primeira mão, coisa que o bom mau pensador não sabe.
  4. Associe. Associe tudo. Palavras, ideias, imagens. Associe qualquer coisa com qualquer outra e das maneiras mais inesperadas. O que dá élan (uma boa palavra) ao bom mau pensador é a impressão provocada no leitor de que é inteligente, sem que contudo tal impressão tenha origem num só raciocínio minimamente plausível, sofisticado e devidamente fundamentado.
  5. Pregue altivamente contra qualquer coisa abstracta e sem contornos precisos: o capitalismo, o barbarismo, a modernidade, a ciência, o óleo de fígado de bacalhau. Tem de ser algo que pareça real e concreto, mas que depois você interpreta de maneira tão abstracta e descaracterizada que lhe permitirá sugerir sibilinamente que mantém conexões com as coisas mais improváveis, conexões essas que só você vê (aprofundando portanto a falsa impressão de que é inteligente). Poderá assim afirmar que, no fundo, os panos do pó são o símbolo grotesco do capitalismo, que por sua vez é culpado pela notória ausência de poesia lírica entre os bosquímanos. Lembre-se: surpreender é a arma fundamental do bom mau pensador.
Finalmente, adopte uma atitude qualquer relativamente aos intelectuais. Apesar de você ser evidentemente um deles, e do pior tipo, sugira que A) os intelectuais se renderam ao barbarismo e que precisamos corajosamente de defender, por exemplo, a importância de ler Séneca em latim, ou que toda a gente devia ler integralmente a Odisseia em grego, pelo menos uma vez por semana; ou B) que os intelectuais são todos uns idiotas pretensiosos que desprezam os filmes pornográficos porque não entendem a ontologia intermitente de cunho epistémico que lá está subjacente — defendendo portanto a cultura popular, mas com palavras que nenhum taxista entende. Se você for realmente corajoso, tente defender A e B ao mesmo tempo, mostrando depois que só um ignorante poderá pensar que está envolvida alguma incompatibilidade.

12 de fevereiro de 2009

Inquérito aos leitores



O séc. XX já terminou há quase 9 anos, pelo que já é possível olhar com alguma segurança para o que teve para nos oferecer filosoficamente. Assim, queremos saber qual a opinião dos leitores sobre qual foi o mais importante filósofo desse século. Para tal abrimos um pequeno inquérito aqui mesmo ao lado. Podem votar na vossa escolha.

10 de fevereiro de 2009

Ética e economia?


O livro Sobre Ética e Economia, de Amartya Sen, cuja recensão de Lucas Miotto Lopes acabei de publicar, é uma surpresa para quem encara a economia e a ética como pólos opostos da nossa vida. Na verdade, esta pretensa oposição é combatida por Sen, e seria estranha a alguns dos maiores filósofos clássicos que trabalharam nesta área. Ao ler a recensão de Lucas lembrei-me de outra oposição da mentalidade algo aristocrática, à falta de melhor termo, que é tão comum na academia: a ideia de que a vida intelectual ou académica ou artística ou filosófica ou científica deve manter-se firmemente apartada de preocupações económicas. Isto é um imenso disparate e basta olhar para a história da humanidade para ver um facto simples: a grande produção artística, científica, filosófica, etc., sempre acompanhou o poder económico. O que não é de estranhar: é que estas coisas são muitíssimo caras. Mas voltaremos ao tema noutra altura. Para já, leia-se a recensão de Lucas como aperitivo para ler o livro de Sen.

9 de fevereiro de 2009

Ler no original ou traduzir?


