30 de novembro de 2009

Einstein contra Feynman


Pouco surpreendentemente, defendo no artigo "Precisa a Ciência da Filosofia?" a resposta afirmativa de Einstein, contra Feynman. E o que pensa o leitor?

Duas maneiras de ser frívolo


Há a frivolidade das maiorias. Consiste em adorar o futebol, centros comerciais, carros caros e telenovelas. Reduz a política a chicanas infantis. Elege como valor supremo comprar coisas com valor social, seja isso o que for — de telemóveis muito caros a televisões de plasma.

E há a frivolidade dos pseudo-intelectuais. Consiste em estar sempre a ver mais longe do que os outros. Ser sempre mais esperto que os demais. Tratar tudo o que não está nos seus parcos horizontes intelectuais com a mesma frivolidade dos comentários da telenovela.

Em ambos os casos, é o incómodo de pensar que se manifesta. A incompreensão pelo prazer da descoberta das coisas. A arrogância de já ter decidido todas as questões profundas há anos, com dois dedos de leitura fácil. A inexistência do prazer de reflectir, descobrir, dialogar com outros que reflectem e gostam de descobrir.

Das duas, prefiro a primeira. É menos pretensiosa.

28 de novembro de 2009

Inovação na arte


Acabo de publicar a recensão de Rui Daniel Cunha à original história da arte, da autoria de Florian Heine, intitulada The First Time. E aproveito para perguntar: Será a inovação um valor central na arte? Porquê? O que pensa o leitor?

27 de novembro de 2009

Ética e direitos humanos


Neste artigo, procuro mostrar por que razão não se pode ao mesmo tempo defender que a ética é relativa e que os direitos humanos são universais, mostrando também que há razões para pensar que por vezes se adopta o relativismo ético porque se fazem algumas confusões. O que pensa o leitor?

24 de novembro de 2009

Um esclarecimento sobre a publicidade

Vários leitores estranham o género de publicidade que por vezes surge na Crítica — em alguns casos, é nítido que os produtos ou serviços publicitados não são o género de coisas que a Crítica poderia sancionar ou ainda menos recomendar. A razão é que não me é possível controlar os anúncios publicitários que surgem na Crítica; isso é feito automaticamente pelo Google. Há um certo controlo parcial, mas é quase a mesma coisa do que nenhum controlo.

23 de novembro de 2009

Matar na guerra é moralmente errado?



Matar um indivíduo parece na maior parte das circunstâncias um acto moralmente errado. Mas e se tal acontecer numa situação de guerra? O leitor está numa guerra. O inimigo vai matá-lo. O leitor, para se defender, dá-lhe um tiro e mata-o. Tal parece ser moralmente aceitável. Jeff McMahan põe esta ideia em causa no seu mais recente livro, Killing in War, e podemos ouvi-lo num podcast sobre o problema.

22 de novembro de 2009

Inacreditavelmente lúcido e certeiro

Em ciência, avaliam-se os resultados e dá-se liberdade nos processos. Em educação, controlam-se os processos e não se avaliam os resultados.
Nuno Crato no seu melhor, aqui.

21 de novembro de 2009

Expressão e Significado na Música


«Parece inevitável, à luz deste desenvolvimento [da filosofia (analítica) da música] que acabe por surgir um livro que seja uma sinopse da bibliografia recente. Isso aconteceu já, mais cedo do que tarde. Trata-se da obra Musical Meaning and Expression, de Stephen Davies. O livro de Davies é extraordinariamente exaustivo. Calculo que a bibliografia de obras citadas exceda os 450 itens; e se há alguém que conhece um título ainda que remotamente ligado à filosofia da música que Davies não conheça, essa pessoa tem mesmo de andar a navegar por águas inexploradas.»

Peter Kivy, retirado da recensão de Musical Meaning and Expression (Mind, New Series, Vol. 104, No. 416 (Oct., 1995), pp. 896-900) via JSTOR.

20 de novembro de 2009

Como estudar filosofia?


Acabo de publicar "Estudar Filosofia: Uma Abordagem", que contém algumas indicações para estudantes de filosofia. A ideia é apresentar uma abordagem do estudo da filosofia que seja esclarecedora, sabendo-se evidentemente que haverá muitas outras. O que pensa o leitor?

Pode a informação colocar a liberdade em risco?

Vivemos na era da informação. A informação, dizem, é vital. A sua livre e ampla circulação é um dos pilares da liberdade – sem informação não há liberdade.

Acontece que o mundo informativo actual é como uma caixa de amplificação, em que o que quer que lá entre sai alavancado e distorcido. A informação está aí, acessível a todos e à distância de um click; só não tem acesso quem não quer ter. No entanto, é praticamente impossível para o comum dos mortais formar uma opinião informada relativamente ao aquecimento global, ao fim do petróleo, à gripe A e respectiva vacina, à crise internacional e a muitos, muitos outros temas.

