28 de dezembro de 2010

Dogmaticamente contra os dogmas?


Será possível ser dogmático quando supostamente se combate dogmas? Eu penso que sim, mas talvez o leitor discorde.

25 de dezembro de 2010

21 de dezembro de 2010

Nietzsche e a lógica


Afinal, o que pensava Nietzsche sobre a lógica? É o que Steven D. Hales procura esclarecer neste artigo que acabo de publicar, com tradução minha.

20 de dezembro de 2010

18 de dezembro de 2010

Friedrich Nietzsche

Aprender a pensar: não há mais noção disso em nossas escolas. Mesmo nas universidades, mesmo entre os autênticos doutores da filosofia começa a desaparecer a lógica como teoria, como prática, como ofício. Leia-se os livros alemães: já não se tem a mais remota lembrança de que para pensar é necessária uma técnica, um plano de estudo, uma vontade de mestria -- de que o pensar deve ser aprendido, tal como a dança deve ser aprendida, como uma espécie de dança.

14 de dezembro de 2010

Perguntas sem respostas

Muitas pessoas com frequência perguntam sobre qual o sentido de discutir um problema se a discussão nunca vai ter um fim, se ninguém vai ganhar a disputa. Ter dificuldade em compreender a importância de perguntas sem respostas equivale a, na matemática, não saber fazer regras de três simples. Por acaso na matemática isto é mais ou menos escandaloso, mas na filosofia parece não gozar do mesmo estatuto. Arrisco a afirmar que tal se explica porque a ignorância em filosofia é ainda muito maior que a ignorância em matemática. Mas também existe outra razão curiosa: é que quando estudamos matemática raramente sabemos para que servem os exercícios que estamos a fazer. Se procurarmos dar um pouco de atenção ao mundo que nos rodeia, isto de haver uma sabedoria sem respostas como a filosofia não devia até ser assim tão estranho. Quase toda a sabedoria se faz de questões e não de respostas e as respostas são sempre provisórias para a dimensão do que se pergunta. Se eu sei que neste momento estou a escrever com um ecrã de computador à minha frente, isso são dados suficientes para eu saber alguma coisa, mas ainda assim poderia aqui colocar algumas questões que abalavam esta minha noção de que eu estou a  escrever num ecrã de computador. Eu posso estar a sonhar. Ou eu posso estar a ser comandado por um programa informático sem o saber. O meu cérebro pode estar a ser manipulado por um ser mais inteligente que eu que lhe introduz informações, como esta de que estou sentado a escrever em frente a um ecrã de computador. Aceito que este exercício não é fácil de fazer, mas quem é que disse que pensar é fácil?
Este é outro aspecto que quero referir. Como chegamos então a fazer este tipo de reflexões? Há inúmeras explicações que ultrapassam a filosofia. Há pessoas que são mais curiosas que outras e não sei sequer se isso pode ser geneticamente explicado. Mas há uma coisa que sei, que o método mais seguro para pensar alguma coisita é a leitura. A leitura em filosofia não é passiva, mas activa. E é assim que a maioria das pessoas aprende a fazer filosofia e compreende problemas como a importância de um saber sem respostas, ou de discutir um problema para o qual sabemos de que não existe uma solução última.
Um outro aspecto ainda a destacar é que a maioria dos problemas, mesmo os científicos – e ao contrário do que muitas vezes se pensa – não têm também uma solução única. Têm é soluções provisórias e em regra uma solução de cada vez. E por outro lado é também ilusório pensar que os problemas da filosofia não têm solução. O que eles não têm seguramente é solução testável empiricamente pela razão muito simples de que os problemas filosóficos não se resolvem com testes na experiência. Mas a experiência não é a prova dos nove dos problemas e da sua importância. Até pelo menos Galileu não existia esta concepção de ciência que hoje temos. E durante muitos séculos ciência significava antes de tudo discussão activa de ideias, daí que muitas vezes se chamasse ciência à filosofia e à metafísica.
Tudo o que há a fazer para quem não compreende esta noção elementar da filosofia e da vida dos seres humanos porque não teve formação adequada em filosofia, é ler os livros que vão aparecendo no mercado e que nos elucidam melhor que os meus posts sobre estes assuntos. Sem leitura continuamos na mesma.
Para começar fica AQUI uma sugestão.

