31 de março de 2009

Iluminismo Radical, de Jonathan I. Israel


Acabei de publicar aqui uma recensão de Weber Lima deste apetitoso livro.

Pensamento selvagem


Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

O Apelo Selvagem (1903) e Canino Branco (1906), de Jack London (1876–1916), têm como protagonistas cães e lobos, mas dizem-nos qualquer coisa de fundamental sobre nós. Fazem-no porque dizem qualquer coisa de fundamental sobre o que é ser um animal e nós somos animais, tendendo no entanto a esquecer este facto básico por termos uma vida mental muito complexa — pelo menos alguns de nós.

Cativou-me a primeira surpreendente frase de O Apelo Selvagem:
Buck não lia jornais, caso contrário teria sabido que se adivinhavam problemas não apenas para si, mas para todo o cão de Tidewater, de músculos fortes e com pêlo quente e longo, de Puget Sound a San Diego.
Procurando não antropomorfizar Buck, London descreve com traços de mestre as suas aventuras. Brutalmente raptado para puxar trenós, Buck vai despertando os seus instintos, acabando por juntar-se a uma alcateia de lobos. As muitas provações e injustiças a que é sujeito são descritas sem pieguice mas com um realismo que me deixou ansioso pelo seu destino e me trouxe lágrimas aos olhos em vários momentos. Não foi tanto o apelo selvagem que Buck começa a sentir paulatinamente que me cativou, mas antes o modo primevo (mas não primitivo nem primário) como vive as coisas: raiva, vingança, amor e lealdade estão nele em estado bruto e sem ornamentos.

As cenas iniciais de Canino Branco descrevem magistralmente dois homens experientes que atravessam as grandes superfícies geladas do Alasca, perseguidos por uma alcateia de lobos esfomeados e peculiarmente sagazes. Depois de algumas páginas tensas em que tudo parece perdido — e depois de um deles já ter sucumbido — vem o truque: afinal, o protagonista não é esse incrível sobrevivente, nem sequer a loba que chefia a alcateia de lobos, e que nem sequer é uma loba — é uma cadela meio loba — mas antes o seu filho. Perdoa-se esta deselegância literária porque depois somos brindados com a mais inacreditável descrição do que será um lobinho que descobre lentamente o mundo, a partir do seu covil. A interpretação das sensações visuais, tácteis e auditivas, o domínio da gravidade e das distâncias e a descoberta de que a entrada do covil não é uma parede luminosa mas antes uma passagem para outro mundo é muitíssimo mais pungente do que a conhecida alegoria da caverna, de Platão, como descrição da descoberta da diferença entre a aparência e a realidade.

Uma questão filosófica central sobre as artes é saber que valor têm. Estas duas narrativas tornam evidente que, pelo menos em alguns casos, um dos valores da arte é o alargamento cognitivo que possibilitam. A literatura parece dar-nos uma espécie de conhecimento quase por contacto, diferindo do conhecimento proposicional fornecido pelas ciências. Tal como é muito diferente saber muitas verdades acerca de Marte de ter a experiência de ter estado em Marte, também é muito diferente saber muitas verdades sobre lobos e a vida selvagem de quasi-viver na pele de um deles durante as horas em que lemos uma narrativa bem urdida como as do grande Jack London.
Fotografia de Imapix

27 de março de 2009

Louise Antony - Opiniões

Há alguma razão lógica para que a maioria das pessoas prefira as suas próprias opiniões às de outra pessoa?

LOUISE ANTONY: Eis uma razão conceptual: se eu «preferisse» a sua opinião à minha, isto é, se eu entendesse que a sua opinião fosse mais susceptível de ser verdadeira do que aquela que eu defendo no momento presente, o que presumivelmente aconteceria seria eu alterar a minha opinião tal que ela passasse a coincidir com a sua, caso em que a sua opinião passaria a ser a minha opinão.

26 de março de 2009

Theodore Sider

Os filósofos valorizam as antinomias porque temos decididamente algo a aprender com elas. Uma vez presos na antinomia, não nos podemos contentar com o estado de coisas existente; algo tem de ceder. Ou o raciocínio aparentemente sólido afinal não é sólido, ou a conclusão aparentemente absurda não é tão absurda como parece. A nossa tarefa é descobrir qual.

Riddles of Existence

25 de março de 2009

Kant sobre a religião


Acabo de receber notícia desta edição apetitosa da simpática Hackett: Religion within the Bounds of Bare Reason, de Immanuel Kant, com tradução e notas de Werner S. Pluhar e introdução de Stephen R. Palmquist.

A natureza do humor



O que é o humor? O que nos faz rir no humor? Vários filósofos tentaram responder a estas perguntas. Deixo aqui apenas um esboço de cada uma das três principais teorias filosóficas sobre a natureza do humor: a teoria da superioridade, a teoria da incongruência e a teoria da libertação.

Antes disso, uma nota: há filósofos que, em bom rigor, não falam do humor, mas do riso, que são coisas diferentes. Talvez não haja humor sem riso, mas há certamente riso sem humor, o que significa que o riso talvez seja uma condição necessária do humor, mas não suficiente. Por exemplo, podemos rir de alegria porque nos saiu a lotaria, o que não descreveríamos como uma situação humorística. De qualquer modo, muito do que se possa dizer acerca do riso também é aplicável ao humor.

A teoria da superioridade é a mais antiga. Começa a ser delineada por Platão e Aristóteles, mas é a Hobbes que costuma ser associada. Hobbes defende que o humor consiste na expressão de superioridade em relação ao objecto do nosso riso. A ideia é que o humor elege sempre alguma vítima ou aponta para algum defeito alheio, como é o caso das anedotas sexistas e racistas. Um exemplo disso são as anedotas sobre alentejanos, como a seguinte:

Sabes quantas vezes um alentejano se ri de uma anedota? Três vezes: a primeira é quando lha contam, a segunda é quando lha explicam e a terceira é quando a compreende.

Mesmo quando o humor, como frequentemente acontece, funciona como uma espécie de denúncia social ou política, se está a exprimir alguma forma de superioridade moral, intelectual ou outra.

Há várias objecções a esta teoria. Uma das mais fortes é que, se a teoria fosse verdadeira, não faria sentido rirmo-nos de nós próprios. Mas há humor em que nos rimos de nós próprios ou do grupo a que pertencemos.

A teoria da incongruência, associada a Kant e a Schopenhauer, defende que o riso é a expressão de uma incongruência percepcionada por aquele que ri. Isto acontece, por exemplo, quando somos surpreendidos com alguma impossibilidade lógica que tomamos como natural; ou quando somos tentados por ideias irrelevantes; ou quando são geradas expectativas que conduzem a um impasse; ou quando somos persuadidos a aceitar o que aparentemente é inaceitável. Uma boa ilustração é a anedota, bem conhecida entre filósofos, do amante adepto da teoria comportamentalista (ou behaviourista, como também se diz):

Depois de ter acabado de ter relações sexuais com a sua namorada, o comportamentalista diz: tu gostaste, e eu?

Uma objecção a esta teoria é que há incongruências que não são percepcionadas como humorísticas. Assim, a incongruência só por si não explica porque razão certas histórias ou situações são humorísticas.

A terceira teoria, a da libertação de tensão, é desenvolvida pelo filósofo evolucionista Herbert Spencer e sobretudo por Freud. Eles defendem que o humor é um escape libertador de tensão. Para Freud, o humor tem uma função muito semelhante à dos sonhos: libertar instintos e desejos sexuais e agressivos socialmente reprovados e reprimidos. Assim, a tensão gerada pela repressão social desses instintos é simbolicamente libertada através das piadas e anedotas. Daí o facto de as anedotas de cariz sexual serem tão populares:

- Então o meu caro amigo o que faz na vida?
- Olhe, trabalho onde os outros se divertem.
- O quê, num parque de diversões?

- Não só num, mas em vários: sou ginecologista.


Freud admite que há outro tipo de piadas, que dependem apenas da técnica como são construídas ou apresentadas. Mas chama "inocentes" a essas piadas, prestando-lhes pouca atenção.

A teoria de Freud parece ser refutada pelos factos. De acordo com Freud, as pessoas que gastam mais energias a reprimir os seus instintos e desejos agressivos e sexuais seriam as que mais deviam rir com as anedotas. Contudo, há investigações empíricas que apontam precisamente no sentido contrário: as pessoas com uma educação mais austera e punitiva em termos sexuais não são os que mais sentido de humor costumam ter.

Será que há mesmo uma essência ou natureza do humor?

