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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2009

Activismo, verdade e argumentação

Uma democracia saudável exige discussão pública, mas nem toda a discussão pública contribui para uma democracia saudável — e uma discussão pública viciosa contribui para o adoecimento da democracia. Para que a discussão pública possa contribuir para a saúde da democracia tem de se reger exactamente pelos mesmos princípios de probidade epistémica que, idealmente, regem o debate académico. Neste, o exercício crítico intenso é acompanhado de uma consciência de que não se trata de usar todos os truques para defender a nossa dama, mas antes de procurar o mais imparcialmente possível os melhores argumentos, contra-exemplos e contra-argumentos. Trata-se de procurar a verdade e não de fazer valer os nossos anseios.

O debate público confunde-se sistematicamente com a mentira da propaganda. Na propaganda, não se trata de procurar conjuntamente a verdade: trata-se de gritar o mais alto possível para eliminar quem discorda de nós, e para arregimentar fiéis para a nossa causa através da persuasão i…

O argumento ontológico e a incorporeidade de deus

Professor - O que acham do argumento ontológico?Zé - Acho bastante fraco, professor. E até nem consigo compreender como impressionou assim tantas pessoas inteligentes, como referiu. Professor - Mas é fraco porquê? Zé - A um ser perfeito, como é o deus teísta, nada pode faltar. Professor - Estou a seguir, continua. Zé - Mas o deus teísta não tem corpo, ou seja, não tem pele nem ouvidos, nem nariz nem nenhum dos órgãos dos sentidos. Professor - Por que dizes isso? Zé - Porque se tivesse corpo como qualquer um de nós não precisávamos de argumentos para provar a sua existência. Podíamos vê-lo, tocá-lo, ouvi-lo, etc., e ficava o assunto resolvido. Professor - Bom, isso não é assim tão claro. Mas onde queres chegar com isso? Zé - Quero chegar ao seguinte: se o deus teísta é incorpóreo, então falta-lhe algo que eu tenho, que é o tacto, a audição, o olfacto, etc. Portanto, não pode ter as experiências sensíveis que qualquer um de nós pode ter. Professor - Mas por que razão isso é uma imperfeição? Zé …

James Rachels

O facto de se considerar frequentemente que estes problemas [da filosofia] não passam de questões de opinião pessoal constitui uma fraqueza da cultura contemporânea. Afinal, diz-se, ninguém pode provar que Deus existe ou que não existe, nem que a vida tem sentido ou que não tem. No entanto, é melhor entender estes problemas como questões de investigação racional. Ainda que os problemas sejam tão complexos que não podemos ter a expectativa de chegar a um acordo a seu respeito, devemos perguntar no que é mais razoável acreditar em vez de agarrarmos as ideias que nos pareçam mais atraentes, sejam elas quais forem. Como qualquer outra investigação humana responsável, a filosofia é, do princípio ao fim, um exercício da razão. As ideias que devem prevalecer são aquelas que tiverem as melhores razões do seu lado.

Caçadores e agricultores

Bee Wilson recenseia no Times o livro An Edible History of Humanity, de Tom Standage. Até que ponto a passagem da economia de caçadores-recolectores para uma economia de agricultores afectou adversamente a humanidade? Esta é a questão que o autor enfrenta neste apetecível livro.

Kant e Clive Bell

A editora Texto & Grafia publicou duas obras de filósofos de referência. São elas Lógica de Kant e Arte de Clive Bell. Fica assim o universo filosófico em língua portuguesa mais enriquecido. Não consegui ver pelo blog da editora quem são os tradutores.

O argumento ontológico é uma petição de princípio?

