30 de junho de 2009

Podem as razões subjacentes a uma acção ser as causas (eficientes) dessa acção?


Esta é a proposta da Sociedade Portuguesa de Filosofia para o Prémio de Ensaio Filosófico de 2009, o qual conta também com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Desta vez o problema escolhido é, como se vê, da área da filosofia da acção.

As candidaturas já estão abertas (terminam a 31 de Dezembro) e o montante do prémio é de 3500 Euros. O ensaio vencedor será também publicado na Revista Portuguesa de Filosofia. O regulamento do concurso pode ser consultado aqui.

29 de junho de 2009

Palavras e evolução

Acabo de saber que a Casa das Letras publicou no Brasil A Grande História da Evolução, de Richard Dawkins, que é a tradução portuguesa de Laura Teixeira Motta do original The Ancestor's Tale. Outra casa, a Casa da Palavra, acaba de publicar o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa, org. por Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá, que contém um texto meu: "Verdade".

28 de junho de 2009

O que é e não é a ética

Eis duas coisas que a ética não é: não é um conjunto mais ou menos arbitrário de proibições nem é uma espécie de postura pessoal perante as coisas. Eis duas coisas que a ética é: um conjunto de indicações reflectidas sobre o que é uma vida boa e um cuidado com os outros agentes morais. Isso está bem patente no interessante curso de ética que Sally Haslanger (MIT) disponibiliza aqui.

27 de junho de 2009

Aprender filosofia com os filmes


São cada vez mais os livros sobre filosofia e cinema, seja sobre filosofia do cinema, que é uma subdisciplina da filosofia da arte, ou de livros que recorrem aos filmes para introduzir e discutir alguns dos principais problemas filosóficos. E ensinar filosofia através dos filmes parece ser uma tendência cada vez mais irresistível. Daí que as novidades editoriais na matéria sejam cada vez mais frequentes.

A última novidade é o livro Introducing Philosophy Through Film: Key Texts, Discussion and Film Selection, organizado por Richard Fumerton e Diane Jeske. Este livro é uma introdução à filosofia através do cinema e tem uma coisa muito diferente de outros que conheço sobre o mesmo assunto: a discussão é centrada não apenas nos filmes, pois faz-se acompanhar dos textos dos filósofos em que os problemas em causa são discutidos. A inclusão dos textos clássicos parece-me ser um ponto a favor deste livro. Isso permite, inclusivamente, disciplinar a discussão, ao contrário do que acontece com praticamente todos os livros do género que eu conheço publicados entre nós (a qualidade do que se tem publicado em Portugal sobre este tema deixa, na minha opinião, muito a desejar).

O sucesso relativo destes livros assenta na ideia de que, se bem escolhidos, certos filmes permitem aos alunos confrontar-se com alguns dos problemas filosóficos tradicionais: da ética à metafísica, passando pela filosofia da religião e pela epistemologia. Além disso, parece ser uma forma mais divertida (e, portanto, mais motivadora) de iniciar a discussão e de aprender filosofia. Mesmo que não se usem os filmes como ponto de partida, acredita-se que podem servir numa fase posterior, na medida em conseguem ilustrar de uma forma muito viva algumas ideias e teorias filosóficas.

Também já experimentei usar o cinema com os meus alunos. Mas confesso que o resultado foi algo decepcionante. Não digo que não possa dar bons resultados, mas creio que muitos dos filmes que temos em mente não são simplesmente motivadores para os alunos. A verdade é que os alunos acham simplesmente aborrecidos muitos desses filmes. Num texto publicado em Aesthetics On-Line sobre este mesmo assunto, o autor, Henry John Pratt, fala da sua experiência, confessando também que foi uma surpresa descobrir que os seus alunos acharam filmes como Blade Runner muito desinteressantes e até aborrecidos, o que dificultou, em vez de facilitar, a sua tarefa.

