31 de outubro de 2009

Filosofia e snobismo

No artigo "Cultura e Prostituição" protestei contra a instrumentalização da cultura que a transforma num instrumento para alardear imaginadas superioridades sociais. Agora é a vez de Rolando Almeida protestar, mas em particular no que respeita à filosofia, no artigo "Filosofia e Snobismo".

Discussão pública

Em "Discussão, Democracia e Perversão" volto a defender a visão incomum do que é a discussão pública. O que pensa o leitor?

30 de outubro de 2009

George Orwell

Se a liberdade significa realmente alguma coisa, significa o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.

Liberdade de expressão



O lançamento do último livro de José Saramago gerou alguma discussão desorganizada, principalmente quando foram ouvidas algumas das suas declarações sobre a versão que tem do deus da Bíblia. Não li o livro, nem ouvi toda a discussão. Pelo que pude apurar as acusações de ambas as partes pegam nos detalhes onde cada um dos intervenientes da discussão falham, tanto o escritor como os elementos que se opõem, principalmente a igreja católica. Mas a discussão desse modo cai em saco roto, já que devia ser pacífico que qualquer ser humano, por mais iluminado que seja, comete erros. Ou seja, se vamos discutir pegando nos detalhes onde se erra, nunca mais se chega a qualquer consenso mínimo. E isto acontece porque em regra as pessoas não estão interessadas em discutir seja o que for, mas em desejar eliminar as teses e conclusões opostas. Quando se parte assim para a discussão, os resultados são sempre infelizes e irracionais. No centro da discussão, o que interessa argumentar é a liberdade de expressão e não se o Saramago se enganou aqui e ali. Erros encontramo-los, como já disse, em qualquer das partes, já que ninguém é capaz de um afastamento tal que lhe permita uma leitura da verdade completamente objectiva. O que interessa saber é realmente se o escritor tem ou não a liberdade de escrever um livro de ficção, mesmo que viole regras da história? Será que se Saramago escrevesse um livro de ficção científica descrevendo amizades entre humanos e extra terrestres, tal geraria tanta polémica? E se Saramago quisesse escrever um livro de ficção sobre uma comunidade extraterrestre cujo messias nessa mesmo comunidade era um ser verde de antenas na cabeça? O que é que nos permite escrever ficção sobre extra terrestres e tudo o mais, mas temos de ter muito cuidado se o fazemos com Maomé ou Jesus Cristo, por exemplo?

Um dos mais completos argumentos sobre liberdade de expressão encontrámo-lo em Sobre a Liberdade (Ed. 70) do filósofo inglês John Stuart Mill. Diz Mill:

Se os cristãos quisessem ensinar os infiéis a serem justos para com o cristianismo, os cristãos, deviam, eles próprios, ser justos para com os infiéis.

E continua:

Não presta qualquer serviço à verdade fingir que não se vê o facto, conhecido por todos os que têm os mais rudimentares conhecimentos de história literária, de que uma grande porção dos mais nobres e valiosos ensinamentos morais tem sido da autoria não apenas de pessoas que desconhecem a fé cristã, mas também de pessoas que a conheciam e a rejeitavam.

O problema da liberdade de expressão é que uma opinião silenciada pode estar errada, mas pode também conter uma porção de verdade e negar tal possibilidade é pressupor a infalibilidade. Mill alerta-nos para este aspecto central na liberdade de expressão.

Além do mais, se a tese ofendida (neste caso a da Igreja Católica) é realmente verdadeira, por que razão causa tanto incómodo ataques a essa tese, ficcionais ou reais? Não deveria essa tese, sendo a verdadeira, resistir bem aos ataques? Então por que razão se ouviu tanto dizer que o escritor Saramago é arrogante, que pretende polémica para vender livros, etc.? Estes são ataques ad hominem e não propriamente defesas racionais da tese que se pretende como a verdade. Isto conduz-me a pensar que a ofensa aparece porque o ataque é poderoso ou contém uma porção de verdade. Depois, como considerar as declarações de Saramago ofensivas? Elas não ofendem, por exemplo, os não crentes. A ofensa parece não ser absoluta. Ou será que os milhares de não crentes têm o direito de se sentirem ofendidos com os milhares de livros existentes que retratam um deus bondoso? Além disso, não é pacífica a ideia de que Deus seja bondoso. Por exemplo, um dos problemas mais arrepiantes para os crentes, desde sempre, é a justificação do problema da existência do mal num mundo criado por um deus bondoso. Qualquer informação mínima sobre o problema do mal na filosofia da religião permite-nos saber que não é fácil responder a este problema.