Um dos problemas que me lembro do tempo de faculdade ser discutido era o das traduções. Ainda bem que era discutido, mas tenho algumas dúvidas se era discutido ou se não passava, na esmagadora maioria dos casos, de puro seguidismo do mestre. Dizia-se, na altura, que o melhor era ler os filósofos no original e organizavam-se seminários de leitura em alemão, dinamarquês, etc. Estes seminários sempre me pareceram uma excelente ideia e até é verdade que deles resultaram algumas traduções. Mas se a ideia é ler no original, para quê traduzir? Recordo também que era vergonhoso passear obras traduzidas por brasileiros, já que eram em regra passadas a pente fino como sendo más traduções. Eu próprio partilhei acriticamente dessa ideia, baseando-me numa tradução que me diziam ser muito má do Ser e Tempo de Heidegger. Tive, na altura, de recorrer à tradução espanhola, mesmo que confessadamente tenha tido enormes dificuldades em sentir empatia com o filósofo.
Nessa altura eu defendia que o que temos a fazer é criar um vocabulário próprio, mas que para tal é preciso uniformizarmos um corpo de investigação académica e não cada um traduzir para o lado que lhe apetece, que me parece ser o que mais acontece. Existe ainda uma outra abordagem, muito usada pelos professores universitários, a de que só se compreende o filósofo X acedendo à língua em que esse escreveu. Sinceramente não observo problema algum que um indivíduo queira aprender grego para ler melhor Platão. Não estou é certo que essa seja uma condição necessária, muito menos suficiente. Arrisco a pensar que o melhor era entrar numa máquina do tempo, ir à Grécia antiga e entrar nas discussões com Sócrates. Só que a máquina do tempo são os livros dos filósofos e parece-me perfeitamente plausível a tese de que uma boa tradução nos coloca frente a frente com os problemas levantados por Sócrates.
Por comparação, um estudante em língua inglesa não tem estes tipo de problemas. Tem disponível praticamente todo o tipo de obras além de que tem boas traduções feitas por especialistas na tradução e por gente com muito treino nessa matéria. Esse é um trabalho que nós, em Portugal, temos de fazer, que é o esforço em traduzir. Duplo trabalho? Sim, pois além de ler e aprender filosofia e a filosofar, temos de aprender a traduzir. Não se percebe por que razão essa não se oferece como opção, por exemplo, no final do curso. Quando acabei a licenciatura em filosofia, segui o ramo de ensino e tive de fazer uma especialização durante 2 anos com estágio incluído. As universidades portuguesas poderiam oferecer essa via para a tradução. Assim um estudante quando conclui a licenciatura faz 2 anos de especialização na tradução.
Mas o que é que se ensinaria nesses dois anos? Precisamente o vocabulário, o método de tradução do texto filosófico, etc. Certamente que ao cabo de alguns anos teríamos uma interessante bolsa de tradutores de filosofia, com mais e melhores obras no mercado, com uma mais ampla divulgação e interesse pela filosofia, para além de se captar mais uma importante fatia de mercado de emprego para licenciados em filosofia.
Parece-me que o trabalho académico em filosofia é demasiado disperso para organizar uma especialização em tradução, mas tal seria possível se o trabalho filosófico fosse interpretado de modo mais impessoal. Por exemplo, o departamento de filosofia da universidade X podia estar mais virado para a investigação da filosofia continental, do pós modernismo, etc., ao passo que o departamento da universidade Y poderia estar mais vocacionado para o estudo da lógica, etc.
Ao contrário do que se faz, o trabalho académico não tem de ser pessoal, mas institucional. Claro que as pessoas são livres de estudar o que querem dentro das instituições e podem até fazer trabalhos brilhantes à margem dela. O que não faz sentido é usar a universidade, viver dela para alimentar as experiências místicas pessoais.
Enquanto isso, à parte dos vícios, quer se queira ou não, o trabalho da tradução é um trabalho que temos de fazer organizadamente se queremos ter filosofia em Portugal com ampla divulgação. Sé assim teremos menos cadeiras vazias nos cursos de licenciatura.

fixação de termos

Venho lançar o desafio aos leitores: qual a melhor adaptação portuguesa do termo "free rider" comummente usado na filosofia política e na filosofia moral?

A tradução mais "clássica" e talvez mais correcta seria "parasita" - literalmente: aquele que se senta ao lado de... (à mesa, depreendemos). Equivale ao nosso vernáculo "pendura" mas com uma conotação gastronómica mais evidente. O que é bom, devido à associação implícita entre o "free rider" e o "free lunch" - não há refeições de borla, apenas transferência de custos.