Não fiquei surpreendido com a descoberta de Pratt, pois também eu o tinha descoberto por mim. Nós professores, que já não somos adolescentes, temos referências cinematográficas que passam completamente ao lado dos nossos alunos e o nosso entusiasmo por certos filmes é frequentemente visto por eles até com algum desdém. De resto, eles nem sequer conhecem a maior parte dos filmes em que estamos a pensar. Mesmo filmes relativamente recentes para nós são completamente desconhecidos da maior parte dos alunos do 11º ano. Matrix, para falar de um exemplo banal, é um exemplo disso. Desafio, aliás, os colegas a perguntar numa turma do 11º ano quantos alunos conhecem ou já viram o filme. Aposto que a resposta irá surpreendê-los. Digo isto porque já fiz esse teste várias vezes.

Claro que ensinar filosofia através dos filmes implica ver os filmes e não apenas falar neles. Mas isso coloca um problema prático: conciliar o tempo lectivo disponível com o visionamento dos filmes. Além disso, há o perigo de os alunos se dispersarem, prestando atenção a aspectos filosoficamente irrelevantes e passando completamente ao lado do que se pretende realmente discutir, como também pude confirmar. Talvez isso possa ser evitado com um bom guião e algumas perguntas prévias, para as quais os alunos devem procurar respostas no filme.

Em resumo, não nego que possa haver boas experiências de aprendizagem filosófica através dos filmes. O problema é que isso corre o risco de acarretar um enorme desperdício de tempo e de energias, sobretudo se as coisas não estiverem muito bem preparadas, o que não é difícil acontecer.

24 de junho de 2009

Lógica e argumentação

Acabo de publicar o capítulo "Lógica e Argumentação", o primeiro capítulo do meu livro O Lugar da Lógica na Filosofia (Plátano, 2003). Espero que seja útil. Deste livro está também disponível online o apêndice "Como Fazer Exercícios de Lógica".

23 de junho de 2009

O paradoxo da pedra

Usa-se por vezes o chamado paradoxo da pedra como argumento contra a existência do deus teísta.

O suposto paradoxo da pedra formula-se assim: o deus teísta, omnipotente, poderá criar uma pedra tão pesada que ninguém consiga levantar? Se pode, então não é omnipotente porque depois não poderá levantá-la. Se não pode, então também não é omnipotante porque não a pode criar. Logo, em qualquer caso, não é omnipotente: ou seja, não existe o tal deus omnipotente dos teístas.

Este argumento não funciona, pelo menos sem mais ajustes e detalhes. Para ver porquê, leia este delicioso diálogo do Alexandre.

22 de junho de 2009

Eutanásia: As Questões Morais


A propósito do problema discutido no texto da Ekaterina, vale a pena referir um livro injustamente esquecido e que está há alguns anos traduzido para português. Trata-se de Eutanásia: As Questões Morais, um livro muito bem organizado pelos professores de filosofia Robert Baird e Stuart Rosenbaum, da Universidade de Baylor, Waco (Texas), que reúne dezanove ensaios de filósofos (incluindo dois de James Rachels) e médicos, tanto contra como a favor da eutanásia.

O livro foi editado em 1997 pela Bertrand e praticamente não se encontra nas livrarias. Mas ainda existe na editora, pelo que pode ser encomendado. Foi o que fiz há tempos. Levou três dias a chegar e custou apenas 5 Euros.

18 de junho de 2009

Será a clonagem de seres humanos moralmente aceitável?


Mais um pequeno ensaio filosófico de outro aluno do 11º ano, Alexei Buruian, desta vez sobre a clonagem humana.

Será a clonagem humana moralmente aceitável?

Há duas possíveis aplicações para a clonagem humana: a clonagem terapêutica, que não vou abordar neste ensaio, e a clonagem reprodutiva. Este tipo de clonagem visa a criação de indivíduos geneticamente iguais a um organismo já existente, através do processo de transferência nuclear. Este processo consiste em introduzir um núcleo dador num ovócito anucleado, implantar a nova célula obtida num útero e esperar pelo desenvolvimento do feto.