Ana - É verdade que eu compreendo o que quer dizer quando me fala de Deus, professor.Professor - Tens, portanto, a ideia de Deus. Ana - Certo, professor, mas acredito que não passa mesmo disso, de uma ideia. Professor - Mas concordas, então, que a ideia que o ateu e o teísta têm de Deus é a mesma. Ana - Não é bem assim, professor: quer-me parecer que as minhas ideias ocorrem na minha mente e as dos outros ocorrem nas mentes dos outros. Portanto, não se trata da mesma ideia. Professor - Estou a ver, Ana. Ok, vou então reformular o que queria dizer: quando pensas em Deus, pensas num ser com as mesmas características ou atributos que o crente lhe atribui quando pensa nele. Certo? Ana - Sim, e daí? Eu, que sou ateia, acredito que um ser com tais atributos não existe realmente e o teísta acredita que sim. Professor - Bom, é melhor esclarecer quais são esses atributos, que tanto ateus como teístas associam à ideia de Deus. Ana - Sim, é um ser no qual não se imagina qualquer defeito ou falha: é su…

O erro de Leibniz

Acabo de publicar um pequeno ensaio que discute um argumento famoso de Leibniz, associado à sua célebre pergunta "Por que há algo e não nada?" Espero que seja esclarecedor. Clique no título para ler.

A liberdade ameaçada?

Há sinais de que a liberdade está hoje ameaçada, de modos subtis e tanto mais perigosos quanto mais inócuos parecem, ou ao serviço da protecção policial ou militar. Falei do aspecto mental desta ameaça na crónica "Ditadura de Alabastro", mas o historiador Ben Wilson trata do aspecto político no livro What Price Liberty?, apresentado por Max Hastings no Times. Pela recensão, parece tratar-se de um livro fundamental para compreender as ameaças actuais às liberdades políticas e sociais tão duramente conquistadas. O livro de Wilson será publicado dia 4 de Junho em papel, e até essa data pode ser comprado em formato electrónico pelo preço que o leitor quiser, ou puxado gratuitamente.

Voltar à Lua 40 anos depois

Bryan Appleyard apresenta no Times dois livros que procuram dar a conhecer melhor a viagem norte-americana à Lua, em 1969, e tudo o que rodeou esse feito; são eles Moon Shot, de Dan Parry, e Rocket Men, de Craig Nelson. Pela recensão parece que se trata de livros bastante melhores do que o Moondust, de Andrew Smith, que apresento aqui.


Robin Le Poidevin

Comprei a versão electrónica do livro Arguing for Atheism: Introduction to the Philosophy of Religion, de Robin Le Poidevin, filósofo britânico e professor na Universidade de Leeds. Le Poidevin organizou a obra recentemente publicada The Routledge Companion to Metaphysics.Ainda não o li, mas uma recensão de Finngeir Hiorth, que chama a atenção para um suposto aspecto negativo da obra - não mencionar muita bibliografia anterior, em particular Michael Martin e John L. Mackie - deu-me ainda maior motivação para o ler. Significa que Poidevin não perde o seu tempo a fazer relatórios de leitura do que outros escreveram, consequentemente, não me faz perder o meu tempo a ler duas vezes a mesma coisa. Este livro, ao que parece, procura ser também uma introdução à metafísica. Ver como Poidevin discute os problemas que se propõe discutir é infinitamente mais interessante do que discutir se ele estava ou não ciente das contribuições de Michael Martin quando terminou o manuscrito deste livro. É pre…

Amartya Sen

Há alguns anos, ao regressar a Inglaterra após uma curta viagem ao estrangeiro (era então Master do Trinity College de Cambridge), o agente da imigração em Heathrow, que examinou o meu passaporte indiano com bastante atenção, colocou-me uma questão filosófica bastante complexa. Olhando para a morada no impresso da imigração (Master's Lodge, Trinity College, Cambridge), perguntou-me se o Master de cuja hospitalidade eu obviamente desfrutava era meu amigo íntimo. Isto levou-me a pensar, pois não era completamente claro para mim se eu poderia afirmar ser amigo de mim próprio. Após alguma reflexão, cheguei à conclusão de que a resposta devia ser afirmativa, visto que me trato muitas vezes de forma bastante amigável e, para além disso, quando digo coisas inconvenientes consigo logo perceber que com amigos como eu não preciso de inimigos.
Identidade e Violência

Fernando Pessoa

Um indivíduo qualquer, desconhecedor do que seja o cálculo diferencial, não diz, ao folhear um livro sobre o assunto: «isto é incompreensível», ou, «este homem não sabe o que diz»; diz simplesmente, «não compreendo isto.» Mas o mesmo indivíduo, se for também desconhecedor de metafísica, já vulgarmente não diz, ao folhear um livro sobre esse assunto: «não compreendo isto»; a sua tendência é para dizer: «que confuso que é este homem!», ou, «isto é incompreensível».