24 de março de 2009

Língua pátria

A minha pátria é a língua portuguesa? Que queria Fernando Pessoa dizer?

terminologia filosófica SOS

Procuro objecções à adaptação de um termo nozickiano para português: current time-slice principles of justice.
A minha proposta de adaptação é princípios sincrónicos hac hora de justiça.
Estes princípios opõem-se ao princípio nozickiano da titularidade, e a diferença entre ambos é, grosso modo, a seguinte: os princípios sincrónicos, para avaliar se uma dada distribuição de possessões é justa, atentam apenas no momento presente e perguntam se o perfil estrutural da situação é justo, por exemplo, se corresponde a um estado final prescrito por um princípio teleológico (a máxima igualdade) ou se realiza um padrão favorecido (o «a cada um segundo a necessidade», do socialismo, por exemplo, ou «a cada um segundo o mérito», etc.). Assim, se uma situação na qual um de nós tem 50 e o outro 10 é justa, outra situação na qual o outro tenha 50 e eu 10 também é justa, pois obedece ao mesmo perfil estrutural. Estes princípios são portanto sincrónicos e centrados no «agora» ou no momento presente.
O princípio da titularidade, ao contrário, é histórico (ou diacrónico): para avaliar a justiça de uma dada distribuição, pergunta pelo que realmente aconteceu até se chegar a essa distribuição. Assim, para Nozick, duas distribuições com perfis estruturais idênticos podem diferir em justiça, ou seja, uma pode ser justa e a outra injusta, apesar de estruturalmente idênticas. Depende de quem tem direito a quê (quem é titular do quê - daí «titularidade»).
A expressão «princípios sincrónicos hac hora» de justiça possessória condensa então estas duas ideias: sincronia (time-slice), por oposição a diacronia (princípios históricos), hac hora (latim «agora»), centrados no momento presente ou no perfil estrutural da distribuição, tal como se apresenta agora.
Convido os leitores a apresentar objecções a esta minha escolha, para o caso de haver uma opção melhor, pois não estou de momento a vê-la. É importante a fixação desta terminologia e o facto de ela não existir denuncia as lacunas da nossa prática filosófica. Ensinaram-me na universidade que Nozick era «anarquista», e a primeira parte de Anarquia, Estado e Utopia consiste numa argumentação contra o anarquismo. Ou seja, as pessoas limitam-se a ler o título e a tirar inferências, o que é mau. Vamos contrariar este estado de coisas, começando hac hora mesmo.

Bertrand Russell


O verdadeiro mundo real, para Platão, é o mundo das ideias; pois seja o que for que tentemos dizer sobre as coisas no mundo dos sentidos, só podemos dizer que participam em tais e tais ideias que, consequentemente constituem todo o seu carácter. Por isso, é fácil avançar para um misticismo. Podemos ter a esperança de, numa iluminação mística, ver as ideias como vemos os objectos dos sentidos; e podemos imaginar que as ideias existem no Céu. Estes desenvolvimentos místicos são muito naturais, mas a base da teoria está na lógica, e é enquanto baseada na lógica que temos de a considerar.

23 de março de 2009

léxico

À semelhança do que já vimos no caso do termo «fisicalismo», que é um anglicismo, visto que o nosso adjectivo é «físico» e não «fisical», contrariamente ao que sucede no inglês «physical», também os termos «externalismo» e «internalismo», em circulação no léxico filosófico, não passam de decalques impensados a partir do inglês, visto que nunca escrevemos «externalizar» ou «internalizar», e sim «internar / interiorizar» e «externar / exteriorizar». Tão-pouco «internal» ou «external» são adjectivos do português, contrariamente ao que sucede no inglês «internal» e «external», e sim «externo» e «interno».

Por estas razões, sugiro que se páre de usar estes decalques e se use os termos «externismo» e «internismo». São razões suficientemente evidentes para obviar a objecções de fricção auditiva ou suposta «consagração» dos decalques, isto é, o facto de terem aparecido numa ou noutra publicação revista à pressa ou sem qualquer revisão decente, o que, reafirmo, nada tem a ver com a genuína consagração das palavras, que é um processo natural que ocorre a longo prazo. Uma palavra só está consagrada quando se torna amplamente aceite e usada pelo público em geral.

22 de março de 2009

Os sentidos das vidas

"Os Sentidos das Vidas" é o título do artigo de Susan Wolf que acabo de publicar, com tradução minha. Recorde-se que dela tínhamos já publicado "O Sentido da Vida", um pequeno artigo de enciclopédia que apresenta as várias perspectivas sobre o tema.

Este tema tem tido aliás uma presença assinalável na Crítica. Em "Confissão", de Leão Tolstoi, assistimos à formulação intuitiva do problema, e à sua resposta religiosa. Simon Blackburn apresenta por contraste, em "Desejo e Sentido da Vida", uma perspectiva que não é religiosa. A resposta de Peter Singer encontra-se no seu livro Como Havemos de Viver?

As minhas próprias ideias foram desenvolvidas nos textos "O Sentido da Vida", publicado na Intelectu, "O Problema Pessoal do Sentido da Vida" e "Sísifo e o Sentido da Vida", este último um capítulo do meu livro Pensar Outra Vez. Finalmente, está para breve a edição portuguesa da antologia Viver Para Quê?, organizada e traduzida por mim.

Os leitores de língua portuguesa dispõem já de bons pontos de partida para reflectir informadamente sobre este tema. E o que pensa afinal o leitor sobre este problema?

Comprar e vender ideias em Belo Horizonte

21 de março de 2009

o projecto abolicionista

Pode-se ler AQUI um texto de David Pearce, intitulado "O Projecto Abolicionista", do qual fiz uma revisão/retradução a pedido do autor. Graças a este trabalho, o glossário de inglês-português da Crítica ganhou mais alguns termos, como "círculo vicioso hedónico", "nível hedónico predeterminado" e "tonalidade hedónica".
Já agora introduzimos esta distinção lexical: "hedónico" refere-se ao carácter agradável/desagradável das experiências, ao passo que "hedonista" é a posição que considera o prazer como o maior bem. Assim, as experiências dos puritanos têm valor hedónico mas essas pessoas não são hedonistas.
O texto fala acerca da possibilidade técnica e do imperativo moral da abolição do sofrimento para todas as formas de vida senciente. Apresenta-se em três partes: 1) Por que razão o projecto abolicionista é tecnicamente possível; 2) por que razão deve acontecer (é moralmente desejável); 3) por que razão acontecerá.
Aproveito para convidar os eventuais leitores a chamarem a atenção para qualquer problema técnico, erro ou outro detalhe que detectem na tradução.

Moral sexual

Os pressupostos, posições e argumentos sobre os comportamentos e atitudes sexuais é objecto de estudo em ética aplicada. Algumas antologias da área, como a Ethics in Practice, de LaFollette, têm secções dedicadas ao tema. Na Crítica temos publicados três artigos didácticos dedicados ao tema, de Michael Tooley:A questão é saber se há realmente interesse em estudar o tema, ou se este é mais um daqueles casos em que o único interesse é fazer combate político e ideológico (sobre isto leia-se os meus artigos "Debate e Combate" e "Aborto, Argumentação e Política").

non me f**** o juízo

Uma objecção que talvez surja no que diz respeito a usar o prefixo latino "non" para formar palavras em português (como sucede em nonato, palavra que está dicionarizada) é a de que fazê-lo pode sugerir pedantismo por parte de quem o faz. Acho esta objecção muito fraca, por várias razões.

Consideremos as palavras inglesas "amoral", "immoral" e "nonmoral". Todas têm prefixo latino. As correspondentes portuguesas às duas primeiras, "amoral" e "imoral", têm igualmente o prefixo a partir do latim. Contudo, "nonmoral" é traduzido ou por "amoral" ou por "imoral" consoante o contexto, ou simplesmente por "não-moral".

amoral = o que é desprovido de critérios morais ou indiferente a critérios morais.
immoral = o que é contrário à moral.
nonmoral = o que é moralmente neutro em si mesmo, como as maçãs e as bicicletas.

Qual a desvantagem de traduzir por "não-moral"? É que na melhor das hipóteses aquele "não" é decalcado do operador lógico da negação. Mas esse operador serve para dividir o universo em coisas que são x e coisas que não são x. Não serve para comunicar as inflexões da linguagem natural que estão associadas aos prefixos latinos que usamos para construir palavras como as três referidas. Ou seja, "não-moral" é compatível com os três sentidos referidos acima, pois designa o conjunto de todas as coisas que não são morais, independentemente dos matizes semânticos. Ou como um inglês diria, usando o operador lógico da negação: "not-A"!

