21 de janeiro de 2010

Existe um paradoxo com as teses do determinismo e livre arbítrio?


Um paradoxo resulta quando duas hipótese igualmente evidentes conduzem a resultados aparentemente inconsistentes. O determinismo é a tese da causalidade universal, a que defende que tudo no universo é causado. Por outro lado, a tese do livre arbítrio defende que somente algumas acções são determinadas causalmente. Ambas as teses nos parecem verdadeiras. Acreditamos, por um lado, que tudo no universo é causado, mas, ao mesmo tempo, que algumas das nossas acções não são determinadas. Mas neste caso nem tudo é causado, já que algumas acções são indeterminadas. Estaremos perante um paradoxo? Que pensa o leitor?

15 comentários:

  1. Caro Rolando,

    Não me parece que a questão do determinismo e do livre-arbítrio seja um paradoxo.

    Um paradoxo, penso eu (mas talvez sem grande rigor), acontece quando temos duas proposições que tudo indique serem verdadeiras mas que são contraditórias. Na questão do livre-arbítrio não me parece que tenhamos duas proposições que tudo indique serem verdadeiras. Haverá quem tome uma posição clara quanto a cada uma delas, haverá quem não consiga decidir e suspenda o julgamento.

    Alguns argumentos apontam para a existência de Deus, outros apontam em sentido contrário. Daí não se segue que a existência de Deus seja um paradoxo (se bem que a existência de Deus possa dar origem a alguns paradoxos, derivados da omnipotência, por exemplo).
    Será assim?

    Quanto ao interessante problema geométrico que apresentas, penso que a solução estará no facto de o triângulo verde e o vermelho não terem os ângulos iguais. As manchas de cor superior e inferior têm de facto a mesma área, mas a forma resultante da junção das várias formas não é um triângulo e não é igual em cima e em baixo.

    ResponderEliminar
  2. No artigo, lemos:
    "O determinismo é a tese da causalidade universal, a que defende que tudo no universo é causado" - "Por outro lado, a tese do livre arbítrio defende que somente algumas acções são determinadas causalmente";
    Se essas definições forem exatas, parece-me claro que temos um paradoxo. Todavia, penso que pode haver um problema com essa noção de livre arbítrio. Na Wikipédia, por exemplo, temos: "Livre-arbítrio (ou livre-alvedrio) é a crença ou doutrina filosófica que defende que a pessoa tem o poder de escolher suas ações"
    Aí não temos um paradoxo, se consideramos como tendo livre-arbítrio a pessoa não condicionada por um fator externo (uma lei, uma atadura ou força sobrenatural, por exemplo). Liberdade de escolha, NO MOMENTO DA ESCOLHA.
    Suponhamos que João tem de escolher entre 1 e 2, e ele é livre para escolher o que quiser. Pode-se dizer que ele teve "o poder de escolher sua ação". João escolhe 1. Se existe um "Demônio de Laplace" que tudo pode prever, e, portanto, já sabia que João escolheria 1, isso não muda o fato de que João foi livre para escolher.
    Aliás, para John Locke, esse nome, "livre-arbítrio", é uma confusão: o que existe é liberdade e vontade (freedom and will), independentemente. No "Ensaio sobre o Entendimento Humano", diz:
    "Se a vontade do homem é livre ou não? A questão ela mesma é imprópria; e é tão insignificante perguntar se a vontade do homem é livre quanto perguntar se seu sono é veloz, ou sua virtude quadrada: a liberdade sendo tão pouco aplicável à vontade, quanto a velocidade do movimento ao seu sono, ou a quadratura à virtude. Todo o mundo deve rir da absurdidade de uma questão tão peculiar quanto essa: porque é óbvio que as modificações do movimento não pertencem ao sono, nem a diferença de figura à virtude; e quando se considera isso bem, penso que se percebe que a liberdade, a qual é apenas um poder, pertence apenas aos agentes, e não pode ser um atributo ou modificação da vontade, a qual também é apenas um poder."

    ResponderEliminar
  3. Olá Jaime,
    Olha que eu estou em crer que existe mesmo um paradoxo. Se acreditamos que no universo tudo é causado, como podemos acreditar ao mesmo tempo que algumas das nossas acções são livres? O interessante, é claro, é tentar desfazer o problema.

