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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2009

Afinal o que é a pornografia e o que há de errado nisso?

borlistas / free riders

No que diz respeito à adaptação portuguesa do termo "free rider", cheguei à conclusão de que a melhor adaptação será "borlista". Pela razão de as adaptações que remetem para a ideia da "boleia" e do indivíduo "que anda à boleia" serem imprecisas. Por um lado, o termo inglês para "indivíduo que anda à boleia" é "hitchhiker" e não "free rider". Por outro lado, não é claro que um "hitchhiker" seja um "free rider". Exemplos de "free riding" são andar à boleia sem o conhecimento de quem nos dá boleia ou usar a ligação "wireless" à Internet do nosso vizinho sem que este saiba. Quando nos dão voluntariamente boleia, nada disso está em desacordo com aquilo a que Nozick chama o "princípio da justiça na transferência": uma distribuição de possessões é justa se teve lugar a partir de uma distribuição anterior justa, sem violar os direitos seja de quem for. O borlista, o "fr…

sobre a expressão "filosofia" e o seu uso

A filosofia lida frequentemente com aquele tipo de expressões que todos sabemos usar nos contextos triviais mas em que raramente pensamos com alguma coerência e sistematicidade. Entre elas conta-se expressões como "música", "arte", "direitos", "entidade" e, obviamente, "filosofia".
Na sua maioria, as pessoas usam a palavra filosofia para descrever aquilo a que um filósofo chamaria com maior propriedade «conjunto de crenças acerca de coisas intriviais». Contudo, não só a filosofia pode ser acerca das coisas mais triviais, como não consiste num conjunto de crenças. As crenças são aquilo com que o trabalho filosófico começa e são também parcialmente aquilo que resulta do trabalho filosófico. Assim, por exemplo, ao pensar filosoficamente na questão do livre-arbítrio, podemos alcançar a crença de que um universo indeterminista seria tão problemático para o livre-arbítrio como um universo determinista, mesmo que não resolvamos a questão do li…

Câmara Clara, sobre arte e surrealismo

Estarei amanhã (domingo) à noite no programa da RTP2 Câmara Clara, de Paula Moura Pinheiro, para uma conversa sobre arte, humor e surrealismo com o crítico de arte Rui-Mário Gonçalves.

Não se trata bem de uma discussão filosófica, mas de uma conversa sobre história e crítica de arte, com algumas incursões filosóficas. Aqui fica a sugestão, para quem se interessa pelo assunto.

O "ranking" dos leitores

Terminou a votação dos nossos leitores para escolher o mais importante filósofo do século passado. O critério foi o mais alargado possível, pois foi simplesmente o que cada um entendesse. Os 125 votantes colocaram Russell no primeiro lugar, a uma apreciável distância do segundo, Wittgenstein, e do terceiro, Heidegger. Já fora do pódio, seguiram-se Popper, Sartre, Frege e Quine, por esta ordem. O menos votado foi Rorty, com apenas um voto.

Fiquei surpreendido, pois estava à espera que Wittgenstein ganhasse e que Sartre tivesse mais votos. O primeiro porque é daqueles nomes que surgem nas discussões a propósito de tudo e de nada. E o segundo porque era um lugar-comum na formação académica de muitos de nós - bom, pelo menos dos quarentões, como eu. Mas penso que o primeiro lugar está muito bem atribuído e que a votação em Russell é justa.

Considero menos justo os lugares de Kripke e de Rawls, sobretudo do primeiro. Isto porque Kripke - o único da lista que ainda está vivo - apresentou idei…

Filosofia Pública

A colecção Filosofia Pública, dirigida por Pedro Galvão, tem agora uma secção especial na Crítica, aqui. Nesta colecção foram já publicados dois títulos: A Ética do Aborto, org. por Pedro Galvão, e O Que é a Arte?, org. por Carmo D'Orey. O terceiro título deverá sair em breve, foi organizado por mim, e tem o título Viver Para Quê?

Esta colecção cumpre um papel muitíssimo importante em Portugal, pois não há infelizmente o hábito de publicar antologias de textos. As antologias são fundamentais para professores, estudantes e público em geral, pois disponibilizam artigos originalmente publicados em revistas académicas e que de outro modo ficariam inacessíveis ao grande público, e não apenas por não estarem originalmente escritos em português.

Infelizmente o ritmo da colecção tem sido mais lento do que todos desejamos, e a sua distribuição nas livrarias, ao que me dizem, não tem também sido das melhores, infelizmente. Quanto a este último aspecto talvez os leitores possam ajudar, encomen…

Paradoxos multiculturalistas

Como grande parte das ideias feitas, o multiculturalismo hoje em dia em moda é a meu ver insustentável por vários motivos. Um dos quais é a sua incoerência. Julian Baggini exprime bem este problema no pequeno texto especialmente traduzido para a Crítica por Vítor Guerreiro que acabei de publicar: "O Paradoxo do Pão Indiano", retirado do livro que no Brasil tem o título O Porco Filósofo, mas cujo original é The Pig That Wants to Be Eaten and 99 Other Thought Experiments.