Diz Mill:

a pior ofensa deste tipo que pode ser cometida por uma argumentação é estigmatizar como pessoas más e imorais aquelas que sustentam a opinião contrária.

Mas o alerta de Mill vai mais longe: os efeitos de uma linguagem vituperativa é muito mais forte na direcção da tese mais popular para a menos popular do que ao contrário, pelo que parece ser justo restringir a vituperação da parte da tese mais popular, já que ela mais não é do que uma arma de silenciamento da tese contrária. Isto, a bem da verdade.

A conclusão a reter é simples: não pode existir verdadeira discussão sobre o deus da Bíblia é um deus bom ou mau se não tivermos em discussão a possibilidade de ser um deus mau. Só assim perceberemos se é realmente um deus bom ou mau. E a comunidade cristã deveria agradecer a discussão, em vez de a condenar, reduzindo-a a um mal entendido e arrogância, um conjunto de equívocos por parte do escritor. Afinal não tivemos séculos de equívocos de leitura da Bíblia por parte da cristandade?

28 de outubro de 2009

Será o nada algo?

É a esta pergunta que não responde Priest neste artigo. E o que pensa o leitor?

Anthony Kenny

Mas não existe um método puramente interno de descobrir quais são as nossas crenças que merecem a designação de conhecimento. O melhor a que podemos aspirar é adquirir proficiência em atribuir o nível certo de comprometimento a cada crença.

27 de outubro de 2009

Júlio Cabrera e o sentido da vida

Júlio Cabrera defende a tese de que a condição humana é destituída de valor, mas Filipe Lazzeri discorda e explica porquê no artigo "Sobre a condição ontológica e moral do ser humano". E o que pensa o leitor?

Filosofia da Mente no Brasil



Neste excelente site, João de Fernandes Teixeira disponibiliza diversos artigos, traduções e resenhas relacionadas à filosofia da mente. João Teixeira tem se destacado como um incansável divulgador da filosofia da mente, publicando dezenas de artigos em jornais e revistas além de vários livros introdutórios sobre a área. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o trabalho "de formiga" do divulgador não só não é menos importante do que o trabalho do filósofo especializado como também é uma condição necessária para a sustentação deste: sem bons manuais é impossível criar boas aulas introdutórias, e sem boas aulas introdutórias, que determinam as competências mais básicas para se fazer filosofia, não há como formar bons filósofos profissionais. A idéia de que podemos formar um pesquisador capaz de publicar nos melhores periódicos internacionais, mas que dá aulas para alunos que não compreendem o básico de sua área por carecerem de bons manuais na sua língua, precisa ser repensada. Precisamos de mais "Teixeiras" na divulgação das demais áreas da filosofia. Vale a pena indicar os seus livros:

Antologia de Estética


Descobri ontem esta antologia de estética organizada por Steven Cahn e Aaron Meskin. Para minha surpresa, contém o que parece uma tradução inglesa do De Musica de Santo Agostinho.

26 de outubro de 2009

Conhecimento

Tenho o privilégio de ter sido convidado pelo Desidério para contribuir para o blog da Crítica. Claro está que estou muito entusiasmado com o desafio, e espero estar quase à altura dos restantes “bloguistas”. Muito obrigado, Desidério.

Eis o meu primeiro post, certamente muito longo, mas espero que não longo demais: aborda o conhecimento.