Assim, usar a partícula latina "non" para prefixar palavras não só não é pedante, porque então também "amoral" e "imoral" seriam pedantes, tendo ao invés de se escrever "não-moral" para todos os sentidos, só para evitar o pedantismo de usar prefixo latino, o que é manifestamente idiota; como também o uso desse prefixo é uma questão de liberdade linguística: não há qualquer argumento que permita aos utentes do inglês usar prefixos latinos mas que proíba aos portugueses o mesmo uso com o mesmo grau de liberdade. Além disso, esta liberdade linguística não é apenas moralmente desejável, como também é necessária para tornar a língua portuguesa um instrumento mais preciso, mais cultivado.

Isto, todavia, é muito complicado entre nós, por causa da inversão das coisas à portuguesa, ou seja, para muitos portugueses, não é a falta de liberdade linguística que ameaça a qualidade da produção literária, filosófica, etc. A presença desta liberdade é que é sentida como ameaçadora. É como somos em tudo o mais: onde seria normal pensar que tudo aquilo que não é expressamente proibido fosse permitido, o racionínio à portuguesa é "tudo o que não é expressamente admitido é proibido." É fascinante.

19 de março de 2009

A filosofia é de morte

Academic Earth disponibiliza um curso gratuito de filosofia sobre a morte, com o professor Shelly Kagan (Universidade de Yale). Vale a pena fazer o curso... mas só se dominar o grego inglês.

Filosofia e abertura de espírito

No excerto "Filosofia e Abertura de Espírito", de Daniel Kolak e Raymond Martin, retirado do livro Sabedoria Sem Respostas (Temas e Debates), os autores defendem a necessidade de ter abertura de espírito para fazer boa filosofia. Ou seja, trata-se de considerar seriamente, e com honestidade, ideias que nos podem parecer à partida falsas, inadequadas ou até ofensivas. Tendo a concordar com os autores, até por pensar que não há métodos que possam garantir por si a qualidade da argumentação, num qualquer debate: é preciso que quem está a argumentar esteja genuinamente interessado em procurar a verdade e não interessado em vindicar as suas ideias mais confortáveis e queridas. O que pensa o leitor?

18 de março de 2009

quebra-cabeças musicais 3

Imagine-se um modelo de relógio x. Haverá um número potencialmente infinito de exemplares desse modelo, ou seja, um número potencialmente indefinido de espécimes do mesmo tipo. Intuitivamente, se um relojoeiro pegar em partes diversas de diversos exemplares desse mesmo modelo, e as juntar de uma maneira funcional, obterá um novo exemplar do modelo de relógio, exactamente com o mesmo valor estético e prático que o de um exemplar acabado de sair da fábrica. Excluímos, para fins de argumentação, circunstâncias que não são relevantes para a analogia que vamos fazer, por exemplo, o facto de o “novo” exemplar ser “usado”, etc.

Imagine-se uma série de execuções diferentes da mesma sinfonia, por maestros e orquestras diferentes, todas satisfazendo os critérios de conformidade à partitura e exigências interpretativas. Por outras palavras, todas são execuções excelentes da mesma sinfonia, embora divergindo em muitos aspectos qualitativos.

Imagine-se agora que um engenheiro de som extremamente dotado consegue reunir diversas partes das diversas execuções, à semelhança do relojoeiro com as partes dos diversos exemplares de relógio, que também cumprem todos os critérios de pertença ao mesmo modelo ou tipo, obtendo uma nova execução, sem “costuras”, a partir das diversas execuções anteriores. Para fins de argumentação, vamos supor que a audição do resultado final se realiza em condições tão excelentes que o ouvinte não é capaz de a diferenciar de uma execução ao vivo.

Será que se pode considerar esta nova “execução” um exemplar ou espécime legítimo da sinfonia, em pé de igualdade com qualquer das execuções anteriores, de cujas partes foi feita? Se não, por que razão é intuitivo que no caso do relógio obtemos um novo exemplar ou espécime, mas não no caso da sinfonia? Se sim, quais serão as objecções mais fortes à ideia de que se trata de um espécime legítimo?

Plágio

Por estranho que possa parecer, há professores que não sabem bem o que há de errado com o plágio. Diz-se por vezes que o problema é o aluno estar a enganar-se a si mesmo, ou a enganar o professor. Mas nenhum destes problemas é o problema. O problema é que o aluno está a enganar os colegas que não fazem plágio, porque vai obter um grau académico ou uma classificação que não é a dele. É passar à frente dos outros, ou pôr-se a par deles, de maneira ilegítima e indefensável. A indústria do plágio, contudo, floresce, sobretudo hoje, usando os meios da Internet. No artigo “Cheating Goes Global as Essay Mills Multiply” Thomas Bartlett faz o ponto da situação. O que pensa o leitor?

17 de março de 2009

Falácia papal

Tenho prestado pouca atenção às notícias, por causa do sufoco dos testes. Mas um aluno (Rafael Vieira) chamou-me a atenção para esta.
O Papa Bento XVI, que se encontra em África, mostrou que não é uma autoridade qualificada no que diz respeito à prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Segundo Sua Santidade, a solução para o problema da sida não passa pela utilização de preservativos, mas sim por um "despertar espiritual e humano" e pela "amizade pelos que sofrem".
Recordo ao leitor que em África já morreram milhões de pessoas devido à SIDA e que segundo algumas estimativas existem actualmente 22,5 milhões de africanos seropositivos.
Quem invocar a opinião papal para justificar a recusa do preservativo incorre, portanto, na falácia do apelo à autoridade e infringe pelo menos uma das regras que asseguram a validade dos argumentos de autoridade: a autoridade invocada tem de ser realmente especialista na matéria. O que, manifestamente, não é o caso.

Impessoal ou reflexivo?

Na língua portuguesa gera-se muitas vezes uma confusão entre o reflexivo e o impessoal. Isto dá origem a alguma discussão entre os gramáticos, dado que supostamente os linguistas se limitam a registar o modo abandalhado como as pessoas realmente escrevem e falam. Já li algumas explicações que roçam o ininteligível, o que é surpreendente porque esta matéria deveria ser bastante simples.

Será correcto “deve-se falar com simpatia” ou “deve falar-se com simpatia”? A segunda alternativa é, na melhor das hipóteses, ambígua entre o uso do impessoal e do reflexivo, ao passo que a primeira é um uso claro do impessoal. Intuitivamente isso vê-se mudando do impessoal para a terceira pessoa do plural: “devemos falar com simpatia” e não “deve falarmos com simpatia”. Por outro lado, o reflexivo é adequado em casos como “O João veste-se com gosto”, pois é o João que se veste a si mesmo.

Nunca será possível destrinçar completamente o reflexivo do impessoal, excepto pelo contexto da restante frase ou frases. “Conhece-se”, por si, tanto pode ser reflexivo (“Sócrates conhece-se a si mesmo”) como impessoal (“Conhece-se pintura medieval interessante”). Mas a regra informal de tentar inserir a terceira pessoa do plural mostra-nos inequivocamente se estamos realmente perante um impessoal ou um reflexivo. Assim, “Diz-se geralmente que” (pois “Dizemos geralmente que”), “Pensa-se muitas vezes que” (pois “Pensamos muitas vezes que”), etc.

Espero que esta nota ajude revisores, tradutores e autores a escrever um português mais claro e lógico.

Tento na língua

Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

A correcção linguística é vista por vezes como uma questão de boas maneiras, entendidas não como um acto generoso de civilidade que tem como fim um convívio mais agradável entre todos, mas antes como uma marca de superioridade social que tem como fim oprimir os outros. É como ter vergonha de pronunciar “lête com caféi”, à alentejana, mas ter orgulho em adoptar a pronúncia de certas classes sociais prestigiadas. Isto prostitui a língua, que deixa de ser vista principalmente como um instrumento de comunicação e conhecimento, para se tornar um instrumento político para demarcar territórios sociais. Nesta mesma linha, encara-se muitas vezes a gramática, a sintaxe ou a ortografia como instrumentos de opressão social e não como um instrumento que devemos conhecer melhor, se o nosso trabalho ou interesse o exige.

Num campo oposto está uma atitude que vê todo e qualquer uso da língua como legítimo, recusando aceitar a tradicional distinção entre a língua culta e a língua popular, ou entre o registo oral informal e o registo escrito formal. Num certo sentido, é verdade que a língua é exactamente o que as pessoas quiserem fazer dela: é o modo como as pessoas falam ou escrevem que determina o que é a língua, e não qualquer entidade linguística abstracta e normativa que determina como as pessoas devem usar a língua.