12 de dezembro de 2010

Os mais relevantes de 2010

Convenciona-se daqui a alguns dias o final de mais um ano civil, o de 2010. Vou assinaler a data com as minhas escolhas dos livros que considero mais relevantes do ano, em língua portuguesa. Alguns dos títulos não ainda não os li integralmente, mas isso é o que muitas vezes acontece com os ensaios. Leio capítulos, pesquiso referências, vou buscar algo que me interessa no momento, etc. As minhas escolhas são sempre discutíveis, mas os critérios foram somente os de ter saído para o mercado no ano corrente, que eu lhes tenha pegado pelo menos algumas vezes e que todos eles tenham sido livros adquiridos por mim. Há uma excepção. Não tenho ainda o livro de Aires Almeida, mas conheço-o antecipadamente pela tese publicada na revista Crítica. E custar-me-ia muito deixar de fora o livro de um dos professores de filosofia do ensino secundário que mais admiro e com quem tenho o privilégio de partilhar espaço aqui na Crítica. Finalmente, temos hoje em dia disponíveis em língua portuguesa livros de filosofia importantes e actuais. Este esforço de publicar, traduzir, escrever, é sempre motivo de destaque, pois trabalhar sem as ferramentas adequadas é  muito mais complicado. Segue a lista com uma brevíssima nota de apresentação para cada obra.

Anthony Kenny, Nova história da filosofia Ocidental, Volume 1, Filosofia Antiga, Gradiva, Tradução: Maria Fátima Carmo e Pedro Galvão)
Desconheço em língua portuguesa outra obra que se lhe equipare. Temos algumas edições, mas que entretanto estão gastas pelo tempo de edição. Esta obra, em 4 volumes, é muito estimulante porque é uma obra de filosofia sobre a história da filosofia.


Anthony Kenny, Nova história da filosofia Ocidental, Volume 2, Filosofia Medieval, Gradiva, Tradução: António Infante


Earl Conne e Theodore Sider, Enigmas da existência, Uma visita guiada à metafísica, Bizâncio, Filosoficamente, Tradução: Vítor Guerreiro
Considero que este livro é muito provavelmente o primeiro livro que conheci e um dos poucos que ainda conheço que expõe a metafísica de forma muito divertida e, pasme-se, fácil. Antes de ter lido este livro nunca pensei que fosse possível a aliança entre metafísica e acessível. O livro percorre os principais problemas desta área da filosofia.

W. K. Clifford, W. James, A. Plantinga, (Org. Desidério Murcho), A ética da crença, Bizâncio, Filosoficamente, Tradução: Vítor Guerreiro
Um livro sobre epistemologia da fé que reúne alguns artigos que discutem o problema se podemos ou não conhecer deus sem provas.


Noel Carroll, Filosofia da Arte, Texto & Graphia, Synopsis, Tradução: Rita Canas Mendes
Inicialmente não pensei em comprar este livro. Já tenho algumas boas introduções à filosofia da arte que satisfazem as minhas modestas necessidades. Mas no dia em que me deparei com o livro numa livraria comprei-o passado uns 30 minutos. E isto aconteceu porque li as primeiras páginas e fiquei desde logo muito bem impressionado com a escrita. Um livro de filosofia escrito assim não podia ficar na prateleira.


Roger Scruton, Breve história da filosofia Moderna, Guerra & Paz, Saber e Educação, Tradução: Carlos Marques
Um pouco mais de história da filosofia, contada por um filósofo experiente, desde Descartes a Wittgenstein.


António Zilhão, Animal racional ou bípede implume?, Guerra & Paz, Saber e Educação
Não é de todo um livro acessível, pelo menos a um público que não deseje avançar muito num problema filosófico. É, com efeito, uma das poucas obras de filosofia redigida em português que, no ano de 2010 me conseguiu despertar o interesse.


Michael Martin (Dir), Um mundo sem Deus, Ensaios sobre o ateísmo, Ed. 70, O Saber da Filosofia, Tradução: Desidério Murcho
Este volume é a tradução do Cambridge Companion to Atheism. É uma obra poderosa com artigos muito competentes e que ampliam a visão do problema do ateísmo. São 18 artigos de autores diferentes em 3 partes. Muito bom.



Thomas Mautner, Dicionário de Filosofia,  Direcção da edição portuguesa de Desidério Murcho
Tradução de Vítor Guerreiro, Sérgio Miranda e Desidério Murcho
Lisboa: Edições 70
Este dicionário é a minha referência quando tenho de usar um mapa para me guiar na filosofia. E agora temo-lo traduzido numa edição volumosa, mas muito competente.


Aires Almeida, O valor cognitivo da arte, Centro de Filosofia da Univ. de Lisboa
Conheço razoavelmente bem a tese que originou este livro já que a mesma está disponível na Critica. Não conheço ainda o resultado final, mas teria de destaca-lo como uma das edições a tomar em atenção no ano de 2010 – e provavelmente a melhor do ano de um autor português. Trata essencialmente de um problema da filosofia da arte, que é saber qual o valor cognitivo da arte e se a arte tem tal valor. 