Num interessante livro chamado “Blink”, Malcom Gladwell descreve a seguinte experiência:

“Imagine que eu lhe pedia para entrar num jogo de cartas muito simples. Tem à sua frente quatro baralhos de cartas – dois encarnados e dois azuis. Cada carta nesses quatro baralhos dá-lhe a ganhar uma certa quantia, ou então fá-lo perder uma outra quantia, e o que tem a fazer é virar as cartas de qualquer um dos baralhos, uma de cada vez, de tal maneira que ganhe o mais possível. No entanto, a princípio, você ainda não sabe que os baralhos encarnados são autênticos campos de minas. Com as cartas encarnadas, a recompensa é alta, mas pode-se perder muito. Na realidade, só consegue ganhar tirando cartas dos baralhos azuis, que oferecem continuamente prémios muto apetecíveis de 50 dólares e só levam a perdas modestas. A questão é saber de quanto tempo uma pessoa precisa para descobrir a diferença entre os baralhos encarnados e os azuis.
Há alguns anos, um grupo de cientistas da Universidade de Iwoa fez esta experiência e concluiu que ao fim de virar 50 cartas a maioria das pessoas começava a perceber como é que a coisa funcionava. Não sabiam por que preferiam os baralhos azuis, mas a certa altura estavam convencidas de que era melhor apostar neles. Depois de virar cerca de 80 cartas, a maioria percebia o jogo e conseguia explicar com precisão por que os dois primeiros baralhos eram uma má aposta. Até aí, a coisa é muito simples: fazemos algumas experiências; pensamos nelas; elaboramos uma teoria; e depois, finalmente, somamos dois mais dois. É assim que se aprende.
Mas os cientistas de Iwoa fizeram outra coisa. E é aí que começa a parte estranha da experiência. Ligaram cada jogador a uma máquina que media a actividade das glândulas sudoríparas localizadas na palma da mão. Tal como a maioria das nossas glândulas sudoríparas, as das palmas respondem tanto à tensão como à temperatura – e é por isso que ficamos com as mãos suadas quando estamos nervosos. Os cientistas do Iwoa descobriram que os jogadores começavam a dar respostas sob tensão, em relação aos baralhos vermelhos a partir das 10 cartas, quarenta cartas antes de serem capazes de dizer que havia algo de errado com esses dois baralhos. Mais importante ainda, na altura em que as mãos começavam a suar, o seu comportamento também mudava. Começavam a preferir as cartas azuis e a retirar cada vez menos cartas dos baralhos encarnados. Por outras palavras, os jogadores apercebiam-se do sistema do jogo, antes de perceberem que já se tinham apercebido; começavam a afazer os ajustamentos necessários, antes de estarem cientes dos ajustamentos que supostamente deveriam ter feito.”

Para simplificar, chamemos:
- Fase A, à fase em que o jogador reagia às cartas vermelhas, sem saber que o estava a fazer (entre as 10 e as 50 cartas);
- fase B, à fase em que o jogador reagia conscientemente às cartas vermelhas, mas sem saber dizer porquê (entre as 50 e as 80 cartas);
- e fase C, à fase em que o jogador sabe exactamente o que se passa com os baralhos (a partir das 80 cartas)

Muitas perguntas se levantam, mas destaco as seguintes:

1) Será que podemos dizer que o jogador na fase A sabia que o baralho vermelho estava minado? Será que uma crença da qual não estamos conscientes, mas que afecta o nosso comportamento, constitui conhecimento?

2) Será que podemos dizer que o jogador na fase B sabia que o baralho vermelho estava minado? Será que uma crença verdadeira que não sabemos justificar, mas que se justifica que tenhamos, constitui conhecimento? Este é um exemplo que exemplifica o externalismo com clareza, parece-me; resta saber se achamos que é conhecimento.

Philosophy de borla

Artigos particularmente interessantes de autores como Kenny (sobre conhecimento, crença e fé) publicados na excelente revista Philosophy estão agora disponíveis gratuitamente aqui.

25 de outubro de 2009

página de Ted Sider

Eis a página pessoal de Theodore Sider, co-autor do livro a publicar pela Editorial Bizâncio, Enigmas da Existência, uma viagem guiada à metafísica. Além de artigos do próprio, temos uma lista de ligações para diversas páginas de outros filósofos, com acesso a material de estudo.

21 de outubro de 2009

Wittgenstein contra a linguagem privada

O argumento de Wittgenstein contra a possibilidade de uma linguagem logicamente privada é um daqueles conteúdos centrais da filosofia que muitas vezes é ignorado. Eis um artigo introdutório de P. M. S. Hacker sobre o tema.

20 de outubro de 2009

A ideia de Deus

Neste primeiro capítulo do seu livro Philosophy of Religion: An Introduction, William L. Rowe apresenta algumas das propriedades centrais do deus teísta, distinguindo-o de outras concepções do divino. A tradução é de Vítor Guerreiro.

