30 de setembro de 2009

Mill em Mariana

No próximo dia 8 de Outubro estarei na Faculdade Arquidiocesana de Mariana (MG) para dar um minicurso intitulado "Fundamentos Epistemológicos da Liberdade: J. S. Mill e a Liberdade de Expressão."

25 de setembro de 2009

Martin Heidegger

Uma coisa é constatar e descrever as opiniões dos filósofos, outra completamente diferente é debater o que eles dizem.

24 de setembro de 2009

filosofia analítica e anti-metafísica

Um preconceito muito comum acerca da filosofia analítica é a ideia de que esta é «anti-metafísica». Uma outra maneira de formular este preconceito é dizer que os filósofos analíticos têm algo como um «gene fisicista» ou seja, uma tendência irreprimível para defender a doutrina fisicista (o que aliás é falso) - a doutrina de que só há entidades físicas no espaço-tempo - pressupondo que isso é também anti-metafísico. Quer isto dizer que para este preconceito sobre a filosofia analítica, só não se é anti-metafísico admitindo a existência de entidades que não sejam físicas ou então admitindo vários sentidos da palavra «existir» ou uma diferença entre «ser» e «existir» ou, pior e ainda mais desastrado, entre o «ôntico» e o «ontológico».

É preciso esclarecer estes preconceitos, o que se faz inspeccionando algumas ideias muito simples:

1) o fisicismo é uma doutrina metafísica, pela simples razão de que é uma teoria filosófica (não empírica) sobre a natureza última da realidade. Isso é o que significa metafísica.

2) há muitos filósofos antigos e modernos que não são analíticos e defenderam doutrinas fisicistas, como Leucipo e Demócrito, Lucrécio e, mais perto de nós, o marxismo, que nada tem a ver com a tradição analítica, também é perfeitamente compatível com uma ontologia fisicista. Outros exemplos se poderia listar.

3) mesmo que eu tivesse uma ontologia onde só aceitasse particulares concretos (não confundir isto com fisicismo), nada me impediria, em princípio, de aí incluir coisas como Deus. Deus, se existe, é um perfeito candidato ao estatuto de particular concreto, apesar de aparentemente não ter existência espácio-temporal. Há mais semelhanças entre Deus e este livro à minha frente, do que entre Deus e o número dois ou o universal que se exprime no predicado «tem o nº atómico 47». Deus, como todas as coisas concretas, não é exemplificável (tem propriedades mas não é propriedade, tem relações mas não é uma relação, é espécime e não tipo). Assim, mesmo um nominalista - alguém que só acredita em entidades concretas - pode aceitar a existência de Deus (como Ockham). Ou seja, pode aceitar as coisas que segundo o preconceito sobre a filosofia analítica não poderia aceitar. Espinosa, por exemplo, que não é um filósofo analítico, parece defender uma doutrina que afirma que Deus tem partes espaciais, ainda que não defenda um monismo fisicista ou materialista. O que mostra que é possível defender metafisicamente que Deus é uma coisa física.

22 de setembro de 2009

O que é a filosofia? Uma abordagem inicial


Num dos comentários ao meu post anterior o leitor D. Matos perguntou "e depois, que fazer?", sugerindo que não basta apontar o que está errado.

É verdade. Mas, aceitando como bom o método socrático, temos de começar por nos libertar dos obstáculos que nos impedem de avançar. Portanto, é preciso começar socraticamente por apontar incoerências e ideias erróneas. E deixar as pessoas a pensar.

Além disso, cabe a cada professor reflectir e pensar por si sobre o que deve ensinar nas suas aulas. Afinal, o problema principal é mesmo esta tendência de alguns de nós para repetirmos acriticamente o que alguém escreveu, seja no manual adoptado na escola, seja no blogue da Crítica ou num livro qualquer. Quem tem de começar a dar o exemplo da atitude crítica na aula de filosofia é o professor. Tem a obrigação de pensar por si, sem precisar que lhe digam exactamente como deve ensinar os seus alunos, aguardando pela receita de que estava à espera para avançar.

Outra coisa diferente é partilharmos ideias entre nós. Por isso, vou pôr à consideração dos leitores como penso que a filosofia pode ser apresentada aos alunos, de modo a ficarem com uma ideia aproximada do que têm pela frente.