Ironicamente, esta perspectiva acaba por ter como resultado o mesmo tipo de opressão política de quem encara a língua como um instrumento de demarcação social. Pois ao vender a mentira de que todos os modos de falar a língua são iguais, só por se recusar correctamente a ver uns como superiores aos outros, esta posição fecha num gueto quem não tem amplos recursos de comunicação, reflexão e raciocínio, vendendo-lhes a mentira de que todos os modos de usar a língua se equivalem. É verdade que nenhum modo de usar a língua é superior ou inferior a qualquer outro, mas isso não é por não haver diferenças imensas de sofisticação, subtileza e poder expressivo entre diferentes modos de usar a língua, mas porque a classificação de tais diferenças em termos de superioridade e inferioridade é inapropriada por recorrer a conceitos adequados apenas às desassisadas hierarquias sociais.

O nosso objectivo educativo e público deve ser dar mais recursos linguísticos a quem os quiser, mas procurando desligar isso definitivamente da apropriação social e política costumeira. As pessoas não devem ser inferiorizadas ou oprimidas, na escola ou em qualquer outra parte da vida, por pronunciar palavras deste ou daquele modo, por dar erros de ortografia ou por não dominar sintaxes complexas ou léxicos sofisticados. Devem é ter a oportunidade, se o quiserem, de conhecer melhor o seu instrumento linguístico, para que sirva melhor as suas necessidades. E não devemos esquecer que a língua aprimora-se, alarga-se e torna-se mais sofisticada exclusivamente pelo uso que fizermos dela, pelo que qualquer atitude purista — recusando a integração de palavras de outras línguas, por exemplo — pode impedir o enriquecimento da língua, em vez de o incentivar.

16 de março de 2009

A morte dos filósofos

O leitor Matheus Silva enviou-nos uma adaptação de "Causas de Morte de Alguns dos Grandes Filósofos", de Stiv Fleishman:

Tales: Afogamento
Parménides: Não era nada afinal
Ockham: Cortou-se ao fazer a barba
Russell: Cortou-se enquanto alguém que não se barbeia a si mesmo lhe fazia a barba
Descartes: Parou de pensar
Espinosa: Abusou da substância
Leibniz: Monadanucleose
Darwin: Causas naturais
Hume: Causas inaturais
Kant: Causas transcendentais (embora fosse a sua própria ideia)
Paley: Por desígnio
Heidegger: Por Dasein
Meinong: Acidente de alpinismo
Neurath: Acidente ao velejar
G. E. Moore: Às suas próprias mãos
Sheffer: Traço
Sartre: Náusea
Pascal: Ficou abatido depois de perder uma aposta
Wittgenstein: Tentou ver se a morte era uma experiência que se possa viver (alternativa: caiu de uma escada)
Hegel: Colisão com uma coruja ao anoitecer

E a esta selecta lista podemos acrescentar mais estes de nossa lavra:

Anaxágoras: Falta de ar
Heraclito: Efeito do devir
James: Quis acreditar que estava morto
Platão: Ficou sem Ideias
Aristóteles: Lógico, dado que antes estava vivo
Tomás de Aquino: Perdeu-se nas Cinco Vias
Berkeley: Deus esqueceu-se dele
Quine: Perdeu-se na tradução
Kierkegaard: Por temor do tremor
Camus: Caíu-lhe uma pedra em cima
Agostinho: Ficou sem tempo
Sócrates: A discussão chegou-lhe ao fim
Hobbes: Foi uma luta e todos perderam contra todos
Davidson: Triangulou-se

15 de março de 2009

a limpeza linguística

A febre do politicamente correcto está a produzir um fenómeno a que podemos chamar «limpeza linguística». Hoje venho falar de uma polémica segundo me consta iniciada há dois anos no IV Congresso Internacional de Língua Espanhola a propósito da inclusão, na mais recente edição do Dicionário da Real Academia, de um sentido pejorativo da palavra «galego», como «tartamudo», «tonto» e «moço de fretes». Esta acepção da palavra está ausente no dicionário da Porto Editora, por exemplo, mas consta no Houaiss: «carregador de bagagens, frequentemente natural da Galiza», «indivíduo que trabalha arduamente, que realiza trabalho pesado», «indivíduo rude, grosseiro; labrego» e ainda «natural do Norte de Portugal». De facto, um hábito que mais ou menos se perdeu no Sul, análogo ao uso nortenho da expressão «mouros», de chamar «galegos» à malta do Norte.

Esta inclusão do sentido pejorativo da palavra no dicionário da Real Academia ofendeu muita gente no seu orgulho nacionalista, dando origem a um abaixo-assinado e a uma série de exigências à Real Academia para que elimine do seu dicionário este sentido listado sob a palavra «galego». Nomeadamente, o filólogo galego, Roman Raña, afirmou ao DN que «é algo execrável e insultuoso o que estão a fazer a toda a gente desta terra.»[…]«A academia tem de eliminar de imediato essa acepção, usada em termos históricos e sociais, motivo de grande indignação para a Galiza.» reivindica o filólogo. O poeta Salvador Garcia Bodaño acrescenta «É uma injustiça histórica […] do tempo em que os nobres de Castela desprestigiavam a Galiza e o seu povo.» O artigo no DN pode ser lido AQUI.

Pergunto se vamos chegar ao ponto de retirar dos dicionários todas as palavras que possam ser ofensivas para alguém, em alguma circunstância ou lugar, ou se vamos perscrutar os romances para verificar se os autores conferem atributos negativos a personagens desta e daquela nacionalidade, se escrevem algo susceptível de ofender os sentimentos políticos, religiosos, nacionalistas, ou de qualquer outro tipo, que alguém possa ter. E depois? Vamos aos museus tirar das paredes todos os quadros que possam ofender alguém? E a seguir? A música?

As pessoas que se deixam levar por esta retórica da ofensa, inclusive aquelas que ficam muito inflamadas a pensar que estão a combater o «fascismo» castelhano, não param para pensar que a sua atitude é uma atitude fascista, de supressão da informação que lhes desagrada. Supõe que só há fascismo quando as suas próprias opiniões são suprimidas, não quando se usa o poder do estado para suprimir a opinião daqueles cujas opiniões nos chateiam e que preferiríamos que estivessem muito calados, para assim dar a impressão de que essas opiniões e essas pessoas até nem existem. Torna-se ainda mais ridículo pelo facto de que, mesmo do ponto de vista de um nacionalista galego, seria desejável que a Academia mantivesse o sentido pejorativo, porque pelo menos isso dar-lhe-ia algo de que se queixar e com que impressionar os destinatários do seu discurso. Além disso, aqui não se trata sequer de censurar uma opinião, mas de censurar informação, factos. É um facto que a palavra «galego» é ou foi usada com essa acepção que desagrada a alguns galegos. E depois? É informação. Alguns criacionistas também gostariam de suprimir a Origem das Espécies e outras publicações. Vamos fazer-lhes a vontade?

Por outro lado, imagine-se o caso de um romance em que a palavra «galego» é usada com esse sentido pejorativo, sem que o autor abra uma nota de rodapé para explicar ao leitor em que sentido usa o termo. Qualquer tradutor inglês ou português ou outro, irá consultar o dicionário da Real Academia e não verá aí o sentido relevante da palavra. O que não fala castelhano ou não tem idade para se recordar do uso pejorativo da palavra, fica à nora, tentando compreender o que pretende o autor.

Tento imaginar o que seria fazer-se uma manifestação porque num romance catalão, uma personagem portuguesa é representada como um indivíduo de carácter moral duvidoso. Mais triste do que imaginar isto é ver que os poderes políticos acabam por ser arrastados por este tipo de retórica e acabam por ceder às exigências populares de policiamento do pensamento, de censura, de imposição do politicamente correcto.

Termino esta posta com uma referência clássica, de um tempo em que a pressão para o politicamente correcto não era tão asfixiante, talvez pela razão de os livros terem uma circulação mais restrita e a probabilidade de indignar multidões que exigem a mentira política ser menor. Ao que parece, a democratização da informação ainda não conseguiu tornar os seres humanos um pouco melhores. A citação é de William Clifford, A Ética da Crença, a publicar em breve na Bizâncio, no âmbito de uma antologia sobre epistemologia da crença. Será que os nacionalistas galegos vão reivindicar que se apague este parágrafo? Talvez apenas os castelhanos o façam. E os portugueses? Será que se sentirão ofendidos por arrasto?