19 de outubro de 2009

Orwell e a verdade

A verdade histórica é uma invenção de quem detém o poder?

Universidade Estadual de Santa Cruz

No próximo dia 23 estarei na Universidade Estadual de Santa Cruz (Ilhéus, Bahia), para dar um mini-curso intitulado "Ensinar a Filosofar" e uma palestra intitulada "A Natureza da Filosofia e o seu Ensino".

18 de outubro de 2009

Probabilidade e estatística

Sklar apresenta aqui alguns dos problemas filosóficos levantados pela probabilidade e pela estatística.

ontologia das palavras

Por vezes fazemos uma certa confusão entre uma palavra existir em português (ou em qualquer língua) e o facto de essa palavra estar dicionarizada em português (ou em qualquer língua). Mas isto não pode ser, desde logo porque em parte o trabalho do lexicógrafo é registar um uso prévio, um uso que existe antes de o dicionário ser redigido. Por outro lado, parece que esta distinção não é importante, dado que, seja como for, só pode ser registado pelo lexicógrafo o que já existe. Mas isto é invalidado pela falibilidade dos dicionários. Por exemplo, nenhum dicionário contemporâneo que uso regista a palavra "protectivo", mas o dicionário de António Moraes Silva, de 1813, regista-a. Portanto, pelo menos a dada altura, a palavra teve de existir. Mas aqui eu proporia uma reforma do nosso modo de entender a relação entre "existir linguisticamente" e "estar dicionarizado".

O verbo "instanciar" ou o adjectivo "protectivo" podem não constar dos dicionários em uso corrente, mas isso não significa que as palavras não existam no sentido em que "blúrguico" não existe em português. É que neste exemplo, a pseudo-palavra "blúrguico" não é um adjectivo que corresponda a alguma outra palavra já em uso, quer dizer, nada há que torne a derivação de "blúrguico" razoável no uso da língua em causa. Já o caso de "instanciar" e de "protectivo" é diferente: essas palavras encaixam em usos prévios e são perfeitamente inteligíveis à luz da gramática. Se podemos ter instâncias também podemos ter a acção de instanciar; se podemos ter protecção e protectores, podemos ter coisas com a qualidade de serem protectivas.

A minha proposta, portanto é que neste aspecto da língua a lógica tenha precedência sobre o gramofone ou o espírito do registo passivo.

17 de outubro de 2009

Argumentação e demonstração

O capítulo 12 do meu livro O Lugar da Lógica na Filosofia (Plátano, 2003) tem por título "Argumentação e Demonstração" e está agora disponível aqui.

Como é ser um morcego?

Um dos mais discutidos artigos de filosofia da mente foi publicado em 1974 e está aqui.

Som e qualidade de vida

Pensava que era só eu que era particularmente sensível ao som, relacionando-o directamente com a qualidade do meu ambiente pessoal, profissional e emocional. Mas afinal parece que não. Veja-se aqui:

16 de outubro de 2009

Mas isto é uma aula de filosofia?

Ao assistir a isto, não consegui evitar a pergunta brincalhona: é mesmo uma aula de filosofia?

Trata-se de algo tão diferente do que fui habituado quando estudei filosofia, que a minha pergunta talvez seja partilhada por muitos leitores. Vejamos:

Onde já se viu uma aula de filosofia tão concorrida? Serão trezentos? Quatrocentos alunos? Dá a ideia que não existem tantos alunos de filosofia nas universidades portuguesas todas juntas.

Onde já se viu uma aula de filosofia em que qualquer pessoa (mesmo que não seja estudante de filosofia) é capaz de compreender tudo o que o professor diz? Um professor assim dificilmente nos consegue proporcionar uma experiência... como diria?... uma experiência estético-filosófica.

Quem será o professor? Certamente um desconhecido qualquer, sobretudo se comparado com os génios filosóficos que conhecemos de algumas das nossas universidades. É um tal de Michael Sandel. Bom, parece que tem um livrito traduzido para português.

Onde se passa tudo isto? Em que universidadezeca se pode assistir a aulas destas? Parece que se chama Universidade de Harvard, seja lá isso onde for.