É brutal o volume de opiniões, comentários, artigos e ruído. Mais, é brutal o número de opiniões, comentários artigos e ruído produzido por quem saiba pouco ou nada sobre o assunto. Não só não conseguimos formar uma opinião informada como não sabemos se as opiniões a que temos acesso são informadas ou não.
Pontualmente poderemos dedicarmo-nos a aprofundar um determinado tema que por qualquer razão nos interesse ou preocupe. Não estou seguro que consigamos destrinçar a verdade no meio de tanto ruído, mas se conseguirmos será à custa de muito tempo e esforço, algo que não podemos dedicar a todos os assuntos.

Assim, como poderemos nós formar opinião sobre todos os assuntos, polémicos ou não, que pululam por aí?
Será que a atitude mais sensata é suspender o julgamento em todas as situações?
Então e quando temos que actuar (por exemplo para escolher se tomamos ou não a vacina da gripe A)? Vamos aí estudar o tema a fundo? Atiramos moeda ao ar?

Sem água não há vida, mas a mesma água pode retirar vidas.
Sem informação não há liberdade. Será que a informação pode também colocar a liberdade em causa?

19 de novembro de 2009

Epistemologia da argumentação


Não basta a validade para que um argumento seja bom; não basta sequer que o argumento seja válido e que tenha premissas verdadeiras. É também preciso que tenha premissas mais plausíveis do que a conclusão. Explicar esta ideia é o tema do capítulo "Epistemologia da Argumentação" do meu livro Pensar Outra Vez. O que pensa o leitor?

Catálogo com Acumen

O catálogo de filosofia para 2009 da Acumen está disponível aqui.

Dia mundial da filosofia

Hoje é o dia mundial da filosofia. Não vos parece que um dia só é pouco? Além disso, acho que também devia haver uma hora mundial da filosofia. O que vos parece?

Bom, seja como for, a minha modesta contribuição para assinalar este dia está aqui. É um pequeno texto em que tento imitar toscamente os filósofos, na esperança de fazer jus ao enorme respeito que eles nos merecem.

18 de novembro de 2009

Uma alternativa ao capitalismo


Acabo de publicar o artigo "Capitalismo" do livro O Significado das Coisas, de A. C. Grayling (Gradiva, 2003). Concebe o leitor uma alternativa ao capitalismo que seja melhor do que o capitalismo e que não pressuponha que as pessoas todas adoram coisas como matemática e artes e filosofia e história, em vez de frivolidades? Está aberta a discussão.

Nominalismo na PUC-RIO


Estarei na X Semana dos Alunos da Pós-Graduação em Filosofia da PUC-Rio, que ocorrerá no auditório do Decanato do CTCH, 12.º andar do prédio Leme, no campus da PUC-Rio, entre os dias 23 e 27 de novembro. Eis a programação completa:

17 de novembro de 2009

Telegrapho de parabéns e nova secção

O Telegrapho está de parabéns pelos quatro anos, mas sobretudo pela lucidez de não embarcar em ideias feitas que parecem bonitas mas são uma desgraça anunciada.

E por falar em ideias feitas, vou inaugurar neste post uma nova secção: ideias feitas. Em cada um destes posts apresenta-se uma ideia feita: ideias muito comuns, que andam por aí no ar, geralmente muito tolas, e que muitas vezes pretendem transmitir sofisticação mas só conseguem mostrar preguiça em pensar e uma genuína capacidade para macaquear sem pensar o que se ouviu. Ao fim de algum tempo será informativo ver a lista destas ideias feitas.

Eis a primeira ideia feita, que surgiu numa conversa com o leitor que se identifica como Miguel:
As pessoas preferem sapatos e o Prince à física, história, filosofia, matemática, etc., porque umas pessoas muito mal-intencionadas, os capitalistas, querem vender dessas coisas em vez das outras.
Refutação:
Isto é ver a relação de causalidade de pés para o ar. Quem vende é que atende ao que as pessoas querem, não são as pessoas que atendem ao que quem vende quer. Se mais pessoas quisessem concertos de música erudita e menos pessoas quisessem futebol, haveria mais das primeiras coisas e menos das segundas.
Esta ideia feita é particularmente adequada para começar precisamente porque a essência das ideias feitas é a vontade que tantas pessoas têm de imitar as pessoas à sua volta, precisamente o mesmo que explica que tanta gente prefira futebol à literatura de arte.

Pragmática

Haverá alguma diferença relevante no modo correcto de interpretar o que é dito pelo Rui em cada uma das seguintes situações?

