31 de agosto de 2009

Philosophy Talk nas redes sociais


Philosophy Talk é um programa de rádio feito por dois filósofos profissionais, John Perry e Ken Taylor da Stanford University. É um modelo de como se pode promover a filosofia sem deixar que ela se transforme numa moda efémera não lhe desgastando o estatuto. Bem pelo contrário. É uma delicia aprender filosofia com estes dois autores. Os programas são pagos, apesar de baratos. Já há algum tempo que não visitava o site, mas agora que o fiz descobri que podemos acompanhar as actividades do programa pelo Facebook, uma rede social. Este é mais um passo interessante para fazer a filosofia chegar às pessoas. Afinal se os problemas filosóficos são de todos por que não dar a oportunidade às pessoas de aprender mais um pouco? Bom exemplo a seguir.

30 de agosto de 2009

Uma crítica ao positivismo legal

Acabo de publicar o artigo "Críticas à Escola da Exegese," de Anderson Henrique Gallo, que critica brevemente um aspecto da teoria positivista do direito.

Timothy Williamson

A natureza inexcepcional da filosofia é mais fácil de discernir se evitarmos a ênfase filistina numas poucas ciências da natureza, muitas vezes imaginadas de modos rudimentarmente estereotipados que marginalizam o papel dos métodos de poltrona nessas ciências. Nem todas as ciências são ciências da natureza. Seja o que for que os empiristas rudimentares possam dizer, se alguma coisa é uma ciência é a matemática; e se algo se faz de poltrona é a matemática. As questões matemáticas não são conceptuais em qualquer sentido proveitoso. Se a matemática é uma ciência de poltrona, por que não também a filosofia?

29 de agosto de 2009

Será que a crença em Deus pode dar sentido à existência?


Um dos pontos do capítulo sobre o sentido da vida no livro Os problemas da filosofia (Gradiva, 2009) de James Rachels, aponta 3 hipóteses mais gerais para entender como a religião pode dar sentido à nossa existência. Examinemos brevemente essas hipóteses:

1 – As nossas vidas têm sentido porque Deus tem um plano para nós. Esta hipótese parece não funcionar já que podemos pensar que também os pais têm um plano para os filhos e muitas das vezes esse plano acaba por ser frustrante para os próprios filhos. Não se vê assim por que razão o plano de Deus poderia conferir sentido à existência.

2 – As nossas vidas tem sentido porque somos o objecto do amor de Deus. O que acontece nesta hipótese é que a maioria dos seres humanos já possui esse amor por parte dos familiares e amigos mais próximos. Mas, se ainda assim as nossas vidas parecerem absurdas, o que é que acrescenta o amor de uma entidade exterior?

3 – O compromisso do próprio crente religioso. Rachels explica que este compromisso implica a aceitação por parte do crente de que é filho de Deus. Se esta aceitação existe então os valores de Deus já não são vistos como uma imposição de fora, mas são os valores do próprio crente. Mas Rachels aponta também que aqui se implicam duas ideias:


a) A ideia de que o sentido religioso pode dar sentido à nossa existência;


b) A ideia de que só o compromisso religioso pode dar sentido à nossa vida.

A primeira ideia pode ser verdadeira mesmo que a segunda seja falsa. A segunda ideia, refere, Rachels, é muito mais forte. Resta saber se a segunda é uma ideia verdadeira?

Penso que a segunda ideia é falsa, e Rachels dá uma resposta logo a seguir. Mas vou deixar a questão à reflexão do leitor.

Escolaridade obrigatória alargada até ao final do 1º ciclo do ensino superior


O que acha desta ideia o leitor?

Não? Porquê? Não acha que o estado deve garantir (exigir mesmo) uma maior formação a todos os cidadãos?

Sim? Porquê? Acha que o estado deve ter o direito de interferir na vida de cada cidadão a ponto de decidir o que este tem ou não de aprender?

Por que razão uma pessoa com 17 ou 18 anos não haveria de poder decidir se quer ir à escola ou não?

Será que há aqui alguma questão filosófica de fundo a discutir?

28 de agosto de 2009

Fantasiando o ocidente

Protestei polemicamente em "Tento na Língua" contra o uso ageográfico do termo "ocidental". Esta palestra fornece razões para pensar que esta divisão declaradamente ageográfica entre ocidente e o resto é pior do que um pontapé na gramática. É uma mentira política.