Importa chegar a um consenso acerca da moralidade da clonagem. Enquanto não o fizermos, poderemos estar injustificadamente a privar as pessoas de gozarem de um novo meio de reprodução.

Irei defender que, dado o deficiente estado de aperfeiçoamento da técnica da clonagem, não é moralmente aceitável recorrer à clonagem reprodutiva humana.

São diversos os argumentos contra a clonagem: o argumento das relações familiares, o argumento da identidade, o do apelo à natureza e outros. Contudo, não são estes argumentos que influenciaram a minha opinião acerca deste assunto. Objecções fortes, como as de que a família tradicional não é o único modelo aceitável de relações familiares; a objecção de que a identidade de uma pessoa não depende apenas do seu ADN; e a objecção de que o apelo à natureza se baseia numa definição imprecisa daquilo que a natureza é, de que modo a clonagem se lhe opõe e por que é errado fazer coisas antinaturais, levaram-me a não ter em consideração estes argumentos.

Mas há outras razões talvez mais fortes contra a clonagem. Em primeiro lugar, há o perigo de eugenia, ou seja, a selecção de indivíduos com genes mais favoráveis ao desenvolvimento da nossa raça. As pessoas poderiam recorrer à clonagem para tentar ultrapassar a sua longevidade, através da perpetuação do seu ADN; criar grupos de pessoas geneticamente iguais, para desempenharem uma determinada função (por exemplo, clonar pessoas altas, para que estas constituissem uma equipa homogénea de basquetebol) ou até clonar celebridades para que os filhos (os clones) herdassem o talento deles. Em todos estes casos, haveria também uma forte expectativa para que o clone sirva o objectivo para o qual foi criado. Desta maneira o clone seria instrumentalizado, seria usado como um meio e não como um fim em si, o que constituiria um atentado à sua dignidade.

No entanto, estes argumentos talvez sejam exagerados, já que não há uma ligação necessária entre a clonagem e a eugenia e pode-se alegar que não é pelo facto de o clone ter sido criado com um objectivo que este perderá a sua dignidade (muitos pais também têm objectivos pessoais para os seus filhos e isso não leva a que estes percam a sua dignidade como seres humanos). O clone seria uma pessoa autónoma, pois teria sempre o direito de fazer as suas próprias escolhas na vida, como um ser humano comum.

O argumento mais forte contra a clonagem acaba por ser o de que a própria taxa de sucesso da clonagem é muito baixa. O nascimento da ovelha Dolly, por exemplo, foi o resultado de 276 clonagens fracassadas, e há indícios de que os clones criados com a tecnologia actual poderão nascer defeituosos e ter uma esperança de vida bastante inferior à media. Afinal Dolly morreu com apenas 6 anos de idade, quando o normal seria cerca de 12 anos. Na minha opinião, estes elevados custos humanos são inaceitáveis.

Contudo, como qualquer outra tecnologia, também a clonagem pode evoluir e há sempre a possibilidade de esta chegar a ter um sucesso semelhante ao da reprodução tradicional e, neste caso, o argumento seria anulado.

Os principais argumentos a favor da clonagem, invocam o valor prático que esta poderá ter. A clonagem permitiria aos casais inférteis ou homossexuais a possibilidade de obterem filhos geneticamente relacionados com pelo menos um dos progenitores. Aliás, um direito que muitos seres humanos reclamam é o da sua autonomia reprodutiva, pelo que proibir a clonagem com fins reprodutivos iria também pôr em causa esse direito. Além disso, a clonagem reprodutiva também poderia ajudar na investigação científica e filosófica relacionada com o ser humano. Por exemplo, poderia melhorar a nossa compreensão das doenças genéticas e ajudaria a responder a perguntas como «De onde provém o talento de uma pessoa? Será algo com que a pessoa já nasce ou será algo adquirido durante a sua vida?».