SITUAÇÃO 1

Ana - Tens dois filhos?
Rui - Sim, tenho. Olha, está mesmo ali um deles.
Ana - Qual deles, o mais velho ou o mais novo?
Rui - Bom, por acaso é o do meio.

SITUAÇÃO 2

Ana - Tens uma moeda de dois euros?
Rui - Sim, tenho. Tenho agora uma na mão.
Ana - Podes emprestar-me, caso não precises dela?
Rui - Oh, não vou precisar de certeza, pois tenho mais duas no bolso.

16 de novembro de 2009

Ontologia

Acabo de publicar um informativo artigo sobre ontologia, de Alasdair MacIntyre e Keith Campbell. Espero que seja útil para estudantes,  professores e outras pessoas que não sabem bem o que é tal coisa.

15 de novembro de 2009

Perguntas sem resposta



Para quê fazer perguntas que à partida parece que não têm resposta? Valerá a pena fazer tal coisa? Kolak e Martin respondem que sim no Epílogo do livro Sabedoria Sem Respostas. O que pensa o leitor? Concorda com os argumentos dos autores?

Belle de Jour é Brooke Magnanti



O blog anónimo Belle de Jour, Diário de uma Prostituta Londrina fez um tal sucesso que deu origem a livros  de sucesso e até a uma série de televisão. Mas a identidade do autor ou autora era desconhecida do grande público, até hoje. Numa entrevista ao Times, a autora revelou a sua identidade. É doutorada em medicina de investigação (não faz medicina clínica), e tudo o que ela relatou com os seus clientes é verdade.

Este caso social levanta um problema ético: é a prostituição eticamente permissível, ou não? Quais são os argumentos a favor da permissibilidade ética da prostituição? Quais são os argumentos contra?

O que pensa o leitor?

13 de novembro de 2009

Rosas sobre Nozick


Por ocasião da edição portuguesa de Anarquia, Estado e Utopia, acabei de publicar aqui a informativa e concisa introdução de João Cardoso Rosas.

Casamento entre homossexuais?

A vontade de impedir a legalização do casamento entre homossexuais e da adopção por parte de homossexuais deriva, em grande medida, de uma tendência lamentável para tentar impor aos outros o estilo de vida que consideramos melhor — uma tendência infelizmente entranhada na sociedade portuguesa.
Tendo a concordar com esta afirmação que Pedro Madeira faz no artigo "Homossexuais: Casamento e Adopção", e com os seus argumentos. E o leitor?

Anarquia, Estado e Utopia


A defesa filosófica clássica do estado minimalista, de Robert Nozick, foi já publicada nas Edições 70, em tradução de Vítor Guerreiro e com introdução de João Rosas (Universidade do Minho). Uma das mais importantes obras de filosofia política pode agora ser estudada em língua portuguesa de Portugal. Havia uma edição brasileira desta obra, há muito esgotada.

11 de novembro de 2009

Livre-arbítrio, outra vez

A Hackett acaba de anunciar a segunda edição da antologia Free Will organizada por Derek Pereboom. São 432 páginas que reunem textos de filósofos clássicos e contemporâneos sobre o tema.

Filosofia da música

Na sequência da divulgação de alguns trabalhos de M. S. Lourenço, acabei de publicar o artigo "A Representação da Realidade na Música".

Carl Sagan em DVD


Há algumas semanas encontrei esta edição em DVD dos 13 deliciosos episódios da série Cosmos, apresentada em 1980 por Carl Sagan, quando eu tinha apenas 3 de idade, embora me lembre do suficiente para saber que o prazer proporcionado por estes documentários ia compensar inestimavelmente cada euro investido no objecto. Estamos habituados a documentários com muitos  efeitos, muito barulho, mas razoavelmente pobres em informação, repetitivos. Quem não viu na altura ou não é suficientemente velho para se lembrar vai então ter uma grande surpresa se, como eu, ceder à tentação de comprar os DVD.
Algo que desde logo impressiona é o modo como Sagan trata as ideias da pseudociência: nunca apelando ao silenciamento mas discutindo pacientemente, com contra-exemplos claros. O manancial de conhecimento, o âmbito dos assuntos, o modo de exposição, mostram-nos claramente que não são precisos quaisquer ademanes tecnológicos ruidosos e dispendiosos para fazer programas de verdadeira qualidade.
Não sei se isto está amplamente disponível. Encontrei-os no MediaMarkt. Na Fnac não os vi, mas não procurei com muita atenção. Claro que quem não se importa de não ter legendagem em português -- de resto péssima, com omissões de palavras ou orações inteiras, inversões de sentido, enfim... o costume -- pode sempre comprar mais barato no amazon a versão não legendada. (A única vantagem das legendas, a meu ver, é para quem não sabe inglês ou tem miúdos em casa, que ainda não conseguem seguir o inglês mas têm idade suficiente para se interessarem). A que comprei foi aparentemente produzida na Catalunha e distribuída em Portugal pelo Círculo de Leitores.