Em primeiro lugar, é importante referir que a filosofia se ocupa de certo tipo de problemas, mostrando com alguns exemplos que tipo de problemas são esses: problemas básicos de carácter não empírico.

Em segundo lugar, explicar brevemente como fazem os filósofos para responder a esses problemas: propor teorias apoiadas em argumentos rigorosos e sua discussão crítica.

Em terceiro lugar, partir do que se disse até aqui para distinguir a filosofia da ciência, da religião e da arte: a filosofia, ao contrário da ciência, não procura resolver problemas de carácter empírico, apesar de ambas serem actividades críticas e argumentativas; a filosofia, ao contrário da religião, é uma actividade fundamentalmente crítica, apesar de ambas abordarem questões de carácter não empírico; a filosofia, ao contrário da arte, é uma tentativa de responder a problemas através de teorias suportadas por argumentos, apesar de a arte também poder ser crítica.

Claro que tudo isto precisa de ser exemplificado e de se esclarecer o que são problemas básicos, o que significa ter um carácter empírico e o que é isso de ser crítico.

Tudo isto pode ser feito numa aula e sem o malfadado recurso a textos, que só servem para empatar e começar a dar uma ideia errada aos alunos do que realmente é a filosofia. Claro que o professor pode e deve recomendar pequenos textos (mais detalhados, com mais exemplos e mais informativos) para eles lerem em casa, mas é algo extraordinário que precise de recorrer a textos para fazer uma caracterização sumária do que é a filosofia.

São de evitar sobretudo os elogios bacocos à filosofia que frequentemente se lêem em alguns textos.

20 de setembro de 2009

Radicalidade, universalidade, historicidade e racionalidade


A radicalidade é uma característica de muitas ciências, entre as quais a física. Os físicos não se limitam a perguntar como se comporta um pedaço de matéria quando deixado em queda livre, por exemplo; eles procuram ir mais longe e mais fundo, perguntando "O que é a matéria?". Os biólogos não se limitam a querer saber como se reproduzem e se desenvolvem os seres vivos; eles procuram também responder à pergunta mais radical "Como surgiu a vida?".

A universalidade é uma característica da religião, pois as religiões não procuram explicar apenas alguns aspectos da realidade, mas a realidade como um todo, apresentando-se como uma saber universal e totalizante. Mas também é uma característica da ciência, pois se cada ciência estuda um aspecto da realidade, as ciências no seu conjunto procuram cobrir toda a realidade, exactamente como acontece com a filosofia e as diferentes disciplinas filosóficas.

A historicidade é uma característica da culinária. O modo como se preparam e cozinham os alimentos está fortemente ligado ao contexto histórico e cultural. A culinária é historicamente situada, tal como a sapataria e a ocupação dos tempos livres.

A racionalidade é uma característica do xadrez, pois o jogador de xadrez toma todas as suas decisões de forma racional, antecipando e avaliando de forma criteriosa cenários alternativos.

O que se conclui daqui?

Bom, a avaliar por aquilo que tenho visto em alguns manuais de filosofia e que se atira aos estudantes para papaguear, a filosofia é uma mistura de ciência, religião, culinária e xadrez.


17 de setembro de 2009

Universidade Federal de Goiás

De 21 a 23 estarei na Universidade Federal de Goiás para dar um minicurso intitulado "Ensinar a Filosofar" e uma palestra intitulada "O Sintético A Priori de Kant e o Necessário A Posteriori de Kripke".

16 de setembro de 2009

Ortografia e memória

As reformas sucessivas da ortografia portuguesa violam o direito de acesso do leitor comum, e até do menos comum, ao legado bibliográfico da sua cultura. Isto é particularmente patente quando se consulta a secção de língua portuguesa do Projecto Gutenberg: quase nenhum livro é legível. Como a ortografia portuguesa está sempre a mudar, eu não sei, ao ler um livro destes, se estou perante um erro de digitação ou uma variação ortográfica legítima. Isto não acontece com os milhares de livros de língua inglesa do Projecto Gutenberg. Na língua portuguesa, mesmo um livro relativamente recente, como Os Maias, de Eça de Queirós, publicado em 1888, ou a obra de Pessoa, publicada já no séc. XX, é quase ilegível ao leitor culto do séc. XXI, e completamente ilegível para o leitor menos culto. A ironia é que as sucessivas reformas ortográficas se fizeram várias vezes com argumentos educativos, o que constitui um caso interessante de mentira política.