15 de outubro de 2009

Filosofia, liberdade e a cidade

Acabo de publicar um excerto sobre a liberdade de expressão de Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill, livro que deveria ser de leitura obrigatória se não fosse idiota haver livros de leitura obrigatória, e uma recensão de Rui Daniel Cunha de uma antologia intitulada Philosophy and the City.

14 de outubro de 2009

Quem tem medo de perguntas falaciosas?

Acaba de ser anunciado o novo e apetitoso livro de Peter Goldie e Elisabeth Schellekens, Who's Afraid of Conceptual Art? (Routledge). O título, contudo, sendo uma expressão comum, é falacioso. Sempre que alguém faz a pergunta retórica "Quem tem medo de X?" está logo a pressupor que X é bom e que só tolos medrosos têm medo de X. Não acredito que o livro em si cometa esta falácia, mas eu não daria este nome a um livro.

13 de outubro de 2009

Dicionário Escolar de Filosofia

Estive a actualizar o código e o aspecto gráfico da versão online do Dicionário Escolar de Filosofia. Caso encontre problemas, não hesite em contactar-me.

Pós-graduação em Filosofia em Ouro Preto

Estão abertas as inscrições para o XVI Curso de Especialização em Filosofia, de 13 de outubro a 30 de novembro. As inscrições podem ser feitas pelo correio. Consulte o edital e a ficha de inscrição.

A Pós-Graduação Lato Sensu em Filosofia é oferecida pelo Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto.

O curso é uma qualificação intensiva de nível superior, de caráter informativo e reflexivo, sobre os problemas, teorias e argumentos da filosofia antiga, moderna e contemporânea. Destina-se a graduados em áreas afins e professores da rede pública e privada das áreas de Ciências, Humanas e Artes.

Carga horária: 360 horas
Número de vagas: 30
I módulo: janeiro de 2010
II módulo: julho de 2010
Horário: das 08 às 12h e das 14 às 18h, de segunda a sexta-feira.

Contato:

UFOP - IFAC
Departamento de Filosofia, Secretaria de Pós-Graduação
Rua Coronel Alves, 55 Centro Histórico - 35400-000
Ouro Preto - Minas Gerais

Telefones: (31) 3559-1732 / (31) 3559-1728
Email: posgraduacao@ifac.ufop.br

12 de outubro de 2009

Traduções

Comprei ontem a recente tradução portuguesa de A Estrutura das Revoluções Científicas, de T. Kuhn (da Guerra e Paz). Ao chegar a casa fiz uma rápida comparação com a tradução brasileira (da Editora Perspectiva) e logo me surgiu uma dúvida. O capítulo X da tradução portuguesa intitula-se "As revoluções como mudanças na concepção do mundo", ao passo que o mesmo capítulo da tradução brasileira se intitula "As revoluções como mudanças da concepção do mundo".

Mas qual será a tradução correcta? É que as coisas são muito diferentes: uma coisa é haver mudanças no seio de uma dada concepção do mundo, como sugere a tradução portuguesa, outra bem diferente é substituir uma concepção do mundo por outra, como indica a brasileira. Esta última tese é bem mais forte e as implicações de uma e outra são muito diferentes.

Dada a ideia de incomensurabilidade entre paradigmas rivais defendida por Kuhn, quer-me parecer que a tradução brasileira é que está correcta.

11 de outubro de 2009

Direita torta e esquerda direita


Não estou certo de que a discussão política sobre o que distingue a direita da esquerda seja apenas uma questão política ou se é, antes de mais, uma questão filosófica relevante. Registo, por um lado, que alguns bons dicionários de filosofia (Thomas Mautner, por exemplo) são omissos em relação a este par conceptual e que outros (Blackburn e Honderich) aviam a coisa em poucas linhas. Por outro lado, é muito raro encontrar tais conceitos na literatura filosófica.

Seja como for, há uma tendência muito frequente nas discussões sobre direita e esquerda que me parece filosoficamente estéril e que consiste em caracterizar ambos os lados de tal modo que se torna imediatamente óbvio a uma mente equilibrada que um deles está errado e o outro certo. Se, na caracterização filosófica de uma disputa, se torna evidente, para um ser racional interessado na verdade, que num dos lados estão os bons (ou os que pensam bem) e no outro lado os maus (ou que pensam mal), então tal caracterização nada tem de filosófico. A distinção em causa não passaria, nesse caso, de uma distinção pseudo-filosófica.