Contudo, acho que o argumento da baixa taxa de sucesso da clonagem é suficientemente forte para que, pelo menos, se limite esse direito. Afinal, nascer uma criança em quase 300 tentativas, com a possibilidade de ter graves doenças congénitas, só por sí já constitui um grande obstáculo, tanto à obtenção de um filho como à pesquisa científica.

Concluindo, actualmente a clonagem ainda não está suficientemente bem desenvolvida para que seja aplicada aos seres humanos, pelo que estou contra. Contudo, terei de rever a minha posição caso algum dia a clonagem prove ser um método tecnicamente fiável.

II ENPF da UFOP

O Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP parte de uma iniciativa dos alunos da graduação do curso de Filosofia e conta com o apoio do Instituto de Filosofia e Artes (IFAC), do Departamento de Filosofia (DEFIL) e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Possui o objetivo promover o encontro de pesquisadores e estudantes em um ambiente propício para a discussão e divulgação de trabalhos relacionados à área de filosofia. Além disso, o encontro visa promover uma interação maior entre professores e alunos de diferentes universidades do país.

A segunda edição do evento será realizada no período de 09 a 13 de Novembrode 2009, no prédio do IFAC e contará com a participação de professores convidados e da própria universidade em atividades como palestras, mini-cursos e debates temáticos, além das seções de comunicações apresentadas por graduandos e pós-graduandos de diferentes universidades. Mais informação...

Avaliação em Filosofia: avaliar o quê e como?

Este é o título da acção de formação que irei dar já a partir do próximo sábado em Vila Nova de Santo André (Sines). A acção é de 25 horas presenciais (50 no total), termina no dia 2 de Julho e é promovida pelo Centro de Formação da Associação de Escolas do Alentejo Litoral. Irei utilizar muitos exemplos práticos, sobretudo do programa de Filosofia do 10º ano, e espero que haja boa discussão. Se algum dos colegas leitores estiver interessado em discutir o assunto comigo e estiver por perto, parece que ainda se pode inscrever.

17 de junho de 2009

O Pequeno Livro do Filósofo

Trata-se de um projecto antigo: um pequeno conjunto de máximas descontraídas, mas que ao mesmo tempo se querem profícuas, para quem quer fazer filosofia. É um livrinho, vendido em PDF, que pode ser lido antes de pagar e que pode não ser sequer pago. Está aqui.

Fronteiras da ciência

Christopher Hart apresenta aqui o livro 13 Things That Don't Make Sense, de Michael Brooks. Parece um livro interessante, que nos dá a conhecer alguns dos problemas fundamentais em aberto na ciência.

Filosofia chinesa

Ruiping Fan e Erika Yu apresentam aqui a History of Chinese Philosophy, org. por Bo Mou (Routledge). Na Crítica encontramos alguns artigos de divulgação sobre a filosofia chinesa.

14 de junho de 2009

Zen e a arte de manutenção da filosofia

Acabo de publicar o capítulo "Zen e a Arte de Manutenção da Filosofia", retirado do meu livro Pensar Outra Vez.

Deste livro estão igualmente disponíveis os capítulos "Sísifo e o Sentido da Vida" e "Filosofia, Lógica e Democracia".

Será a eutanásia moralmente aceitável?


Eis um pequeno ensaio filosófico sobre a eutanásia, de Ekaterina Kucheruk, minha aluna do 11º ano. Aqui fica para discussão, com a devida autorização da autora.
Será a eutanásia moralmente aceitável?

A fim de poder responder à questão anterior é necessário fazer a distinção entre os vários tipos de eutanásia, sendo que existe eutanásia voluntária, involuntária e não voluntária, podendo estas ser, por sua vez, activas e passivas.