Leituras e refutações

A propósito de Popper, vale a pena ler duas recensões de Pedro Galvão a O Mito do Contexto (Edições 70) e Conjecturas e Refutações(Almedina), ambos de Popper e ambas republicadas na Crítica.

Um outro Pedro, Peter Slezak, faz uma boa recensão do livro Popper, Objectivity and the Growth of Knowledge, de John H. Sceski (Continuum), que começa por levantar a questão de saber se a filosofia de Popper está morta ou viva.

Em português temos também nas Edições 70 o livro O Conhecimento e o Problema Corpo-Mente (Edições 70), de Popper, que infelizmente não está recenseado na Crítica.

Indução e falsificabilidade

Mais um pequeno exercício para o leitor. O que responderia à Ana?

Ana - Por que razão Popper diz que a ciência não tem por base o raciocínio indutivo?
Professor - Porque, ao contrário do que é suposto, a indução não permite verificar as teorias. Lembras-te do exemplo dos corvos?
Ana - Sim, por muitos corvos negros que se observe, nenhum número de corvos negros nos autoriza a concluir que a teoria de que todos os corvos são negros é verdadeira.
Professor - Exactamente, Ana! É como tentar caçar moscas com uma carabina; é tempo perdido, pois não nos leva muito longe.
Ana - Pois, estou a ver, não nos garante o que pretendemos: a verdade de teorias como a de que todos os corvos são negros. Mas qual é a alternativa que Popper propõe para não ficarmos assim frustrados?
Professor - Bom, Popper acredita que é menos decepcionante tentar falsificar as nossas teorias, coisa que garante melhores resultados.
Ana - Ah, bom, professor. Imagino que recorrendo à falsificabilidade já podemos chegar a teorias …

H. E. Baber

Aproveitando a referência à discussão do multiculturalismo, remeto para um livro que comprei o ano passado - TheMulticulturalMystique, The Liberal Case AgainsDiversity (Prometheus Books), da autoria da filósofa H. E. Baber - e que também oferece uma perspectiva crítica sobre as teses multiculturalistas e algumas ideias feitas, em particular a ideia de que as pessoas oriundas de minorias étnicas ou religiosas por definição gostam das suas tradições e que as mantêm unicamente por livre escolha; a ideia de que por definição a assimilação é má ou lesiva dos «verdadeiros» interesses destas pessoas; o facto de aparentemente só os brancos multiculturalistas gozarem do privilégio de não serem "étnicos" e poderem portanto escolher livremente com que parte da "salada cultural" se identificam mais, enquanto um membro de uma minoria étnica ou religiosa tem de "descobrir" a sua identidade e que a não aceitação desta identidade imposta equivale a auto-ódio.

Multiculturalismo

Foi algo polémica a crónica "O Outro" que publiquei no Público, na qual punha em causa o multiculturalismo. Acabo de ler uma equilibrada recensão de Kenan Malik do livro Identidade e Violência, de Amartya Sen (Tinta da China), que não poupa algumas críticas às críticas que Sen faz ao multiculturalismo. Quando estas ideias são publicamente debatidas já fico mais descansado; o que mais me inquieta é a ideia de que é intolerável e grave pôr em causa publicamente o multiculturalismo.

Economia, bibliotecas e cultura

Por razões históricas curiosas, há uma tendência irreflectida para associar a cultura a uma vida etérea, pudicamente afastada da vida económica. Mas isto é uma mentira. Só pode dedicar-se à cultura quem tem rendimentos suficientes para isso — a menos que essa dedicação gere dinheiro. E só se pode produzir cultura se houver uma estrutura económica que o permita. Se a cultura depender do voluntarismo e da boa vontade, ficará entregue a quem tem dinheiro suficiente para poder trabalhar sem ganhar dinheiro e destruirá a possibilidade de os pobres produzirem ou terem acesso à cultura.

