
Acabei de publicar aqui uma recensão de Weber Lima deste apetitoso livro.

Buck não lia jornais, caso contrário teria sabido que se adivinhavam problemas não apenas para si, mas para todo o cão de Tidewater, de músculos fortes e com pêlo quente e longo, de Puget Sound a San Diego.Procurando não antropomorfizar Buck, London descreve com traços de mestre as suas aventuras. Brutalmente raptado para puxar trenós, Buck vai despertando os seus instintos, acabando por juntar-se a uma alcateia de lobos. As muitas provações e injustiças a que é sujeito são descritas sem pieguice mas com um realismo que me deixou ansioso pelo seu destino e me trouxe lágrimas aos olhos em vários momentos. Não foi tanto o apelo selvagem que Buck começa a sentir paulatinamente que me cativou, mas antes o modo primevo (mas não primitivo nem primário) como vive as coisas: raiva, vingança, amor e lealdade estão nele em estado bruto e sem ornamentos.

Há alguma razão lógica para que a maioria das pessoas prefira as suas próprias opiniões às de outra pessoa?
LOUISE ANTONY: Eis uma razão conceptual: se eu «preferisse» a sua opinião à minha, isto é, se eu entendesse que a sua opinião fosse mais susceptível de ser verdadeira do que aquela que eu defendo no momento presente, o que presumivelmente aconteceria seria eu alterar a minha opinião tal que ela passasse a coincidir com a sua, caso em que a sua opinião passaria a ser a minha opinão.
Os filósofos valorizam as antinomias porque temos decididamente algo a aprender com elas. Uma vez presos na antinomia, não nos podemos contentar com o estado de coisas existente; algo tem de ceder. Ou o raciocínio aparentemente sólido afinal não é sólido, ou a conclusão aparentemente absurda não é tão absurda como parece. A nossa tarefa é descobrir qual.Riddles of Existence


Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.Interpreta-se quase sempre Pessoa como se estivesse a defender a língua portuguesa por razões nacionalistas. Todavia, o que Pessoa está realmente a dizer é que reage com o mesmo horror ao português mal escrito que um patriota à invasão do seu país. E acrescenta que se está nas tintas para que lhe invadam o país; o que implica que se está nas tintas para que os portugueses passem a falar sueco. O horror de Pessoa é puramente linguístico: odeia o português mal escrito porque é escritor, exactamente como um bom pintor odeia um quadro mal pintado. E odeia a simplificação ortográfica imposta pelas reformas ortográficas.

O verdadeiro mundo real, para Platão, é o mundo das ideias; pois seja o que for que tentemos dizer sobre as coisas no mundo dos sentidos, só podemos dizer que participam em tais e tais ideias que, consequentemente constituem todo o seu carácter. Por isso, é fácil avançar para um misticismo. Podemos ter a esperança de, numa iluminação mística, ver as ideias como vemos os objectos dos sentidos; e podemos imaginar que as ideias existem no Céu. Estes desenvolvimentos místicos são muito naturais, mas a base da teoria está na lógica, e é enquanto baseada na lógica que temos de a considerar.
Por estas razões, sugiro que se páre de usar estes decalques e se use os termos «externismo» e «internismo». São razões suficientemente evidentes para obviar a objecções de fricção auditiva ou suposta «consagração» dos decalques, isto é, o facto de terem aparecido numa ou noutra publicação revista à pressa ou sem qualquer revisão decente, o que, reafirmo, nada tem a ver com a genuína consagração das palavras, que é um processo natural que ocorre a longo prazo. Uma palavra só está consagrada quando se torna amplamente aceite e usada pelo público em geral.
Não tive tempo para te escrever uma carta breve,
por isso escrevi-te uma longa.
No excerto "Filosofia e Abertura de Espírito", de Daniel Kolak e Raymond Martin, retirado do livro Sabedoria Sem Respostas (Temas e Debates), os autores defendem a necessidade de ter abertura de espírito para fazer boa filosofia. Ou seja, trata-se de considerar seriamente, e com honestidade, ideias que nos podem parecer à partida falsas, inadequadas ou até ofensivas. Tendo a concordar com os autores, até por pensar que não há métodos que possam garantir por si a qualidade da argumentação, num qualquer debate: é preciso que quem está a argumentar esteja genuinamente interessado em procurar a verdade e não interessado em vindicar as suas ideias mais confortáveis e queridas. O que pensa o leitor?Imagine-se um modelo de relógio x. Haverá um número potencialmente infinito de exemplares desse modelo, ou seja, um número potencialmente indefinido de espécimes do mesmo tipo. Intuitivamente, se um relojoeiro pegar em partes diversas de diversos exemplares desse mesmo modelo, e as juntar de uma maneira funcional, obterá um novo exemplar do modelo de relógio, exactamente com o mesmo valor estético e prático que o de um exemplar acabado de sair da fábrica. Excluímos, para fins de argumentação, circunstâncias que não são relevantes para a analogia que vamos fazer, por exemplo, o facto de o “novo” exemplar ser “usado”, etc.
Imagine-se uma série de execuções diferentes da mesma sinfonia, por maestros e orquestras diferentes, todas satisfazendo os critérios de conformidade à partitura e exigências interpretativas. Por outras palavras, todas são execuções excelentes da mesma sinfonia, embora divergindo em muitos aspectos qualitativos.
Imagine-se agora que um engenheiro de som extremamente dotado consegue reunir diversas partes das diversas execuções, à semelhança do relojoeiro com as partes dos diversos exemplares de relógio, que também cumprem todos os critérios de pertença ao mesmo modelo ou tipo, obtendo uma nova execução, sem “costuras”, a partir das diversas execuções anteriores. Para fins de argumentação, vamos supor que a audição do resultado final se realiza em condições tão excelentes que o ouvinte não é capaz de a diferenciar de uma execução ao vivo.
Será que se pode considerar esta nova “execução” um exemplar ou espécime legítimo da sinfonia, em pé de igualdade com qualquer das execuções anteriores, de cujas partes foi feita? Se não, por que razão é intuitivo que no caso do relógio obtemos um novo exemplar ou espécime, mas não no caso da sinfonia? Se sim, quais serão as objecções mais fortes à ideia de que se trata de um espécime legítimo?
Não se pede ao estudante, que começa a sua aprendizagem na electricidade, que acredite na lei de Ohm; fazem-no compreender a pergunta, colocam-no diante dos instrumentos e ensinam-no a verificá-la. Aprende a fazer coisas, e não a pensar que sabe coisas; a usar os instrumentos e a fazer perguntas, não a aceitar uma afirmação tradicional. A pergunta que para ser apropriadamente colocada exigiu um génio, é respondida por um principiante. Se a lei de Ohm subitamente se perdesse e fosse esquecida por todos os homens, mas preservando-se a pergunta e o método de solução, o resultado podia ser redescoberto numa hora. Mas o resultado por si só, se conhecido por um povo que não pudesse compreender o valor da questão ou os meios de a resolver, seria como um relógio nas mãos de um selvagem que não lhe soubesse dar corda ou um navio a vapor manobrado por maquinistas espanhóis.