    ResponderEliminar
  4. De onde saiu essa dos triangulos?

    Parece-me ainda mais paradoxal que a questão imponderavel do determinismo.

    ResponderEliminar
  5. Rolando,

    Eu diria que o problema é com a teoria do livre arbítrio, independentemente se o universo é ou não determinista. Essa teoria, que diz que podemos escolher livremente, é inconsistente, porque se é livre não é escolha (é acaso) e se é escolha não é livre (resulta da ponderação de alternativas e é função da forma como estas se apresentam).

    ResponderEliminar
  6. Rolando:

    Não me exprimi bem, mas estou de acordo com o Ludwig. DEterminista ou não, tens a escolha entregue ao acaso ou à causalidade rigida.

    O livre arbitrio é uma ilusão, tal com o tempo, mas uma sem a qual não podes viver. Tal como o tempo.

    ResponderEliminar
  7. Nem todas as teorias que afirmam a existência do livre-arbítrio dizem que as escolhas livres não são causadas. Algumas falam em causalidade do agente, que seria uma causalidade diferente da causalidade natural. O problema para o defensor do livre-arbítrio é pensar que se dadas as leis da natureza e o estado do mundo em t, todos os estados subsequentes do mundo estão fixos e determinados, então cada uma das minhas escolhas foi na verdade causada por acontecimentos anteriores ao meu nascimento. Sendo assim, como posso ser responsável por eles? O problema não é a causalidade em si, pois é bom que haja eficiência causal entre as minhas decisões e a minha acção. Se da minha decisão de escrever um ensaio pode perfeitamente resultar que começo inexplicavelmente a dançar ballet, não há aí lugar para a liberdade. O indeterminismo é menos hospitaleiro à ideia de liberdade do que o determinismo. Ao menos neste último há a eficiência causal entre a decisão e a acção. O acaso torna a liberdade impossível.

    ResponderEliminar
  8. Vitor Guerreiro:

    "em causalidade do agente"

    E isto é o que? É tipo essencia de "Vontade Pura"? E essa Vontade Pura seria regida por que? Sem regras = inderminismo, com regras = determinismo.

    E faz sentido nenhum falar em causalidade do agente como em qualquer causa que se defina como algo que não se pode saber. Se não podes saber porque fazes as coisas tambem não é bem uma escolha.

    E se causalidade do agente é pensar que as causas instrinsecas do sujeito são predominantes vai dar ao mesmo. Se é determinado é determinado, seja determinado por factores intrinsecos ao agente ou exteriores. Vai dar ao mesmo.

    O livre arbitrio existe no sentido em que ninguem esta a fazer as contas ao mundo para saber o que vai acontecer a cada momento. Isso até pode nem ser possivel. Cada vez que fazemos uma escolha, embora ela seja continuação de uma cadeia de acontecimentos, estamos de facto a participar da acção. E é impossivel agir como se a tua escolha fosse independente de ti e não fosses responsavel. Porque tudo o que fizeres tem consequencias e como não podes prever o futuro tens de fazer o teu melhor a cada momento. Senão sofres com isso.

    A propria passagem do tempo parece ser real, mas tudo aponta para que seja na realidade um continuo, em que passado e futuro não são o que se passou e o que esta para vir. Porque são tão "palpaveis" tanto um como o outro.

    ResponderEliminar
  9. O Jaime tem razão quanto ao paradoxo. Não há paradoxo algum em acreditar que tudo no universo é causado e que as nossas acções são livres porque à partida nada no conceito de "liberdade" exclui a causalidade. O conceito de liberdade não é claro e é precisamente sobre isso que entram em disputa os compatibilistas e os incompatibilistas das duas estirpes (os que aceitam o livre-arbítrio e os que o rejeitam).

    Temos um paradoxo quando a partir de uma afirmação que parece verdadeira, ou de um argumento que parece bom, inferimos algo contraditório ou patentemente falso. Nada disto acontece no problema do livre-arbítrio e do determinismo. Nada há de contraditório em pensar que há livre-arbítrio, nem que não há livre-arbítrio (embora isso nos possa perturbar muito). E a incompatibilidade entre o livre-arbítrio e a causalidade natural não é uma tese estabelecida. Não sabemos se isso é verdade. Os compatibilistas discordam e a questão não foi encerrada ou resolvida.