10 de novembro de 2009

A reeificação da hegemonia pós capitalista




Hoje recebi na minha caixa de correio a indicação de um site que constrói frases académicas pós modernas. Basta escolher os tópicos e pode-se obter resultados como este:

"The epistemology of process functions as the conceptual frame for the politics of power/knowledge."


ou

"The logic of praxis functions as the conceptual frame for the ideology of exchange value."



ou ainda:


"The reification of post-capitalist hegemony asks to be read as the construction of linguistic transparency."


Se analisarmos bem, estas frases não são estranhas em livros de pensadores pós modernos. Os seus livros estão cheios de passagens destas. Agora basta aceder ao site para termos disponíveis a qualquer momento frases pós modernaças prontas a usar nos momentos académicos mais convenientes. Pode-se até escrever pequenos textos com estas frases. O site fica AQUI.

O mito dos argumentos coerentes

Pensa-se por vezes que a coerência é uma característica interessante e laudatória de um argumento.

Acontece que isto é falso. A coerência não é uma característica interessante e laudatória de um argumento. Um argumento coerente pode ser péssimo, tanto por inválido quanto por ser circular ou por ter qualquer outro defeito elementar.

O caso mais evidente é este:

Aristóteles era grego.
Logo, Platão era grego.

Este argumento é coerente, no sentido em que não se contradiz, mas é tolo porque a conclusão não se segue da premissa. E o mesmo ocorre com a maior parte das falácias, como a falácia da afirmação da consequente:

Se Aristóteles nasceu em Atenas, era grego.
Aristóteles era grego.
Logo, nasceu em Atenas.

Este argumento é inválido — as premissas não sustentam a conclusão — mas é perfeitamente coerente.

Portanto, a coerência não é uma característica interessante e laudatória de um argumento. Ao invés, é uma característica que os maus argumentos, na sua maior parte, têm.

Filósofos a Propósito de Música





Este volume da Oxford University Press, organizado por Kathleen Stock, reúne textos de diversos filósofos contemporâneos da música sobre os vários problemas da disciplina: ontologia musical, teorias da expressão musical, teorias do significado musical. Alguns livros dos autores que participam nesta obra já foram publicitados na Crítica, como é o caso de Julian Dodd, que tem também obra publicada no campo da epistemologia. Trata-se de uma boa panorâmica da filosofia da música contemporânea, sinal inequívoco de que neste domínio há muito mais para ler e reflectir além dos jogos de palavras que meramente adornam aquilo que já se pretendia afirmar mesmo sem argumentos a favor disso.


Para abrir o apetite dos leitores, deixo o índice da obra, retirado do site da OUP.


Preface
Acknowledgements
List of musical examples
Kathleen Stock: Introduction

Section 1: Musical Ontology

1: Julian Dodd: Sounds, instruments and works of music
2: Michael Morris: Doing Justice to Musical Works
3: Stephen Davies: Versions of musical works and literary translations

Section 2: Musical Expression

4: Derek Matravers: Expression in Music
5: Paul Boghossian: Explaining Musical Experience
6: Aaron Ridley: Persona Sometimes Grata: on the appreciation of expressive music

Section 3: Musical Meaning

7: Jenefer Robinson: Can Music Function as a Metaphor of Emotional Life?
8: Eddy Zemach and Tamara Balter: The Structure of Irony and how it Functions in Music

Section 4: New Issues

9: Gordon Graham: Music and Electro-sonic Art
10: Roger Scruton: Thoughts on Rhythm
Index of subjects

9 de novembro de 2009

A voz do dono

O leitor Pedro Saragoça tem muitas acusações a fazer-me a mim, à Crítica e aos restantes colaboradores deste blog. Este é um espaço criado só para ele explicar o que pensa que está errado comigo, com a Crítica e com os restantes colaboradores deste blog. Está aberta a discussão, e nenhum comentário será apagado. Aproveite!

Peter Kivy

A magnum opus de Schopenhauer era, essencialmente, uma teoria de tudo, à maneira solene da antiga especulação filosófica que já não é considerada produtiva ou respeitável. Mas o facto de as suas pretensões cósmicas não serem hoje levadas muito a sério não significa que Schopenhauer não tivesse coisas esclarecedoras a dizer sobre muitos dos tópicos particulares em que reflectiu. Em particular, a sua abordagem da música, e do lugar desta nas belas artes, foi recebida com simpatia por muitos filósofos e teóricos da música com inclinação filosófica. À parte os seus embaraçosos alicerces metafísicos, a filosofia da música de Schopenhauer faz bastante sentido: pelo menos, coloca a teoria da expressividade musical numa direcção nova e frutuosa.

