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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2009

Liberdade de expressão

O lançamento do último livro de José Saramago gerou alguma discussão desorganizada, principalmente quando foram ouvidas algumas das suas declarações sobre a versão que tem do deus da Bíblia. Não li o livro, nem ouvi toda a discussão. Pelo que pude apurar as acusações de ambas as partes pegam nos detalhes onde cada um dos intervenientes da discussão falham, tanto o escritor como os elementos que se opõem, principalmente a igreja católica. Mas a discussão desse modo cai em saco roto, já que devia ser pacífico que qualquer ser humano, por mais iluminado que seja, comete erros. Ou seja, se vamos discutir pegando nos detalhes onde se erra, nunca mais se chega a qualquer consenso mínimo. E isto acontece porque em regra as pessoas não estão interessadas em discutir seja o que for, mas em desejar eliminar as teses e conclusões opostas. Quando se parte assim para a discussão, os resultados são sempre infelizes e irracionais. No centro da discussão, o que interessa argumentar é a liberdade de …

Anthony Kenny

Mas não existe um método puramente interno de descobrir quais são as nossas crenças que merecem a designação de conhecimento. O melhor a que podemos aspirar é adquirir proficiência em atribuir o nível certo de comprometimento a cada crença.

Filosofia da Mente no Brasil

Neste excelente site, João de Fernandes Teixeira disponibiliza diversos artigos, traduções e resenhas relacionadas à filosofia da mente. João Teixeira tem se destacado como um incansável divulgador da filosofia da mente, publicando dezenas de artigos em jornais e revistas além de vários livros introdutórios sobre a área. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o trabalho "de formiga" do divulgador não só não é menos importante do que o trabalho do filósofo especializado como também é uma condição necessária para a sustentação deste: sem bons manuais é impossível criar boas aulas introdutórias, e sem boas aulas introdutórias, que determinam as competências mais básicas para se fazer filosofia, não há como formar bons filósofos profissionais. A idéia de que podemos formar um pesquisador capaz de publicar nos melhores periódicos internacionais, mas que dá aulas para alunos que não compreendem o básico de sua área por carecerem de bons manuais na sua língua, precisa ser repen…

Antologia de Estética

Descobri ontem esta antologia de estética organizada por Steven Cahn e Aaron Meskin. Para minha surpresa, contém o que parece uma tradução inglesa do De Musica de Santo Agostinho.

Conhecimento

Tenho o privilégio de ter sido convidado pelo Desidério para contribuir para o blog da Crítica. Claro está que estou muito entusiasmado com o desafio, e espero estar quase à altura dos restantes “bloguistas”. Muito obrigado, Desidério.

Eis o meu primeiro post, certamente muito longo, mas espero que não longo demais: aborda o conhecimento.

Num interessante livro chamado “Blink”, Malcom Gladwell descreve a seguinte experiência:

“Imagine que eu lhe pedia para entrar num jogo de cartas muito simples. Tem à sua frente quatro baralhos de cartas – dois encarnados e dois azuis. Cada carta nesses quatro baralhos dá-lhe a ganhar uma certa quantia, ou então fá-lo perder uma outra quantia, e o que tem a fazer é virar as cartas de qualquer um dos baralhos, uma de cada vez, de tal maneira que ganhe o mais possível. No entanto, a princípio, você ainda não sabe que os baralhos encarnados são autênticos campos de minas. Com as cartas encarnadas, a recompensa é alta, mas pode-se perder muito. Na realid…

A ideia de Deus

Neste primeiro capítulo do seu livro Philosophy of Religion: An Introduction, William L. Rowe apresenta algumas das propriedades centrais do deus teísta, distinguindo-o de outras concepções do divino. A tradução é de Vítor Guerreiro.

ontologia das palavras

Por vezes fazemos uma certa confusão entre uma palavra existir em português (ou em qualquer língua) e o facto de essa palavra estar dicionarizada em português (ou em qualquer língua). Mas isto não pode ser, desde logo porque em parte o trabalho do lexicógrafo é registar um uso prévio, um uso que já existe antes de o dicionário ser redigido. Por outro lado, parece que esta distinção não é importante, dado que, seja como for, só pode ser registado pelo lexicógrafo o que já existe. Mas isto é invalidado pela falibilidade dos dicionários. Por exemplo, nenhum dicionário contemporâneo que uso regista a palavra "protectivo", mas o dicionário de António Moraes Silva, de 1813, regista-a. Portanto, pelo menos a dada altura, a palavra teve de existir. Mas aqui eu proporia uma reforma do nosso modo de entender a relação entre "existir linguisticamente" e "estar dicionarizado".
O verbo "instanciar" ou o adjectivo "protectivo" podem não constar dos d…

Som e qualidade de vida

Pensava que era só eu que era particularmente sensível ao som, relacionando-o directamente com a qualidade do meu ambiente pessoal, profissional e emocional. Mas afinal parece que não. Veja-se aqui:

Mas isto é uma aula de filosofia?