Não se pede ao estudante, que começa a sua aprendizagem na electricidade, que acredite na lei de Ohm; fazem-no compreender a pergunta, colocam-no diante dos instrumentos e ensinam-no a verificá-la. Aprende a fazer coisas, e não a pensar que sabe coisas; a usar os instrumentos e a fazer perguntas, não a aceitar uma afirmação tradicional. A pergunta que para ser apropriadamente colocada exigiu um génio, é respondida por um principiante. Se a lei de Ohm subitamente se perdesse e fosse esquecida por todos os homens, mas preservando-se a pergunta e o método de solução, o resultado podia ser redescoberto numa hora. Mas o resultado por si só, se conhecido por um povo que não pudesse compreender o valor da questão ou os meios de a resolver, seria como um relógio nas mãos de um selvagem que não lhe soubesse dar corda ou um navio a vapor manobrado por maquinistas espanhóis.


Suspensão do juízo à portuguesa

Recentemente ouvi um diálogo curioso entre duas raparigas (ambas alunas do 12º ano).

- O que pensas do casamento dos homossexuais?
- Sei lá! É uma coisa tão discutível…
- Mas és a favor ou contra?
- Já te disse: é discutível. Cada pessoa tem a sua opinião.
- Mas é isso mesmo que eu quero saber: a tua opinião. Acho que fazes mal em não tomar partido, pois…
- Isso é a tua opinião!

O leitor já assistiu certamente a conversas destas, em que se diz “isso é discutível” não para iniciar um debate mas para declarar o debate inútil e encerrar a conversa.
Não sei o que se passa noutros países, mas em Portugal é frequente encontrar pessoas que não percebem que “discutível” significa “pode ser discutido” ou mesmo “deve ser discutido”.
Serão essas pessoas filósofos cépticos que, perplexos com a diversidade de opiniões suscitada por muitos assuntos, concluem que nada se pode saber e que o mais avisado é suspender o juízo?
Apesar das inúmeras objecções em que o cepticismo incorre, essa seria uma explicação lisonjeira, mas é duvidoso que seja o caso. É que os cépticos não se calam e procuram argumentar, de modo a justificar a ideia de que o melhor é suspender o juízo. (Podemos acusá-los de se auto contradizerem mas não de preguiça mental.)
Pelo contrário, as pessoas que, como resposta à pergunta “Concordas com X?”, se limitam a dizer “isso é discutível” em vez de discutirem, calam-se e não argumentam. Não se dão ao trabalho de pensar. Têm, portanto, pouco a ver com o Sexto Empírico.
Talvez se consiga explicar melhor o seu comportamento relacionando-o com o relativismo. Tais pessoas (mesmo as que nem conhecem a palavra “relativismo”) parecem acreditar que o facto de, em relação a um assunto qualquer, existir mais do que uma opinião significa que todas as opiniões valem o mesmo e que é sintoma de arrogância tentar mostrar que uma é melhor que outra. Por isso, perante uma opinião divergente, acham que faz sentido retorquir apenas “isso é a tua opinião” – em vez de perguntar “porquê” e discutir as razões dadas na resposta.
Dessa atitude relativista até à ofensa ou aborrecimento quando alguém critica abertamente a sua opinião vai um pequeno passo. Um passo que é dado muitas vezes: em vez de discutirem as ideias envolvidas na crítica e de confrontá-las com a opinião criticada sentem-se pessoalmente postas em causa. É como se toda a argumentação fosse ad hominem.
O que torna difícil a discussão livre e imparcial, como se pode verificar em diversas áreas da sociedade portuguesa – nomeadamente nas escolas.

nonadas que fazem a diferença

I viventi non umani, escrevem os italianos para traduzir "nonhuman animals". E os nossos irmãos linguísticos da Galiza escrevem animais non humanos. Aqui há tempos interrogava-me por que razão poderiam os ingleses usar o prefixo latino "non" ao passo que em português nos limitamos a imitar com um equivalente a "not-human" em vez de "nonhuman" - "não-humanos". Hoje deparei-me com três palavras que muito me alegraram, pois emprestam a força do preconceito (a única que alguns reconhecem) ao que já podíamos sustentar com argumentos independentes.

As palavras"nonato", "nones" e "nonada", que significam respectivamente: "nascido por cesariana", "plural de "non", número ímpar, "pares e nones"(também o nome de um jogo tradicional: pares-e-nones)", e "ninharia, futilidade", constam tanto no dicionário de português da Porto Editora como no dicionário Houaiss. Todas têm por base a mesma partícula latina: non.

Têm a vantagem adicional de me dar, além da legitimidade lógica, a legitimidade do hábito anterior, o único tipo de força que os nossos púdicos e baldas reconhecem, para escrever, com todas as letras, animais nonumanos. Para não falar na aplicação da partícula non noutras circunstâncias. O mais divertido é ver que o "inglês" none é afinal familiar ao "nosso" léxico.

Mas para que isto não fique registado como caso isolado, recordemos outros exemplos de palavras que, mutatis mutandis, são tanto do nosso léxico como do inglês: "exires" (exits), "eliciar" (elicit), "umbrela" (umbrella), todas de raiz latina. A lista continua.

Infelizmente, é indício característico de uma língua incultivada estas coisas passarem-nos ao lado e serem barbaramente "corrigidas" quando as tentamos fazer circular onde elas pertencem. Hábitos que talvez não teríamos perdido não fosse as sucessivas mentiras políticas do afastamento artificial entre o "português" e o resto da Ibéria. Talvez assim se perceba que a motivação necessária para cultivar a língua é a oposta à motivação dos acordos ortográficos e as palermices políticas subjacentes. A motivação deve ser a de recuperar os elos de sensatez perdidos, e não de fabricar diferenças à força.

14 de março de 2009

Filosofia, ciência e cultura

Muitas pessoas traçam uma distinção radical entre as chamadas "ciências duras" (como a química e a física) e as chamadas "humanidades" (como a história e a teoria da literatura). Esta distinção pode em si ser posta em causa. Mas, além disso, essas mesmas pessoas tendem a considerar que a filosofia é uma das humanidades, o que é posto em causa no artigo "A Filosofia como Disciplina Unificadora", de Sven Ove Hansson. O que pensa o leitor?

13 de março de 2009

O filósofo vivo mais influente


A votação do nosso mais recente inquérito terminou há uns dias e ainda nada tínhamos concluído sobre os resultados. Não há muito a dizer. De resto, esperávamos já um resultado destes. Portanto, não há surpresas a assinalar. Consideramos cada um dos nomes na lista relevantes na filosofia contemporânea, ainda assim é de assinalar que 14% das votações recaíram sobre “Outro” o que significa que uma número significativo de leitores pensaram em outros nomes que não os mencionados. Os mais votados são Habermas e Singer. Em parte o número de obras traduzidas destes autores pode explicar a razão da maior percentagem nos votos. Mas ao mesmo tempo temos Steiner com muitas obras traduzidas e só recolheu 3% dos votos, assim como Putnam, embora este não tenha tantas obras traduzidas como o primeiro. No caso de Peter Singer pode existir uma outra hipótese, que é o conjunto de problemas abordados pelo autor, provavelmente mais no centro das atenções dos meios de comunicação, o que lhe reserva alguma atenção. Mas ainda há uma outra possibilidade que é a escrita fluida de Singer, um escritor notável proporcionando ao leitor menos informado na filosofia que entre directamente na discussão de alguns dos principais problemas da ética prática. A Crítica tem alguns textos disponíveis de Peter Singer assim como duas interessantes entrevistas. Agradecemos a todos os leitores a sua votação.

12 de março de 2009

frases musicais e proposições

Tome-se como exemplo as seguintes frases:

a) "a água é H2O"
b) "water is H2O"
c) "l'eau est H2O"
d) "Wasser ist H2O"

Todas exprimem a mesma proposição, quer dizer, todas são instanciações ou exemplificações da mesma proposição em línguas diferentes. Quando dizemos que "a água é H2O" é verdadeira, não pretendemos afirmar que a sequência particular de fonemas em língua portuguesa ou a sequência particular de caracteres gráficos é verdadeira. O que é verdadeiro é a proposição que a frase exprime. Enquanto as locuções e as inscrições são objectos irrepetíveis, as proposições são repetíveis.