    ResponderEliminar
  10. joão,

    não defendo a ideia da causalidade do agente. É simplesmente uma das teorias defendidas por filósofos que defendem o livre-arbítrio. Um dos problemas com a ideia de causalidade do agente é que parece implicar que as nossas decisões não resultam ou emanam de quem realmente somos (com as nossas crenças pré-filosóficas, desejos e preconceitos, tiques psicológicos, etc) - e estes são determinados por causas que não estão em meu poder.
    O que eu pretendi mostrar ao falar na causalidade do agente não era defendê-la mas mostrar que a oposição fundamental no problema do livre-arbítrio não é entre liberdade e causalidade mas entre a liberdade e um certo tipo de causalidade. O que é difícil para os defensores do livre-arbítrio é a ideia de que as minhas decisões são causadas por acontecimentos anteriores ao meu nascimento, sobre os quais nenhum poder tenho.

    Não tenho uma resposta para o problema, no sentido de já ter pensado sistematicamente em qual será a melhor teoria, embora me incline para pensar que não há livre-arbítrio mas há determinismo.

    ResponderEliminar
  11. Eu acredito no livre-arbítrio. Não consigo evitá-lo.

    ResponderEliminar
  12. Sem querer fazer publicidade intrometida, escrevi algo exactamente acerca disto aqui: http://onumeroprimo.wordpress.com/2009/06/27/e-prometo-que-nao-toco-mais-nisto/ , onde abordo a questão do compatibilismo entre os dois conceitos.

    ResponderEliminar
  13. O que é realmente mindfucking nesta questão é pensar que podemos aceitar argumentativamente, ou seja, racional e criticamente, a conclusão de que não há livre-arbítrio. A ausência deste item parece excluir a possibilidade de aceitarmos racionalmente seja o que for, na medida em que as justificações racionais são diferentes das explicações causais (estas podem fazer parte das primeiras mas não as podem substituir).

    ResponderEliminar
  14. Vítor,

    O problema está no conceito de "Livre Arbítrio". A maior parte das pessoas tem uma noção bastante intuitiva: o livre arbítrio é o sentimento profundo de que podemos fazer escolhas e que, portanto, não podemos ser determinados.

    Mas esta ideia é apenas uma noção tosca que não fornece uma definição precisa. O que é que é exactamente ser livre dos constrangimentos? Qualquer coisa que eu faça é sempre uma resposta a outra coisa qualquer que a tenha causado ou inspirado.

    Por exemplo, posso querer matar alguém apenas para provar que consigo fazer algo bastante pateta sem razão aparente. Mas o desejo de provar esta tese é, ele próprio, uma razão. Mesmo que pare no último segundo para provar que consigo optar estou, no fundo, apenas a reagir a um pensamento anterior.

    Ou seja, estou a pensar sobre pensamentos. Mas o pensamento inicial, e a causa que o inspirou, estão lá os dois. Todas as minhas acções racionais são o produto de uma mente reflexiva a agir sobre inputs, sendo que o resultado da reflexão pode, por sua vez, servir de base a novas reflexões.

    E há "armadilhas linguísticas" que ajudam a ocultar isto. Por exemplo, quando se diz que "O que é difícil para os defensores do livre-arbítrio é a ideia de que as minhas decisões são causadas por acontecimentos anteriores ao meu nascimento, sobre os quais nenhum poder tenho".

    Por que razão é que não tem poder? Claro que tem poder sobre essas circunstâncias. A questão é que essa reacção é, em si mesma, determinística. Essa reacção produz, por sua vez, novos padrões mentais que podem agir sobre os padrões mentais anteriores, produzindo novos padrões mentais (a capacidade auto-reflexiva da mente). O Vitor não é "determinado" pelas reacções químicas do cérebro: o Vítor é as próprias reacções químicas do cérebro!".

    ResponderEliminar
  15. http://pt.wikipedia.org/wiki/Paradoxo_do_quadrado_perdido

    ResponderEliminar