Ao assistir a isto, não consegui evitar a pergunta brincalhona: é mesmo uma aula de filosofia?
Trata-se de algo tão diferente do que fui habituado quando estudei filosofia, que a minha pergunta talvez seja partilhada por muitos leitores. Vejamos:
Onde já se viu uma aula de filosofia tão concorrida? Serão trezentos? Quatrocentos alunos? Dá a ideia que não existem tantos alunos de filosofia nas universidades portuguesas todas juntas.
Onde já se viu uma aula de filosofia em que qualquer pessoa (mesmo que não seja estudante de filosofia) é capaz de compreender tudo o que o professor diz? Um professor assim dificilmente nos consegue proporcionar uma experiência... como diria?... uma experiência estético-filosófica.
Quem será o professor? Certamente um desconhecido qualquer, sobretudo se comparado com os génios filosóficos que conhecemos de algumas das nossas universidades. É um tal de Michael Sandel. Bom, parece que tem um livrito traduzido para português.
Onde se passa tudo isto? Em que unive…

Quem tem medo de perguntas falaciosas?

Acaba de ser anunciado o novo e apetitoso livro de Peter Goldie e Elisabeth Schellekens, Who's Afraid of Conceptual Art?(Routledge). O título, contudo, sendo uma expressão comum, é falacioso. Sempre que alguém faz a pergunta retórica "Quem tem medo de X?" está logo a pressupor que X é bom e que só tolos medrosos têm medo de X. Não acredito que o livro em si cometa esta falácia, mas eu não daria este nome a um livro.

Pós-graduação em Filosofia em Ouro Preto

Estão abertas as inscrições para o XVI Curso de Especialização em Filosofia, de 13 de outubro a 30 de novembro. As inscrições podem ser feitas pelo correio. Consulte o edital e a ficha de inscrição.

A Pós-Graduação Lato Sensu em Filosofia é oferecida pelo Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto.

O curso é uma qualificação intensiva de nível superior, de caráter informativo e reflexivo, sobre os problemas, teorias e argumentos da filosofia antiga, moderna e contemporânea. Destina-se a graduados em áreas afins e professores da rede pública e privada das áreas de Ciências, Humanas e Artes.

Carga horária: 360 horas
Número de vagas: 30
I módulo: janeiro de 2010
II módulo: julho de 2010
Horário: das 08 às 12h e das 14 às 18h, de segunda a sexta-feira.

Contato:

UFOP - IFAC
Departamento de Filosofia, Secretaria de Pós-Graduação
Rua Coronel Alves, 55 Centro Histórico - 35400-000
Ouro Preto - Minas Gerais

Telefones: (31) 3559-1732 / (31…

Traduções

Comprei ontem a recente tradução portuguesa de A Estrutura das Revoluções Científicas, de T. Kuhn (da Guerra e Paz). Ao chegar a casa fiz uma rápida comparação com a tradução brasileira (da Editora Perspectiva) e logo me surgiu uma dúvida. O capítulo X da tradução portuguesa intitula-se "As revoluções como mudanças na concepção do mundo", ao passo que o mesmo capítulo da tradução brasileira se intitula "As revoluções como mudanças da concepção do mundo".
Mas qual será a tradução correcta? É que as coisas são muito diferentes: uma coisa é haver mudanças no seio de uma dada concepção do mundo, como sugere a tradução portuguesa, outra bem diferente é substituir uma concepção do mundo por outra, como indica a brasileira. Esta última tese é bem mais forte e as implicações de uma e outra são muito diferentes.
Dada a ideia de incomensurabilidade entre paradigmas rivais defendida por Kuhn, quer-me parecer que a tradução brasileira é que está correcta.

Direita torta e esquerda direita

Não estou certo de que a discussão política sobre o que distingue a direita da esquerda seja apenas uma questão política ou se é, antes de mais, uma questão filosófica relevante. Registo, por um lado, que alguns bons dicionários de filosofia (Thomas Mautner, por exemplo) são omissos em relação a este par conceptual e que outros (Blackburn e Honderich) aviam a coisa em poucas linhas. Por outro lado, é muito raro encontrar tais conceitos na literatura filosófica.