Palavrões, filósofos e pensadores

Acabei de publicar a página referente ao mais recente livro da colecção Filosoficamente, da Bizâncio: Não de F**** o Juízo: Crítica da Manipulação Mental, de Colin McGinn, de quem já publicámos nesta colecção o excelente Como se Faz um Filósofo. Neste seu mais recente livro, McGinn faz uma análise deambulatória do conceito de psicofoda, que ele defende ser um género peculiar de manipulação mental.

Esta pequena análise, assim como a de Harry Frankfurt, Da Treta, exibe uma peculiaridade relevante para a discussão que teve lugar neste blog sobre os maus pensadores da moda actual. Penso que uma das razões pelas quais os ensaios de pessoas como Frankfurt, McGinn, Orwell e outros não interessam a quem se interessa pelos bons maus pensadores é que a prosa destes autores não serve primariamente para apaziguar a alma e não está recheada de referências culturais que são boas para mandar bocas pretensiosas em ocasiões propícias. Ao invés, implicam da parte do leitor uma capacidade para seguir ide…

O Segredo

Dado o sucesso do self-help “como ser um bom mau pensador em cinco lições e meia” convém aqui revelar o segredo por trás do mesmo. Tem-se perguntado sobre o que torna estas cinco regras práticas conducentes a um bom mau pensador e nem sempre é claro o porquê. Para mais, dado que uns pensadores são melhores nuns pontos que noutros é difícil de os classificar. Um pensador, por exemplo, um filosofo marxista, pode ser exímio no ponto 5 “Pregue altivamente contra qualquer coisa abstracta” e apresentar deficiências graves no ponto 2 “Nunca argumente.” Enquanto um outro pode ter um domínio completo sobre esta última regra.
Uma dificuldade contígua é a de que ser bom a alguma coisa requer esforço e para que nos esforcemos devidamente convém saber o fim, o objectivo do nosso esforço.

A esta altura, decerto que ao bom mau pensador já lhe ocorreu que o objectivo pretendido é o de ser mau pensador, pelo que esta prelecção seria ociosa. O que decerto é um raciocina exemplar para um bom mau pensador …

Como ser um bom mau pensador em cinco lições e meia

Não pense coisa alguma. Limite-se a pegar, baralhar e voltar a dar aquilo que os bem-pensantes querem ouvir. Coisas como um elogio masturbatório dos livros, da Cultura Europeia (com maiúscula), da cultura aborígene, ou de qualquer outra ideia feita.Nunca argumente. Limite-se a dizer que as coisas são assim, sem dar ao leitor qualquer razão para pensar que realmente são assim. Isto porque se apresentar argumentos, obrigará o leitor a raciocinar, ficando por isso perigosamente a um passo de se atrever a discordar de si — vendo imediatamente quão fácil é fazer tal coisa. Lembre-se: para ser um bom mau pensador é crucial nunca pensar seja o que for, mas dar a sensação que pensa realmente coisas profundas.Use muitas palavras, referências e citações que amedrontem o leitor e o façam pensar que ele não está à sua altura. Isto não só tem a vantagem de ocultar o facto de o bom mau pensador nada pensar realmente, como dá também ao leitor a ideia de que o autor é erudito, quando na verdade ser e…

Inquérito aos leitores

O séc. XX já terminou há quase 9 anos, pelo que já é possível olhar com alguma segurança para o que teve para nos oferecer filosoficamente. Assim, queremos saber qual a opinião dos leitores sobre qual foi o mais importante filósofo desse século. Para tal abrimos um pequeno inquérito aqui mesmo ao lado. Podem votar na vossa escolha.

Ética e economia?

O livro Sobre Ética e Economia, de Amartya Sen, cuja recensão de Lucas Miotto Lopes acabei de publicar, é uma surpresa para quem encara a economia e a ética como pólos opostos da nossa vida. Na verdade, esta pretensa oposição é combatida por Sen, e seria estranha a alguns dos maiores filósofos clássicos que trabalharam nesta área. Ao ler a recensão de Lucas lembrei-me de outra oposição da mentalidade algo aristocrática, à falta de melhor termo, que é tão comum na academia: a ideia de que a vida intelectual ou académica ou artística ou filosófica ou científica deve manter-se firmemente apartada de preocupações económicas. Isto é um imenso disparate e basta olhar para a história da humanidade para ver um facto simples: a grande produção artística, científica, filosófica, etc., sempre acompanhou o poder económico. O que não é de estranhar: é que estas coisas são muitíssimo caras. Mas voltaremos ao tema noutra altura. Para já, leia-se a recensão de Lucas como aperitivo para ler o livro de…

Ler no original ou traduzir?

