31 de maio de 2009

Activismo, verdade e argumentação

Uma democracia saudável exige discussão pública, mas nem toda a discussão pública contribui para uma democracia saudável — e uma discussão pública viciosa contribui para o adoecimento da democracia. Para que a discussão pública possa contribuir para a saúde da democracia tem de se reger exactamente pelos mesmos princípios de probidade epistémica que, idealmente, regem o debate académico. Neste, o exercício crítico intenso é acompanhado de uma consciência de que não se trata de usar todos os truques para defender a nossa dama, mas antes de procurar o mais imparcialmente possível os melhores argumentos, contra-exemplos e contra-argumentos. Trata-se de procurar a verdade e não de fazer valer os nossos anseios.

O debate público confunde-se sistematicamente com a mentira da propaganda. Na propaganda, não se trata de procurar conjuntamente a verdade: trata-se de gritar o mais alto possível para eliminar quem discorda de nós, e para arregimentar fiéis para a nossa causa através da persuasão irracional. Este é o tema dos meus artigos “Discussão Pública”, “Aborto, Argumentação e Política” e “Crença, Opinião e Desejo”.

Imagem: Regiment of leaves (Sanibel patterns 8 of 15), de Today is a good day

30 de maio de 2009

Compreender as críticas à filosofia analítica

Acabo de publicar aqui um artigo de resposta a este artigo de Alexandre Machado. Espero que seja esclarecedor.

O argumento ontológico e a incorporeidade de deus


Professor - O que acham do argumento ontológico?
- Acho bastante fraco, professor. E até nem consigo compreender como impressionou assim tantas pessoas inteligentes, como referiu.
Professor - Mas é fraco porquê?
- A um ser perfeito, como é o deus teísta, nada pode faltar.
Professor - Estou a seguir, continua.
- Mas o deus teísta não tem corpo, ou seja, não tem pele nem ouvidos, nem nariz nem nenhum dos órgãos dos sentidos.
Professor - Por que dizes isso?
- Porque se tivesse corpo como qualquer um de nós não precisávamos de argumentos para provar a sua existência. Podíamos vê-lo, tocá-lo, ouvi-lo, etc., e ficava o assunto resolvido.
Professor - Bom, isso não é assim tão claro. Mas onde queres chegar com isso?
- Quero chegar ao seguinte: se o deus teísta é incorpóreo, então falta-lhe algo que eu tenho, que é o tacto, a audição, o olfacto, etc. Portanto, não pode ter as experiências sensíveis que qualquer um de nós pode ter.
Professor - Mas por que razão isso é uma imperfeição?
- Ora, professor, deus é incapaz de saber directamente o que é sentir frio, ter a pele irritada, ter uma dor de barriga, saber a que cheira o café. Não saber isso é não saber alguma coisa, ou não?
Professor - Mas ele não pode saber essas coisas sem precisar de ter corpo?
- Como assim? Por muito inteligente que seja, um ser que não tem barriga também não pode saber directamente o que é sentir uma dor de barriga. Portanto, há algo que eu consigo saber e que ele não sabe, a não ser que ele tenha um corpo como nós.
Professor - Mas...
- ... mas está visto que não tem corpo. Logo, o deus teísta não é perfeito e não existe. Ou estou enganado?

28 de maio de 2009

James Rachels

O facto de se considerar frequentemente que estes problemas [da filosofia] não passam de questões de opinião pessoal constitui uma fraqueza da cultura contemporânea. Afinal, diz-se, ninguém pode provar que Deus existe ou que não existe, nem que a vida tem sentido ou que não tem. No entanto, é melhor entender estes problemas como questões de investigação racional. Ainda que os problemas sejam tão complexos que não podemos ter a expectativa de chegar a um acordo a seu respeito, devemos perguntar no que é mais razoável acreditar em vez de agarrarmos as ideias que nos pareçam mais atraentes, sejam elas quais forem. Como qualquer outra investigação humana responsável, a filosofia é, do princípio ao fim, um exercício da razão. As ideias que devem prevalecer são aquelas que tiverem as melhores razões do seu lado.

Caçadores e agricultores

Bee Wilson recenseia no Times o livro An Edible History of Humanity, de Tom Standage. Até que ponto a passagem da economia de caçadores-recolectores para uma economia de agricultores afectou adversamente a humanidade? Esta é a questão que o autor enfrenta neste apetecível livro.

27 de maio de 2009

Kant e Clive Bell



A editora Texto & Grafia publicou duas obras de filósofos de referência. São elas Lógica de Kant e Arte de Clive Bell. Fica assim o universo filosófico em língua portuguesa mais enriquecido. Não consegui ver pelo blog da editora quem são os tradutores.

O argumento ontológico é uma petição de princípio?


Ana - É verdade que eu compreendo o que quer dizer quando me fala de Deus, professor.
Professor - Tens, portanto, a ideia de Deus.
Ana - Certo, professor, mas acredito que não passa mesmo disso, de uma ideia.
Professor - Mas concordas, então, que a ideia que o ateu e o teísta têm de Deus é a mesma.
Ana - Não é bem assim, professor: quer-me parecer que as minhas ideias ocorrem na minha mente e as dos outros ocorrem nas mentes dos outros. Portanto, não se trata da mesma ideia.
Professor - Estou a ver, Ana. Ok, vou então reformular o que queria dizer: quando pensas em Deus, pensas num ser com as mesmas características ou atributos que o crente lhe atribui quando pensa nele. Certo?
Ana - Sim, e daí? Eu, que sou ateia, acredito que um ser com tais atributos não existe realmente e o teísta acredita que sim.
Professor - Bom, é melhor esclarecer quais são esses atributos, que tanto ateus como teístas associam à ideia de Deus.
Ana - Sim, é um ser no qual não se imagina qualquer defeito ou falha: é sumamente bom, sabe tudo, pode tudo, ...
Professor - ... numa palavra, Ana, é um ser perfeito. Certo?
Ana - Certo. Mas não acredito que tal ser exista a não ser na nossa imaginação.
Professor - Mas assim parece-me que estás a cair em contradição sem te aperceberes disso.
Ana - Explique lá isso, por favor.
Professor - Se defines Deus como um ser perfeito e ao mesmo tempo dizes que não existe, então estás implicitamente a dizer que ele não é perfeito.
Ana - Hã...?
Professor - Um ser perfeito que não existe não é realmente perfeito, pois falta-lhe alguma coisa para o ser. Ora, por definição, a um ser perfeito nada pode faltar. Assim, dizer que tens a ideia de um ser perfeito que não existe é o mesmo que dizeres que tens a ideia de um ser perfeito que não é perfeito.
Ana - Deixe-me pensar melhor...
Professor - ... pensa, Ana! É como pensar num solteiro casado. Isso não faz sentido.
Ana - Pois, mas...
Professor - ... mas daí conclui-se que não estás realmente a pensar num ser perfeito. Nesse caso, também não estás realmente a falar de Deus.
Ana - Bom, há aí qualquer coisa que não bate certo, professor.
Professor - Repara: se não existe, não é perfeito; e se não é perfeito, não é Deus.
Ana - Ah, já estou a ver a marosca, professor.
Professor - Marosca?
Ana - Sim. O professor está a dizer que Deus se define como um ser perfeito, ou seja, como um ser que tem os seguintes atributos: é sumamente bom, sabe tudo, pode tudo, ... e existe.
Professor - Ora, aí tens!
Ana - O argumento do professor para provar a existência de Deus resume-se, então, ao seguinte: Deus é, por definição, um ser sumamente bom, que sabe tudo, que pode tudo, etc., e que ... existe. Logo, Deus existe.
Professor - Hã...?
Ana - O professor ensinou-nos que isso era uma falácia. Como era mesmo o nome? Ah, já sei: petição de princípio!
Professor - É uma petição de princípio?
Ana - Sim, ou estou a ver mal as coisas? Talvez seja melhor mesmo perguntar àqueles que estão agora a ler a transcrição da nossa conversa. Digam lá o que acham, caros leitores.