11 de dezembro de 2010

10 de dezembro de 2010

Dois novos de Stephen Law

Stephen Law, o filósofo inglês que recentemente esteve em Portimão nos Encontros de Professores de Filosofia,  vai lançar em breve dois novos livros dos quais reproduzo aqui as capas. Gosto especialmente do título de um deles que me atrevo a traduzir para: "Acreditar na Mentira: como não cair num buraco negro intelectual". Promete.

Mini-colóquio luso-brasileiro de lógica e metafísica na UFRJ

Nos próximos dias 14 e 15 de Dezembro terá lugar na UFRJ um mini-colóquio organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Lógica e Metafísica daquela universidade. O programa é o seguinte:

14 de Dezembro, 14:00 horas: João Branquinho (Universidade de Lisboa/Centro de Filosofia da
Universidade de Lisboa): "Existenciais Negativas Obstinadas".

14 de Dezembro, 16:00 horas: Breno Hax Jr. (UFPR/Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa): "O Princípio Fundamental da Metafísica".

15 de Dezembro, 11:00 horas: Desidério Murcho (UFOP/Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa): "O Número de Planetas é Um Número".

Debatedores:
Ludovic Soutif (PUC-RJ)
Guido Imaguire (UFRJ/Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa)
Marco Ruffino (UFRJ/Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa)

Versões e "versões"


Acabo de publicar a tradução de Vítor Guerreiro da resposta de Peter Kivy a Kirk Pillow: Versões e "Versões," Falsificações e "Falsificações."

9 de dezembro de 2010

Filosofia em Directo

Acabo de receber as primeiras provas do meu novo livro, intitulado Filosofia em Directo, que será publicado na colecção Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Filosofia Em Directo

8 de dezembro de 2010

As palavras e as coisas

- Podíamos ter decidido chamar gatos aos cães?
- Acho que sim!
- Nesse caso, os cães seriam felinos e miavam, ao passo que os gatos seriam canídeos e ladravam. Estou certo?
- Humm...?

Definição da "arte"

"Arte" é uma palavra portuguesa constituída por quatro letras, sendo "a" a primeira, "r" a segunda, "t" a terceira e "e" a quarta, e é usada para falar da arte.

7 de dezembro de 2010

Pôr Deus à prova


A afirmação de que Deus existe não é testável, pensavam os positivistas lógicos, mas Elliott Sober discorda no texto "É a Existência de Deus Testável?", traduzido por Luiz Helvécio Marques Segundo.

5 de dezembro de 2010

A música é uma construção social?


A crónica desta semana de Vítor Guerreiro tem por título "Música, Categorias Sociais e Objectividade" e põe em causa a ideia de que as categorias sociais são destituídas de objectividade. Mas o que pensa o leitor?

O valor de um Bach autêntico


A FCG acabou de publicar o livro O Valor de um Bach Autêntico, de António Lopes. O livro, baseado na tese de doutoramento do seu autor, trata de um problema de filosofia da música muito discutido nas últimas décadas, a saber, a questão da avaliação das execuções musicais, mais precisamente da autenticidade de tais execuções. António Lopes é investigador do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e professor de Filosofia do ensino secundário.

Filosofia em ePub gratuita


Quem usa leitores electrónicos de livros tem agora à sua disposição mais um recurso importante: eBooks@Adelaide. Este trabalho de qualidade da Universidade de Adelaide recebeu recentemente um melhoramento crucial: disponibiliza agora os seus livros em ePub, cuidadosamente formatados. Podemos ler Aristóteles em traduções clássicas de David Ross, por exemplo, e Platão nas traduções de Benjamin Jowett. Mas o site não disponibiliza apenas livros gratuitos de filosofia; inclui também literatura e ensaísmo, destacando-se dos autores incluídos George Orwell e Marcel Proust, entre tantos outros. Um bem-vindo recurso para quem lê electronicamente, mas não no computador.

4 de dezembro de 2010

Justificar o castigo


O que justifica o castigo penal, se é que há justificação? Acabo de publicar uma breve introdução ao tema, da autoria de Wesley Cragg, com tradução de Lucas Miotto.

1 de dezembro de 2010

Mais leitores?

No mês de Novembro passaram pela Crítica cerca de 106 mil leitores, um crescimento ligeiro relativo aos cerca de 99 mil do mês de Outubro.