Vou falar apenas da eutanásia voluntária activa. Na eutanásia voluntária é o sujeito sobre o qual recai a acção que decide morrer, pedindo que o ajudem realizar o seu desejo. A eutanásia voluntária activa distingue-se da passiva pelo facto de na activa haver uma componente de acção directa por parte dum agente, cujo efeito inevitável é a morte do doente que a solicita, enquanto na eutanásia passiva a morte não é uma consequência directa de uma qualquer acção, mas de uma omissão, como acontece quando o médico deixa de administrar os tratamentos necessários à preservação da vida.

Na minha opinião, a eutanásia activa é moralmente aceitável. Deixar morrer um doente com um prognóstico fatal independentemente da intervenção médica é o mesmo que acelerar esse processo irreversível, aplicando a eutanásia, pois em ambas as situações o resultado é a morte do sujeito, com a diferença de que ao acelerar esse fenómeno é minimizado o sofrimento físico e psicológico da pessoa, além de que se estará a poupar recursos que poderiam salvar a vida a outras pessoas que tenham efectivamente a possibilidade de reverter o seu prognóstico.

Se a eutanásia passiva é, como muitos pensam, moralmente aceitável, também o é a activa porque quando podemos impedir a morte, ainda que não tenhamos provocado a circunstância causadora da morte, estamos colocados na posição em que a nossa acção vai ditar a vida ou a morte da pessoa. Por exemplo, à semelhança dum médico que é responsável pela vida dos doentes e obrigado a fazer tudo o que lhe for humanamente possível para a preservar, uma mãe que falte intencionalmente à sua obrigação de alimentar a sua criança, deixando-a morrer à fome, pode ser incriminada pela morte da mesma. Esse exemplo demonstra a equivalência dos conceitos matar e deixar morrer. Se a eutanásia passiva corresponde a deixar morrer e a activa implica matar, então podemos afirmar que não são diferentes e se uma é aceitável, a outra também o é. Muitas vezes se deixarmos morrer uma pessoa segundo a evolução natural da sua condição orgânica, isso vai provocar um grande sofrimento, enquanto se nós praticarmos a eutanásia, a pessoa vai ter uma morte menos dolorosa. Se um animal está a morrer, nós somos solidários com este ser vivo, ajudando-o a ter uma morte boa e acho que o ser humano também merece isto.

Há, contudo, quem defenda que o princípio orientador da evolução e organizador das nossas defesas e reflexos fisiológicos, tanto conscientes como inconscientes é a sobrevivência. Nesta perspectiva, a eutanásia pode ser encarada como um fenómeno contra a nossa natureza. Mas se isso fosse verdade, nenhuma pessoa deveria poder fumar, nem realizar desportos radicais, ou outras coisas que nos podem aproximar da morte, pois todos os dias estaríamos a realizar acções contra a nossa natureza, pondo em risco a nossa vida.

Outra objecção à realização da eutanásia é de que a decisão que se toma neste sentido poder corresponder a um estado de espírito passageiro e influenciado pelos factores emocionais decorrentes da experiência de sofrimento. No entanto, a complexidade desta questão, que envolve considerações de ordem individual, legal e de deontologia médica, requer um tempo de ponderação que tem vindo a demonstrar a seriedade com que a decisão é tomada.

Muitas vezes pensamos a eutanásia como uma prática realizada em situações em que se supõe não haver qualquer esperança de se vir a modificar o estado da pessoa e isso não é correcto porque não se pode prever a evolução de uma doença e a resposta adaptativa do organismo. Mas isso será como afirmar que é possível a uma pessoa viver duzentos anos e o facto de isso nunca ter acontecido não invalidar essa possibilidade. Será, todavia, que a esperança de um milagre que nos devolva a vida é suficiente para permitir todo o sofrimento físico e psicológico durante um tempo indefinido, sem nada que faça prever a ocorrência efectiva desse milagre? Parece-me que isso é pedir muito.