26 de maio de 2009

O erro de Leibniz

Acabo de publicar um pequeno ensaio que discute um argumento famoso de Leibniz, associado à sua célebre pergunta "Por que há algo e não nada?" Espero que seja esclarecedor. Clique no título para ler.

25 de maio de 2009

A liberdade ameaçada?

Há sinais de que a liberdade está hoje ameaçada, de modos subtis e tanto mais perigosos quanto mais inócuos parecem, ou ao serviço da protecção policial ou militar. Falei do aspecto mental desta ameaça na crónica "Ditadura de Alabastro", mas o historiador Ben Wilson trata do aspecto político no livro What Price Liberty?, apresentado por Max Hastings no Times. Pela recensão, parece tratar-se de um livro fundamental para compreender as ameaças actuais às liberdades políticas e sociais tão duramente conquistadas. O livro de Wilson será publicado dia 4 de Junho em papel, e até essa data pode ser comprado em formato electrónico pelo preço que o leitor quiser, ou puxado gratuitamente.

Voltar à Lua 40 anos depois

Bryan Appleyard apresenta no Times dois livros que procuram dar a conhecer melhor a viagem norte-americana à Lua, em 1969, e tudo o que rodeou esse feito; são eles Moon Shot, de Dan Parry, e Rocket Men, de Craig Nelson. Pela recensão parece que se trata de livros bastante melhores do que o Moondust, de Andrew Smith, que apresento aqui.


24 de maio de 2009

Robin Le Poidevin

Comprei a versão electrónica do livro Arguing for Atheism: Introduction to the Philosophy of Religion, de Robin Le Poidevin, filósofo britânico e professor na Universidade de Leeds. Le Poidevin organizou a obra recentemente publicada The Routledge Companion to Metaphysics.

Ainda não o li, mas uma recensão de Finngeir Hiorth, que chama a atenção para um suposto aspecto negativo da obra - não mencionar muita bibliografia anterior, em particular Michael Martin e John L. Mackie - deu-me ainda maior motivação para o ler. Significa que Poidevin não perde o seu tempo a fazer relatórios de leitura do que outros escreveram, consequentemente, não me faz perder o meu tempo a ler duas vezes a mesma coisa. Este livro, ao que parece, procura ser também uma introdução à metafísica. Ver como Poidevin discute os problemas que se propõe discutir é infinitamente mais interessante do que discutir se ele estava ou não ciente das contribuições de Michael Martin quando terminou o manuscrito deste livro.

É preferível também ir directamente ler Martin e Mackie, e não perder tempo com relatórios de leitura e outro tipo de discussões. As recensões devem servir para iluminar a estrutura geral das obras e chamar a atenção para aspectos importantes ou mais subtis.

Este livro pode ser adquirido em versões PDF e Mobipocket. O melhor preço que vi é na ebooks.com (Mobipocket) e Books on Board (PDF).

23 de maio de 2009

Amartya Sen

Há alguns anos, ao regressar a Inglaterra após uma curta viagem ao estrangeiro (era então Master do Trinity College de Cambridge), o agente da imigração em Heathrow, que examinou o meu passaporte indiano com bastante atenção, colocou-me uma questão filosófica bastante complexa. Olhando para a morada no impresso da imigração (Master's Lodge, Trinity College, Cambridge), perguntou-me se o Master de cuja hospitalidade eu obviamente desfrutava era meu amigo íntimo. Isto levou-me a pensar, pois não era completamente claro para mim se eu poderia afirmar ser amigo de mim próprio. Após alguma reflexão, cheguei à conclusão de que a resposta devia ser afirmativa, visto que me trato muitas vezes de forma bastante amigável e, para além disso, quando digo coisas inconvenientes consigo logo perceber que com amigos como eu não preciso de inimigos.
Identidade e Violência

22 de maio de 2009

Fernando Pessoa

Um indivíduo qualquer, desconhecedor do que seja o cálculo diferencial, não diz, ao folhear um livro sobre o assunto: «isto é incompreensível», ou, «este homem não sabe o que diz»; diz simplesmente, «não compreendo isto.» Mas o mesmo indivíduo, se for também desconhecedor de metafísica, já vulgarmente não diz, ao folhear um livro sobre esse assunto: «não compreendo isto»; a sua tendência é para dizer: «que confuso que é este homem!», ou, «isto é incompreensível».

Leituras e refutações

A propósito de Popper, vale a pena ler duas recensões de Pedro Galvão a O Mito do Contexto (Edições 70) e Conjecturas e Refutações (Almedina), ambos de Popper e ambas republicadas na Crítica.

Um outro Pedro, Peter Slezak, faz uma boa recensão do livro Popper, Objectivity and the Growth of Knowledge, de John H. Sceski (Continuum), que começa por levantar a questão de saber se a filosofia de Popper está morta ou viva.

Em português temos também nas Edições 70 o livro O Conhecimento e o Problema Corpo-Mente (Edições 70), de Popper, que infelizmente não está recenseado na Crítica.

Indução e falsificabilidade


Mais um pequeno exercício para o leitor. O que responderia à Ana?


Ana - Por que razão Popper diz que a ciência não tem por base o raciocínio indutivo?

Professor - Porque, ao contrário do que é suposto, a indução não permite verificar as teorias. Lembras-te do exemplo dos corvos?

Ana - Sim, por muitos corvos negros que se observe, nenhum número de corvos negros nos autoriza a concluir que a teoria de que todos os corvos são negros é verdadeira.

Professor - Exactamente, Ana! É como tentar caçar moscas com uma carabina; é tempo perdido, pois não nos leva muito longe.

Ana - Pois, estou a ver, não nos garante o que pretendemos: a verdade de teorias como a de que todos os corvos são negros. Mas qual é a alternativa que Popper propõe para não ficarmos assim frustrados?

Professor - Bom, Popper acredita que é menos decepcionante tentar falsificar as nossas teorias, coisa que garante melhores resultados.

Ana - Ah, bom, professor. Imagino que recorrendo à falsificabilidade já podemos chegar a teorias verdadeiras.