8 de novembro de 2009

Dois modos de silenciar

Há tantas maneiras de tentar silenciar ideias que não nos agradam que seria pouco prudente tentar fazer uma lista de todas elas. Mas vale a pena falar de duas delas.

Ambas pertencem à falácia da mudança de assunto e ocorrem quando alguém ouve ou lê uma ideia qualquer de que não gosta, e que não quer sequer ver discutida. Não se trata de pensar que a ideia é errada e de aproveitar a ocasião para esclarecer as pessoas e apresentar ideias opostas; trata-se de não querer que tais ocasiões surjam. Um observador cínico poderá pensar que a pessoa no fundo desconfia que não há realmente boas razões para pensar o que ela pensa, mas desagrada-lhe mudar de ideias como a qualquer pessoa sensata desagrada mudar de casa por causa de todos os transtornos que isso provoca. Mas não interessa realmente saber que motivações psicológicas tal pessoa terá. O que conta é que o resultado é o silenciamento, se nos deixarmos ir na conversa.

E como se faz o silenciamento? De pelo menos duas maneiras principais.

A primeira ocorre nos meios intelectuais, ou entre pessoas que gostam de ser consideradas intelectuais: aqui, usa-se a cultura como arma de arremesso. E então diz-se coisas do género “Você já leu X? Não? Então cale-se!” A ideia é X ser um autor denso ou difícil ou obscuro, pelo que é elevada a probabilidade de a outra pessoa não o ter lido e se calar por ficar envergonhada. Evidentemente, isto só funciona quando as pessoas realmente são vaidosas e têm vergonha de dizer que não leram. Se isso não ocorrer, ou se por azar a pessoa tiver lido, a tentativa de silenciamento é gorada.

A outra ocorre na vida pública, que me parece cada vez mais acéfala: aqui, usa-se a ideia de que os nossos direitos estão a ser atropelados. Toda a gente passa então a discutir esta outra ideia, e não a original. Foi o que ocorreu no caso do Saramago. As pessoas que discordam dele poderiam ter aproveitado a ocasião para explicar por que razão discordam da leitura que ele faz da Bíblia. Mas não foi isso que se fez; o que se fez foi bater no peito dos direitos atropelados, como se o grande Nobel marxista estivesse a atropelar direitos. E mudou-se de assunto.

Poder-se-ia pensar que seria mais honesto dar ordem de silêncio, em vez de falar de autores eruditos ou de invocar imaginados direitos atropelados. E seria. Só que seria também menos eficaz, porque ninguém daria ouvidos a tal ordem. Ao passo que introduzindo o ruído do autor que não se leu ou dos direitos atropelados, passa-se a discutir outra coisa e silencia-se a discussão original — e era precisamente isso que se queria desde o início.

Crato e as borboletas quânticas

É sempre informativo ler a crónica de Nuno Crato, desta vez sobre borboletas quânticas. A parte final, contudo, não compreendi -- talvez algum leitor possa explicar-me melhor. Não compreendi a diferença entre caos e aleatoriedade -- sempre pensei que era a mesma coisa. Qual é a diferença e por que razão os fenómenos quânticos são aleatórios mas não caóticos (como se pensava até agora)?

A origem da Origem

Na sequência da pré-publicação da nova edição da Guimarães da Origem das Espécies, publica-se hoje aqui o prefácio inédito escrito propositadamente para esta edição do filósofo da biologia Michael Ruse.

7 de novembro de 2009

Questões básicas: filosofia na ciberescola


Criei há dois dias um blog de filosofia para os meus alunos, mas quem quiser contribuir para a discussão filosófica, tendo em conta os destinatários principais (em geral, jovens de 15-17 anos), fica desde já convidado.

A Origem das Espécies



O clássico A Origem das Espécies, de Charles Darwin (1809-1882), obra fundadora da biologia actual, será publicada pela Guimarães no próximo dia 13, em nova tradução cuidada de Vítor Guerreiro, com revisão científica do biólogo Paulo Gama Mota e prefácio do filósofo da biologia Michael Ruse. A Crítica disponibiliza hoje em pré-publicação a famosa introdução de Darwin à edição original de 1859.

Aristóteles

A investigação da verdade é num sentido difícil e noutro fácil. Uma indicação disto encontra-se no facto de ninguém conseguir atingir a verdade adequadamente, ao passo que, por outro lado, não falhamos colectivamente, dizendo cada um, pelo contrário, algo verdadeiro sobre a natureza das coisas; e apesar de individualmente contribuirmos pouco ou nada para a verdade, pela união de todos consegue-se uma quantidade considerável.

