
Ao contrário do que sugere o artigo "
Filosofia e História no Currículo de Filosofia", de Dídimo Matos, a preponderância da história num currículo não se detecta pensando apenas nas quatro ou cinco disciplinas históricas tradicionais — Filosofia Grega, Medieval, Moderna, Contemporânea — mas antes no facto de em disciplinas como Ética ou Filosofia Política ou Metafísica haver uma tendência dos professores de língua portuguesa para fazer uma abordagem exclusivamente histórica — começam com Parménides ou Platão, geralmente saltam para os modernos, ignorando os medievais, e assim continuam cronologicamente. Uma graduação de filosofia poderia ser equilibrada tendo quatro ou cinco cadeiras históricas desde que as cadeiras temáticas fossem realmente temáticas e adequadamente concebidas.
Penso que há dois factores que fazem os professores de cadeiras temáticas adoptar uma abordagem histórica.
Em primeiro lugar, a concepção de filosofia que têm. Ao passo que uma pessoa com formação analítica vê a filosofia como um corpo de problemas reais, vivos, que tentamos resolver ou pelo menos explorar tentativas de solução, quem não tem formação analítica vê a filosofia como a história das ilusões do passado. A filosofia acabou-se, não é já uma actividade primariamente cognitiva; agora resta fazer a história das ilusões do passado, das mundividências dos outros, para as apreciarmos esteticamente, no seu contexto histórico, e não para as discutirmos frontalmente. Numa palavra, é a força do cientismo a fazer-se sentir, como expliquei nos meus artigos “
Compreender as Críticas à Filosofia Analítica” e “
A Natureza da Filosofia e o seu Ensino”.
Em segundo lugar, o desconhecimento bibliográfico. É muito fácil montar um bom curso de Ética ou Filosofia da Linguagem ou Filosofia Grega usando manuais e antologias de textos (infelizmente, quase todos em língua inglesa). Mas que professores fazem isso? Por vezes tenho a sensação de ser o único professor de filosofia de língua portuguesa a fazer tal coisa: não dou um curso de Ética ou Filosofia da Religião ou Filosofia da Linguagem com base em apenas um ou dois textos de um ou dois filósofos; pelo contrário, o que procuro é dar ao aluno uma visão abrangente de uma parte significativa dos problemas, teorias e argumentos centrais da área em causa, com alguns aprofundamentos pontuais. Ou seja, dou cursos que são radicalmente contrários à sobreespecialização comum, pois considero que o aluno tem muito a perder com ela: um aluno que estudou um ou dois autores em Ética, por exemplo, ou Estética, não só não ficou a conhecer uma parte substancial da área em causa, como nem sequer pôde compreender adequadamente os poucos filósofos que estudou porque não lhe foi dado o contexto filosófico (que é muito diferente do contexto histórico) em que esses autores desenvolveram as suas ideias — estudam um dado filósofo ou par de filósofos sem saber que as teorias deles respondem a um dado problema, que é real e não uma ilusão do passado, para o qual há duas ou três teorias alternativas. Isto impede a avaliação crítica das teorias pois sem o conhecimento do contexto filosófico (que problema filosófico está em causa?) e sem o conhecimento das alternativas teóricas (será esta teoria melhor do que as alternativas?) nenhuma filosofia se pode fazer. Talvez isto seja um factor que explica a quase ausência de pensamento filosófico original em português.