Pessoalmente, gosto do "parasita". Mas tem os seus problemas: é um termo com uma história longa e portanto tem muitas associações diferentes: será que todos os parasitas são "free riders"? O termo grego parece mais lato. "Free rider", tanto quanto sei, é um termo jovem.

Tenho especial curiosidade em saber se os economistas portugueses, dado que este termo tem de surgir na bibliografia da área, pelo menos na de língua inglesa, usam uma adaptação ou se, à semelhança do que fazem os "designers", usam simplesmente o termo em inglês.

Filósofos e pensadores


Há alguma diferença entre um pensador e um filósofo? Se há, como se distingue então o pensador do filósofo? Por que razão, pelo que se ouve dizer, há tantos pensadores franceses e quase não há pensadores ingleses ou americanos? E porque razão não se chama também pensador a Einstein ou a Francis Crick, por exemplo? Lyotard, Kristeva, Virilio, George Steiner são pensadores? Filósofos? Ambas as coisas? Nenhuma delas? Porquê? Como responderiam os leitores a estas perguntas? Podem deixar as vossas opiniões na caixa de comentários.

7 de fevereiro de 2009

Manuais e ensino


Uma das reacções mais populares desde que mantenho o blog, A filosofia no ensino secundário, activo aconteceu quando publiquei algumas análises e considerações sobre os manuais escolares de filosofia portugueses (2007 e 2008). Desde que sou docente de filosofia ouço recorrentemente da parte de muitos colegas que os manuais tem erros científicos, mas não recordo ter observado nas 7 escolas que conheci os professores a reunirem e discutirem erros científicos de manuais. Imbuído na crença de que os manuais tem erros científicos e tendo-os descoberto, umas vezes melhor que outras, comecei a deixar de lado o uso de manuais até que no mercado surgiram propostas decentes. O que mais estranhei foi que, apesar de aparecerem propostas decentes, muitos professores continuaram a optar pelos maus manuais, ou pelo menos, pelos piores manuais. Um dos aspectos no uso de um manual que me começou a chamar a atenção é que não raras vezes eu próprio não compreendia o que lá estava escrito. Não sendo eu um supra sumo da inteligência humana tenho, com efeito, uma experiência mais alargada que o comum de estudo e leitura (não incluo aqui os professores já que faz parte da sua actividade o estudo permanente), pelo que indaguei sempre se o defeito seria meu ou do manual. Mais tarde, através da internet pude recorrer a pessoas que me ajudaram a ver os erros. Nesta experiência recorri também a alguns professores universitários e verifiquei que alguns deles não sabem do que falam. Nada de novo aqui, não fosse por vezes a arrogância com que arrumam as questões, como, “ai, isso é analítico, logo não quero saber”. Outro argumento usado frequentemente pelos professores do ensino secundário parece-me mais plausível, o de que é necessário trabalhar com um manual pelo menos um ano para o poder avaliar com correcção. Sem dúvida que é, ainda que no caso dos erros científicos baste ler o manual sem necessidade de o aplicar. Mas para avaliar as capacidades didácticas de um manual o seu uso com os alunos é muito relevante. Parte das dificuldades sentidas tem mesmo a ver com este aspecto, se o manual é ou não adequado ao estudo dos alunos. Mas é errado pensar se o manual é ou não adequado ao que o professor sabe, pois muitas vezes o manual pode saber mais que o professor e, nesse caso, o professor não pode a partida colocar o manual em causa. Deve, antes, colocar aquilo que sabe em causa.
Pela minha parte não tornei a pegar na maioria dos manuais após as minhas análises que aqui publiquei. Mas visito frequentemente o Arte de Pensar como recurso principalmente o do 11º ano, já que na escola onde trabalho temos o manual de Luís Rodrigues adoptado. E as minhas conclusões iniciais voltam a merecer registo. Trabalhei muito bem com o manual de LR até finalizar a lógica informal. Aliás, a unidade da lógica proposicional é das melhores que tenho observado em manuais. Mas os problemas começam depois, na unidade das teorias do conhecimento. Para além da ausência do cepticismo, a exposição quer de Descartes, quer de David Hume aproximam-se mais de uma narrativa histórica do que um centrar dos problemas filosóficos sujeitando-os à discussão activa com os alunos. Seguir o manual condiciona as minhas aulas, tornando-as mais aborrecidas. Por outro lado a linguagem usada é mais estranha aos alunos que a usada no Arte. Por exemplo, o conceito de conhecimento é rapidamente abandonado para se transformar em saber. Não me aprece que os alunos de 11º ano estejam completamente à vontade para perceber que se trata do mesmo conceito. Além disso não existe recurso ao anteriormente aprendido, sendo que este é um dos aspectos mais relevantes em qualquer didáctica, o dos pré conhecimentos. No Arte de Pensar tal não acontece. Para além da linguagem uniformizada e mais clara, o recurso aos pré conhecimentos é permanente, o que coloca desde logo o manual em clara vantagem em relação ao seu congénere de Luís Rodrigues.