Isto torna-se mais claro com uma piada que se contava há muitos anos, no tempo do para muitos saudoso Salazar. Estava o ditador a passar na rua e viu um despojado a comer relva num jardim. Ficou impressionado e foi perguntar-lhe o que se passava. O despojado contou-lhe as suas desgraças e o seu desemprego, e que ainda por cima a polícia andava sempre a expulsá-lo dos jardins e a prendê-lo, e o Salazar disse-lh…

Falsificacionismo e necessidade

Popper usava uma só solução — a falsificabilidade — para resolver dois problemas: o problema da indução e o problema da demarcação entre ciência e pseudociência. Mas tanto num caso como no outro pressupõe que as conjecturas científicas são possivelmente falsas, e nunca necessariamente verdadeiras.

Vejamos no caso da indução. Popper pensa que o problema é nenhuns corvos pretos, por exemplo, poderem confirmar que todos os corvos são pretos, ao passo que basta um corvo branco para refutar a mesma ideia. Trata-se então de fazer conjecturas que possam ser refutadas pela realidade. Se conjecturo que os corvos têm uma alma indetectável a quaisquer testes, isto não é falsificável porque nada poderá acontecer na realidade que refute a conjectura. Ao passo que a conjectura de que os corvos são pretos pode ser refutada.

Pode? Bom, depende de pressupor que realmente é possível haver corvos que não sejam pretos. No caso dos corvos isto é plausível. Mas no caso de leis e identidades científicas mais …

O mal de matar

Pedro Galvão fará uma comunicação na Escola EB2, 3S de Oliveira de Frades no dia 22 de Maio próximo, sexta-feira, sobre o mal de matar.

purismo e perfeccionismo

O perfeccionismo linguístico distingue-se do purismo linguístico. No primeiro trata-se apenas de trazer maior racionalidade à língua, enriquecê-la, cultivá-la, de uma maneira inclusiva, clara, aberta, ou seja, de comunicar inteligivelmente coisas complexas. O segundo nada tem a ver com a racionalidade e é frequentemente irracional. Trata-se de rejeitar algo apenas por se imaginar que é «alienígena». Assim, corrigir «fisicalismo» para «fisicismo» não é purista, embora seja perfeccionista. Não se está a recusar uma palavra nova, para a qual não temos equivalente no nosso léxico, em função de um nacionalismo linguístico, apenas a traduzir um termo filosófico de uma maneira consistente com as nossas regras gramaticais, usando uma palavra que já temos, em vez de fazer enxertos desnecessários.

Um exemplo de purismo encontra-se num artigo que descobri no site Ciberdúvidas, sobre o uso da preposição «em» + adjectivo, com valor adverbial. Por exemplo: «em absoluto», «em aberto», «em concreto», …

Falsificabilidade outra vez

Na sequência do artigo anterior do Aires, deixo outro desafio relacionado com a ideia de Popper de que a falsificabilidade é um critério que distingue as teorias científicas das incientíficas.

Ana — Muito bem, compreendo que nem todas as hipóteses empíricas falsificáveis são hipóteses científicas. A falsificabilidade é uma condição necessária, mas não suficiente, da cientificidade. Mas agora tenho outro problema, professor.

Professor — Qual é?

Ana — É que muitas hipóteses e teorias que consideramos científicas são infalsificáveis.

Professor — Como assim?