6 de novembro de 2009

Papineau


A Publifolha acaba de publicar no Brasil o livro Filosofia, organizado por David Papineau, uma boa introdução à filosofia especialmente indicada para o leitor comum e para o ensino médio. O livro é ilustrado (pelo menos na edição original) e os autores dos diversos capítulos são Tim Crane (Mundo), Jesse Prinz (Mente e Corpo), Adam Morton (Conhecimento), John Cottingham (Fé), Brenda Almond (Ética e Estética), Jonathan Woolf (Sociedade). A tradução é de Eliana Rocha e Maria da Anunciação Rodrigues.

Filosofia e lógica modal

No próximo dia 12 estarei no Auditório Baesse da UFMG para dar uma palestra intitulada "Aspectos Filosóficos da Lógica Modal."

Felicidade e democracia


Para este mês de Novembro as Edições 70 anunciam Uma História da Felicidade, de Darrin M. McMahon e Vida e Morte da Democracia, de John Keane, além do primeiro volume das obras escolhidas de Jürgen Habermas, e de Diário de Luto, de Roland Barthes.

Ensino da lógica em debate

O nosso colega da Crítica, Aires Almeida, vai estar presente no colóquio internacional subordinado ao tema: 
O Lugar da Lógica e da Argumentação nos Programas de Filosofia do  Ensino Secundário. Decorrerá a 4 e 5 de Dezembro na Faculdade de Letras da  Universidade de Coimbra. Descarregar o programa em PDF AQUI.

Sugestões que Adorno nunca aprovaria


As palavras de Stephen Davies, que o Vítor postou, parecem-me bastante acertadas. Talvez Davies acabe até por ser algo caridoso com Adorno.

Penso que a reverência durante algum tempo dispensada a Adorno no meio filosófico se deve menos ao nível e acuidade da sua reflexão filosófica e mais ao facto, pouco comum, de ser um musicólogo encartado que usa abundantemente esse conhecimento técnico para tirar conclusões bastante fortes acerca da natureza e do valor da arte. Adorno parecia falar com uma autoridade na matéria que faltava a muitos outros.

Entretanto, são já muitos os filósofos da arte com uma sólida formação musical, como Peter Kivy, Roger Scruton (que é compositor com obra publicada) e o próprio Davies, ao lado de quem a autoridade de Adorno é menos impressionante. Actualmente, as ideias daqueles são muitíssimo mais bem articuladas e filosoficamente interessantes, mas também mais discutidas do que as de Adorno. E mesmo musicólogos com um grande pendor filosófico como o prestigiado Carl Dahlhaus (com várias obras publicadas entre nós) afirma que grande parte das ideias de Adorno não passam de «meras analogias verbais sem qualquer base factual, mas cuja origem e aparente plausibilidade se devem a um uso francamente ambivalente de palavras como 'geral' e 'particular'», não hesitando em «subordinar as questões de facto aos seus objectivos filosóficos», como quando desclassifica liminarmente tanto a música popular como a de Stravinsky.

Esquecendo agora a ideia de Adorno de que a arte tem uma função política e contrariando a recomendação de dar música dodecafónica ao povo para o libertar do jugo da modernidade repressora, arrisco a avançar com três sugestões musicais que ele nunca aprovaria: música popular e ... Stravinsky. Precisamente!

A primeira sugestão é de uma música cuja simplicidade quase artesanal me surpreendeu. Trata-se do álbum xx dos The xx, um grupo de duas raparigas e dois rapazes pós-adolescentes de Londres. Não há energia a borbulhar, como seria de esperar de recém-adolescentes, nem palavras de ordem de protesto enraivecido. Há antes contenção, sussuro e uma musicalidade pouco previsível, tirada de um baixo, duas guitarras eléctricas e uma caixa de ritmos. Lembra vagamente alguns grupos dos anos 80, como Young Marble Giants e, mais vagamente, The Sound. Destaco sobretudo quatro canções: Heart Skipped a Beat, Fantasy, Shelter e Infinity.

O segundo disco não passa de belas e lentas melodias, cantadas com uma voz invulgarmente quente e musical e acompanhadas por uma instrumentação discreta e envolvente, o que já não é pouco. Numa audição distraída chega a parecer banal, mas é tão banal como as canções de Roy Orbinson, cujo universo musical é claramente evocado aqui pelo escocês Richard Hawley. Há influências do folk americano (que eu não costumo apreciar particularmente) e um uso intensivo do efeito de eco na voz e do trémolo na guitarra, que acabam por resultar muito bem, como em algumas das melhores canções de Chris Isaak. Destaco as canções As the Dawn Breaks, Open up Your Door, Remorse Code e, em especial, Soldier On. O álbum chama-se Truelove's Gutter.