No manual de LR a opção por Kant pare-me muito mais dispensável do que a ausência do cepticismo. Por que razão é importante a inclusão do cepticismo num manual de 11º ano? Precisamente porque a filosofia cartesiana se compreende muito melhor se o estudante compreender que o objectivo do fundacionismo é o da refutação do cepticismo. Sem este passo, Descartes aparece isolado, sem um fio condutor no programa. E este aspecto o Arte de Pensar assegurou mais que qualquer outro manual e, no caso, muito melhor que o manual de Luís Rodrigues.
Se o manual de LR assegura bem a lógica formal e informal, rapidamente a abandona sem que o aluno possa integrar esses conhecimentos nas unidades seguintes. Desse modo o manual de LR mais não consegue do que produzir um ensino em bloco e formal, sem exercício de progresso na capacidade crítica dos estudantes, que, afinal, é o que mais se deseja no ensino. Claro está que há aqui um problema que é necessário discutir, o de que muito provavelmente uma boa parte dos professores de filosofia preferem um ensino formal em bloco, sem proporcionar ao aluno a compreensão das relações que existem entre os problemas e as teses filosóficas. Mas esse é precisamente o tal ensino formal que temos e que não produz mais do que a capacidade acrítica de memorização. O valor do ensino é muito mais que isto. Assenta no desenvolvimento de capacidades de pensamento crítico, não no mero estudo de teorias mortas. E o ensino da filosofia tem de estar muito mais atento a este aspecto, tem de necessariamente deixar os estudantes numa posição de aprendizagem crítica, discutindo os argumentos, refutando as teses, etc. Senão como desenvolver as capacidades críticas? Ensinando-lhes o ser para a morte em alemão? Não sei. Um aluno que assiste à aula passivamente é assistência na sala de aula. Numa aula de filosofia o estudante é o jogador e não a assistência passiva. Imagine-se que alguém vai para a bancada de um estádio de futebol, com um bolo na mão e um refrigerante na outra e quando interpelado responde que está a ali a aprender a correr vendo os atletas a praticar atletismo? Estranho, não? O mesmo se passa se um professor de matemática para crianças realizar o calculo mental enquanto essas assistem passivamente. Numa aula de filosofia é isto o que se passa se o aluno não for chamado à discussão dos problemas e das teses dos filósofos. E é esta capacidade didáctica que o Arte de Pensar exercita mais que qualquer outro manual.
Uma das objecções que alguns meus opositores colocam é que um manual por si só não desenvolve capacidades didácticas. De acordo, caso contrário, os estudantes aprenderiam somente através de manuais. Acontece que estou a avaliar manuais e não todos os elementos que compõem a sala de aula e a actividade de ensino aprendizagem.
Existe ainda um aspecto que explica um parcial desinteresse na escolha de bons manuais por parte de muitos professores e que se prende com aquilo que chamo de políticas educativas, principalmente aquelas que vem acompanhando o sistema educativo nas últimas duas décadas. O que as políticas educativas exigem ao professor é que ele canalize as suas energias não para o estudo da sua disciplina mas para o seu empenho no desenvolvimento de capacidades sociais e psicológicas dos jovens. E isto passa-se num ambiente em que se pensa que o desenvolvimento de capacidades críticas passa ao lado destas capacidades. Ora, o que defendo é que as capacidades psicológicas e sociais da escola são de ordem secundária e não primária, isto é, a escola deve, antes de tudo, transmitir conhecimento aos jovens e, esses, em posse do conhecimento desenvolverão quer capacidades sociais, quer psicológicas.
Estas reflexões aparecem ainda avulsas e merecem maturação, mas servem também para endereçar um convite expresso a todos os colegas que participaram anonimamente ou não na altura em que publiquei as minhas análises, que se possam pronunciar sobre os manuais que foram adoptados nas suas escolas, mostrando os seus defeitos e vantagens. Podem enviar as vossas posições – anónimas ou não embora as prefira assinadas – para o e-mail do blog ou para os comentários a este post. Se tanta coisa se disse nas secções de comentários na altura de adopção de manuais, certo estou que muita mais há a dizer agora, já que o conhecemos muito melhor os manuais que escolhemos para ensinar filosofia aos nossos alunos. Fico à espera das vossas análises.
Publico este texto aqui apesar de remontar a apreciações iniciadas em Filosofia no Ensino Secundário.