Vem isto a propósito de uma conversa radiofónica com Nuno Nabais, que apanhei uma destas tardes no Radio Clube Português. A conversa era precisamente sobre o que é a direita e já tinha havido uma conversa anterior sobre o que é a esquerda. O que nos dizia, então, Nuno Nabais sobre a direita?

Que a direita assenta em duas grandes teses:

1. A crença de que a natureza dispõe dos mecanismos para uma boa resolução de todos os conflitos, ficando tal resolução entregue aos interesses egoístas dos indivíduos ou conjunto de indivíduos. Esta é a tese fisiocrática, típica do chamado darwinismo social.

2. Uma grande desconfiança em relação aos mencanismos de consulta popular e à bondade da vontade popular. O melhor governo é o governo dos mais sábios, mais competentes ou, numa palavra, dos iluminados.

Em suma, a tese 1 defende uma espécie de determinismo egoísta e a tese 2 é a defesa de uma espécie de elitismo anti-democrático.

Mas será que a direita, toda a direita, é realmente isto? À primeira vista, isto parece politicamente indefensável e faria dos defensores da direita uma espécie de aves de rapina raras, em vias de extinção. Não tanto devido à tese 1, mas antes à tese 2 e, sobretudo, à conjunção de ambas. Basicamente o que se está a dizer é que a direita não é democrática.

Mas há ainda outras afirmações de Nuno Nabais que surpreendem, nomeadamente que na história da filosofia quase todos os filósofos que pensaram sobre estas questões são de direita, a começar por Sócrates, sendo os de esquerda excepções. As excepções referidas são Espinosa, Rousseau, Russell, Deleuze e Derrida. Será que se pode concluir, a partir das teses anteriores, que Montesquieu, Kant, Marx, Mill, Popper, Rawls e tantos outros são de direita?

O mais surpreendente é Nuno Nabais afirmar que a filosofia é intrinsecamente de direita, justificando isto com a ideia popularucha de que os filósofos são seres ensimesmados que olham de cima para o resto da humanidade. Será Nuno Nabais um falso filósofo, dado que confessou ser de esquerda?

Um mundo sem crueldade

Mais uma tradução minha para o «projecto abolicionista» de Dave Pearce e Nick Bostrom: Reprogramar os Predadores. Neste ensaio do primeiro, leva-se a sério e até às consequências últimas a ideia de que não podemos basear a moralidade numa inspecção de como a natureza é, em especial a transformação da «luta pela existência» numa história edificante ou a consagração do sofrimento na ideia de uma «lei da vida» que muitas vezes serve de pretexto para a perpetuação da crueldade em formas que pouco têm que ver sequer com a sobrevivência.


10 de outubro de 2009

9 de outubro de 2009

Grayling e a velhice

Quem disse que a velhice é coisa má?

Conhecer o conhecimento

Afinal, o que é saber ou conhecer algo? Eis uma pergunta filosófica fundamental, que tantas vezes se perde de vista. Kolak e Martin trazem-na de volta, aqui.

8 de outubro de 2009

Pense: revista introdutória de filosofia

A revista Think: Philosophy for Everyone, dirigida por Stephen Law, oferece aqui um número inteiramente gratuito.

J. S. Mill

A vontade das pessoas, quer como governantes quer como concidadãos, de impor aos outros as suas próprias opiniões e inclinações como uma regra de conduta, é tão activamente apoiada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana, que muito raramente é mantida sob controlo por outra coisa que não a falta de poder; e como o poder não está a diminuir, mas sim a aumentar, então a não ser que uma forte barreira de convicção moral possa erguer-se contra esse mal, é de esperar que, dadas as circunstâncias presentes do mundo, o vejamos intensificar-se.

7 de outubro de 2009

Metafísica das propriedades

Vários objectos diferentes, com diferentes localizações no espaço e no tempo, parecem ter as mesmas propriedades em comum: todos os objectos vermelhos parecem partilhar a propriedade da vermelhidão. Mas isto levanta uma perplexidade: como pode algo -- a vermelhidão -- estar em vários lugares ao mesmo tempo? Esta e outras perplexidades sobre a metafísica das propriedades é apresentada no artigo "Introdução à Metafísica das Propriedades", de Rodrigo Alexandre de Figueiredo.