Finalmente, Stravinsky. Não o primitivista da Sagração da Primavera nem o dodecafonismo da sua fase final (sim, Stravinsky foi como Picasso na pintura: experimentou um pouco de tudo). É o Stravinsky neoclássico num disco duplo que reúne a Sinfonia Op. 1, a Sinfonia em Três Andamentos, a Sinfonia em Dó e a Sinfonia de Salmos, dirigidas pelo próprio compositor. Sugiro sobretudo a primeira delas, que começa com um primeiro andamento irresistível. Mas este disco tem ainda um bónus especial: uma sessão de ensaios com o compositor (é muito interessante ouvir os seus comentários e interrupções) e outra a falar da sua vida e obra.

Espero que Adorno não leve a mal.

5 de novembro de 2009

O erro de Dawkins

The New Atheists have played into the evangelical/fundamentalist’s hands. Each side fans the flames of victimhood. “An atheist can never be president!” says one side. “A Christian never gets a fair shake in the New York Times!” claims the other. Each side is led by opportunists claiming to speak for a beleaguered minority.

Indeed, Dawkins needs the evangelicals and they need him. As the authors of An Evangelical Manifesto wrote, “striking intolerance shown by the new atheists is a warning sign.” Conversely, how would Dawkins’s followers use their Scarlet A pins to open their conversations if America weren’t full of evangelical/fundamentalists? The fundamentalists in both camps need to claim they are hated. The leaders push their followers to fear each other to maintain their identity—and lecture fees.
Mais aqui...

Stephen Davies

Adorno, que escreveu principalmente de 1920 a 1940, considerava a importância da música em termos do seu lugar ideológico no padrão geral da história. Segundo a sua orientação marxista, Adorno esperava encontrar na música indícios do progresso para uma libertação, da qual resultaria uma arte gratificante acessível a todos. Aos ouvidos de Adorno, era a música dodecafónica que representava o progresso lógico, e tornar-se-ia portanto a música do futuro, ao passo que o neoclassicismo de Stravinsky era regressivo e corrupto (Adorno, 1973). Além disso, Adorno objectou a formas populares de música, especialmente o jazz, que considerava música de baixa qualidade explorada pelos poderosos para alienar as classes baixas da música séria que as devia interessar e gratificar (Adorno, 1992).

Em retrospectiva, é difícil levar a sério as afirmações de Adorno (Sharpe, 2000). As suas perspectivas sobre o serialismo influenciaram a composição da música alemã na década de 70 do sec. XX, e por isso talvez parecesse que estavam perto de captar o impulso histórico da música, mas desde essa altura que foram abandonadas. O ecletismo poliglota de Stravinsky está mais próximo do espírito corrente do que o expressionismo de Schoenberg. Certamente, a música dodecafónica não se tornou mais acessível às massas nem foi mais calorosamente aceita por estas, como Adorno previu. Entretanto, os seus ataques à música popular do seu tempo são desinformados e mal-intencionados. As suas perspectivas hoje parecem mais expressão de preconceitos elitistas do que reveladoras do curso histórico inevitável pelo qual a música necessariamente se desenvolveria. Porém, os escritos de Adorno conservam um fascínio para muitos, quando muito pelo poder da personalidade, a seriedade olímpica e o estilo inspirado que exibem. Quem receia o decréscimo de sofisticação na música e na vida intelectual em geral pode encontrar nestes escritos muitas ideias sagazes.

4 de novembro de 2009

Ensinar ou doutrinar?

Em "Instrumentalização do Ensino e Ilusão" apresento algumas razões contra uma concepção instrumentalista de ensino, infelizmente muito comum hoje em dia. E o que pensa o leitor?

3 de novembro de 2009

cinema e tempo

Acontece muitas vezes no cinema e na televisão vermos representações de «vácuos temporais», ou seja, supostos períodos de tempo em que não há acontecimentos, em que há «passagem de tempo» embora não ocorra qualquer mudança. Bom, na verdade não é bem assim. No cinema, tais coisas são descritas como «paragens do tempo». O que vemos acontecer é todos os acontecimentos físicos descritos no filme «congelarem» num dado momento t. Esta não é a ideia filosófica de um «vácuo temporal». A «paragem temporal» dos filmes parece aceitar a identidade entre tempo e mudança. Logo, se não há mudança não há tempo e podemos afirmar que o tempo pára. Nestas circunstâncias, não podemos dizer que há um vácuo temporal. A ideia de vácuo temporal implica que há tempo sem mudança, períodos de tempo «vazios» de acontecimentos físicos e mentais.