Professor - Nada disso, Ana. Popper considera que nunca podemos dizer que uma teoria é verdadeira; apenas que é corroborada.

Ana - Corroborada? O que é isso? Não é a mesma coisa que verdadeira?

Professor - Não, Ana. Uma teoria corroborada é uma teoria que passou com sucesso tentativas de a falsificar, mas nunca temos a garantia de que seja verdadeira.

Ana - Bom, então é como a história dos corvos negros e da indução: o problema aí era não podermos garantir, recorrendo à indução, que a teoria era verdadeira. Mas esse problema não ficou resolvido com a história da falsificabilidade. Afinal, tanto alarido com a falsificabilidade para quê? Qual é a vantagem?

21 de maio de 2009

H. E. Baber


Aproveitando a referência à discussão do multiculturalismo, remeto para um livro que comprei o ano passado - The Multicultural Mystique, The Liberal Case Agains Diversity (Prometheus Books), da autoria da filósofa H. E. Baber - e que também oferece uma perspectiva crítica sobre as teses multiculturalistas e algumas ideias feitas, em particular a ideia de que as pessoas oriundas de minorias étnicas ou religiosas por definição gostam das suas tradições e que as mantêm unicamente por livre escolha; a ideia de que por definição a assimilação é má ou lesiva dos «verdadeiros» interesses destas pessoas; o facto de aparentemente só os brancos multiculturalistas gozarem do privilégio de não serem "étnicos" e poderem portanto escolher livremente com que parte da "salada cultural" se identificam mais, enquanto um membro de uma minoria étnica ou religiosa tem de "descobrir" a sua identidade e que a não aceitação desta identidade imposta equivale a auto-ódio.

Multiculturalismo

Foi algo polémica a crónica "O Outro" que publiquei no Público, na qual punha em causa o multiculturalismo. Acabo de ler uma equilibrada recensão de Kenan Malik do livro Identidade e Violência, de Amartya Sen (Tinta da China), que não poupa algumas críticas às críticas que Sen faz ao multiculturalismo. Quando estas ideias são publicamente debatidas já fico mais descansado; o que mais me inquieta é a ideia de que é intolerável e grave pôr em causa publicamente o multiculturalismo.

20 de maio de 2009

Um diálogo sobre o falsificacionismo

Acabo de publicar um pequeno diálogo que escrevi em resposta às interrogações que surgiram na sequência dos posts "Um Pequeno Exercício: Ciência e Falsificabilidade", "Falsificabilidade Outra Vez" e "Falsificacionismo e Necessidade". Espero que seja esclarecedor e que suscite o debate.

Responsabilidade e ortografia

Acabo de publicar dois novos artigos na Crítica: "Serão As Pessoas Responsáveis pelo que Fazem?", de James Rachels, um excerto da tradução de Pedro Galvão de Problemas da Filosofia, que será posto à venda pela Gradiva dia 25 próximo, e "Ortografia, Fonética e Grafia", de Vítor Guerreiro.

19 de maio de 2009

Economia, bibliotecas e cultura

Por razões históricas curiosas, há uma tendência irreflectida para associar a cultura a uma vida etérea, pudicamente afastada da vida económica. Mas isto é uma mentira. Só pode dedicar-se à cultura quem tem rendimentos suficientes para isso — a menos que essa dedicação gere dinheiro. E só se pode produzir cultura se houver uma estrutura económica que o permita. Se a cultura depender do voluntarismo e da boa vontade, ficará entregue a quem tem dinheiro suficiente para poder trabalhar sem ganhar dinheiro e destruirá a possibilidade de os pobres produzirem ou terem acesso à cultura.

Isto torna-se mais claro com uma piada que se contava há muitos anos, no tempo do para muitos saudoso Salazar. Estava o ditador a passar na rua e viu um despojado a comer relva num jardim. Ficou impressionado e foi perguntar-lhe o que se passava. O despojado contou-lhe as suas desgraças e o seu desemprego, e que ainda por cima a polícia andava sempre a expulsá-lo dos jardins e a prendê-lo, e o Salazar disse-lhe que ia resolver o assunto. Um dia depois aparece um carro do governo junto do despojado e dá-lhe um certificado oficial que dizia: ESTE HOMEM ESTÁ AUTORIZADO POR SUA EXCELÊNCIA O PRIMEIRO-MINISTRO A ALMOÇAR EM TODOS OS JARDINS DO PAÍS.

Há também a proverbial ideia de que é preferível ensinar a pescar em vez de dar um peixe. A ideia de fundo é haver uma grande diferença entre uma solução ilusória porque é insustentável a prazo e uma solução sustentável a prazo. Sempre que se fala em cultura as pessoas querem oferecer peixes, em vez de ensinar a pescar. Querem dar certificados para os pobres poderem comer relva, em vez de lhes dar condições económicas para poderem almoçar com dignidade. É como dizer que em vez de encontrarmos maneira de as pessoas terem casas condignas com quarto de banho adequado, que podem perfeitamente vir fazer as suas necessidades ao meu quarto de banho sempre que quiserem, porque eu sou um gajo fixe.

Precisamos de bibliotecas, livros, cultura, e precisamos que as pessoas tenham acesso a essas coisas. Mas para essas coisas existirem de modo sustentado, têm de ser pagas, para se poder sustentar a produção cultural. Se não forem pagas, só os privilegiados poderão ser gajos porreiros que oferecem o seu quarto de banho aos pobres.

As bibliotecas têm de ter fundos para comprar livros. Esta ideia é um sacrilégio em Portugal, onde as bibliotecas vivem muitas vezes dos livros velhos que as pessoas não querem ter em casa e oferecem altivamente às bibliotecas. Num país com uma estrutura cultural forte, as bibliotecas são cruciais para a sustentabilidade económica da cultura porque compram livros — e compram muitos livros. Algumas edições académicas noutros países que não Portugal só são economicamente viáveis porque as bibliotecas as compram — de outro modo, não existiriam.

Quando se chega à Internet, as coisas não são diferentes: é preciso saber como tornar economicamente viável a cultura, e seja qual for a solução, nunca será uma boa solução se depender de haver gajos porreiros que deixam os estranhos usar o seu quarto de banho. No mínimo, é preciso que quem consome cultura faça a si mesmo uma pergunta crucial: “posso ou não tirar vinte euros do meu orçamento para ajudar os criadores da cultura que consumo e que aprecio?”

A mentalidade aristocrática que concebe a cultura como uma actividade humana arredada da vida económica é uma mentira política. Que favorece os privilegiados e lixa os outros.
Imagem: 'The Music' In Me!, de Marc:

18 de maio de 2009

Beleza em português

Acabei de saber aqui que o último livro de Roger Scruton estará em breve disponível em língua portuguesa.

Falsificacionismo e necessidade

Popper usava uma só solução — a falsificabilidade — para resolver dois problemas: o problema da indução e o problema da demarcação entre ciência e pseudociência. Mas tanto num caso como no outro pressupõe que as conjecturas científicas são possivelmente falsas, e nunca necessariamente verdadeiras.