15 de setembro de 2009

Filosofia de norte a sul

A tabela abaixo mostra-nos os resultados das candidaturas aos cursos superiores de filosofia nas universidades públicas portuguesas, comparados com os dos três anos anteriores.

A primeira coisa que se nota é que neste ano de 2009 houve uma ligeira melhoria, tanto no número de alunos que escolheram estudar filosofia (subiu para 179 alunos) como na média da nota mínima de acesso (subiu para 111,6). Em contrapartida, nunca houve alunos com notas tão baixas a ingressar num curso de filosofia (nove e meio, na Universidade de Coimbra).

Mais uma vez, reforça-se a posição da Universidade do Porto, procurada por praticamente tantos estudantes como as duas universidades públicas de Lisboa juntas, além de a nota mínima de ingresso ser superior a qualquer delas.

É ainda de realçar o caso da Universidade do Minho, que, tal como a do Porto, vê praticamente todas as suas vagas preenchidas nos últimos anos.

Tudo indica que o interesse pela filosofia é mais forte na região norte do país. Será? Porquê?

(Vagas) Alunos colocadosNota do último
2006 2007 2008 2009 2006 2007 2008 2009
Un. da Beira Interior (30) 10 (20) 5 (20) 4 (20) 2 110,7 109,9 108,0 113,6
Un. de Coimbra (35) 22 (35) 14 (30) 10 (30) 26 105,5 104,0 112,0 95,0
Un. de Évora (20) 1 (20) 3 - - 113,5 125,5 - -
Un. de Lisboa (70) 37 (60) 59 (65) 21 (65) 36 100,5 103,0 108,5 103,5
Un. Nova de Lisboa (20) 20 (25) 25 (25) 16 (25) 25 139,0 125,0 116,0 117,0
Un. do Minho (30) 29 (30) 30 (30) 28 (30) 30 108,8 126,4 107,6 121,4
Un. do Porto (70) 70 (60) 70 (65) 56 (60) 60 126,0 114,6 105,8 119,2
Total / Média (275) 189 (250) 206 (235) 135 (230) 179 114,9 115,5 109,7 111,6

14 de setembro de 2009

Manipulação linguística

A denúncia clássica da manipulação linguística, de George Orwell, está agora disponível aqui. Trata-se do ensaio "A Política e a Língua Inglesa", incluído na pequena antologia Por Que Escrevo e Outros Ensaios (Lisboa: Antígona, 2008).

13 de setembro de 2009

Como não começar


O novo ano lectivo vai começar e os alunos do 10º ano irão estudar pela primeira vez filosofia. É importante ter cuidado em não começar por criar expectativas negativas nos estudantes, o que pode gerar algum desinteresse neles.

A minha experiência diz-me que nós, professores, temos alguma tendência para gastar, logo de início, muito tempo com coisas que eles, muito naturalmente, acham desinteressantes. Refiro-me à necessidade algo estranha de passar horas seguidas a falar da importância da nossa disciplina, como se o estudo da filosofia precisasse de grandes justificações (ou como se o nosso emprego estivesse em causa e precisássemos do apoio dos alunos para o defender). O elogio, muitas vezes pomposo, de uma disciplina que os alunos ainda nem sequer estão aptos para avaliar é algo despropositado e até suspeito, além de bocejante. Creio que é uma boa maneira de começar a perder os alunos, deixando-os desconfiados.

Outro aspecto, normalmente associado ao anterior e que também não me parece fazer grande sentido, é massacrar os alunos com conversa interminável sobre a filosofia e sua natureza. A melhor maneira de eles compreenderem isso é introduzi-los o mais rapidamente possível na discussão filosófica e dar-lhes tempo para tirarem as suas próprias conclusões. É muito mais eficaz, motivador e filosófico.

Nada disto significa que não haja necessidade de se dar aos estudantes uma noção prévia do que terão pela frente ao estudar filosofia, até para não os deixar completamente desorientados. Mas creio que uma aula de noventa minutos chega e sobra. Acima de tudo, parece-me completamente dispensável testar os estudantes sobre a definição ou a importância da filosofia. Nesta altura do campeonato, os estudantes nada mais terão para dizer a não ser repetir acriticamente aquilo que lhes foi dito. Ora, isso é... antifilosófico.