Contudo, é também normal no cinema, quando há «paragens no tempo» vermos um ou mais personagens que não ficaram congelados moverem-se por entre os objectos e pessoas desse momento que «parou», fazerem coisas, interagirem causalmente com o mundo, afectarem a ordem das coisas de tal maneira que isso se manifestará quando o tempo «voltar a andar» mais à frente no filme, etc. (de outro modo, as «paragens no tempo» cinematográficas seriam muito aborrecidas: tem de acontecer alguma coisa nelas). Mas isto é contraditório quer com a ideia de vácuo temporal quer com a ideia de que tempo = mudança e que se paramos a mudança, paramos o tempo - obviamente que durante essas paragens continua a haver acontecimentos físicos e mentais: os da personagem que não ficou «congelada». Assim, a ideia de paragem no tempo que observamos em muitos filmes é filosoficamente inconsistente, quer defendamos que tempo é mudança, quer defendamos que o tempo e a mudança não são o mesmo.

Há outro aspecto que torna qualquer representação cinematográfica de um vácuo temporal ou de uma «paragem do tempo» inconsistente: mesmo que não haja personagens a mover-se e a pensar, a ter experiência do vazio temporal ou a sofrer e a causar mudanças, a própria representação cinematográfica desse vazio é temporal: nós, os espectadores no cinema, percepcionamos uma sequência de imagens numa película projectada na parede. Há acontecimentos mentais, há mudanças, há acontecimentos físicos. O tempo nunca chegou a parar. (Se é que o tempo «se move». Essa é outra questão da filosofia do tempo)

Isto dá um novo sabor à pergunta: «O que fazia Deus antes de criar o mundo?» (supostamente, antes de haver tempo?) Será que havia pelo menos acontecimentos mentais? Será que havia um vácuo temporal interminável? Não estaria Deus na mesma posição contraditória que as personagens ou os espectadores do filme? O que pensa o leitor?

2 de novembro de 2009

Condições normais

No encadeamento do post anterior constato que muito do que se discute no âmbito da percepção acaba por se referir às ditas “condições normais”:

- Se eu estiver no deserto há uns dias sem beber água terei alucinações, e posso ver um oásis onde apenas existe uma duna. “Em condições normais” tal não aconteceria e eu conseguiria ver a duna sem qualquer problema – a percepção do oásis foi causada pela falta de água.

- Se eu estiver completamente alcoolizado ou sob o efeito de drogas posso também ter alucinações, ver algo que não existe e que “em condições normais” eu não veria. Foi o álcool ou a droga que causou a minha percepção.

Podemos outra vez perguntar: mas afinal quem define quais são as condições normais? Porque é que no primeiro caso é a falta de algo que provoca uma percepção a que chamamos alucinação e no segundo caso é algo em excesso que provoca essa mesma (ou outra) alucinação?
Fará sentido dizer que existe um qualquer conjunto de condições que podem ser tomadas como normais?

Vem-me à memória a este respeito uma frase que li já não sei onde, referenciada como de autor anónimo, que dizia:

A REALIDADE É UMA ILUSÃO CAUSADA POR FALTA DE DROGAS

Será a neve branca?

É comum, quando se fala de percepção, mencionarem-se “condições de luz normais”, “numa situação normal”, e outras normalidades que tais.

Será a neve branca? Se estivermos com uns óculos de lentes azuis ela ficará azulada, em condições de céu nublado ou pouca luz talvez pareça cinzenta, à noite nem lhe vemos a cor. Fará sentido dizer que é branca? Alguns dirão que sim, pois em condições de luz normais a neve é branca, e o resto são excepções à regra.

Mas então quem definiu essas condições de normalidade?
Porque se considera normal a luz do Sol e não a luz, mesmo que pouca, da Lua?
Porque se considera normal a luz do céu pouco nublado ou limpo e não a luz de um céu de trovoada?
Porque se assume que existe um conjunto de condições preferenciais para as quais faz sentido dizer que a neve é branca e não se diz antes que a neve é branca nas condições XPTO. Claro que nesta última situação a neve deixa de ser branca, mas passa a ser percepcionada como branca em determinadas condições, como azul noutras e cinzenta noutras mais.

“É” transmite constância, permanência, estabilidade. “É” trata de atributos da própria neve, quando na realidade a cor, contrariamente à forma e à massa, depende do objecto, do observador e de muitas outras condições (este tema foi abordado por Locke, com a estipulação de características primárias e secundárias).

Fará então qualquer sentido dizer que a neve é branca? Fará sentido dizer que a neve tem cor?