Vejamos no caso da indução. Popper pensa que o problema é nenhuns corvos pretos, por exemplo, poderem confirmar que todos os corvos são pretos, ao passo que basta um corvo branco para refutar a mesma ideia. Trata-se então de fazer conjecturas que possam ser refutadas pela realidade. Se conjecturo que os corvos têm uma alma indetectável a quaisquer testes, isto não é falsificável porque nada poderá acontecer na realidade que refute a conjectura. Ao passo que a conjectura de que os corvos são pretos pode ser refutada.

Pode? Bom, depende de pressupor que realmente é possível haver corvos que não sejam pretos. No caso dos corvos isto é plausível. Mas no caso de leis e identidades científicas mais profundas, isto não é assim tão claro. Saul Kripke e outros filósofos contemporâneos como Alex Bird defendem que muitas das proposições fundamentais da ciência são necessárias (ainda que não sejam logicamente necessárias). Se isto for verdade, tais proposições não são falsificáveis no sentido em que Popper concebia a falsificação, pois não há qualquer possibilidade de descobrir que a água não é H2O, por exemplo, ou que o ouro não tem o peso atómico que tem.

É possível reformular a ideia central de Popper? Sim. Podemos entender a falsificabilidade como um conceito meramente epistémico. Mas não era isso que Popper tinha em mente. Um conceito metafísico de falsificabilidade tem a vantagem de ser possível ter proposições científicas verdadeiras falsificáveis, ainda que nunca saibamos se são realmente verdadeiras; mas tem a desvantagem de pressupor que todas as proposições científicas são contingentes. Um conceito epistémico de falsificabilidade tem a vantagem de não pressupor que todas as proposições científicas são contingentes; mas tem a desvantagem de admitir que falsificar uma proposição não é senão deixar de pensar que uma proposição é verdadeira e passar a pensar que é falsa, sem que nem antes nem depois se trate de descobrir seja o que for quanto ao valor de verdade da proposição científica em si. Ou seja: é uma concepção anémica de falsificação.

Em suma: o falsificacionismo de Popper pressupõe sem argumentos que as proposições científicas são todas contingentes, o que pode ser posto em causa e tem sido posto em causa desde os anos 70 do séc. XX — além de já antes ser rejeitado por filósofos como Aristóteles. Um defensor do falsificacionismo ou argumenta contra a ideia de que há proposições científicas necessárias, ou torna o conceito de falsificacionismo anémico. Não parece haver outras alternativas.
Imagem: Orb, de BURИBLUE

17 de maio de 2009

O mal de matar

Pedro Galvão fará uma comunicação na Escola EB2, 3S de Oliveira de Frades no dia 22 de Maio próximo, sexta-feira, sobre o mal de matar.

16 de maio de 2009

purismo e perfeccionismo

O perfeccionismo linguístico distingue-se do purismo linguístico. No primeiro trata-se apenas de trazer maior racionalidade à língua, enriquecê-la, cultivá-la, de uma maneira inclusiva, clara, aberta, ou seja, de comunicar inteligivelmente coisas complexas. O segundo nada tem a ver com a racionalidade e é frequentemente irracional. Trata-se de rejeitar algo apenas por se imaginar que é «alienígena». Assim, corrigir «fisicalismo» para «fisicismo» não é purista, embora seja perfeccionista. Não se está a recusar uma palavra nova, para a qual não temos equivalente no nosso léxico, em função de um nacionalismo linguístico, apenas a traduzir um termo filosófico de uma maneira consistente com as nossas regras gramaticais, usando uma palavra que já temos, em vez de fazer enxertos desnecessários.

Um exemplo de purismo encontra-se num artigo que descobri no site Ciberdúvidas, sobre o uso da preposição «em» + adjectivo, com valor adverbial. Por exemplo: «em absoluto», «em aberto», «em concreto», «em particular», «em anexo», etc.

A única justificação dada pelo autor do artigo para repudiar este uso em português é a de tratar-se de uma influência francesa ou espanhola. Em português, segundo o autor, deveríamos usar apenas um advérbio ou um adjectivo em todas as situações em que normalmente usamos «em» + adjectivo, com valor adverbial. Mas isto deixa de fora uma pergunta óbvia: o que faz que isso seja disparatado em português mas não em castelhano (en particular), italiano (in particolare), francês (en particulier), inglês (in particular), neerlandês (in het bijzonder), alemão (insbesondere), romeno (in special) [...] etc.? Qual é a razão que explica o carácter disparatado dessa construção em português?

Não consigo encontrar razão alguma, excepto o purismo linguístico. A ideia irracional de que é preciso rejeitar uma certa construção, não por haver boas razões contra ela, mas porque queremos desta maneira garantir ou preservar a imaginária vernacularidade do português. Consigo inclusive pensar em razões para usar esta construção: «questão aberta» e «questão em aberto» não são a mesma coisa. (Claro que em muitas situações não haverá diferença, mas isso não é razão para rejeitar completamente este uso). É por isto que afirmei no meu artigo sobre plantas «sempervirentes» e decíduas que a questão tem um lado político: o purismo introduz diferenças onde essas diferenças não existem (em castelhano usa-se sem problemas aquela construção), estas diferenças artificiais causam um afastamento linguístico que não obedece a uma exigência de racionalidade ou comunicação, mas de pura fantasia e nacionalismo linguístico. Resumindo: corrigimos as nossas crianças quando dizem «mais grande» não porque isso tenha algum mal, mas porque alguém que sofreu uma lavagem cultural ao cérebro nos lavou a nós o cérebro, para que lavemos o cérebro às nossas crianças, e assim sucessivamente, apenas para não escrevermos frases que soam a castelhano - «más grande».

Todavia, concordo com o autor no que se refere ao uso de «em» + advérbio, por exemplo «x ultrapassa em muito y» -- aqui podemos perfeitamente escrever «x ultrapassa muito y». Neste caso não se trata de purismo mas de perfeccionismo, pois estamos a aumentar a racionalidade.

Falsificabilidade outra vez

Na sequência do artigo anterior do Aires, deixo outro desafio relacionado com a ideia de Popper de que a falsificabilidade é um critério que distingue as teorias científicas das incientíficas.

Ana — Muito bem, compreendo que nem todas as hipóteses empíricas falsificáveis são hipóteses científicas. A falsificabilidade é uma condição necessária, mas não suficiente, da cientificidade. Mas agora tenho outro problema, professor.

Professor — Qual é?

Ana — É que muitas hipóteses e teorias que consideramos científicas são infalsificáveis.

Professor — Como assim?

Ana — Por exemplo, a água é H2O; a luz viaja a 300 mil quilómetros por segundo. Nenhuma destas afirmações é falsificável, se forem verdadeiras, pois não se referem a características contingentes do mundo. Saber se o João está no cinema ou não é falsificável, porque ele tanto pode estar no cinema como não estar no cinema. Mas nem a água nem a luz poderiam ser diferentes do que são. De modo que o critério de falsificabilidade tem qualquer coisa de errado. Ou estou a ver mal?
Imagem: Utua/mist, de Marko_K

13 de maio de 2009

Um pequeno exercício: ciência e falsificabilidade


Convido o leitor a colocar-se no lugar do professor e a responder à última pergunta da Ana, no seguinte diálogo:

Professor -- Compreendeste o que, na opinião de Popper, distingue uma afirmação científica de uma afirmação pseudo-científica, Ana?