Nós “brincamos” com a vida, mas atribuímos-lhe um valor maior quando sabemos que vamos morrer em breve. Neste ensaio defendi a eutanásia activa voluntária, mas eu tenho 18 anos e penso que tenho uma brilhante vida pela frente. O meu fim está ainda demasiado longe para pensar nele e nunca tive contacto directo com a morte. Mas será que quando o fim se aproximar agirei consoante os meus princípios teóricos? Será que se alguém me vier um dia pedir para acabar com a sua vida eu vou saber o que devo fazer? Se eu ajudar alguém a realizar a eutanásia será que vou ter a certeza que fiz uma coisa certa? Não tenho respostas definitivas a estas perguntas. Isso mostra que, independentemente dos argumentos que apresentei, o tema deste ensaio continua a suscitar algumas dúvidas.

13 de junho de 2009

Educação para a cidadania


Muitos dos nossos políticos, pedagogos e cientistas da educação enchem a barriga com a ideia de educação para a cidadania. Parece até que descobriram a pólvora. Mas que a educação serve para formar cidadãos é uma ideia tão velha quanto a própria ideia de educação. Os gregos chamavam-lhe paideia. Que ideia é essa? Bom, é a ideia de que formar cidadãos é ensinar-lhes a falar, a escrever, a contar, a argumentar, a avaliar, a pensar por si. Estas são as ferramentas necessárias para uma cidadania plena e esclarecida. Em suma, formar cidadãos plenos é ensinar-lhes bem Português, Matemática, Biologia, História, Filosofia, etc. Quem aprende bem estas coisas está em boas condições para se tornar um cidadão esclarecido. O resto é quase só ruído ideológico.

Onde pára a filosofia?

Tenho ao meu lado um livro das edições Sebenta com testes de filosofia do 10º ano e respectivas resoluções. Na capa do livro diz-se que é "fundamental para ter boas notas" em filosofia. Abri o livro ao acaso na página 79, onde encontrei o teste nº 23. Ei-lo:

1ª Questão

Diga o que entende por poluição. Dê exemplos.

2ª Questão

Dê exemplos de actos que contribuem para a preservação do ambiente.

3ª Questão

Que organizações ecologistas é que conhece?

4ª Questão

Relacione a crise ecológica com o consumismo.

5ª Questão

"Princípio 1
Os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável e têm direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia com a Natureza".
Conferência das Nações Unidas sobre o ambiente e desenvolvimento

Comente o texto, referindo a articulação necessária entre desenvolvimento e defesa do ambiente.

Onde pára a filosofia? Alguém me consegue dizer? E depois admiram-se que haja quem ache dispensável a disciplina de filosofia no secundário. Pudera, com amigos assim a filosofia não precisa de inimigos.

12 de junho de 2009

Weston no Brasil

A Arte de Argumentar foi o título dado em Portugal à minha tradução de A Rulebook for Arguments, de Anthony Weston. É um livrinho muitíssimo útil para estudantes de filosofia ou de qualquer outra área que envolva a redacção de ensaios argumentativos, ao invés de meramente expositivos.

A boa notícia é que este livro foi agora traduzido no Brasil por Alexandre Rosas Feitosa, com o título A Construção do Argumento e publicado pela WMF Martins Fontes. (Em espanhol o título dado é talvez o melhor de todos: As Chaves da Argumentação). A má notícia é que a julgar pela sinopse do livro, que usa a incompreensível expressão "livro-texto" para traduzir o banal textbook, que quer apenas dizer manual ou livro didáctico, não há bons augúrios de que esta seja uma tradução sensata. Mas sempre é melhor que nada, e eu aconselho-o vivamente a todos os estudantes. O preço é também convidativo.

PS: Muito obrigado ao leitor José Oliveira por ter detectado algumas gralhas.

11 de junho de 2009

Sorte moral

A sorte ou a fortuna ou os acasos da vida levantam uma importante questão ética: é a vida boa o que se obtém quando se domina ou limita ou elimina tais acasos, ou é a vida humana indissociável da fortuna, sendo algo como uma contradição nos termos pensar que é possível uma vida boa plenamente humana num paraíso?

