23 de janeiro de 2010

Canetas na Lua

O resultado do inquérito feito aos leitores da Crítica não é estatisticamente relevante, pois dos cerca de 1700 visitantes diários, só 107 pessoas responderam. Mesmo assim, é interessante notar que 26% dos leitores (28 pessoas) estão convencidos de que se largarmos uma caneta na Lua, esta fica a flutuar em vez de cair como na Terra. (E 7 leitores pensam que a caneta irá flutuar para o espaço.) A resposta correcta é que a caneta cai, mas mais devagar do que na Terra porque a força da gravidade é menor na Lua do que na Terra.

Resolvi fazer este inquérito por ter lido aqui que numa aula de filosofia um professor declarou precisamente que na Lua uma caneta largada ficaria a flutuar, tendo só um ou outro aluno protestado que isto era falso. Achei curioso um professor de filosofia fazer tal erro por duas razões.

Primeiro, porque revela falta de capacidade para analisar outros factos que ele de certeza conhece: que os astronautas não andavam a flutuar na Lua — caiam, mas mais devagar do que na Terra. Daqui segue-se que as canetas também caem, mas mais devagar. A incapacidade para fazer inferências, para raciocinar, é muito caricata num professor de filosofia porque a filosofia é em grande parte precisamente um raciocínio intenso sobre factos já conhecidos, e não uma descoberta de novos factos.

Segundo, porque revela falta de cultura geral. Quando as pessoas falam em cultura geral pensam em literatura ou história, mas a astronomia ou a física ou a matemática não são menos parte da cultura geral. Um professor que não tem noções elementares de física ou de química está a prestar um mau serviço aos seus alunos, porque tem ideias completamente erradas acerca de aspectos fundamentais da realidade.

Os leitores da Crítica que responderam mal ao inquérito podem agora explicar-nos por que razão pensavam que uma caneta na Lua não cai se for largada. Recorde-se que a correcção de erros é um dos aspectos mais importantes da nossa formação intelectual e humana. Toda a gente erra e errar não é vergonha; vergonha é esconder o erro. Está aberta a discussão.

10 comentários:

  1. E já agora: creio que aqui há uns anos era escassa a bibliografia em português de divulgação científica. Creio porque eu não a conheci enquanto estudante do ensino secundário. Se existia nessa altura, não a cheguei a conhecer. Tal como a minha formação, a formação de milhares de jovens passa pelo desconhecimento grosseiro de conteúdos básicos de ciência. Não sei se nesse aspecto a escola tem melhorado muito. Mas o mercado editorial tem melhorado bastante neste aspecto. Temos hoje muitos e bons livros de divulgação científica.
    Dois exemplos curiosos: uma vez tive uma aluna do 11º ano que afirmava convictamente que era possível manter conversas com plantas. Descobri que essa crença tinha partido, imagina, das aulas de biologia.
    Uma outra vez, num jantar, falei a duas professoras de biologia de Stephen Jay Gould e Richard Dawkins. Uma das professores disse: "eh pá, vens para um jantar para falares de filósofos?". Respondi que não eram filósofos, mas biólogos. Virou-se para a outra e perguntou se já tinha ouvido falar nesses nomes. A segunda perguntou-me: "ao menos são gajos bons?". Lá tive de animadamente dizer que na minha opinião o Dawkins é bem capaz de seduzir muitas fêmeas.
    A diferença entre as licenciaturas da treta de filosofia e de biologia é que no caso da filosofia aparece sempre alguém a denunciar a gritante falta de formação, ao passo que na biologia parece que ninguém se preocupa muito com isso.

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  2. Respondí tb que ela ficaria flutuando na Lua, mas reconheço mais uma vez que acho que não aprendí a pensar ainda. Desastroso, pois depois que o Desidério explicou , ficou muito claro que deveria cair. É que qdo pensamos em algo na lua já logo lembramos dos astronautas andando pesadamente sobre ela, parece que com medo de sairem voando e isso dá uma falsa idéia de que poderiam sair flutuando sem eira nem beira pela Lua. Contudo, apesar de não lembrar de algum dia ter discutido isso em sala de aula em minha infância, foi falta de raciocinar um pouco mais e sem essa mania moderna de " pressa" sem "pensar outra vez" rsrsr. Mas continuo tentando, vamos em frente.
    Ah, Rolando, tenho um amigo biólogo q tb afirma q dá pra conversar com plantas e q elas, à sua maneira, "interagem"; e para um biólogo ele tb diz outras coisas curiosas sobre plantas.