Um dos problemas que me lembro do tempo de faculdade ser discutido era o das traduções. Ainda bem que era discutido, mas tenho algumas dúvidas se era discutido ou se não passava, na esmagadora maioria dos casos, de puro seguidismo do mestre. Dizia-se, na altura, que o melhor era ler os filósofos no original e organizavam-se seminários de leitura em alemão, dinamarquês, etc. Estes seminários sempre me pareceram uma excelente ideia e até é verdade que deles resultaram algumas traduções. Mas se a ideia é ler no original, para quê traduzir? Recordo também que era vergonhoso passear obras traduzidas por brasileiros, já que eram em regra passadas a pente fino como sendo más traduções. Eu próprio partilhei acriticamente dessa ideia, baseando-me numa tradução que me diziam ser muito má do Ser e Tempo de Heidegger. Tive, na altura, de recorrer à tradução espanhola, mesmo que confessadamente tenha tido enormes dificuldades em sentir empatia com o filósofo.
Nessa altura eu defendia que o que temo…

fixação de termos

Venho lançar o desafio aos leitores: qual a melhor adaptação portuguesa do termo "free rider" comummente usado na filosofia política e na filosofia moral?

A tradução mais "clássica" e talvez mais correcta seria "parasita" - literalmente: aquele que se senta ao lado de... (à mesa, depreendemos). Equivale ao nosso vernáculo "pendura" mas com uma conotação gastronómica mais evidente. O que é bom, devido à associação implícita entre o "free rider" e o "free lunch" - não há refeições de borla, apenas transferência de custos.

Pessoalmente, gosto do "parasita". Mas tem os seus problemas: é um termo com uma história longa e portanto tem muitas associações diferentes: será que todos os parasitas são "free riders"? O termo grego parece mais lato. "Free rider", tanto quanto sei, é um termo jovem.

Tenho especial curiosidade em saber se os economistas portugueses, dado que este termo tem de surgir na bibliograf…

Filósofos e pensadores

Há alguma diferença entre um pensador e um filósofo? Se há, como se distingue então o pensador do filósofo? Por que razão, pelo que se ouve dizer, há tantos pensadores franceses e quase não há pensadores ingleses ou americanos? E porque razão não se chama também pensador a Einstein ou a Francis Crick, por exemplo? Lyotard, Kristeva, Virilio, George Steiner são pensadores? Filósofos? Ambas as coisas? Nenhuma delas? Porquê? Como responderiam os leitores a estas perguntas? Podem deixar as vossas opiniões na caixa de comentários.

Manuais e ensino

Uma das reacções mais populares desde que mantenho o blog, A filosofia no ensino secundário, activo aconteceu quando publiquei algumas análises e considerações sobre os manuais escolares de filosofia portugueses (2007 e 2008). Desde que sou docente de filosofia ouço recorrentemente da parte de muitos colegas que os manuais tem erros científicos, mas não recordo ter observado nas 7 escolas que conheci os professores a reunirem e discutirem erros científicos de manuais. Imbuído na crença de que os manuais tem erros científicos e tendo-os descoberto, umas vezes melhor que outras, comecei a deixar de lado o uso de manuais até que no mercado surgiram propostas decentes. O que mais estranhei foi que, apesar de aparecerem propostas decentes, muitos professores continuaram a optar pelos maus manuais, ou pelo menos, pelos piores manuais. Um dos aspectos no uso de um manual que me começou a chamar a atenção é que não raras vezes eu próprio não compreendia o que lá estava escrito. Não sendo eu u…

Martinich, Goulart e o ensaio filosófico

Acabei de publicar uma recensão do livro Ensaio Filosófico, de A. P. Martinich, da autoria de Eduardo Dayrell de Andrade Goulart. Este livro é muito importante para estudantes de graduação, pois ensina cuidadosamente a escrever ensaios argumentativos -- não apenas de filosofia, mas também de história da filosofia. Poucas pessoas se apercebem que tanto faz escrever um ensaio de filosofia como de história da filosofia -- se for um ensaio propriamente dito, e não um mero relatório, é preciso argumentar. Se for um ensaio de filosofia, o estudante tem de usar argumentos para defender as suas ideias filosóficas; se for um ensaio de história da filosofia, o estudante tem de usar argumentos para defender as suas interpretações dos filósofos. Em qualquer caso, tem de saber argumentar, e tem de saber apresentar os seus argumentos. Um dos maiores defeitos que tem o mau ensino (da filosofia ou de qualquer outra coisa) é tornar o aluno um macaco de imitação que aprendeu a fazer muitos relatórios a…

Dicionários de filósofos

Informação recebida do leitor e colaborador Matheus Silva:

A excelente série "Dicionários de Filósofos" da Blackwell foi parcialmente traduzida para o português. Cada dicionário apresenta nos seus verbetes os principais argumentos, temas e conceitos de um filósofo específico além de conter uma pequena biografia, índice remissivo e ótima bibliografia. Os dicionários apresentam teorias filosóficas complicadas de maneira acessível, mas rigorosa e têm como público alvo os alunos de graduação e professores de filosofia. O aluno de graduação que se depara com o problema de ter que fazer ensaios sobre filósofos inacessíveis como Wittgenstein ou Hegel, encontrarão aqui uma ótima ferramenta, podendo consultar de modo ágil e avulso os verbetes sobre qualquer argumento ou conceito que lhe interessar. A editora Jorge Zahar merece parabéns pela edição brasileira dos dicionários, que está bem feita.Dicionário Descartes, de John CottinghamDicionário Hegel, de Michael InwoodDicionário Kant, …