Este é o tema principal da reflexão histórico-filosófica de Martha Nussbaum, no livro A Fragilidade da Bondade, aqui apresentado por Lucca Otoni.

10 de junho de 2009

História, filosofia e currículo

Ao contrário do que sugere o artigo "Filosofia e História no Currículo de Filosofia", de Dídimo Matos, a preponderância da história num currículo não se detecta pensando apenas nas quatro ou cinco disciplinas históricas tradicionais — Filosofia Grega, Medieval, Moderna, Contemporânea — mas antes no facto de em disciplinas como Ética ou Filosofia Política ou Metafísica haver uma tendência dos professores de língua portuguesa para fazer uma abordagem exclusivamente histórica — começam com Parménides ou Platão, geralmente saltam para os modernos, ignorando os medievais, e assim continuam cronologicamente. Uma graduação de filosofia poderia ser equilibrada tendo quatro ou cinco cadeiras históricas desde que as cadeiras temáticas fossem realmente temáticas e adequadamente concebidas.

Penso que há dois factores que fazem os professores de cadeiras temáticas adoptar uma abordagem histórica.

Em primeiro lugar, a concepção de filosofia que têm. Ao passo que uma pessoa com formação analítica vê a filosofia como um corpo de problemas reais, vivos, que tentamos resolver ou pelo menos explorar tentativas de solução, quem não tem formação analítica vê a filosofia como a história das ilusões do passado. A filosofia acabou-se, não é já uma actividade primariamente cognitiva; agora resta fazer a história das ilusões do passado, das mundividências dos outros, para as apreciarmos esteticamente, no seu contexto histórico, e não para as discutirmos frontalmente. Numa palavra, é a força do cientismo a fazer-se sentir, como expliquei nos meus artigos “Compreender as Críticas à Filosofia Analítica” e “A Natureza da Filosofia e o seu Ensino”.

Em segundo lugar, o desconhecimento bibliográfico. É muito fácil montar um bom curso de Ética ou Filosofia da Linguagem ou Filosofia Grega usando manuais e antologias de textos (infelizmente, quase todos em língua inglesa). Mas que professores fazem isso? Por vezes tenho a sensação de ser o único professor de filosofia de língua portuguesa a fazer tal coisa: não dou um curso de Ética ou Filosofia da Religião ou Filosofia da Linguagem com base em apenas um ou dois textos de um ou dois filósofos; pelo contrário, o que procuro é dar ao aluno uma visão abrangente de uma parte significativa dos problemas, teorias e argumentos centrais da área em causa, com alguns aprofundamentos pontuais. Ou seja, dou cursos que são radicalmente contrários à sobreespecialização comum, pois considero que o aluno tem muito a perder com ela: um aluno que estudou um ou dois autores em Ética, por exemplo, ou Estética, não só não ficou a conhecer uma parte substancial da área em causa, como nem sequer pôde compreender adequadamente os poucos filósofos que estudou porque não lhe foi dado o contexto filosófico (que é muito diferente do contexto histórico) em que esses autores desenvolveram as suas ideias — estudam um dado filósofo ou par de filósofos sem saber que as teorias deles respondem a um dado problema, que é real e não uma ilusão do passado, para o qual há duas ou três teorias alternativas. Isto impede a avaliação crítica das teorias pois sem o conhecimento do contexto filosófico (que problema filosófico está em causa?) e sem o conhecimento das alternativas teóricas (será esta teoria melhor do que as alternativas?) nenhuma filosofia se pode fazer. Talvez isto seja um factor que explica a quase ausência de pensamento filosófico original em português.

9 de junho de 2009

Cozinho, logo existo


Uma boa recensão de Christine Kenneally do livro Catching Fire: How Cooking Made Us Human, de Richard Wrangham.