Seja como for, há uma tendência muito frequente nas discussões sobre direita e esquerda que me parece filosoficamente estéril e que consiste em caracterizar ambos os lados de tal modo que se torna imediatamente óbvio a uma mente equilibrada que um deles está errado e o outro certo. Se, na caracterização filosófica de uma disputa, se torna evidente, para um ser racional interessado na verdade, que num dos lados estão os bons (ou os que pensam bem) e no outro lado os maus (ou que pensam mal), então tal caracterização nada tem de f…

Um mundo sem crueldade

Mais uma tradução minha para o «projecto abolicionista» de Dave Pearce e Nick Bostrom: Reprogramar os Predadores. Neste ensaio do primeiro, leva-se a sério e até às consequências últimas a ideia de que não podemos basear a moralidade numa inspecção de como a natureza é, em especial a transformação da «luta pela existência» numa história edificante ou a consagração do sofrimento na ideia de uma «lei da vida» que muitas vezes serve de pretexto para a perpetuação da crueldade em formas que pouco têm que ver sequer com a sobrevivência.

J. S. Mill

A vontade das pessoas, quer como governantes quer como concidadãos, de impor aos outros as suas próprias opiniões e inclinações como uma regra de conduta, é tão activamente apoiada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana, que muito raramente é mantida sob controlo por outra coisa que não a falta de poder; e como o poder não está a diminuir, mas sim a aumentar, então a não ser que uma forte barreira de convicção moral possa erguer-se contra esse mal, é de esperar que, dadas as circunstâncias presentes do mundo, o vejamos intensificar-se.

Metafísica das propriedades

Vários objectos diferentes, com diferentes localizações no espaço e no tempo, parecem ter as mesmas propriedades em comum: todos os objectos vermelhos parecem partilhar a propriedade da vermelhidão. Mas isto levanta uma perplexidade: como pode algo -- a vermelhidão -- estar em vários lugares ao mesmo tempo? Esta e outras perplexidades sobre a metafísica das propriedades é apresentada no artigo "Introdução à Metafísica das Propriedades", de Rodrigo Alexandre de Figueiredo.

Frege, Russell e Kenny

Kenny expõe com uma clareza e didactismo impressionante as ideias centrais de Frege e Russell sobre os fundamentos da matemática e outros aspectos associados. Um exemplo do que é dominar as matérias e saber transmiti-las aos estudantes. Aqui.

Clássicos da estética e filosofia da arte

Recebi há dias uma mensagem de uma leitora deste blogue a perguntar-me o seguinte: "Quais os cinco ou seis livros de estética mais importantes do último século? Se quiser ler os clássicos do último século, por onde devo começar?".

Há vantagem em que estas perguntas sejam feitas directamente aqui no blogue, pois pode ser que mais alguém tenha interesse na resposta.

Deixo aqui a minha resposta. A lista não tem cinco mas os dez clássicos de estética e filosofia da arte do último século. A azul indico aqueles acerca dos quais parece não haver qualquer espécie de dúvida. Sublinhe-se também que os problemas aí formulados, bem como as teses discutidas ou defendidas em alguns deles foram posteriormente refinadas e desenvolvidas por outros filósofos mais recentes. Eis a lista, por ordem cronológica:

1914
Clive Bell, Arte (trad. port. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 2009).

1938
R. G. Collingwood, The Principles of Art. Oxford: Oxford University Press.

1953
Susanne Langer, Feeling and Form. Lo…

Kuhn na Guerra & Paz

Acaba de ser publicado em Portugal o clássico moderno A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn (Guerra & Paz, 2009), em tradução de Carlos Marques.

Priest é funcional

Quando dominamos realmente as matérias e não queremos usá-las para nos darmos ares de grandiosidade fantasiosa, conseguimos explicar da maneira mais simples, sem descurar a precisão científica, qualquer problema, teoria ou argumento. É o que Priest faz em "Funções de Verdade -- Ou Não?," retirado do livro Lógica (Temas e Debates), que é a tradução de A Very Short Introduction to Logic (Oxford University Press).

Um problema de filosofia política

Este post do Rolando fez-me pensar na seguinte situação. Imagine-se o país P, uma democracia representativa, onde os cidadãos estão em vias de eleger os seus representantes para o parlamento. Deverão os cidadãos de P escolher livremente aqueles que melhor interpretem os seus interesses pessoais ou deverá haver restrições sobre quem pode representá-los? Por exemplo, imagine-se que 10% dos cidadãos têm cadastro criminal e vêem os seus interesses melhor representados por alguém com cadastro. Será inaceitável ter cadastrados no parlamento? E arguidos? Terão os representantes dos cidadãos de estar moralmente acima daqueles que representam? Porquê e quem decide tal coisa? Podemos chamar "representativo" a um regime em que os cidadãos não têm a possibilidade de escolher exactamente quem querem, independentemente do perfil moral dos escolhidos?