Considere-se agora uma "frase" musical (o termo faz parte do léxico musical, embora seja claramente metafórico falar em "frases musicais"), por exemplo, os primeiros dois compassos do tema das Variações Goldberg (ou os primeiro quatro compassos, para encher mais o ouvido), chamemos-lhe «C2».

a) C2 executada em oboé.
b) C2 executada em clarinete.
c) C2 executada em piano.
d) C2 executada em bandolim.

Ora, se a proposição no exemplo anterior, o nosso objecto repetível, não se confunde com as sequências particulares de fonemas ou de caracteres gráficos, nem, por extensão, com as sequências particulares de acontecimentos cerebrais no sujeito que lê ou profere a frase, então parece que no exemplo da frase musical, tão-pouco esta se pode identificar com as sequências particulares de sons produzidos por este ou por aquele instrumento. Outra coisa tem de justificar o facto de se tratar da mesma frase musical em todos esses suportes. A solução parece estar em eliminar tudo aquilo que é irrepetível e manter apenas o que é repetível: a estrutura. Mas esta, bem vistas as coisas, não é algo que tenha propriedades audíveis, como o timbre (a «cor» de um instrumento particular). Assemelha-se mais a um objecto  do tipo a que uma proposição pertence. Mas também é muito diferente de uma proposição - nomeadamente, não tem uma relação especial com estados do mundo, não tem valor de verdade, etc.

11 de março de 2009

Quebra-cabeças musical 2 e 1/2

Umas das intuições respeitantes ao quebra-cabeças número 2 é a ideia de que as obras musicais, quando não são executadas, têm uma existência puramente mental, isto é, que apenas se pode afirmar que existem «na cabeça» do compositor como uma espécie de experiência sonora interna.

Um contra-exemplo que podemos congeminar para perturbar esta ideia é pensar num acorde de dó maior. A intuição diz-nos que os acordes não têm uma existência puramente mental. Escalas e acordes são aspectos objectivos do mundo sonoro que o músico usa no trabalho de composição. Mas qualquer peça musical pode ser encarada da mesma maneira, como uma estrutura ou sequência de intervalos contíguos (melodia) e simultâneos (harmonia). Contudo, isto deixa-nos numa situação espinhosa: se a intuição parece sustentar a ideia de que os acordes e as escalas são descobertos e não inventados, não só estes parecem ter uma existência que não é puramente mental, como não parece haver maneira de negar plausivelmente que as melodias e harmonias das obras musicais não tenham o mesmo tipo de existência objectiva que as escalas e os acordes, sendo descobertas pelos músicos, anotadas na partitura e executadas (ou não) num instrumento ou conjunto de instrumentos, mas não se confundindo com a partitura ou com as execuções ou com os estados mentais do compositor ou qualquer leitor da partitura.

Outra pergunta que podemos levantar é: como pode a sinfonia ter existência puramente mental? Nesse caso, como é possível que dois indivíduos diferentes tenham dois estados mentais diferentes e no entanto esses estados mentais serem acerca da mesma sinfonia se esta tiver uma existência puramente mental? Como é possível que esses estados mentais sejam a sinfonia? Parece mais plausível afirmar que ambos os estados mentais são acerca de um objecto que não tem uma existência puramente mental. Mas isto deixa-nos com a desconfortável ideia de que as sinfonias existem antes de serem compostas e que são independentes quer dos estados mentais dos músicos quer das execuções que se faz das sinfonias.

Mentalidade, cultura e dinheiro

Na sequência dos meus artigos polémicos sobre a economia associada à Internet e as suas consequências negativas, acabo de publicar outro artigo com o título acima. Está aqui, e está aberto à refutação, contra-exemplos e contra-argumentos dos leitores.

Quebra-cabeças musicais 2

Imagine-se que um músico compõe uma sinfonia, registando-a na partitura, e que esta é esquecida numa gaveta ou que se perde sem que alguém a venha a encontrar ou a executar.

Podemos afirmar que a sinfonia existe? Porquê? No caso de existir, em que consiste esta sua existência?

Repare-se que este quebra-cabeças se relaciona com algo afirmado pelo Sérgio num comentário ao último texto: ele é da opinião que as alterações de timbre, orquestração e tonalidade interferem na identidade da obra a ponto de não podermos afirmar que se trata da mesma obra. Assim, o Sérgio parece comprometido neste quebra-cabeças com a resposta negativa, de que a sinfonia não existe. Ou será? (Vamos supor, para fins de argumentação, que o autor da sinfonia não dá indicações de instrumentação estritas e que no seu tempo é prática comum executar as obras em diversos suportes instrumentais e, consequentemente, adaptando as tonalidades às exigências mecânicas dos instrumentos.)

Imaginemos agora uma variação do nosso puzzle: as Variações Goldberg de Bach perdiam-se e eram apenas redescobertas no século XIX, e a sua primeira execução pública dava-se nesta época. Seremos obrigados a concluir que a obra só começou a existir no século XIX?

O que pensa o leitor?

10 de março de 2009

Quebra-cabeças musicais 1

Vou lançar uma série de pequenos desafios aos leitores, que consistem em quebra-cabeças musicais. A ideia é introduzir uma reflexão preparativa da divulgação de alguns textos de filosofia da música, em breve na Crítica. Incentivar um esforço autónomo no tipo de questões levantadas nesta área fará que estes textos sejam assim muito melhor apreciados, pois a sua leitura virá na sequência de um investimento cognitivo nosso, e não como puras curiosidades desconexas. Na verdade, este deve ser o processo de entrada na filosofia: ter interrogações e então ler os textos dos outros filósofos sobre o assunto, e não ler tudo sem ter interrogações e depois «traduzir por palavras nossas» em vez de pensar.

Considere-se o Concerto em Dó Maior para Oboé, de Haydn, e imagine-se as duas situações seguintes:

a) Um músico faz a transposição do concerto para a tonalidade de Lá Maior e executa a obra com instrumentação semelhante (oboé d'amor como instrumento solista e orquestra).

b) Um músico faz um arranjo do concerto para ser executado por um piano e um corne inglês.

Em ambas as situações estaremos perante execuções da mesma obra? Porquê? O que dará plausibilidade à ideia de que se trata não só de execuções diferentes da mesma obra, mas de versões diferentes da mesma obra? O que significa este «mesma»?

O que pensa o leitor?

Exigências éticas da filosofia

Fazer filosofia implica exigências éticas, ou é algo moralmente neutro? R. W. Hepburn argumenta que sim, no artigo "A Ética da Prática Filosófica". O que pensa o leitor?

9 de março de 2009

Tempo, direcção e causalidade


Acabei de publicar uma recensão de Matheus Silva do livro Causalidade e Direção do Tempo, de Túlio Aguiar, assim como um excerto deste mesmo livro. Este é um tema central da filosofia, na intercepção entre a metafísica, a epistemologia e a filosofia da ciência. Em língua portuguesa, não há muitos trabalhos sobre este problema, que é com certeza também do interesse de cientistas.

Robotnik

Considere-se a seguinte lista de substantivos adjectivos: amniota; anamniota; déspota; diortota; estradiota; gólgota; hidrópota; hilota; iota; patriota; sota; acraniota; agiota; poliglota; aloglota; cipriota; compatriota; eucariota; idiota; janota; monoglota; procariota; siciliota.

Todos têm em comum a propriedade de ou pertencer ao género masculino, ou, segundo o dicionário, poder pertencer simultaneamente ao género masculino e feminino.

Considere-se o termo inglês «robot». Substantivo formado a partir do termo checo «robota» (plural «roboti»), que significa «trabalhador», «servo» e ainda «autómato». A adaptação foi feita com a tradução do romance do checo Karel Capec, RUR (Rossumovi Universálni Roboti ou, na versão inglesa, Rossum's Universal Robots), de 1920.

Considere-se a seguinte ideia: se nos colocássemos no lugar do tradutor original que trabalhou na obra de Capec, o que faríamos seria adaptar o termo checo para português, segundo a nossa maneira natural de formar palavras. Dito de outra maneira, se os ingleses adaptam do checo, nós adaptamos do checo também, desde que isso nos permita uma adaptação mais congruente com a nossa maneira de formar palavras.

Considere-se os termos em uso «robot» ou «robô». A última forma é normalmente usada em galicismos ou adaptações de palavras francesas com terminação em «ot». A primeira forma vem da familiaridade dos filmes e livros de ficção científica em inglês, que vão buscar o termo ao checo. Não é preciso mais para construir o argumento inteiramente plausível e convincente de que devíamos substituir o uso de «robot» e «robô» pelo substantivo masculino, bem formado, «robota», «robotas».