Ana — Por exemplo, a água é H2O; a luz viaja a 300 mil quilómetros por segundo. Nenhuma destas afirmações é falsificável, se forem verdadeiras, pois não se referem a características contingentes do mundo. Saber se o João está no cinema ou não é falsificável, porque ele tanto pode estar no cinema como não estar no cinema. Mas nem a água nem a luz poderiam ser diferentes do que são. De modo que o critério de falsificabilidade tem qualquer co…

Um pequeno exercício: ciência e falsificabilidade

Convido o leitor a colocar-se no lugar do professor e a responder à última pergunta da Ana, no seguinte diálogo:
Professor -- Compreendeste o que, na opinião de Popper, distingue uma afirmação científica de uma afirmação pseudo-científica, Ana?
Ana -- Creio que sim, professor. Popper considera que uma afirmação só é científica se for falsificável.
Professor: Muito bem, Ana. Isso significa, então, que o critério de cientificidade de uma afirmação, ou de uma teoria, consiste em ser falsificável. Certo?
Ana -- Certo. Mas diga-me, professor, isso quer dizer que, de acordo com Popper, se eu tiver uma teoria que afirma que a lua é feita de queijo, então essa teoria é científica?
Professor -- Explica-te melhor, Ana.
Ana -- Bom, a afirmação "A Lua é feita de queijo" é falsa. Logo, é falsificável. Logo, de acordo com Popper, é científica. Onde estou a errar professor?

Anonimato no séc. XIX

Já no séc. XIX era ainda comum os jornais trazerem notícias e comentários sem indicação do responsável; o uso de pseudónimos óbvios era também comum, como “João Atento”. Esta situação dava azo a protestos, nomeadamente porque as pessoas vítimas de difamação ou mentira não podiam defender-se adequadamente; os jornais defendiam-se dizendo que ao ocultar a identidade dos autores protegiam a liberdade de expressão. Este argumento é como defender que ir para a rua armado com uma metralhadora para afastar ladrões e assassinos é bom porque nos permite ir para a rua. O que é realmente bom é ir para a rua sem necessidade de tal coisa, e o que é realmente bom é as pessoas poderem exprimir as suas opiniões, por mais polémicas que sejam, sem terem de se ocultar atrás de pseudónimos.

Livros gratuitos

A editora londrina Bloomsbury acaba de lançar uma editora subsidiária, Bloomsbury Academic, que tem por objectivo publicar livros electrónicos de ciência gratuitamente, financiando-se com a venda das suas contrapartes físicas. A notícia foi dada hoje no jornal Guardian, mas por enquanto está apenas disponível um livro que não é de ciência, do fundador do Creative Commons, Lawrence Lessig: Remix, no qual se combate a radicalidade das leis actuais dos direitos de autor que, segundo Lessing, estão a prejudicar o desenvolvimento cultural.

Numa primeira leitura, este livro pareceu-me bastante mais sério do que o panfletário livro The Cult of the Amateur (traduzido no Brasil e em Portugal), de Andrew Keen, e que se opõe sem argumentos credíveis a Lessing. Se eu tiver tempo, depois de ler também este de Lessing, escreverei uma recensão conjunta.

Quanto mede o sentido da vida?

Na semana passada fiz uma formação profissional na área da gestão e empreendedorismo. Numa das sessões o formador, um gestor profissional e professor universitário na área de economia, indicava que tudo é quantificável. Para choque da plateia indicou que até o casamento é quantificável, que a prostituição deveria ser legalizada já que também é quantificável. Pressupõe-se que alguém formado em gestão, quando se refere a quantificável, quererá dizer que dá dinheiro. Mas parece que nem tudo é quantificável ao poder do dinheiro. Como é que podemos quantificar o sentido da existência, por exemplo? Ou como quantificamos o problema metafísico da identidade? Se estes contra-exemplos funcionam então o gestor não tem razão quando refere que tudo é quantificável. Além do mais se a prostituição deve ser legalizada (eu penso que sim, mas por outras razões) porque é quantificável, por que razão não legalizamos os assaltos a bancos que até dão muito mais lucro?

Aristóteles desmistificado

Quem quiser conhecer as ideias de Aristóteles sobre as diversas áreas da filosofia e da ciência tem agora à sua disposição o excelente Aristotle, de Christopher Shields (Routledge). Comecei a lê-lo ontem e fiquei impressionado com a sua qualidade. Shields é também autor de Classical Philosophy: A Contemporary Introduction (também da Routledge) e se este livro for do mesmo calibre, um estudante quase nada mais precisa, além das fontes primárias, para dominar num semestre a filosofia grega antiga.