Ana -- Creio que sim, professor. Popper considera que uma afirmação só é científica se for falsificável.

Professor: Muito bem, Ana. Isso significa, então, que o critério de cientificidade de uma afirmação, ou de uma teoria, consiste em ser falsificável. Certo?

Ana -- Certo. Mas diga-me, professor, isso quer dizer que, de acordo com Popper, se eu tiver uma teoria que afirma que a lua é feita de queijo, então essa teoria é científica?

Professor -- Explica-te melhor, Ana.

Ana -- Bom, a afirmação "A Lua é feita de queijo" é falsa. Logo, é falsificável. Logo, de acordo com Popper, é científica. Onde estou a errar professor?

Anonimato no séc. XIX

Já no séc. XIX era ainda comum os jornais trazerem notícias e comentários sem indicação do responsável; o uso de pseudónimos óbvios era também comum, como “João Atento”. Esta situação dava azo a protestos, nomeadamente porque as pessoas vítimas de difamação ou mentira não podiam defender-se adequadamente; os jornais defendiam-se dizendo que ao ocultar a identidade dos autores protegiam a liberdade de expressão. Este argumento é como defender que ir para a rua armado com uma metralhadora para afastar ladrões e assassinos é bom porque nos permite ir para a rua. O que é realmente bom é ir para a rua sem necessidade de tal coisa, e o que é realmente bom é as pessoas poderem exprimir as suas opiniões, por mais polémicas que sejam, sem terem de se ocultar atrás de pseudónimos.

12 de maio de 2009

Livros gratuitos

A editora londrina Bloomsbury acaba de lançar uma editora subsidiária, Bloomsbury Academic, que tem por objectivo publicar livros electrónicos de ciência gratuitamente, financiando-se com a venda das suas contrapartes físicas. A notícia foi dada hoje no jornal Guardian, mas por enquanto está apenas disponível um livro que não é de ciência, do fundador do Creative Commons, Lawrence Lessig: Remix, no qual se combate a radicalidade das leis actuais dos direitos de autor que, segundo Lessing, estão a prejudicar o desenvolvimento cultural.

Numa primeira leitura, este livro pareceu-me bastante mais sério do que o panfletário livro The Cult of the Amateur (traduzido no Brasil e em Portugal), de Andrew Keen, e que se opõe sem argumentos credíveis a Lessing. Se eu tiver tempo, depois de ler também este de Lessing, escreverei uma recensão conjunta.

Quanto mede o sentido da vida?

Na semana passada fiz uma formação profissional na área da gestão e empreendedorismo. Numa das sessões o formador, um gestor profissional e professor universitário na área de economia, indicava que tudo é quantificável. Para choque da plateia indicou que até o casamento é quantificável, que a prostituição deveria ser legalizada já que também é quantificável. Pressupõe-se que alguém formado em gestão, quando se refere a quantificável, quererá dizer que dá dinheiro. Mas parece que nem tudo é quantificável ao poder do dinheiro. Como é que podemos quantificar o sentido da existência, por exemplo? Ou como quantificamos o problema metafísico da identidade? Se estes contra-exemplos funcionam então o gestor não tem razão quando refere que tudo é quantificável. Além do mais se a prostituição deve ser legalizada (eu penso que sim, mas por outras razões) porque é quantificável, por que razão não legalizamos os assaltos a bancos que até dão muito mais lucro?

Aristóteles desmistificado

Quem quiser conhecer as ideias de Aristóteles sobre as diversas áreas da filosofia e da ciência tem agora à sua disposição o excelente Aristotle, de Christopher Shields (Routledge). Comecei a lê-lo ontem e fiquei impressionado com a sua qualidade. Shields é também autor de Classical Philosophy: A Contemporary Introduction (também da Routledge) e se este livro for do mesmo calibre, um estudante quase nada mais precisa, além das fontes primárias, para dominar num semestre a filosofia grega antiga.

Relativismo

É comum defender-se o ponto de vista de que todas as verdades são relativas. A ideia seria que a realidade é uma construção, querendo dizer invenção ou projecção ou perspectiva. A primeira dificuldade é saber por que inventámos as hemorróidas, o mau hálito e os políticos manhosos. Invenção por invenção, eu teria preferido inventar-me rico, inteligente e charmoso, e não um néscio sem jeito e pouco cacau.

Não se deve confundir o conceito de verdade com o conceito de crença. Pensar que é verdade que a neve é branca é muito diferente de ser verdade que a neve é branca. E seja como for que concebamos a verdade, não podemos concebê-la de tal modo que no fim sejamos vistos como omniscientes e infalíveis, pois é demasiado óbvio que não o somos. Se concebermos a verdade como algo que é idêntico a seja o que for que alguém pensa que é verdade, não poderemos errar quando pensamos que sabemos algo. Subitamente, ficamos omniscientes e infalíveis, porque toda a perspectiva é uma perspectiva.

Uma das razões falaciosas a favor da ideia de que todas as verdades são relativas é que ao longo da história as crenças das pessoas têm mudado imenso. Primeiro, pensava-se que Zeus presidia aos deuses, depois que só havia um Deus que é três, depois que a Terra estava imóvel, depois Galileu disse que se movia e toda a gente mudou subitamente de ideias, não sem antes o condenar a prisão domiciliar — e por aí fora. Mas é falacioso concluir que a verdade é apenas a nossa representação dela com base no facto de termos mudado de crenças ao longo do tempo. Se a verdade fosse apenas a nossa representação das coisas, nenhuma razão haveria para mudar a nossa representação das coisas.

“Ah, e tal e o camandro”, responde o relativista, “as crenças das pessoas são uma expressão do seu tempo histórico, de estruturas sociais, económicas, etc., e és uma besta se não percebes isso.” Sou sem dúvida uma besta, mas este relativista não vê o óbvio: que ele mesmo acredita na irrelatividade dessas estruturas sociais — além de acreditar que é realmente verdade, e não apenas a nossa crença, que os gregos antigos pensavam uma coisa, os medievais europeus outra e hoje os aborígenes australianos outra ainda. Não só a diversidade de opiniões e mentalidades ao longo da história não permite concluir que a verdade é relativa, como pressupõe que não o é: basear o relativismo da verdade na ideia irrelativista de que ao longo do tempo histórico as ideias mudaram é puro desvario.

Pior: dada uma qualquer verdade, supostamente relativa a X, basta acrescentar X à verdade relativa original para passarmos a ter uma verdade que não é relativa a coisa alguma. Por exemplo, “A neve é branca” é uma verdade relativa ao nosso aparato visual e cognitivo. Mas isto significa que “A neve é branca para seres com um dado aparelho cognitivo e em determinadas condições de luz” é uma verdade irrelativa.