Por fim, considere-se o termo «poliglota» e derive-se dele o adjectivo «poliglótico». Agora experimente-se com «robota» para obter «robótica». Mais duas para a estrada: «nauta», «náutica»; «hermeneuta», «hermenêutica». Concluindo, considere-se a relação entre «avô» e o adjectivo «avoengo». Agora aplique-se isto à palavra «robô» para obter «roboengo» em vez de «robótico».

Será preciso mais para convencer que «robota» é uma opção sensata?

8 de março de 2009

Oderberg e a reabilitação da velha ética



Há muito tempo que não tinha uma surpresa tão agradável ao olhar para as estantes de filosofia de uma livraria. Estava eu esta tarde na Fnac a olhar para os monos que estagiam naquelas estantes, quando reparo nestes dois volumes de David Oderberg, em português: Teoria Moral - Uma abordagem não consequencialista e Ética Aplicada - Uma abordagem não consequencialista. Uma das principais alternativas contemporâneas à ética consequencialista - que tem dominado de forma quase esmagadora o panorama filosófico das últimas décadas e de que Peter Singer é um dos mais ilustres representantes - está agora disponível em língua portuguesa, numa boa tradução de Maria José Figueiredo, para a editora Principia.

Oderberg é um filósofo de primeira linha, muitíssimo claro e persuasivo. O objectivo deste par de obras é mostrar que a moralidade tradicional não morreu. Como diz na contracapa «Em Teoria Moral, é apresentado o sistema de base que permite resolver os problemas morais, o sistema que os consequencialistas designam, com indisfarçável desprezo, por «moral tradicional», e que consideram estar «morto». Aqui se explicam e se defendem os conceitos, os princípios e as distinções centrais da moral tradicional: os direitos, a justiça, o bem, a virtude, a distinção intenção/previsão, a distinção actos/omissões, bem como o valor fundamental da vida humana, que constitui um aspecto fulcral de todo o sistema.
Ao porem em causa o pensamento contemporâneo, Ética Aplicada e Teoria Moral contribuem de forma clara e provocatória para o actual debate ético, e serão de grande utilidade tanto para os estudantes, como para os filósofos profissionais.»

7 de março de 2009

Peter Singer e a pobreza

Se levarmos a sério a ideia de que o valor de uma vida humana não diminui
quando passamos fronteiras nacionais, então deveríamos dar uma muito maior
prioridade à redução da pobreza mundial. O que tenho em mente é uma reconcepção
do que andamos a ensinar nas escolas.
Isto é o que afirma Peter Singer, entre outras coisas, no artigo "A Vergonha da América", acabado de publicar (em inglês) em The Chronicle of Higher Education, e no qual se cita Portugal. Concorda?

6 de março de 2009

Thomas Nagel

Admito sem questionar que a objectividade do raciocínio moral não exige que este tenha uma referência externa. Não há análogo moral do mundo exterior — um universo de factos morais que nos afecte causalmente. Ainda que tal suposição fizesse sentido não apoiaria a objectividade do raciocínio moral. A ciência, que este tipo de realismo reificador toma como modelo, não deriva a sua validade objectiva do facto de partir da percepção e de outras relações causais entre nós e o mundo físico. O verdadeiro trabalho vem depois disso, sob a forma de raciocínio científico activo, sem o qual nenhuma quantidade de impacto causal sobre nós com origem no mundo exterior geraria uma crença nas teorias de Newton ou de Einstein, nem na biologia molecular.

5 de março de 2009

Hilary Putnam

O respeito pelas pessoas como agentes morais autónomos exige que lhes concedamos o direito de escolher uma posição moral para si próprias, por mais repulsiva que possamos achar a sua escolha. Segundo a filosofia do liberalismo político, exige-se também que insistamos que o governo não comece por ocupar as escolhas morais individuais estabelecendo uma religião de estado ou uma moralidade de estado. Mas a oposição intransigente a todas as formas de autoritarismo político e moral não deve comprometer-nos com o relativismo moral ou com o cepticismo moral. A razão pela qual é errado o governo ditar uma moralidade ao cidadão individual não é que existam dúvidas acerca de quais são as formas de vida satisfatórias e quais são as formas de vida não satisfatórias, ou de algum modo moralmente erradas. (Se não houvesse tal coisa como o moralmente errado, então não seria errado o governo impor escolhas morais.) O facto de algumas pessoas recearem, ao admitirem abertamente algum tipo de objectividade moral, encontrar algum governo a impor-lhes a sua noção de objectividade é, sem dúvida, uma das razões pelas quais tanta gente subscreve um subjectivismo moral ao qual não dá um assentimento real.
Razão, Verdade e História

2 de março de 2009

Comprar e vender ideias

Em plena segunda guerra mundial, quando o governo britânico pedia aos seus cidadãos imensos sacrifícios económicos, Orwell ficou chocado com a incongruência de jornais em que os editorialistas davam voz aos pedidos do governo, ao mesmo tempo que publicavam anúncios de casacos de peles, na mesma página. Esta imagem memorável ilustra um problema de fundo que poucas pessoas parecem compreender, sobretudo porque albergam preconceitos ideológicos relacionados com o comércio: é o problema do financiamento da cultura, da ciência, das artes, da filosofia e da informação. Não é possível pensar claramente neste problema enquanto se continuar a pensar de um modo aristocrático. Para o aristocrata, toda a transacção comercial é vil, e as coisas superiores da vida, nomeadamente as ideias, têm de se manter recatadamente afastadas do dinheiro. Hoje, pessoas protegidas desde muito novas por instituições públicas ou por grandes multinacionais, que sem sobressaltos lhes pagam a vida há décadas, podem dar-se ao luxo de ter, com a mesma hipocrisia dos aristocratas de antigamente, a mesma atitude de nojo perante o comércio. Ler mais...

O maior filósofo vivo



Parece que lhe tomámos o gosto. Por isso, voltamos a questionar os nossos leitores para saber o que pensam do estado actual da filosofia. Trata-se apenas de uma forma descontraída de lançar a discussão. Pouco mais do que isso. Assim, perguntamos no questionário que se encontra na coluna ao lado, qual é o melhor, mais importante, mais interessante, mais influente, ou simplesmente o vosso filósofo vivo preferido.

Como não podia deixar de ser, a lista reflecte as nossas escolhas pessoais e é, por isso mesmo, discutível. A caixa de comentários está aberta para isso mesmo. Se der origem a uma discussão fundamentada, melhor. A ideia é mesmo essa e não simplesmente expor os nossos preconceitos filosóficos.

Quem escolher "outro", pode dizer na caixa de comentários qual foi e, já agora, porquê.

Errata: enganámo-nos a escrever na lista dos filósofos o nome de Putnam. (aparece Putman e não Putnam) Não alteramos já que é impossível editar a lista após o primeiro leitor votar para não viciar os resultados.

Aires Almeida

Frank Zappa - A Moldura

A coisa mais importante na arte é A Moldura. Para a pintura, literalmente; para as outras artes, figurativamente - porque, na ausência deste humilde utensílio, não podemos saber onde acaba A Arte e começa O Mundo Real.
Temos de colocar a arte numa 'caixa' porque, de contrário, que merda é aquela na parede?
Se, por exemplo, John Cage [compositor contemporâneo famoso pelo seu vanguardismo experimentalista] diz "Estou a colocar um microfone na garganta e vou beber sumo de cenoura e, assim, criar uma composição", o seu gorgolejar conta como uma composição sua, pois ele pô-la numa moldura e afirmou-o. "É pegar ou largar, eu quero que a partir de agora isto seja música." Daí em diante é uma questão de gosto. Sem a moldura, trata-se apenas de um tipo a beber sumo de cenoura.

1 de março de 2009

Há algo errado na pornografia?


Muitas pessoas acham que há algo moralmente errado na pornografia. Algumas vão mesmo mais longe a concluem que a pornografia devia ser proibida.

Quais são os seus argumentos? Encontro vários.

1. A pornografia leva à instrumentalização das pessoas envolvidas, tratando-as como meros meios para os nossos fins e não como pessoas dignas de consideração moral, o que é inaceitável. Há quem prefira dizer que a pornografia trata as pessoas como objectos e não como pessoas com os seus afectos, as suas aspirações e os seus direitos.

Este argumento parece-me muito fraco. Em primeiro lugar porque só há instrumentalização se não houver consentimento das pessoas envolvidas ou se estas forem forçadas pelas circunstâncias da sua vida a consentir. Uma pessoa que consinta livremente em ser tratada como um mero objecto físico, não está a ser instrumentalizada. E uma pessoa que consinta livremente em fazer algo em troca de dinheiro apenas para alguém retirar daí prazer sexual também não está a ser instrumentalizada.