27 de agosto de 2009

Papel electrónico renovado

No artigo “Papel Electrónico” falei dos novos leitores de livros electrónicos que usam uma tecnologia que permite ler à luz do dia, e quase sem gastar energia. Até agora, esses leitores tinham uma limitação: não faziam a reformatação de documentos em PDF, que assim ficavam difíceis de ler. Isto era particularmente mau para quem quer ler livros académicos dado que editores como a Cambridge University Press, Routledge e Hackett publicam quase tudo em formato PDF (ou ePub, que tinha o mesmo problema do PDF). Esse problema foi resolvido com a última actualização do firmware desses leitores, que permite agora ler PDF fazendo a reformatação do texto.

O resultado é impressionante. Podemos ler perfeitamente coisas como a New History of Western Philosophy, de Anthony Kenny, em PDF. Comprei o último livro de Sainsbury, Fiction and Fictionalism, em formato PDF, e lê-se agora perfeitamente bem. É como ter um aparelho novo, de facto. Se hesitava comprar um aparelho por saber que poucos livros académicos existiam no formato MOBI, que era o mais confortável de ler, acabaram-se as hesitações: agora pode ler PDF e ePub perfeitamente… e transportar uma centena de livros destes na mão, quando viaja, etc., com todo o conforto. O leitor que uso é o BeBook, mas há outros análogos, como o da Pixelar — é só procurar.

23 de agosto de 2009

A filosofia no séc. XIII

Acabei de publicar aqui o cap. 8 da História Concisa da Filosofia Ocidental, de Anthony Kenny, que infelizmente parece estar esgotada.

17 de agosto de 2009

IEP de cara lavada

A Internet Encyclopedia of Philosophy (IEP) foi pioneira: quando a internet ainda era coisa de poucos, e bastante esotérica, já tinha surgido este projecto. Mais tarde, foi secundarizada pela Stanford Encyclopedia. Ao contrário desta última, contudo, alguns dos artigos da IEP são mais adequados para estudantes na fase inicial dos estudos. A IEP está agora de cara lavada, sendo muitíssimo mais agradável de ler e navegar. Viste-a aqui.

16 de agosto de 2009

A traição aos gregos

Com a autorização do autor, acabo de publicar um capítulo do livro De Como Fazer Filosofia sem ser Grego, Estar Morto ou Ser Gênio, de Gonçalo Armijos Palácios (Goiânia, Editora UFG, 2004). O trabalho de transcrição do original foi realizado por Matheus Silva.

DEF 2.0

Está em fase de revisão de provas a segunda edição do Dicionário Escolar de Filosofia, org. por Aires Almeida. Praticamente com o dobro da dimensão, esta segunda edição continua a ser contudo um dicionário de consulta rápida que procura ajudar os estudantes do ensino secundário, assim como dos primeiros anos da universidade. A sua versão online foi actualizada, acrescentando-se vinte artigos novos da segunda edição, assim como um artigo inédito sobre consequencialismo.

Swinburne em Viseu, no 7º Encontro Nacional de Professores de Filosofia


A Sociedade Portuguesa de Filosofia, em colaboração com a Escola Secundária Alves Martins (Viseu) e com o apoio, entre outros, da Câmara Municipal de Viseu e da Escola Superior de Tecnologia de Viseu, organiza este ano o 7.º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, um evento que visa facultar o intercâmbio de ideias e de práticas, quer do ponto de vista da Filosofia enquanto disciplina académica, quer do ponto de vista didáctico-pedagógico.

As comunicações e sessões práticas serão apresentadas e organizadas por investigadores, docentes universitários e docentes do ensino secundário, no âmbito do tema «Filosofia e Religião».


Para a edição deste ano contaremos com um orador internacional convidado, o Professor Richard Swinburne (Emeritus Nolloth Professor of the Philosophy of the Christian Religion, Oxford; Fellow of the British Academy), um dos mais destacados especialistas mundiais no domínio da filosofia da religião, de quem está traduzida em português a obra Is There a God? (OUP 1996 / Será que Deus Existe? Gradiva, 1998).