29 de novembro de 2010

Relativismo


Stephen D. Hales, que organizou o excelente Metaphysics: Contemporary Readings (1999) e é autor de um livro sobre o perspectivismo de Nietzsche, organizou agora um bem-vindo Companion to Relativism para a Blackwell (que agora se chama Wiley-Blackwell). Na contracapa podemos ler a seguinte apresentação:

O relativismo é um dos conceitos mais antigos — e mais polarizadores — da filosofia. Cativou pensadores desde os tempos de Protágoras (que defendia a noção) e Platão (que não a defendia). O relativismo é criticado por papas, por afastar as pessoas das verdades religiosas absolutas, e acusado por muitos comentadores sociais de ser o responsável por muitos dos males sociais. Com algumas excepções notáveis, os filósofos do séc. XX desvalorizaram o relativismo por ser um conceito obviamente errado ou até auto-refutante.

Mas na última década mesmo os seus mais severos críticos se deram conta de que o relativismo é uma opção legítima para explicar vários fenómenos, incluindo a discórdia irrepreensível, a utilidade de lógicas alternativas, a diversidade de moralidades entre culturas, e os diferentes esquemas conceptuais ontológicos. Reflectindo uma reavaliação há muito necessária, A Companion to Relativism apresenta o mais recente pensamento sobre o papel do relativismo na filosofia da linguagem, epistemologia, ética, filosofia da ciência, lógica e metafísica. As contribuições originais para este volume apresentam a investigação de ponta de vários estudiosos que abordam o relativismo de várias perspectivas e subáreas da filosofia.

O livro está dividido em seis partes. Na primeira, quatro ensaios tentam caracterizar o relativismo. A segunda é dedicada à linguagem, e inclui seis ensaios. A terceira é dedicada ao relativismo epistémico, e tem cinco ensaios. A quarta, com seis ensaios, é sobre o relativismo moral. A quinta é sobre o relativismo na filosofia da ciência e tem quatro ensaios. Finalmente, a sexta é dedicada ao relativismo lógico, matemático e ontológico, e tem seis ensaios. Entre os autores dos ensaios encontramos Paul Boghossian, Dan Lopéz de Sá, Kenneth A. Taylor, Duncan Pritchard, Christopher W. Gowans, David B. Wong, Alexander Bird, Christopher Norris, Stewart Shapiro e Otávio Bueno. Com 680 páginas, é uma leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema.

27 de novembro de 2010

Em defesa do tecnicismo


Sven Ove Hansson, director da Theoria, revista sueca de filosofia, argumenta aqui que os filósofos têm o direito, e até o dever, como outros especialistas de outras áreas, de ser técnicos. Eu concordo, mas talvez o leitor discorde. Fica aberta a discussão.

25 de novembro de 2010

Os animais tem direitos morais?

Autores incluídos: Peter Singer, Tom Regan, Carl Cohen, Jan Narveson, J. Baird Callicott, James Rachels, Jeff McMahan.
Edição para breve.


23 de novembro de 2010

Argumentos abortados sobre o aborto

A próxima sessão do SPF da UFOP será sexta-feira, dia 26 de Novembro, e tem por título "Argumentos Comuns na Defesa da Legalização do Aborto: Por Que Não Funcionam?" (Bárbara Pádua, UFMG). Sumário: Quando se discute a legalização do aborto pode-se perceber que há certos argumentos que são frequentemente utilizados para a sua defesa. Tais argumentos podem ser encontrados nos jornais, discursos políticos, e variadas manifestações sociais. O objetivo desta apresentação é mostrar que os argumentos mais divulgados para se defender a legalização do aborto não são boas razões para sustentar essa posição. Essa análise, ainda que bastante introdutória, já permite delinear os problemas filosóficos que se encontram no problema da legalização do aborto.

A filosofia é inútil?

Discussão no programa de televisão Câmara Clara, aqui.

21 de novembro de 2010

"O", "é" e nove planetas


Quem desespera por não encontrar na filosofia o género de discursos de auto-ajuda que imagina constituir a disciplina ficará ainda mais desesperado com a minha crónica desta semana. Paciência.

Carlos Marques

Peço ao Carlos, caso esteja a ler isto, que me contacte; ou a quem tiver o seu contacto, que mo comunique. (Não adianta escrever para o email do blog logosfera, porque já o tentei e não obtive resposta dele.)

20 de novembro de 2010

O galho da filosofia


Nas zonas mais anémicas da cultura põe-se a filosofia no galho mais alto da hierarquia imaginária das coisas. Mas o Luiz Helvécio Marques Segundo discorda aqui. E o leitor?