Relativismo

É comum defender-se o ponto de vista de que todas as verdades são relativas. A ideia seria que a realidade é uma construção, querendo dizer invenção ou projecção ou perspectiva. A primeira dificuldade é saber por que inventámos as hemorróidas, o mau hálito e os políticos manhosos. Invenção por invenção, eu teria preferido inventar-me rico, inteligente e charmoso, e não um néscio sem jeito e pouco cacau.

Não se deve confundir o conceito de verdade com o conceito de crença. Pensar que é verdade que a neve é branca é muito diferente de ser verdade que a neve é branca. E seja como for que concebamos a verdade, não podemos concebê-la de tal modo que no fim sejamos vistos como omniscientes e infalíveis, pois é demasiado óbvio que não o somos. Se concebermos a verdade como algo que é idêntico a seja o que for que alguém pensa que é verdade, não poderemos errar quando pensamos que sabemos algo. Subitamente, ficamos omniscientes e infalíveis, porque toda a perspectiva é uma perspectiva.

Uma das …

anonimato e pseudónimos

Alguns leitores poderão estranhar o facto de os seus comentários não serem publicados mesmo quando cumprem as regras de terem unicamente o objectivo de discutir os artigos e criticar os argumentos e opiniões apresentados. A explicação disto é que doravante apenas se publica os comentários cujo autor se identifica inequivocamente, com nome próprio. Os autores do blogue já estão familiarizados com as opiniões mais comuns a favor do anonimato e dos pseudónimos. Não vale a pena discutir este ponto mais do que já foi feito. São regras da casa. Portanto, estão automaticamente excluídos: a) comentários meramente pessoais, sem conteúdo argumentativo, mesmo que assinados. b) comentários anónimos, mesmo que com conteúdo argumentativo. Nota: «inequivocamente identificado» significa «primeiro e último nome», exactamente como fazem os autores do blogue.

Mudanças gráficas e não só

Mudei o aspecto gráfico da Crítica, que não mudava desde Março de 2008, juntamente com outros aspectos de formatação invisíveis para o leitor. Espero que goste do novo aspecto.

Actualizei também a lista de ligações externas que surgem no menu da esquerda da revista, assim como neste blog. Agora surgem neste blog apenas outros blogs; os outros tipos de ligações surgem na revista. Eliminei nos dois casos sites e blogs que não têm conteúdos úteis a estudantes de filosofia, ou que estão mortos, ou que são meramente institucionais. De futuro, penso incluir ligações mais especializadas em cada uma das secções da Crítica: ligações de estética na secção respectiva, etc.

Caso encontre algum problema de formatação ou outro, não hesite em dizer-me, assim como sugestões de ligações.

Um paradoxo moral de dez

Será bom haver problemas morais para resolver? Ao responder a esta pergunta compreende-se o paradoxo: por um lado, queremos dizer que não é bom haver problemas morais para resolver (como a fome e a miséria), pois é por isso mesmo que os queremos resolver; mas por outro, que iríamos fazer depois de resolvidos todos os problemas morais? Jogar às damas?

A dificuldade é parecer necessário ter desafios morais para ter uma vida que nos realize. Por outro, este pensamento instrumentaliza o mal, pois obriga a admitir que é bom haver mal, o que em si é contraditório.

Este problema está intimamente relacionado com teodiceias como a de Swinburne, segundo a qual o mal natural e moral no mundo existe porque Deus quer que sejamos heróis. Muitas pessoas pensam que esta perspectiva torna Deus imoral, pois é como se uma mãe decidisse tornar um filho paralítico para este poder desenvolver o seu carácter e ser um herói. Mas o problema é também moral, pois levanta um desafio a qualquer concepção do bem e d…

Ortografia, gramática e estado

Imagem: A Minha Sala, de Carl Moll
Uma ideia muito comum a favor da legislação ortográfica, apresentada aqui pelo simpático leitor João Pedro, é a seguinte: se não se fizesse leis sobre a ortografia, cada qual iria escrever à sua maneira e seria uma anarquia ortográfica. Isto é falso. Em muitos países onde não só não há qualquer anarquia ortográfica como se escreve mais e melhor, não há leis ortográficas: é o caso do Reino Unido. Por outro lado, mesmo em Portugal e no Brasil não há leis sobre a gramática, nem sobre o léxico; há apenas gramáticas e dicionários. No entanto, não há qualquer anarquia gramatical nem lexical.