Serão também oradores, entre outros, os Professores José Meirinhos (U. Porto), António Pedro Mesquita (U. Lisboa) e Peter Stilwell (U. Católica), tendo sido ainda seleccionadas, mediante um processo de arbitragem sob anonimato, duas comunicações propostas.


O encontro terá lugar no Instituto Superior de Tecnologia de Viseu, nos dias 4 e 5 de Setembro de 2009.

15 de agosto de 2009

Popper reeditado

As Edições 70 acabam de reeditar dois títulos de Karl Popper, que assim voltam a estar disponíveis, com nova capa, nas livrarias: O Conhecimento e o Problema Corpo-Mente e O Mito do Contexto. A tradução é, respectivamente, de Joaquim Alberto Ferreira Gomes e Paula Taipas.

14 de agosto de 2009

Reflexão e aquecimento local



Nos últimos dias não tem faltado calor em Portugal, tendo as temperaturas ultrapassado mesmo os 40º C em alguns sítios. Será isto mau para os filósofos? Será que o calor é um obstáculo à reflexão filosófica?

Há quem defenda que as temperaturas baixas são mais favoráveis ao pensamento, com o argumento de que o frio, desde que não seja excessivo, convida ao recolhimento e à concentração. Mas será isto verdade? Se o for, então a filosofia está mesmo de férias por estas bandas.

O que acham os leitores que, apesar do calor, ainda conseguem pensar?

12 de agosto de 2009

Filosofia da mente

Um leitor alertou-nos para esta bem-vinda nova edição da Artmed: Introdução à Filosofia da Mente, de K. T. Maslin, originalmente publicada pela Polity Press.

No artigo "A Importância dos Livros Introdutórios" defendo que é crucial publicar estes livros para a qualidade do ensino e da investigação, contrariando assim a posição comum nas zonas mais frágeis do mundo académico, que vê até com maus olhos a publicação destes livros. A proposição que defendo no artigo é esta: sem bons livros introdutórios, os alunos ficarão mal formados, e quando estes alunos se tornam mestres e doutores são profissionais de competências muitíssimo frágeis, o que por sua vez dá origem a mais um ciclo de maus profissionais porque são eles que formam os futuros doutores.

10 de agosto de 2009

Sitemeter

O contador de visitas do Sitemeter foi retirado do blog e da Crítica, pois estava a colocar cookies ilegítimos nos nossos leitores. (Foi também retirado do DEF.) Esta decisão da empresa que gere o Sitemeter gerou muita polémica na Internet; alguns anti-vírus, já detectam e bloqueiam como adware os cookies ilegítimos.

Leo Strauss em português

Leo Strauss foi um filósofo que ganhou notoriedade quando se afirmou que seria um pensador que teria influenciado profundamente os neoconservadores norte-americanos próximos do presidente George W. Bush. Em Portugal chega-nos a sua primeira obra, com tradução e introdução de Miguel Morgado: Direito Natural e História (Edições 70).

Novos problemas filosóficos

A Routledge acaba de lançar uma nova colecção de filosofia intitulada New Problems in Philosophy, dirigida por José Luiz Bermúdez. Os dois primeiros e apetitosos títulos são Fiction and Fictionalism, de R. M. Sainsbury, e Analyticity, de Cory Juhl e Eric Loomis.

5 de agosto de 2009

O Livro dos Saberes

A ideia de O Livro dos Saberes, org. Constantin von Barloewen, é pôr alguns dos mais importantes intelectuais do nosso tempo a falar sobre os mais diversos temas. Entre outros, este volume inclui entrevistas com Carlos Fuentes, Nadine Gordimer, Stephen Jay Gould, Julia Kristeva, Michel Serres e Paul Virilio.

4 de agosto de 2009

Substituir confusões

Um uso desmazelado da língua portuguesa introduziu uma confusão em alguns usos do verbo substituir e seus derivados, confundindo-se o que substitui o quê. Esta confusão não existe na língua inglesa, que distingue cuidadosamente entre substitute e replace.

To substitute A for B é pôr o substituto A no lugar de B, e não B no lugar de A. Mas é infelizmente comum interpretar erradamente “Substituir A por B” como se quisesse dizer que B passa a ocupar o lugar de A, caso em que seria B o substituto. O mesmo já não ocorre quando se diz que A substitui B, pois agora é evidente que é o substituto A que toma o lugar de B. Uma solução simples é evitar o uso de “substituir A por B” no sentido batateiro habitual, e passar sempre a escrever e dizer “fazer A substituir B.”