19 de novembro de 2010

O lugar da lógica e da argumentação no ensino da filosofia

Acaba de ser publicado o volume, organizado por Henrique Jales Ribeiro e Joaquim Neves Vicente, com as comunicações apresentadas no Colóquio Internacional O Lugar da Lógica e da Argumentação nos Programas de Filosofia do Ensino Secundário, realizado em Dezembro do ano passado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Dois dos textos, um meu e outro de Artur Polónio, estão publicados também na Crítica. Os outros são os seguintes (recorro a excertos da sinopse feita por Henrique Jales Ribeiro):

Victor Thibaudeau (Université de Laval, Canadá), defendendo em «L'étude de la première opération de l'intelligence: au coeur de la formation intelectuelle au niveau pré-universitaire» que «em vez de perguntarmos que lugar deve ter esta ou aquela matéria específica de lógica ou de argumetação em tais programas, deveremos antes questionarmo-nos não só sobre quais serão as operações intelectuais que estão na base dessas matérias (...). Partindo da distinção feita pela lógica tradicional entre três operações da inteligência (definição, enunciação, raciocínio), Thibaudeau mostra o papel essencial e incontornável da primeira, que tem sido negligenciado pelos programas de filosofia não apenas no Canadá e nas Américas, mas também na Europa e no resto do mundo, em proveito especialmente da terceira (raciocínio)».

Silvia Rivas e Carlos Saiz (Universidade de Salamanca e Universidade Pontifícia de Salamanca), apresentam alguns resultados do programa de intervenção (ARgumentación, DEcisión, SOlución de problemas en Situaciones cotidianas = ARDESOS) por eles desenvolvido, o qual «visa melhorar significativamente as competências do pensamento crítico dos jovens, e que têm divulgado e experimentado internacionalmente».

José Aredes (CFUL; Universidade Aberta), defende em «Argumentação e cuidado de si» que o ensino da filosofia, e o da lógica e da argumentação em especial, deve ser comandado pelo desiderato de contribuir para a formação de uma nova maneira de ser e, consequentemente, de viver e de ver o mundo.»

Mário Pissarra (ES Dr. Manuel Fernandes, Abrantes) que, em «O ensino da lógica no ensino liceal e secundário», entende o ensino «da lógica como um 'jogo', ao encontro da curiosidade e apetite insaciáveis dos jovens alunos».

Joaquim Neves Vicente (Universidade de Coimbra) alega em «Do primado de uma logica utens sobre uma logica docens no ensino da filosofia na educação secundária» que a utilidade da lógica pode e deve «ser pensada antes do plano propriamente metacognitivo do raciocínio e da argumentação, como Thibaudeau tinha sugerido na sua comunicação a respeito da 'primeira operação da inteligência', quer dizer, aquela em que a lógica se interessa pela maneira como um 'dado objecto de pensamento foi formado, pelas relações que ele pode envolver com outros objectos de pensamento que ocupam a mente de uma pessoa, pelas diversas maneiras de como ele pode ser nomeado e, depois, definido'».

Serge Cospérec (Université de Paris XII) aponta, em «La place de la logique et l'argumentation dans l'enseignement secondaire de philosophie en France» algumas «razões para explicar o flagrante insucesso francês quanto ao ensino da lógica e da argumentação (...). O autor desmascara alguns preconceitos, mostrando como a aprendizagem da lógica é condição, em certa medida, do trabalho filosófico ele mesmo», concluindo que o programa de filosofia para o secundário em França deve ser profundamente revisto e «encarado de acordo com uma perspectiva de que a filosofia consiste essencialmente na procura de resolução de problemas».

Henrique Jales Ribeiro (Universidade de Coimbra) conclui com o esclarecedor texto «O lugar da lógica e da argumentação: do ensino superior ao ensino secundário em Portugal», indicando as «competências em matéria de lógica e de argumentação que os ex-alunos do ensino secundário devem possuir quando entram na universidade», acabando por mostrar que o programa do secundário é «tecnicamente errado e confuso», uma vez que é simultaneamente «obeso cientificamente» e «magro pedagogicamente». Com efeito, «referindo-se aos erros e confusões do programa e, em particular, ao paralelismo que nele é estabelecido entre a lógica formal e a silogística aristotélica a respeito do estudo da noção de validade formal, Jales Ribeiro concorda plenamente com as críticas já feitas por Artur Polónio e Aires Almeida. (...) Jales Ribeiro conclui a sua comunicação propondo uma reformulação de vários aspectos do programa, designadamente quanto aos conteúdos a leccionar e às competências a adquirir.»