M. S. Lourenço

Prosseguindo a divulgação de alguns textos de M. S. Lourenço, eis um excerto do segundo capítulo de A Cultura da Subtileza (Lisboa: Gradiva, 1995), a que dei o título "Literatura, Ciência e Filosofia Analítica."

6 de outubro de 2009

Frege, Russell e Kenny

Kenny expõe com uma clareza e didactismo impressionante as ideias centrais de Frege e Russell sobre os fundamentos da matemática e outros aspectos associados. Um exemplo do que é dominar as matérias e saber transmiti-las aos estudantes. Aqui.

Clássicos da estética e filosofia da arte











Recebi há dias uma mensagem de uma leitora deste blogue a perguntar-me o seguinte: "Quais os cinco ou seis livros de estética mais importantes do último século? Se quiser ler os clássicos do último século, por onde devo começar?".

Há vantagem em que estas perguntas sejam feitas directamente aqui no blogue, pois pode ser que mais alguém tenha interesse na resposta.

Deixo aqui a minha resposta. A lista não tem cinco mas os dez clássicos de estética e filosofia da arte do último século. A azul indico aqueles acerca dos quais parece não haver qualquer espécie de dúvida. Sublinhe-se também que os problemas aí formulados, bem como as teses discutidas ou defendidas em alguns deles foram posteriormente refinadas e desenvolvidas por outros filósofos mais recentes. Eis a lista, por ordem cronológica:

1914
Clive Bell, Arte (trad. port. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 2009).

1938
R. G. Collingwood, The Principles of Art. Oxford: Oxford University Press.

1953
Susanne Langer, Feeling and Form. London: Routledge.

1958
Monroe Beardsley, Aesthetics: Problems in the Philosophy of Criticism. New York: Harcourt and Brace and World.

1974
Roger Scruton, Art and Imagination. London: Methuen.

1976
Nelson Goodman, Linguagens da Arte (trad. port. Lisboa: Gradiva, 2006).

1980
Richard Wollheim, Art and its Objects. Cambridge: Cambridge University Press.

1981
Arthur Danto, A Transfiguração do Lugar Comum (trad. port. São Paulo: Cosac Naify Edições, 2005).

1990
Kendall Walton, Mimesis as Make-Believe. Cambridge, Mass: Harvard University Press.

1996
Jerrold Levinson, The Pleasures of Aesthetics. Ithaca, NY: Cornell University Press.

4 de outubro de 2009

Crato ao domingo

Nunca perco as crónicas deliciosas de Nuno Crato, no Expresso. A de hoje, "O Elo que Faltava," cumpre o que sempre espero: informação cuidadosa, imparcial, elegantemente descrita. Obrigado, Nuno!

Kuhn na Guerra & Paz


Acaba de ser publicado em Portugal o clássico moderno A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn (Guerra & Paz, 2009), em tradução de Carlos Marques.

3 de outubro de 2009

Priest é funcional

Quando dominamos realmente as matérias e não queremos usá-las para nos darmos ares de grandiosidade fantasiosa, conseguimos explicar da maneira mais simples, sem descurar a precisão científica, qualquer problema, teoria ou argumento. É o que Priest faz em "Funções de Verdade -- Ou Não?," retirado do livro Lógica (Temas e Debates), que é a tradução de A Very Short Introduction to Logic (Oxford University Press).

2 de outubro de 2009

Um problema de filosofia política


Este post do Rolando fez-me pensar na seguinte situação. Imagine-se o país P, uma democracia representativa, onde os cidadãos estão em vias de eleger os seus representantes para o parlamento. Deverão os cidadãos de P escolher livremente aqueles que melhor interpretem os seus interesses pessoais ou deverá haver restrições sobre quem pode representá-los? Por exemplo, imagine-se que 10% dos cidadãos têm cadastro criminal e vêem os seus interesses melhor representados por alguém com cadastro. Será inaceitável ter cadastrados no parlamento? E arguidos? Terão os representantes dos cidadãos de estar moralmente acima daqueles que representam? Porquê e quem decide tal coisa? Podemos chamar "representativo" a um regime em que os cidadãos não têm a possibilidade de escolher exactamente quem querem, independentemente do perfil moral dos escolhidos?