A legislação sobre a ortografia só foi necessária quando algumas pessoas se outorgaram o direito de mudar a maneira como as outras escrevem. Mas como não poderiam fazer isso sem a força do estado, usaram o poder legislativo para conseguir os seus fins, usando mentiras políticas diversas (no tempo da república era combater o analfabetismo, hoje é a ilusão de que vamos con…

Filosofia moderna

Acabo de ter conhecimento da publicação do terceiro volume da Nova História da Filosofia Ocidental, de Sir Anthony Kenny, intitulado O Despertar da Filosofia Moderna. A editora é a Loyola. Também da Loyola é a publicação de Breve História da Felicidade, de Nicolas White, um livro muito interessante, mas servido por uma redacção e organização deficientes, que tornam penosa a sua leitura.

O fim do meio

Imagem: Punto Fijo, de ŽakQ100
Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público, a última desta série:

Diz-se por vezes que os fins não justificam os meios. Mas isto é com certeza uma palermice. Pois se os fins não justificam os meios, o que haveria de os justificar? É um exagero dizer que a finalidade dos fins é precisamente justificar os meios, mas não anda longe da verdade: é que nada mais pode justificar os meios excepto os fins. Por exemplo, o que justifica uma viagem longa e desconfortável até chegar a uma dada praia é o fim de querer apanhar Sol e nadar nessa praia.

Claro que o que se quer dizer com essa frase feita tem de ser outra coisa. Quer-se dizer que certos fins não justificam certos meios. Por exemplo, tornar um dado país mais rico, que é em si um fim desejável, não justifica todo e qualquer meio, incluindo, por exemplo, declarar guerra a um país vizinho que nada nos fez de mal. Ou, para dar outro exemplo, o fim que alguém tem de ir ao cinema não justifica o meio …

Reformas ortográficas

Há algo de incoerente em todas as reformas ortográficas. Subitamente, um conjunto de pessoas outorga-se o direito de não respeitar a ortografia dos seus antepassados, pelos mais diversos motivos — uns bons, outros maus. Mas exige para si o respeito da restante população, que fica obrigada a respeitar as suas vontades ortográficas. A ideia é que é legítimo não respeitar a ortografia dos nossos antepassados, mas não é legítimo não respeitar a ortografia de quem não respeita a ortografia dos seus antepassados. Usa-se então a mentira de que a língua evolui; mas quem decide como e para onde evolui não é o grosso da população que usa a língua, mas apenas quem tem o poder político do seu lado, por nenhuma boa razão. Os reformistas ortográficos ficam assim na curiosa posição de não respeitarem nem a ortografia dos seus antepassados nem as vontades do grosso das pessoas que usam a língua, mas de exigirem dos últimos o respeito que a nenhum dos outros concedem.

Filosofia fora da escola

Esta semana que passou dei as minhas aulas de filosofia fora da escola, abertas a quem quisesse assistir. Foi interessante ver os pais de alguns alunos levantar o braço para intervir, tirar dúvidas, discutir comigo e com os colegas dos seus filhos. Para mim também foi uma boa experiência confrontar-me com um auditório tão heterogéneo.