Mas é falso que não haja pessoas que consintam livremente tal coisa. Logo, nesses casos não há instrumentalização.

Além disso, a instrumentalização não é, só por si, justificação para proibir seja o que for. Caso contrário, também teria de se proibir as pessoas de trabalhar em troca de dinheiro (quase todas). Uma pessoa que trabalhe a carregar tijolos numa obra, por exemplo, também está a vender o seu corpo e a sua força de trabalho. E é só porque lhe pagam que o faz. Mas não passa pela cabeça de alguém dizer que isso é errado ou que devia ser proibido.

Qual é, neste aspecto, a diferença entre um modelo fotográfico e um actor pornográfico? A diferença é que num caso se trata de actividades sexuais e no outro não; não é o facto de um estar a ser instrumentalizado e o outro não. Portanto, este argumento não colhe.

2. A pornografia leva à subjugação das mulheres. Este argumento é uma particularização do anterior e assenta na ideia de que as mulheres são levadas à pornografia empurradas, contra a sua vontade, pelas circunstâncias em que vivem.

Este argumento quase não merece ser discutido, dado ser tão obviamente fraco. Mesmo que fosse verdade que todas as mulheres fossem subjugadas contra a sua vontade (o que não é verdade), isso não seria suficiente para reprovar a pornografia, pois não se aplicaria aos filmes pornográficos só com homens.

Além disso, há muita pornografia que nem sequer usa homens nem mulheres, como é o caso das histórias pornográficas, das esculturas pornográficas ou da banda desenhada pornográfica. Posso pintar durante a noite um grande mural pornográfico na minha rua, sem sequer usar qualquer modelo.

A resposta a isto é, muitas vezes, que aí é a própria ideia de mulher como um ser submisso que está a ser promovida e que isso deve ser impedido. Mas, mais uma vez, a pornografia não envolve apenas as mulheres.

3. A pornografia incita à violência, dado que muita violência está ligada à pornografia. Ora o que incita à violência deve ser impedido. Logo, não devemos permitir a divulgação da pornografia.

Para avaliar este argumento precisamos de saber se a premissa que diz que a pornografia incita à violência é verdadeira. Isso é algo que só investigações empíricas podem mostrar. Li que houve estudos nesse sentido, em que se expôs à pornografia grupos de pessoas violentas (delinquentes, etc. ) e grupos de pessoas não violentas e que as violentas aderiam mais à pornografia e consumiam mais do que as outras.

Ma será que isto mostra que é a pornografia que leva à violência? Não será antes que essas pessoas consomem mais pornografia porque são violentas? De resto, há muitas outras coisas que até podem levar à violência, mas que não devem nem podem ser proibidos por isso. Por exemplo, o futebol leva muitas vezes à violência. Mas não passa pela cabeça das pessoas proibir o futebol.

4. Muitas pessoas sentem-se chocadas e ofendidas com a pornografia e têm o direito de não o ser, dado que é sentido por essas pessoas como um dano pessoal.

Este argumento também é mau, pois nesse caso poderíamos proibir seja o que for, dado que qualquer pessoa se pode sentir chocada e ofendida com qualquer coisa. Tudo o que uma pessoa que se sinta chocada com isso tem de fazer é evitá-lo; não é impedir de usufruir disso os outros que não se sentem chocados.


5. Se impedimos as nossas crianças de consumir pornografia, então é porque intuitivamente sabemos que a pornografia não é uma coisa boa.

Bom, eu não deixo o meu filho de 11 anos andar com mais de 5 Euros na carteira, nem conduzir automóveis, nem deitar-se às tantas da noite, nem ver horas seguidas de desenhos animados. Será que isso mostra que há algo errado em andar com mais de 5 euros na carteira, conduzir automóveis, deitar-se às tantas, etc.? Claro que não. Apenas significa que não é adequado para aquela idade, tal como não é adequado dizer ao meu filho para ler a Divina Comédia, de Dante. De resto, não me passa pela cabeça mudar de canal quando aparecem mulheres (ou homens) nuas na TV e o meu filho está a ver.

Aliás, mesmo que isso fosse moralmente errado, não seria razão suficiente para o proibir. Também achamos errado mentir e não nos passa pela cabeça proibir a mentira, embora seja recomendável evitá-la.

A pornografia pode ser uma coisa feia e de mau gosto. Mas daí a censurar a pornografia vai um passo enorme. As pessoas têm o direito de consumir coisas feias e de mau gosto.

Assim, não se vê o que há de errado em representar explicitamente actos sexuais com o fim exclusivo de provocar excitação sexual.

O que é a pornografia?



Estive arredado da discussão, que eu próprio iniciei, sobre a pornografia. Como diria um amigo meu, vai contra a minha religião intervir numa discussão que eu próprio iniciei. Uma vez que terminou, aqui estou para a relançar.

Agora a sério, não gostaria de deixar de dar o meu contributo para a animada discussão que dura há alguns dias. Daí (ou "donde"?) esta minha posta, insistindo no assunto. A esclarecedora imagem é um pormenor de um dos templos Kajuraho (Índia), classificado pela UNESCO como património mundial. Será esta imagem pornográfica?

A pornografia não é uma espécie natural, como água, ouro ou cisne. Para sabermos o que significa a palavra “pornografia”, temos de estar atentos ao modo como ela é usada, sendo certo que não é usada sempre da mesma maneira: as pessoas costumam divergir acerca do que é ou não é pornográfico. Isto significa que qualquer definição de pornografia é altamente discutível.

Mesmo assim, talvez haja algumas características necessárias para que algo seja classificado como pornográfico. De um modo geral, o uso do termo “pornografia” costuma aplicar-se aos casos em que:

1) há representação explícita de actos ou órgãos sexuais;
2) essa representação tem exclusivamente em vista provocar excitação sexual no observador.

Vale a pena dizer mais alguma coisa sobre cada uma das condições anteriores. Em 1) diz-se, por um lado, que é a representação do acto sexual que é pornográfica e não o próprio acto sexual. Neste caso, não há pornografia quando duas pessoas têm simplesmente relações sexuais, mas haverá pornografia se filmarem ou fotografarem a sua sessão sexual. A ideia que parece estar subjacente a isto é a de que é a exibição do acto sexual que é pornográfica e não o acto em si. Por outro lado, são excluídas do âmbito da pornografia a mera sugestão e a representação indirecta e não explícita do acto ou dos órgãos sexuais. Este é um dos aspectos (há outros, como se verá adiante) que leva muitas pessoas a traçar a distinção entre a pornografia e o erotismo.

Por sua vez 2) indica que se a representação tem outra finalidade além da excitação sexual do observador, então ela não é pornográfica. Por exemplo, representações de órgãos ou actos sexuais com fins educativos ou científicos (aulas de anatomia e medicina, por exemplo) não são pornográficas, ainda que possam excitar quem as observa. Do mesmo modo, não é pornográfico um filme em que haja a representação explícita de actos sexuais com a finalidade de provocar qualquer efeito estético ou de transmitir, através dessa representação, qualquer ideia ou mensagem. Este é outro dos aspectos que leva muitos a fazer a distinção entre pornografia e erotismo, defendendo que o erotismo visa sempre qualquer efeito estético ou artístico. Neste caso, não há, por definição, pornografia na arte. A imagem acima não é, neste sentido, pornográfica.

Claro que isso não significa que não se possa discutir se uma dada obra (filme, fotografia, pintura, etc.) é ou não pornográfica e, portanto, se pode ou não ser arte. Pense-se na discussão acerca das fotografias de Robert Mapplethorpe: é arte ou simplesmente pornografia? Se as fotos de Mapplethorpe tiverem como finalidade chocar o observador, fazendo-o reflectir sobre o que vê, então não são pornográficas. Podem, então, ser arte. Ou nem uma coisa nem outra. Ou má arte, etc.

Esta caracterização da pornografia pode não ser inteiramente satisfatória, mas está de acordo com um uso generalizado do termo e permite compreender a distinção tão frequente entre pornografia e erotismo. Permite ainda perceber por que razão tantas pessoas toleram em obras de arte certas representações sexuais que não toleram fora dela, ainda que sejam exactamente iguais.

Dito isto, cabe perguntar: o que há de errado na pornografia? Na posta seguinte apresentarei alguns dos principais argumentos contra a pornografia e tentarei mostrar que são todos muito fracos.