Haverá alguma verdade relativa que não implique a existência de uma verdade irrelativa nela baseada? Talvez. Mas nunca encontrei tal coisa.
Imagem: Petal Drops, de Steve took it

anonimato e pseudónimos

Alguns leitores poderão estranhar o facto de os seus comentários não serem publicados mesmo quando cumprem as regras de terem unicamente o objectivo de discutir os artigos e criticar os argumentos e opiniões apresentados. A explicação disto é que doravante apenas se publica os comentários cujo autor se identifica inequivocamente, com nome próprio. Os autores do blogue já estão familiarizados com as opiniões mais comuns a favor do anonimato e dos pseudónimos. Não vale a pena discutir este ponto mais do que já foi feito. São regras da casa.
Portanto, estão automaticamente excluídos:
a) comentários meramente pessoais, sem conteúdo argumentativo, mesmo que assinados.
b) comentários anónimos, mesmo que com conteúdo argumentativo.
Nota: «inequivocamente identificado» significa «primeiro e último nome», exactamente como fazem os autores do blogue.

11 de maio de 2009

Mudanças gráficas e não só

Mudei o aspecto gráfico da Crítica, que não mudava desde Março de 2008, juntamente com outros aspectos de formatação invisíveis para o leitor. Espero que goste do novo aspecto.

Actualizei também a lista de ligações externas que surgem no menu da esquerda da revista, assim como neste blog. Agora surgem neste blog apenas outros blogs; os outros tipos de ligações surgem na revista. Eliminei nos dois casos sites e blogs que não têm conteúdos úteis a estudantes de filosofia, ou que estão mortos, ou que são meramente institucionais. De futuro, penso incluir ligações mais especializadas em cada uma das secções da Crítica: ligações de estética na secção respectiva, etc.

Caso encontre algum problema de formatação ou outro, não hesite em dizer-me, assim como sugestões de ligações.

10 de maio de 2009

Um paradoxo moral de dez

Será bom haver problemas morais para resolver? Ao responder a esta pergunta compreende-se o paradoxo: por um lado, queremos dizer que não é bom haver problemas morais para resolver (como a fome e a miséria), pois é por isso mesmo que os queremos resolver; mas por outro, que iríamos fazer depois de resolvidos todos os problemas morais? Jogar às damas?

A dificuldade é parecer necessário ter desafios morais para ter uma vida que nos realize. Por outro, este pensamento instrumentaliza o mal, pois obriga a admitir que é bom haver mal, o que em si é contraditório.

Este problema está intimamente relacionado com teodiceias como a de Swinburne, segundo a qual o mal natural e moral no mundo existe porque Deus quer que sejamos heróis. Muitas pessoas pensam que esta perspectiva torna Deus imoral, pois é como se uma mãe decidisse tornar um filho paralítico para este poder desenvolver o seu carácter e ser um herói. Mas o problema é também moral, pois levanta um desafio a qualquer concepção do bem e do mal, do que é correcto ou não e da vida boa.

Este e outros paradoxos morais são explorados por Saul Smilansky no livro 10 Moral Paradoxes (Wiley, 2007), recenseado por Caspar Hare aqui.

8 de maio de 2009

Ortografia, gramática e estado

Imagem: A Minha Sala, de Carl Moll

Uma ideia muito comum a favor da legislação ortográfica, apresentada aqui pelo simpático leitor João Pedro, é a seguinte: se não se fizesse leis sobre a ortografia, cada qual iria escrever à sua maneira e seria uma anarquia ortográfica. Isto é falso. Em muitos países onde não só não há qualquer anarquia ortográfica como se escreve mais e melhor, não há leis ortográficas: é o caso do Reino Unido. Por outro lado, mesmo em Portugal e no Brasil não há leis sobre a gramática, nem sobre o léxico; há apenas gramáticas e dicionários. No entanto, não há qualquer anarquia gramatical nem lexical.

A legislação sobre a ortografia só foi necessária quando algumas pessoas se outorgaram o direito de mudar a maneira como as outras escrevem. Mas como não poderiam fazer isso sem a força do estado, usaram o poder legislativo para conseguir os seus fins, usando mentiras políticas diversas (no tempo da república era combater o analfabetismo, hoje é a ilusão de que vamos conquistar o mundo).

Há três aspectos na história portuguesa e brasileira das reformas ortográficas.

O primeiro é exclusivamente político: é pura perda de tempo e recursos andar a reformar ortografias. Não serve para coisa alguma de visível. Os alemães, italianos, franceses e espanhóis mudaram as suas ortografias por via legislativa, os ingleses nunca o fizeram; ganharam os últimos que não perderam tempo com coisas dessas e deixam que a ortografia vá sendo mudada gradualmente pela vontade livre das pessoas.

O segundo é linguístico: as reformas ortográficas da língua portuguesa foram sempre feitas por pessoas com competências duvidosas, razão pela qual nunca foram reformas que atingissem sequer os seus próprios objectivos. Os brasileiros perderam o “h” de “húmido”, por exemplo, e o “c” de “facto”. Mas continuam a escrever “humildade” e “factivo”. Nós perdemos o “ph” de “filosofia”, supostamente para nos aproximarmos da fonética e nos afastarmos da origem latina; mas introduzimos diferenças ortográficas onde não há diferenças fonéticas, como em “coser/cozer” e “conselho/concelho”; e o “s” tanto pode ter o som de “ç” como o som de “z” e o “x” tanto pode ter o som de “ch” ("taxa") como de “cs” ("taxi"). Ou bem que a fonética é o princípio ortográfico fundamental, ou bem que não é. As meias-tintas deixam-nos aproximadamente na mesma desorganização ortográfica que tínhamos antes, mas diferente; qual é a vantagem?

O terceiro é social: por um lado, nenhum estudante hoje consegue ler adequadamente um livro do início do séc. XX, numa biblioteca, pela simples razão de que é quase como se fosse uma língua estrangeira; por outro, o estudante vai escrever como leu e vai escrever mal porque entretanto as regras mudaram. Eu não sou assim tão velho, mas muitos dos livros da minha biblioteca portuguesa registam sistematicamente “possìvelmente”, porque na altura ainda os linguistas não se tinham lembrado de mudar a ortografia desta palavra.

Em suma: nada se ganhou em mudar a ortografia tantas vezes por via legislativa, e tão mal. E não estamos realmente melhor do que estaríamos escrevendo como escrevia Eça de Queirós (cujo próprio nome foi adulterado: era Queiroz) ou Fernando Pessoa.

6 de maio de 2009

Filosofia moderna


Acabo de ter conhecimento da publicação do terceiro volume da Nova História da Filosofia Ocidental, de Sir Anthony Kenny, intitulado O Despertar da Filosofia Moderna. A editora é a Loyola. Também da Loyola é a publicação de Breve História da Felicidade, de Nicolas White, um livro muito interessante, mas servido por uma redacção e organização deficientes, que tornam penosa a sua leitura.