Este volume é publicado pela Unidade I&D - Linguagem, Interpretação e Filosofia, da Universidade de Coimbra. 

Uma boa notícia

O exame de Filosofia, a realizar no final do 11º ano, vai regressar, como noticia hoje o Público. É uma boa notícia para a filosofia e para o seu ensino. Pena é, por um lado, que nas escolas pouco ou nada se saiba disso; apenas se sabe que irá haver teste intermédio (facultativo) no dia 22 de Fevereiro. Por outro lado, um exame com o actual programa e sem orientações, é um enorme risco. Dado que o ano lectivo já começou há quase um período e que o programa não mudou nos últimos anos, algumas escolas começam já a recorrer às anteriores orientações. Mas o ideal seria mesmo rever o programa, que cada vez mais vozes mostram ser manifestamente deficiente. 

18 de novembro de 2010

¬(P . ¬Q) ⊢ P ⊃ Q não é uma forma argumentativa válida

"Não é o caso que ambos P e não Q logo se P então Q" é uma forma argumentativa válida na lógica clássica. Um exemplo de argumento válido com essa forma é o seguinte: Não é o caso que ambos, risco o fósforo e ele não se acende. Logo se risco o fósforo, então ele se acende.

Contra-exemplo de Geoffrey Hunter: Não é o caso que ambos: Geoffrey Hunter é solteiro e Geoffrey Hunter é não casado. Logo se Geoffrey Hunter é solteiro, então Geoffrey Hunter é casado.

16 de novembro de 2010

SPF

A próxima sessão do Seminário Permanente de Filosofia da UFOP ocorre dia 19 de Novembro próximo, às 14 horas, e tem o intrigante título "Se Entender, Tem Significado" (Fernando Fabrício Rodrigues Furtado, UFOP).

15 de novembro de 2010

Cambridge Companion to William James

A tradução brasileira de André Oídes do Cambridge Companion to William James, dir. de Ruth Anna Putnam, está já disponível na Idéias & Letras. Note-se que um dos melhores artigos sobre autores do Dicionário de Filosofia, de Mautner, é precisamente o de Ruth Anna Putnam sobre William James.

Sócrates à conversa com Aristóteles...

... sobre políticos e poetas maçadores? Não só é apócrifo como é anacrónico e muito divertido. O texto é de Artur Polónio, e está aqui.

Argumentos e explicações


Um aspecto que confunde por vezes o neófito -- e o não tão neófito -- é a diferença entre um argumento e uma explicação. Acabo de publicar a tradução de Artur Polónio de um texto de Douglas Walton, "Argumentos e Explicações", retirado do seu livro Fundamentals of Critical Argumentation (CUP, 2006). No artigo "Argumento, Persuasão e Explicação" eu abordo também este tema, entre outros. A maneira mais simples de distinguir argumentos de explicações é ver que num bom argumento as premissas têm de ser mais plausíveis do que a conclusão, e esta é o que está em disputa; ao passo que numa explicação a "conclusão" (o que linguisticamente parece uma conclusão) é precisamente o que não está em disputa e é muitíssimo mais plausível do que as explicações avançadas (que, linguisticamente, parecem premissas, mas não são).

14 de novembro de 2010

Isso nem se discute?


Na crónica desta semana, Aires Almeida põe em causa o hábito comum de declarar indiscutíveis certas ideias. E o que pensa o leitor?

13 de novembro de 2010

Ensinar a brincar?

Acabo de publicar a minha tradução do artigo "Em Busca da Excelência", de Algis Valiunas, que se atreve a pôr em causa as ideias mais comuns hoje em dia sobre educação. E o que pensa o leitor?

11 de novembro de 2010

Mais filosofia da religião


Acabei hoje mesmo a revisão da tradução de Vítor Guerreiro do livro Introdução à Filosofia da Religião, de William L. Rowe, que será publicado no início de 2011 pela Verbo. Renovei a minha opinião de que se trata de uma excelente introdução à filosofia da religião, com a dose certa de acessibilidade e clareza, mas sem desprezar complexidades e aprofundamentos necessários. Podemos já ler na Crítica um excerto do livro: "A Ideia de Deus." A Verbo publicará o livro não só em Portugal, mas também no Brasil, depois de devidamente adaptado.

Se juntarmos este livro ao A Ética da Crença, recentemente publicado na Bizâncio, ficamos com a possibilidade de dar os primeiros passos seguros nesta importante área da filosofia.