Filosofia e história no currículo de filosofia

Acabo de publicar aqui um artigo de Dídimo Matos sobre a preponderância da história da filosofia em alguns currículos de filosofia brasileiros. Está aberta a discussão.

8 de junho de 2009

Quine três vezes


  1. Acabo de publicar o artigo "Ascensão Semântica", de Quine, retirado do seu livro Palavra e Objeto, cuja tradução brasileira deverá sair em breve na Vozes. A tradução é minha e da Sofia Inês Albornoz Stein.
  2. Uma recensão de John P. Burgess do livro Quine's Naturalism: Language, Theory, and the Knowing Subject, de Paul A. Gregory está aqui.
  3. Quine in Dialogue, org. por Dagfinn Føllesdal e Douglas B. Quine, reúne textos de carácter mais geral de Quine.

7 de junho de 2009

Desparadigmatizar


Não há um único dia em que não se apanhe pela frente alguém a pedir novos paradigmas e a exigir o abandono dos velhos. Pelos vistos, há paradigmas sobre tudo e mais alguma coisa: até ouvi recentemente um comentador desportivo falar de um novo paradigma atacante no futebol.

O que é curioso é que muitos dos que falam de paradigmas parecem pensar que estão a dizer algo importante e muito original. Contudo, mais não fazem do que participar numa espécie de bebedeira verbal. Descobriram a palavra mágica: ninguém sabe muito bem o que é isso do paradigma, mas (talvez por isso) serve para tudo. No fundo, é só uma maneira de dizer: eu tenho ideias diferentes. E acabam por ter todos a mesma ideia diferente: é preciso mudar de paradigma.

Se eu fosse um dos novos pensadores paradigmáticos, diria que estamos a viver um novo paradigma: o paradigma dos paradigmas non stop à la carte. E, para ser um paradigmático pensador paradigmático, acrescentaria que precisamos de mudar de paradigma: um paradigma sem paradigmas. Desparadigmatizar é preciso.

6 de junho de 2009

Morte e sentido da vida

Depois de apresentar alguns factos psicológicos sobre a felicidade, James Rachels, no excerto de Problemas da Filosofia que acabo de publicar, "Felicidade, morte e absurdo", defende que a morte é um mal mas que daí não se segue que cancele o sentido da vida.

O que pensa o leitor?

4 de junho de 2009

Aristóteles

Falei aqui do muito informativo e claro livro de Christopher Shields, Aristotle (Routledge), que é uma introdução a Aristóteles -- abrangendo a sua filosofia da ciência, metafísica, lógica, teoria do conhecimento, filosofia política, ética e estética.

Para quem não lê inglês a editora Idéias & Letras acaba de publicar mais um volume da sua colecção dos Cambridge Companions to Philosophy: trata-se do excelente volume Aristóteles, org. por Jonhathan Barnes, que está agora à venda com um preço promocional no site do editor.

3 de junho de 2009

Problemas da Filosofia

Problemas da Filosofia, de James Rachels, com tradução de Pedro Galvão e edição da Gradiva, está já à venda. A apresentação do livro está aqui, e um excerto do mesmo aqui.

James Rachels, recorde-se, é autor do que me parece a melhor introdução à ética: Elementos de Filosofia Moral, também publicada pela Gradiva, em Portugal, e pela Manole, no Brasil.

Qual é a importância dos livros introdutórios, como este? A minha proposta de resposta está aqui. Um aspecto que não refiro no meu artigo é o impacto social que tem a publicação de livros deste género: são livros que põem os pobres que foram vítimas de um mau ensino a par dos ricos que tiveram a sorte de frequentar os melhores colégios.

1 de junho de 2009

A Volta do Idiota

Plínio Apuyelo Mendonza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa criticaram o marxismo latino-americano em Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, e a Crítica publicou aqui uma recensão de Orlando Tambosi. Os mesmos autores voltam agora ao tema, e desta vez é Aluízio Couto que nos apresenta a obra, aqui.