5 de maio de 2009

O fim do meio

Imagem: Punto Fijo, de ŽakQ100

Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público, a última desta série:

Diz-se por vezes que os fins não justificam os meios. Mas isto é com certeza uma palermice. Pois se os fins não justificam os meios, o que haveria de os justificar? É um exagero dizer que a finalidade dos fins é precisamente justificar os meios, mas não anda longe da verdade: é que nada mais pode justificar os meios excepto os fins. Por exemplo, o que justifica uma viagem longa e desconfortável até chegar a uma dada praia é o fim de querer apanhar Sol e nadar nessa praia.

Claro que o que se quer dizer com essa frase feita tem de ser outra coisa. Quer-se dizer que certos fins não justificam certos meios. Por exemplo, tornar um dado país mais rico, que é em si um fim desejável, não justifica todo e qualquer meio, incluindo, por exemplo, declarar guerra a um país vizinho que nada nos fez de mal. Ou, para dar outro exemplo, o fim que alguém tem de ir ao cinema não justifica o meio de deitar o seu bebé pela janela por não ter quem cuide dele durante esse intervalo.

Entre uma tolice e uma ideia sensata a distância lexical pode ser quase nenhuma, mas imenso o abismo semântico. E é precisamente nesta falta de precisão que se escondem muitos horrores humanos. Ideias originalmente boas são distorcidas e tornam-se péssimas práticas, ideias más são vistas como boas porque são superficialmente parecidas com outras que realmente são boas: e é destes equívocos que é em parte feita a vida política contemporânea. Bombardeado com desinformação disfarçada de informação, publicidade que vende o que não existe e discursos políticos extravagantes, o cidadão comum acaba por criar uma certa indiferença que só pode ser combatida com escândalos cada vez mais escandalosos. O ecologista, por exemplo, vê-se obrigado a mentir, pintando um futuro negro, do qual quase nada sabe; o defensor dos direitos das minorias vê-se obrigado a fingir que toda e qualquer tolice de toda e qualquer minoria é de aplaudir, só por emanar de uma minoria; e afasta-se cada vez mais da vida pública o pensamento subtil e cuidadoso, que tem em conta pequenas distinções lexicais que representam abismos semânticos.

A escola deveria dar ao cidadão um contacto com o pensamento sofisticado e cuidadoso, mas não o faz. Da escola primária à universidade, aprende-se a repetir, sem pensar, o que está na moda e se vê na televisão: há umas décadas, repetia-se ideias como a superioridade infinita do nosso próprio país; hoje, repete-se a superioridade infinita das mulheres e das baleias. Mas a mania simiesca de tudo ver em termos de hierarquias — mais superior ou mais inferior — persiste. É como se fôssemos incapazes de abandonar realmente a bestice humana intrínseca, pintando-a então com cores mais garridas para disfarçar.

O amor à verdade e à precisão parece hoje uma excentricidade castiça. Mas sem esta atitude, prevalece a mentira. Se temos como fim uma vida mais honesta, cultivar a verdade e a precisão é um meio perfeitamente adequado. Ainda que nem todo o fim justifique qualquer meio.

Leão Tolstoi

[A poesia] é uma coisa inútil. Se alguém tem alguma coisa a dizer, deve dizê-lo da maneira mais clara possível; se não tem algo para dizer, o melhor é calar-se.
(A propósito de Rilke)

4 de maio de 2009

Reformas ortográficas

Há algo de incoerente em todas as reformas ortográficas. Subitamente, um conjunto de pessoas outorga-se o direito de não respeitar a ortografia dos seus antepassados, pelos mais diversos motivos — uns bons, outros maus. Mas exige para si o respeito da restante população, que fica obrigada a respeitar as suas vontades ortográficas. A ideia é que é legítimo não respeitar a ortografia dos nossos antepassados, mas não é legítimo não respeitar a ortografia de quem não respeita a ortografia dos seus antepassados. Usa-se então a mentira de que a língua evolui; mas quem decide como e para onde evolui não é o grosso da população que usa a língua, mas apenas quem tem o poder político do seu lado, por nenhuma boa razão. Os reformistas ortográficos ficam assim na curiosa posição de não respeitarem nem a ortografia dos seus antepassados nem as vontades do grosso das pessoas que usam a língua, mas de exigirem dos últimos o respeito que a nenhum dos outros concedem.

3 de maio de 2009

Filosofia fora da escola


Esta semana que passou dei as minhas aulas de filosofia fora da escola, abertas a quem quisesse assistir. Foi interessante ver os pais de alguns alunos levantar o braço para intervir, tirar dúvidas, discutir comigo e com os colegas dos seus filhos. Para mim também foi uma boa experiência confrontar-me com um auditório tão heterogéneo.

Nada disto aconteceu por acaso, claro. A iniciativa foi integrada na Feira Educativa de Portimão, organizada pelas duas escolas secundárias da cidade, com o apoio da Câmara Municipal de Portimão. A finalidade da feira foi mostrar a toda a comunidade o que cada escola tinha para oferecer, desde as escolas de infância até às instituições de ensino superior a funcionar na cidade, incluindo as escolas privadas, de música, de hotelaria, etc. A minha escola utilizou uma boa parte do enorme Pavilhão Arena para montar nada menos que dez stands. E havia ainda à disposição dos interessados um excelente auditório de cerca de 200 lugares, onde se fizeram sessões de esclarecimento a pais e alunos do ensino básico sobre a oferta escolar das escolas secundárias.

Quando me perguntaram se queria participar na feira ou se queria fazer atendimento em algum dos stands (ou ajudar a montar o material, fazer animação, etc.), ocorreu-me apenas uma ideia: levar os meus alunos e dar lá as aulas, permitindo que qualquer pessoa pudesse assistir e participar. A ideia foi muitíssimo bem aceite e foi anunciada no programa oficial. E lá apareceram, além dos alunos que tinham essa aula no horário, alguns pais e até alguns colegas de outras disciplinas e de outras escolas. Foram três aulas, uma em cada dia de feira. O mais curioso foi ter na mesma aula os pais de alguns alunos da turma.

Não preparei um assunto especial para a ocasião, limitando-me a dar o que estava previsto, como uma aula normal: no 10º ano ia começar a discutir o problema da justiça distributiva. À cautela, não fosse aparecer muita gente, preparei um powerpoint para ajudar a tornar as coisas mais acessíveis e disciplinadas. Numa das sessões apareceram mesmo mais de cem pessoas e foi difícil gerir todas as intervenções. Uma das coisas que comecei por dizer foi que se tratava de uma aula normal e não de uma conferência. Portanto, podia e devia ser interrompido sempre que quisessem. A minha principal dificuldade foi depois controlar as coisas, pois havia sempre muitas mãos no ar. Houve algumas pessoas que quiseram assistir também no dia seguinte e que me pediram para abordar outro assunto. Assim, na última sessão acabei por falar do problema da existência de Deus (um tema também do 10º ano, mas que decidi antecipar).