7 de novembro de 2010

1 de novembro de 2010

Kit Fine

A filosofia é a mais estranha das disciplinas: visa o rigor, mas é incapaz de estabelecer resultados; procura lidar com as questões mais profundas, mas vê-se constantemente preocupada com as trivialidades da linguagem; e proclama ter a maior relevância para a investigação racional e para a conduta da nossa vida, mas é quase completamente ignorada. Mas o que é talvez mais estranho é a paixão e intensidade com que é feita por quem ficou preso nas suas garras.

Fazer contas à vida


Dos 16 artigos submetidos nos meses de Agosto a Outubro, 10 foram rejeitados, 1 foi aceite e 5 aguardam decisão. Isto representa um decréscimo acentuado do número de submissões, comparando com o trimestre anterior (de Maio a Julho), no qual recebemos 28 submissões.

Quanto a leitores, no mês de Outubro passaram por aqui mais de 98 mil pares de olhos, um ligeiro acréscimo relativo a Setembro (94 mil).

31 de outubro de 2010

A complicação da simplicidade


Na crónica desta semana, Matheus Silva mostra como a simplicidade, enquanto critério para escolher teorias, é muito mais complicada do que parece.

27 de outubro de 2010

Mautner já nas livrarias


O Dicionário de Filosofia, de Thomas Mautner, está já nas livrarias. Se acaso já o tinha procurado antes e não o tinha encontrado, isso deveu-se a algum atraso na sua impressão e distribuição, naturais numa obra desta natureza. Mas agora já pode deitar-lhe a mão -- e penso que não ficará desapontado.

25 de outubro de 2010

SPF

O Seminário Permanente de Filosofia da próxima sexta-feira, 29 de Outubro, será apresentado por Rodrigo Alexandre de Figueiredo (UFRJ), e tem por título "Propriedades Disposicionais e Categóricas." Resumo: A solubilidade (do sal na água), a fragilidade (da xícara de porcelana) e a humildade (de Sócrates), são casos paradigmáticos de propriedades disposicionais. Por outro lado, a esfericidade e a massa (de uma bola de futebol) são propriedades ditas "categóricas." Estas últimas ocorrem nos objetos, enquanto as disposicionais não: ao analisar uma porção de sal não encontramos a sua disposição de se dissolver na água, mas podemos encontrar a sua massa. Mas como distinguir estes dois tipos de propriedades? O meu objetivo é discutir a tese do "acarretamento," segundo a qual as propriedades disposicionais acarretam, enquanto as categóricas não, uma condicional subjuntiva (ou uma contrafactual).

24 de outubro de 2010

Duas ideias comuns postas em causa


Na crónica desta semana, "Realidade e Forma Lógica," ponho em causa uma ideia comum sobre a validade formal, depois de explicar brevemente como pôr em causa outra ideia comum relacionada sobre a analiticidade. E o que pensa o leitor?

21 de outubro de 2010

Faleceu Rui Daniel Cunha


O Rui foi professor e investigador de filosofia, um amigo e colaborador da Crítica. O memorial possível está aqui.

19 de outubro de 2010

O sentido da vida


No III Encontro Nacional de Filosofia de Pesquisa em Filosofia da UFOP apresentarei hoje, às 19:30, uma palestra sobre o sentido da vida. Baseando-se, na verdade, num breve capítulo do meu brevíssimo próximo livro, Filosofia em Directo, a publicar em 2011, é uma breve reflexão mais dirigida ao grande público do que a estudantes de filosofia que já conheçam o tema. Visa esclarecer confusões e ideias comuns que me parecem pelo menos discutíveis, e dar alguma orientação para reflectir sobre o tema. Não farei referências a autores nem a bibliografias, pois esse é o espírito do livro.

Para quem tem interesse no tema, organizei e traduzi o livro Viver Para Quê?, onde seis filósofos contemporâneos apresentam as suas ideias e argumentos, e publiquei o capítulo "Sísifo e o Sentido da Vida" no meu livro Pensar Outra Vez.

Os slides da palestra serão depois disponibilizados, como habitualmente, em dmurcho.com. Todas as críticas e sugestões são bem-vindas.

A Coca-Cola na escola

Há uns anos lancei esta pergunta em público: dado que o principal factor de sucesso escolar é a motivação dos alunos, e dado que o Ministério da Educação tem sido claramente incompetente nesta área, não deveríamos substituir este ministério por uma empresa de marketing? Afinal, vende-se Coca-Cola, uma bebida completamente absurda, com imenso sucesso, a milhões de pessoas, todos os dias. E isso porque a empresa sabe vender Coca-Cola, associando-a a estilos de vida apelativos.