Nada disto aconteceu por acaso, claro. A iniciativa foi integrada na Feira Educativa de Portimão, organizada pelas duas escolas secundárias da cidade, com o apoio da Câmara Municipal de Portimão. A finalidade da feira foi mostrar a toda a comunidade o que cada escola tinha para oferecer, desde as escolas de infância até às instituições de ensino superior a funcionar na cidade, incluindo as escolas privadas, de música, de hotelaria, etc. A minha escola utilizou uma boa parte do enorme Pavilhão Arena para montar nada menos que dez stands. E havia ainda à disposição dos interessados um excelente auditório de cerca de 200 lugares, onde se fizeram sessões de e…

W. v. O. Quine

A tarefa do filósofo difere das dos outros, pois, em pormenor; mas não de um modo tão drástico como supõe quem atribui ao filósofo um ponto de vista privilegiado, fora do esquema conceptual de que se ocupa. Não há tal exílio cósmico. O filósofo não pode estudar nem rever o esquema conceptual fundamental da ciência e do senso comum sem ter um qualquer esquema conceptual, seja o mesmo ou outro, que não carecerá menos de escrutínio filosófico, no qual possa trabalhar.

a pobreza do nacionalismo linguístico

nota: este artigo foi reformulado na sequência dos comentários críticos e sugestões dos leitores Aires Almeida, Jaime Quintas e Anónimo.
Vou apresentar um de muitos exemplos de como o afastamento linguístico relativamente ao castelhano não terá sido uma opção culturalmente produtiva.
Em inglês, as palavras "deciduous" e "evergreen" são antónimas e significam, respectivamente, "que perde folhagem anualmente, passando por um período destituído de folhagem" e "espécime vegetal que mantém a sua folhagem durante todo o ano". Em português usamos o termo "decídua", que partilha com o termo inglês a mesma origem latina, embora seja muito mais comum a expressão "de folha caduca". Já no caso de "evergreen", é comum usar-se como equivalentes as expressões "de folha perene" ou "de folha persistente". Porém, estas não têm o mesmo grau de precisão que as expressões inglesas, pois os termos ingleses, mesmo isolad…

Sócrates e o direito

Acabo de receber notícia de dois novos livros importantes para estudantes e professores: A Companion to Socrates, org. Sara Ahbel-Rappe e Rachana Kamtekar, e Philosophy of Law: Classic and Contemporary Readings, org. Larry May e Jeff Brown.

Congresso internacional: deslocamentos na arte

Encontram-se abertas as inscrições para este congresso, uma promoção conjunta dos programas de pós-graduação de Estética e Filosofia da Arte da UFOP, e de Filosofia da UFMG. Será realizado em Ouro Preto, de 20 a 23 de Outubro, no Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC), da UFOP, e consistirá de conferências por parte de pesquisadores convidados, bem como de comunicações e painéis, mediante inscrição prévia. Os temas envolvidos são: Estética e política; Arte e Filosofia; Indústria Cultural; Estética e ética; Espaço e tempo na arte; Arte e memória; Arte e psicanálise; Tradição e ruptura na estética; O moderno e o contemporâneo.

Conferencistas confirmados: Celso Favaretto (USP); Sônia Salzstein (USP); Rodrigo Duarte (UFMG); Thomas Friedrich (Fachhochschule Mannheim); Shierry Weber Nicholsen (Antioch University/Seattle); Jeremy Shapiro (The Fielding Institute/Santa Barbara).

Mais informações neste site ou na secretaria do programa de pós-graduação em Estética e Filosofia da Arte da U…

Filosofia da Literatura

Peter Kivy é autor de diversas obras em estética e filosofia da música, como Introduction to a Philosophy of Music (OUP). Neste volume, The Performance of Reading, An Essay in the Philosophy of Literature, Kivy centra-se na discussão filosófica da leitura como execução artística. No que diz respeito às artes, algumas são performativas, outras não. Há execuções de obras musicais, mas não de pinturas. A literatura, neste aspecto, é um pouco de ambas. As peças são representadas; os romances, os contos e os poemas narrativos não. E embora se possa ler uma peça para si próprio, ou ler um romance em voz alta como um tipo de execução, uma peça destina-se a ser representada enquanto o romance contemporâneo se destina a ser lido em silêncio. Mas a palavra impressa nos seus primeiros dias não significava leitura silenciosa. E na antiguidade, os que podiam ler liam em voz alta para si próprios. O advento da leitura silenciosa é relativamente recente na nossa história. Neste ensaio sagaz e provoca…