No final de uma das sessões fiquei a falar com alguns pais. Uma senhora sugeriu, muito simpaticamente, que eu tinha ensaiado a aula com os alunos. Disse-lhe que sim, que tinha andado a ensaiar a aula desde o princípio do ano e que tive sorte, pois às vezes corre muito mal. Estava a falar a sério. Um outro pai ficou surpreendido por quase não ter falado de filósofos (nessa sessão referi, já no fim, apenas o Rawls), acrescentando que nunca tinha ouvido falar de tal filósofo. Uma coisa curiosa foi verificar que as pessoas entusiasmaram-se mais com a questão da justiça distributiva do que com a questão da existência de Deus. Pelo menos houve menos intervenções sobre este tema do que sobre aquele, se bem que também houvesse muito menos pessoas a assistir. Mas agradou-me ver que as pessoas aderem mais à filosofia do que se possa pensar. Ou então era só uma questão de curiosidade.

Espero poder repetir no próximo ano.

Agradeço a João Carlos Alves pela foto que gentilmente me enviou e que acompanha este post.

W. v. O. Quine

A tarefa do filósofo difere das dos outros, pois, em pormenor; mas não de um modo tão drástico como supõe quem atribui ao filósofo um ponto de vista privilegiado, fora do esquema conceptual de que se ocupa. Não há tal exílio cósmico. O filósofo não pode estudar nem rever o esquema conceptual fundamental da ciência e do senso comum sem ter um qualquer esquema conceptual, seja o mesmo ou outro, que não carecerá menos de escrutínio filosófico, no qual possa trabalhar.

a pobreza do nacionalismo linguístico

nota: este artigo foi reformulado na sequência dos comentários críticos e sugestões dos leitores Aires Almeida, Jaime Quintas e Anónimo.

Vou apresentar um de muitos exemplos de como o afastamento linguístico relativamente ao castelhano não terá sido uma opção culturalmente produtiva.

Em inglês, as palavras "deciduous" e "evergreen" são antónimas e significam, respectivamente, "que perde folhagem anualmente, passando por um período destituído de folhagem" e "espécime vegetal que mantém a sua folhagem durante todo o ano". Em português usamos o termo "decídua", que partilha com o termo inglês a mesma origem latina, embora seja muito mais comum a expressão "de folha caduca". Já no caso de "evergreen", é comum usar-se como equivalentes as expressões "de folha perene" ou "de folha persistente". Porém, estas não têm o mesmo grau de precisão que as expressões inglesas, pois os termos ingleses, mesmo isoladamente, denunciam o seu contexto de aplicação, enquanto os termos "caduca" e "perene" só funcionam dentro de uma descrição. É uma diferença mínima, mas é uma diferença. Uma alternativa mais bizarra seria "de folha perpétua", pois uma vegetação só seria perpétua se a sua existência se prolongasse interminavelmente em ambas as direcções temporais. "Perene" é mais adequado porque significa originalmente, "que dura todo o ano" (per + annum).

Procurei então construir um equivalente latino e cheguei ao termo "sempervirente", à semelhança do que já fazemos com "sempiterno", usando o prefixo latino "semper" e a palavra "virente", que consta no léxico português e vem directa e sem alterações do latim. Contudo, a palavra resultante não consta nos dicionários e também não a encontrei na Internet. A dada altura tive uma ideia e fiz uma busca a "árboles sempervirentes". Eureka! Encontrei algumas páginas. Fui então à página do Diccionario de la Real Academia e pesquisei a palavra, encontrando a seguinte entrada:

sempervirente.

(Del lat. sĕmper, siempre, y virens, -tis, verdeante).

1. adj. Dicho de la vegetación: Que conserva su follaje verde todo el año.



O Diccionario da Real Academia reconhece este termo, embora se use também em castelhano as expressões "de hoja caduca" e "de hoja persistente". Porém, se usar esta palavra mais "clássica" mas semanticamente perfeita para a função (porque é cirurgicamente precisa), decerto será eliminada na revisão e substituída por um termo menos preciso. Entretanto, nuestros hermanos usam-na sem problemas. Esta é a diferença importante entre uma língua culta e uma wikilíngua.


2 de maio de 2009

Sócrates e o direito


Acabo de receber notícia de dois novos livros importantes para estudantes e professores: A Companion to Socrates, org. Sara Ahbel-Rappe e Rachana Kamtekar, e Philosophy of Law: Classic and Contemporary Readings, org. Larry May e Jeff Brown.

Congresso internacional: deslocamentos na arte

Encontram-se abertas as inscrições para este congresso, uma promoção conjunta dos programas de pós-graduação de Estética e Filosofia da Arte da UFOP, e de Filosofia da UFMG. Será realizado em Ouro Preto, de 20 a 23 de Outubro, no Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC), da UFOP, e consistirá de conferências por parte de pesquisadores convidados, bem como de comunicações e painéis, mediante inscrição prévia. Os temas envolvidos são: Estética e política; Arte e Filosofia; Indústria Cultural; Estética e ética; Espaço e tempo na arte; Arte e memória; Arte e psicanálise; Tradição e ruptura na estética; O moderno e o contemporâneo.

Conferencistas confirmados: Celso Favaretto (USP); Sônia Salzstein (USP); Rodrigo Duarte (UFMG); Thomas Friedrich (Fachhochschule Mannheim); Shierry Weber Nicholsen (Antioch University/Seattle); Jeremy Shapiro (The Fielding Institute/Santa Barbara).

Mais informações neste site ou na secretaria do programa de pós-graduação em Estética e Filosofia da Arte da UFOP, Tel. 31-3559-1732.

1 de maio de 2009

Filosofia da Literatura



Peter Kivy é autor de diversas obras em estética e filosofia da música, como Introduction to a Philosophy of Music (OUP). Neste volume, The Performance of Reading, An Essay in the Philosophy of LiteratureKivy centra-se na discussão filosófica da leitura como execução artística.
No que diz respeito às artes, algumas são performativas, outras não. Há execuções de obras musicais, mas não de pinturas. A literatura, neste aspecto, é um pouco de ambas. As peças são representadas; os romances, os contos e os poemas narrativos não. E embora se possa ler uma peça para si próprio, ou ler um romance em voz alta como um tipo de execução, uma peça destina-se a ser representada enquanto o romance contemporâneo se destina a ser lido em silêncio. Mas a palavra impressa nos seus primeiros dias não significava leitura silenciosa. E na antiguidade, os que podiam ler liam em voz alta para si próprios. O advento da leitura silenciosa é relativamente recente na nossa história. Neste ensaio sagaz e provocador, Peter Kivy argumenta que há analogias nítidas entre a leitura «silenciosa» e a execução. Os leitores têm uma «experiência» quando lêem silenciosamente para si próprios, afim à experiência que se teria quando o rapsodo recitava Homero aos cidadãos da Atenas de Platão. Kivy defende uma compreensão e apreciação mais profundas das obras literárias, sugerindo que os leitores são executantes das obras que lêem, as suas execuções recitações do «ouvido interno».
Pode-se ver AQUI o índice do livro.

WileyBlackwell, 2008 (edição ilustrada)
  • ISBN-10: 1405188235
  • ISBN-13: 978-1405188234

Problemas da Filosofia

Acabo de publicar aqui a página da Filosofia Aberta dedicada ao livro Problemas da Filosofia, de James Rachels, que será posto à venda ainda este mês em Portugal.