Caso se conseguisse que as famílias culturalmente mais carenciadas associassem o estudo, os livros e o esforço escolar a estilos de vida que já valorizam, o sucesso escolar dos alunos mais carenciados aproximar-se-ia do dos outros, que já trazem de casa a motivação para estudar e para se esforçar.

Foi por isso que vi com muito interesse o vídeo seguinte, em que a Melinda French Gates argumenta que as Organizações Não Governamentais de ajuda aos mais carenciados têm muito a aprender com a Coca-Cola.

17 de outubro de 2010

Cidadania? Ou lavagem ao cérebro?


Aires Almeida opõe-se no texto "Educação para a Cidadania?" à politicamente correcta ideia de que a escola tem por missão a educação para a cidadania, tal como esta expressão é hoje entendida. O que pensa o leitor?

11 de outubro de 2010

Concurso: Provas para quê?


Para assinalar a publicação em Portugal do mais recente livro da colecção Filosoficamente, o livro A Ética da Crença, org. por mim e com tradução de Vítor Guerreiro e introdução minha, a Bizâncio, em colaboração com a Crítica, promove um concurso. Diz-se por vezes que para crer em Deus não são necessárias provas; mas será esta posição defensável? Porquê? Os autores das duas melhores respostas (sintéticas, bem argumentadas, informadas) receberão como oferta um exemplar do livro; a oferta abrange apenas Portugal. O concurso termina no próximo Domingo, às 17:00 de Lisboa. As respostas são dadas na caixa de comentários.

Assim se prova a existência de Deus

10 de outubro de 2010

Para que serve a filosofia?


"A filosofia não serve para nada se não servir para transformar o mundo," ouve-se por vezes dizer. Mas o Vítor Guerreiro discorda aqui. E o leitor?

7 de outubro de 2010

Convite cordial


Escrever boas recensões é um excelente exercício para a nossa aprendizagem e um óptimo veículo para divulgar bons livros. O ritmo de boas publicações de filosofia, em Portugal e no Brasil, tem sido felizmente intenso, mas na Crítica pouco mais tem sido feito do que divulgar esses livros numa breve nota, quando seria muito melhor poder publicar também recensões desses mesmos livros. Estou assim a convidar todos os leitores a escrever recensões sobre os livros que temos divulgado neste blog, assim como outros livros de filosofia que considerem importantes.

Uma boa recensão descreve com rigor o conteúdo de cada um dos capítulos do livro, detendo-se ou não mais minuciosamente num deles ou num grupo deles. Além disso, uma recensão pode também incluir uma discussão pormenorizada de algumas das ideias do livro, mas não está obrigada a fazê-lo.

Eis dois bons modelos de recensões recentes: If P, Then Q e Philosophy of Law.

Repito então o convite a todos os leitores para que submetam recensões, não apenas de livros de filosofia, apesar de essa ser a nossa principal área, mas também de divulgação científica, que na Crítica sempre teve um lugar de destaque, ao contrário da imprensa tradicional.

6 de outubro de 2010

nota ao 2º concurso de filosofia da música

Infelizmente, parece que os serviços postais do Brasil não aceitam envios com portes à cobrança. Como o custo dos portes ainda é relativamente elevado, terei de restringir a participação no concurso a leitores que residam em Portugal.

4 de outubro de 2010

Morreu a filósofa Philippa Foot

Philippa Foot (1920-2010) morreu tranquilamente ontem, dia 3 de Outubro, com noventa anos de idade, na sequência de vários problemas de saúde. Foot é, sem dúvida, um dos mais destacados nomes da ética dos últimos 50 anos. A filósofa britânica popularizou-se sobretudo como autora da famosa experiência mental do problema do trólei e pelo seu ataque à ética consequencialista. Mas a sua obra filosófica vai muito além disso. Deixo aqui a entrada que escrevi sobre ela no Dicionário Escolar de Filosofia:

Filósofa inglesa, professora de filosofia moral em Oxford e na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, destacou-se como defensora contemporânea da ética das virtudes, de inspiração aristotélica. Assim, em alternativa às éticas baseadas no dever – as éticas deontologistas – e às éticas baseadas no resultado dos nossos actos – as éticas consequencialistas – Foot argumenta a favor de uma teoria ética normativa baseada nos traços de carácter. Começou, contudo, por publicar, nos anos 50 do séc. XX, importantes artigos sobre metaética e só posteriormente acabou por se virar para a ética normativa, sendo muito discutido o seu ataque ao consequencialismo. Os seus livros mais importantes são Virtudes e Vícios (1978), Bondade Natural (2001) e Dilemas Morais (2002).