Curiosamente, no dicionário de inglês Collins podemos ler o seguinte: “Substitute is sometimes wrongly used where replace is meant: he replaced (not substituted) the worn tyre with a new one.” Esta confusão não é esclarecida nos dicionários de língua portuguesa que consultei (Aurélio, Houaiss e Porto Editora), cujos autores manifestamente não se dão conta dela. Ou então consideram que tanto faz saber quem substitui quem quando se diz que se substituiu o Chico pelo Manel porque necessariamente teremos de estar a falar de futebol, políticos ou telenovelas, e não de tolices abstractas como a filosofia ou a física, e portanto é visível quem foi a besta que saiu e a besta que entrou.

A minha proposta é que quem quiser escrever português ático deve fugir a sete pés do plebeísmo “substituir A por B,” dado ter sido corrompido para lá de toda a recuperação possível, passando então a escrever “fazer A substituir B”.

O Vítor mostrou-me que nem toda a gente usa a língua portuguesa à maluca. Em Fernando Pessoa ocorre pelo menos um uso correcto de substituir: “Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ao natural no uso e correnteza da vida” (“O Caso Mental Português,” Fama, 1932). Infelizmente, isto não é garantia de que não ocorra nele também o uso batateiro. Mas para quem não se impressiona com argumentos lógicos que procuram tornar a língua portuguesa algo que seja mais do que um veículo para comprar batatas, talvez a autoridade de Fernando Pessoa torne autorizável que se evite o uso incorrecto do termo “substituir.”

2 de agosto de 2009

M. S. Lourenço


A Morte da Literatura

A reflexão sobre a cultura está conspicuamente a tomar a forma de uma necrofilia. Esta já tem uma tradição centenária, se pensarmos que a primeira morte foi anunciada há um século quando Zarathustra anunciou então a morte de Deus e nos anunciou a visão do homem do futuro, o super-homem para além do bem e do mal, o qual representa uma transcendência ao mesmo tempo do humano e do divino.

A segunda morte teve lugar já no neste século [XX], após a Segunda Guerra Mundial, ao ser anunciada a morte do homem e, eo ipso, a inexequibilidade do projecto do super-homem. Estas duas mortes estão entre si relacionadas, uma vez que a morte de Deus foi causada pela ciência e a morte do homem foi causada por um produto da ciência, a máquina. Assim, enquanto a ciência levou à eliminação da percepção mágica do mundo, a máquina eliminou o comportamento mágico do homem e transformou-o num autómato.

Somos contemporâneos da terceira morte, a morte da Literatura, tal como ela é anunciada no ensaio de Hans Magnus Enzensberger com o depressivo título Mediocridade e Loucura. Os algozes da Literatura não são uma entidade abstracta, como a ciência, ou um objecto material, como máquina, eles são antes os consumidores dos meios de comunicação de massas, para os quais Hans Magnus Enzensberger adopta a designação hierárquica de «analfabetos secundários». Estes distinguem-se dos analfabetos primários sobretudo pelo facto de, além de saberem ler e escrever (com erros), estarem limitados a imitar a linguagem dos meios de comunicação de massas.

Assim, enquanto a contradição entre a magia e a ciência dá origem à morte de Deus, e a contradição entre a alma e a máquina dá origem à morte do homem, agora a contradição entre a linguagem da imaginação e a dos meios de comunicação de massas dá origem à morte da Literatura.

Mas a morte da Literatura não pode ser exclusivamente imputada aos analfabetos secundários, e a injustiça desta imputação torna-se mais óbvia se considerarmos os géneros literários tradicionais.

O fim da poesia épica tem de ser atribuído a causas alheias à cultura da audiência a quem o poeta épico se dirige. O sentido do poema épico consiste essencialmente em apoiar a configuração de uma concepção de Estado, já realizada ou a realizar. Mas como os fins que os Estados actualmente propõem aos seus súbditos não podem ser sublimados, porque são manifestamente imorais ou porque são simplesmente mercenários, a degradação da figura do Estado arrasta consigo a obsolescência da poesia épica.