Além disso, é também imprescindível facultar-lhes, logo de início, algumas ferramentas críticas básicas. Mas será sempre mais útil e motivador apresentar as ferramentas do ofício com alguns exemplos simples discutidos pelos filosófos. Quanto mais depressa nos atirarmos à discussão dos problemas filosóficos mais sentido as coisas farão para os estudantes e maior será a motivação. A minha experiência diz-me que os estudantes não gostam de conversa sobre a filosofia, mas da própria discussão filosófica.

A situação é, de resto análoga, ao que se passa no início do 11º ano, quando se começa por ensinar lógica. Se há coisa que, além de inútil, desperta pouco interesse nos alunos, é a interminável conversa sobre a natureza e utilidade da lógica, sobretudo quando isso vem embrulhado num monte de textos confusos sobre o assunto. Do que os alunos precisam é mesmo de aprender lógica. E quanto antes melhor. Se os estudantes não virem utilidade nisso ao discutir filosofia, também serão incapazes de ver tal utilidade só porque lhes dizem que é algo muito importante.

9 de setembro de 2009

Stephen Law em Portugal...

...não pessoalmente, mas o bem conseguido livro ilustrado dele, Filosofia, foi publicado em Portugal pela Civilização Editora. Na Crítica temos um excerto deste livro aqui.

Esta editora também publicou também em 1999 (!) a História da Filosofia, de Bryan Magee, que é igualmente um livro profusamente ilustrado e recomendável.

O humor não é para brincadeiras

Acaba de sair um novo livro sobre a filosofia do humor de John Morreall, cujo trabalho na área se tem destacado e foi referido pelo Aires aqui. O livro chama-se Comic Relief: A Comprehensive Philosophy of Humor (Oxford: Wiley, 208 pp.)

8 de setembro de 2009

Viver para quê?


Está já à venda em algumas livrarias portuguesas, como a Wook, o livro Viver Para Quê? Ensaios Sobre o Sentido da Vida, com organização e introdução minhas, e textos de Richard Taylor, Kurt Baier, Thaddeus Metz, Thomas Nagel, Susan Wolf e Neil Levy. Este livro é o terceiro da colecção Filosofia Pública, dirigida por Pedro Galvão e que publicou já uma antologia sobre a moralidade ou imoralidade do aborto e sobre a natureza da arte.

7 de setembro de 2009

João da Ega

É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!

5 de setembro de 2009

Stuart Mill

Se todos os seres humanos, menos um, tivessem uma opinião, e apenas uma pessoa tivesse a opinião contrária, os restantes seres humanos teriam tanta justificação para silenciar essa pessoa como essa pessoa teria justificação para silenciar os restantes seres humanos, caso tivesse poder para tal.

4 de setembro de 2009

Três novidades

Matheus Silva enviou-me notícia de três novidades editoriais brasileiras:

O enigma do Tractatus

Acabo de publicar aqui uma crítica de Rui Cunha ao livro Routledge Philosophy Guidebook to Wittgenstein and the Tractatus, de Michael Morris.

3 de setembro de 2009

Chegou o novo Dicionário Escolar de Filosofia



O novo Dicionário Escolar de Filosofia, organizado por mim, está finalmente aí. Nos próximos dias chegará às livrarias, de modo que os professores e estudantes poderão contar já com ele para preparar o ano lectivo que agora começa.

Nesta nova versão, revista e aumentada, o leitor encontrará cerca do dobro de entradas da versão anterior.

Novidade crítica

Pensamento Crítico: O Poder da Lógica e da Argumentação, de Richard L. Epstein e Walter A. Carnielli acaba de ser lançado no Brasil. Trata-se da tradução e adaptação do original Critical Thinking, e é uma das melhores introduções informais e acessíveis à análise e discussão de argumentos. Espero que esta obra seja cuidadosamente estudada e usada por muitos professores e estudantes, pois contribui sobremaneira para gerar a autonomia intelectual a que todo o ensino de excelência deve almejar e de que toda a sociedade livre precisa. (Obrigado a Alex Lennine por me ter dado a conhecer esta feliz novidade.)

1 de setembro de 2009

Ajuda certeira

Dídimo Matos deu-me a conhecer este livro que não li ainda mas parece um auxiliar precioso: Como Estudar Filosofia: Guia Prático Para Estudantes, de Clare Saunders et al. (Artmed, 2009). O original inglês está aqui.

Edição posterior: acabo de publicar aqui uma breve apresentação deste livro.