Se levarmos a sério a ideia de que o valor de uma vida humana não diminuiIsto é o que afirma Peter Singer, entre outras coisas, no artigo "A Vergonha da América", acabado de publicar (em inglês) em The Chronicle of Higher Education, e no qual se cita Portugal. Concorda?
quando passamos fronteiras nacionais, então deveríamos dar uma muito maior
prioridade à redução da pobreza mundial. O que tenho em mente é uma reconcepção
do que andamos a ensinar nas escolas.
Admito sem questionar que a objectividade do raciocínio moral não exige que este tenha uma referência externa. Não há análogo moral do mundo exterior — um universo de factos morais que nos afecte causalmente. Ainda que tal suposição fizesse sentido não apoiaria a objectividade do raciocínio moral. A ciência, que este tipo de realismo reificador toma como modelo, não deriva a sua validade objectiva do facto de partir da percepção e de outras relações causais entre nós e o mundo físico. O verdadeiro trabalho vem depois disso, sob a forma de raciocínio científico activo, sem o qual nenhuma quantidade de impacto causal sobre nós com origem no mundo exterior geraria uma crença nas teorias de Newton ou de Einstein, nem na biologia molecular.
O respeito pelas pessoas como agentes morais autónomos exige que lhes concedamos o direito de escolher uma posição moral para si próprias, por mais repulsiva que possamos achar a sua escolha. Segundo a filosofia do liberalismo político, exige-se também que insistamos que o governo não comece por ocupar as escolhas morais individuais estabelecendo uma religião de estado ou uma moralidade de estado. Mas a oposição intransigente a todas as formas de autoritarismo político e moral não deve comprometer-nos com o relativismo moral ou com o cepticismo moral. A razão pela qual é errado o governo ditar uma moralidade ao cidadão individual não é que existam dúvidas acerca de quais são as formas de vida satisfatórias e quais são as formas de vida não satisfatórias, ou de algum modo moralmente erradas. (Se não houvesse tal coisa como o moralmente errado, então não seria errado o governo impor escolhas morais.) O facto de algumas pessoas recearem, ao admitirem abertamente algum tipo de objectividade moral, encontrar algum governo a impor-lhes a sua noção de objectividade é, sem dúvida, uma das razões pelas quais tanta gente subscreve um subjectivismo moral ao qual não dá um assentimento real.Razão, Verdade e História

A coisa mais importante na arte é A Moldura. Para a pintura, literalmente; para as outras artes, figurativamente - porque, na ausência deste humilde utensílio, não podemos saber onde acaba A Arte e começa O Mundo Real.Temos de colocar a arte numa 'caixa' porque, de contrário, que merda é aquela na parede?Se, por exemplo, John Cage [compositor contemporâneo famoso pelo seu vanguardismo experimentalista] diz "Estou a colocar um microfone na garganta e vou beber sumo de cenoura e, assim, criar uma composição", o seu gorgolejar conta como uma composição sua, pois ele pô-la numa moldura e afirmou-o. "É pegar ou largar, eu quero que a partir de agora isto seja música." Daí em diante é uma questão de gosto. Sem a moldura, trata-se apenas de um tipo a beber sumo de cenoura.