4 de fevereiro de 2009

Martinich, Goulart e o ensaio filosófico


Acabei de publicar uma recensão do livro Ensaio Filosófico, de A. P. Martinich, da autoria de Eduardo Dayrell de Andrade Goulart. Este livro é muito importante para estudantes de graduação, pois ensina cuidadosamente a escrever ensaios argumentativos -- não apenas de filosofia, mas também de história da filosofia. Poucas pessoas se apercebem que tanto faz escrever um ensaio de filosofia como de história da filosofia -- se for um ensaio propriamente dito, e não um mero relatório, é preciso argumentar. Se for um ensaio de filosofia, o estudante tem de usar argumentos para defender as suas ideias filosóficas; se for um ensaio de história da filosofia, o estudante tem de usar argumentos para defender as suas interpretações dos filósofos. Em qualquer caso, tem de saber argumentar, e tem de saber apresentar os seus argumentos. Um dos maiores defeitos que tem o mau ensino (da filosofia ou de qualquer outra coisa) é tornar o aluno um macaco de imitação que aprendeu a fazer muitos relatórios anónimos em que repete de maneira pretensamente académica o que leu, mas no qual não há uma só gota de reflexão pessoal. Este livro é um bom antídoto para isso.

Dicionários de filósofos


Informação recebida do leitor e colaborador Matheus Silva:

A excelente série "Dicionários de Filósofos" da Blackwell foi parcialmente traduzida para o português. Cada dicionário apresenta nos seus verbetes os principais argumentos, temas e conceitos de um filósofo específico além de conter uma pequena biografia, índice remissivo e ótima bibliografia. Os dicionários apresentam teorias filosóficas complicadas de maneira acessível, mas rigorosa e têm como público alvo os alunos de graduação e professores de filosofia. O aluno de graduação que se depara com o problema de ter que fazer ensaios sobre filósofos inacessíveis como Wittgenstein ou Hegel, encontrarão aqui uma ótima ferramenta, podendo consultar de modo ágil e avulso os verbetes sobre qualquer argumento ou conceito que lhe interessar. A editora Jorge Zahar merece parabéns pela edição brasileira dos dicionários, que está bem feita.

1 de fevereiro de 2009

Jurisprudências

Acabei de publicar "Outros Aspectos da Jurisprudência", de Anderson Henrique Gallo. Trata-se de uma crítica a um excerto do livro de Cesar Kiraly, anteriormente publicado na Crítica.

Orwell e a igualdade

Acabei de publicar um texto de Maria Filomena Mónica sobre Orwell, com o título "Orwell e a Igualdade". Este texto foi antes publicado no jornal Público, mas fica agora permanentemente disponível na Crítica, com a autorização amável da autora.