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  3. Eu votei e sabia a resposta, mas depois googlei qualquer coisa como "what happens if a pen is dropped on the moon" e dei de caras exactamente com a história do link. A primeira coisa que pensei foi no segundo aspecto referido pelo Desidério, que nunca é demais enfatizado pelos cientistas. Mas depois pensei na estupidez do argumento do professor ao dizer que os astronautas conseguiam pisar o solo por terem botas pesadas. Não se trata de o professor não ter feito nenhuma inferência ou não ter pensado sobre o assunto, trata-se de pensar completamente com os pés virados para a lua. O mesmo professor também deve ser daqueles que acham, e devem ser a maioria, que os corpos mais pesados atingem mais depressa o solo do que um corpo mais leve não sujeito a levitação. De qualquer forma nunca é de esperar as boas inferências com o mau conhecimento das coisas ou falta dele. Isso é desculpável a muita gente, mas não a um professor.

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  4. É um problema interessante. Vou começar a colocar essa pergunta às pessoas a ver a resposta. Para quem responde que a caneta flutua pode haver um raciocínio metonímico entre a lua e o espaço, associando a característica da ausência de gravidade do espaço à lua.

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  5. Há dois aspectos diferentes, como tentei explicar. Um é puro desconhecimento empírico: não saber como as coisas são. Outro é a incapacidade para raciocinar correctamente com base no que já se sabe. A minha previsão é que todas as pessoas que responderam erradamente é porque raciocinaram mal, mas infelizmente só a Márcia nos explicou o seu raciocínio.

    Se a minha previsão estiver certa, ou perto disso, então temos de mudar drasticamente o ensino e a própria transmissão cultural. É urgente ensinar as pessoas a raciocinar correctamente. Curiosamente, penso que quem mais precisaria de aprender a raciocinar melhor é precisamente quem arranja desculpas de mau pagador para rejeitar essa aprendizagem, porque prefere verdades feitas por encomenda e atitudes iniciáticas confortáveis.

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  6. Agora pergunto: então e se largarmos um balão de hélio na Lua, o que é que lhe acontece?

    Sinceramente não tenho a certeza, e é a primeira vez que penso nisto, mas parece-me que irá cair.

    Curiosamente, apesar de a Lua ter uma menor gravidade do que a Terra, na Terra o balão sobe, mas na Lua deverá descer. Curioso...

    Será que estou enganado? Claro que facilmente poderemos "googlar" a pergunta, mas é mais interessante tentarmos pensar um pouco antes de o fazer (isto no seguimento do post que se seguiu a este sobre a velocidade de queda dos corpos).

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  7. O hélio sobe na Terra porquê? Porque o hélio é mais leve do que os outros gases? Se for por isso, então deverá cair, muito lentamente, na Lua, porque a Lua não tem atmosfera. É este o raciocínio que fizeste?

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  8. De acordo com a discussao acima, o balao de helio no vacuo (situacao que descreve bem a Lua) deve cair com a a mesma aceleracao que uma bola de chumbo.

    Uma questao ainda mais divertida e' a seguinte: suponhamos um balao de helio preso por uma corda ao chao de um comboio; o comboio move-se com uma aceleracao constante da esquerda para a direita; qual o angulo que o balao fara' com a direccao vertical: sera' negativo, positivo ou nulo? (angulo positivo se for no sentido da rotacao dos ponteiros do relogio).

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  9. Olá a todos

    Quanto à questão do balão e também sem "googlar" julgo que a experiência é irrealizável porque a inexistência de pressão atmosférica fará o balão explodir e o gás dissipar-se.
    Na hipótese de ter um balão de material cuja massa seja inferior à massa do Hélio que contem, parece-me evidente que deverá cair, calma e tranquilamente na lua.

    Agora vou googlar a resposta :)

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  10. fc:

    Uma forma de não rebentar o balão seria pôr tão pouco hélio que o próprio plástico seria suficiente para aguentar a pressão.


    Jaime Quintas:

    Depois, sim. Cairia como tudo o resto.



    Miguel:

    Quanto ao comboio, a inércia faria com que o balão ficasse a apontar no sentido oposto ao do centro da rotação do comboio. Dito de outra maneira, sendo o referencial do combioi um referencial acelerado, temos nesse referencial uma força "artifical" que é a força centrífuga, que vai fazer o balão deslocar-se para fora do centro da rotação, só não fugindo da mesma por causa do fio cuja tensão irá compensar esta força centrífuga.

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