A morte da poesia trágica é também independente da incultura das massas. Ao contrário, é um produto da cultura que está na origem do desaparecimento do género trágico. Este produto da cultura é a doutrina ética conhecida pelo nome de «voluntarismo», uma doutrina segundo a qual a vontade precede e determina a acção. Mas é óbvio que num mundo onde eu só faço aquilo que quero, deixo também de ter qualquer experiência trágica.

Enfim, no que diz respeito à poesia lírica, os temas do sujeito lírico e da sua união com a natureza são inconciliáveis com a catástrofe ecológica. Para o poeta lírico, o mundo não só deixou de ser mágico como se tornou repugnante: os rios, as florestas e a lua já o são, em breve seguem-se os planetas do sistema solar e o espaço cósmico em geral.

É preciso tornar cristalinamente óbvio em que é que consiste a minha diferença em relação às teses de Enzensberger. Sem dúvida que a constituição de uma plebe audiovisual, com um número sempre crescente de participantes, torna a Poesia impossível, uma vez que deixa de haver interlocutor para a asserção poética. Simplesmente a plebe audiovisual, que representa a negação da cultura, está paradoxalmente associada com alguns produtos da cultura, os quais também podem ser vistos como a causa eficiente da morte da Literatura.

Deixando agora de lado os factores de carácter político e económico que estão na origem da decadência da poesia épica e da poesia lírica, voltemo-nos uma vez mais para os factores endógenos da cultura. Além do voluntarismo, a que já aludi acima como responsável pela obsolescência da tragédia, a doutrina de estética literária conhecida pelo nome de «funcionalismo» produz efeitos em tudo idênticos aos do analfabetismo secundário.

Para o escritor funcionalista, o fim da obra literária é a comunicação de uma ideia. E tal como numa comunicação telefónica a forma está subordinada à informação a transmitir, assim também na obra de arte literária a forma é função da mensagem. Nestas circunstâncias, o valor de uma obra de arte literária é o valor da ideia nela representada. Enquanto para Auerbach a narrativa do Novo Testamento é responsável pela queda da doutrina clássica dos estilos, em virtude de uma mesma pessoa ser ao mesmo tempo uma reencarnação do sublime e do vulgar, agora estamos perante uma doutrina para a qual o estilo e a forma deixam de ser o fim da obra de arte literária.

Não é assim de surpreender que ao funcionalismo se viesse juntar aquela forma de cepticismo estético que é representada pelo relativismo, o ponto de vista da estética literária segundo o qual tudo tem igualmente o mesmo valor: não há fronteiras entre o literário e o não-literário, e é indiferente se se lê uma crónica da Bolsa ou uma página de Proust. Mas evidentemente se tudo é igual a tudo, então também não vale a pena dizer nada, e é esta genuinamente a morte da Literatura.

A consequência prática desta doutrina é a abolição da diferença entre o escritor e o analfabeto secundário, caminhando ambos para uma legitimação recíproca e sem conflitos. Os escritores legitimam a plebe audiovisual escrevendo sem estilo e sem forma, sem exigências para consigo ou para com o seu público, o qual, por sua vez, legitima o escritor não fazendo perguntas, porque nem autor nem leitor sabem o que é o ramo de Eneias, o que é que Ariana faz na ilha de Naxos.

Entretanto, cem anos de perplexidade chegaram para mostrar que Deus não morreu, uma vez que a todo o momento os deuses ressuscitam. A segunda prognose também ainda não se realizou e, embora pendurado à beira de um abismo, o homem ainda não morreu. Ambos, Deus e o homem, são uma criação da Literatura, do Logos, que é o princípio por meio do qual as coisas passam a ser. Assim a morte da Literatura é o Apocalipse.

(de Os Degraus do Parnaso)

Faleceu M. S. Lourenço

Acabo de receber a notícia triste de que faleceu M. S. Lourenço. Publiquei uma breve nota memorial, "Recordar M. S. Lourenço", e um texto do próprio M. S. Lourenço, "Filosofia, Ensino e Argumentação", retirado do seu A Cultura da Subtileza.

1 de agosto de 2009

Algumas edições brasileiras

Matheus Silva acaba de me dar a saber algumas edições brasileiras que vale a pena investigar melhor:

São bem-vindas recensões de quaisquer destes livros.