12 de janeiro de 2010

Ficção científica ou delírio económico?


O chamado "paradoxo de Fermi," não sendo um paradoxo no sentido rigoroso do termo, formula uma perplexidade natural: se a expansão cósmica de uma civilização é expectável e se há outros seres extraterrestres inteligentes, como parece provável, onde raio estão eles? Dada a idade da nossa galáxia apenas, seria de esperar que já tivéssemos contactado com tais civilizações, pois a sua expansão cósmica seria exponencial: partindo de um civilização num planeta, esses seres expandir-se-iam para um ou dois planetas, desses dois para mais um ou dois — e assim por diante, exponencialmente ao longo dos milénios. Mas eles não estão aqui. E é a esta perplexidade que se chama o "paradoxo de Fermi."

Em "The Sustainability Solution to the Fermi Paradox," Jacob D. Haqq-Misra e Seth D. Baum argumentam que o paradoxo se resolve pondo em causa a ideia de que a expansão cósmica é sustentável, em termos energéticos e ecológicos. Se não o for, então não é de espantar que na galáxia não se encontre extraterrestres como quem encontra amoras num silvado. Mas isto dá origem a outro paradoxo. Como é possível que seja necessário escrever um artigo científico sobre algo tão óbvio? Há muito que me parece absurda a ideia de Hollywood e da pulp science fiction de que haveria recursos energéticos suficientes para andar por aí a saltar de planeta para planeta a velocidades estonteantes.

Basta ser obrigado a gramar doze horas de avião para ir da Europa ao Brasil para perder essas ilusões. Isto porque tecnicamente é possível viajar mais depressa da Europa ao Brasil. Mas não o fazemos porquê? Porque não há recursos. Ficaria tão caro que as poucas pessoas que poderiam pagar os bilhetes não permitem que isso seja economicamente viável. Analogamente, talvez seja tecnicamente possível ir ali a Marte como quem vai ao Algarve de fim-de-semana. Mas será sempre tão caro que nunca será economicamente viável.

Os autores de ficção científica esquecem-se tipicamente do aspecto económico da vida. Pensam que basta haver uma possibilidade tecnológica para que esta seja viável. Isto é falso. E se pensarmos que isto é falso, mesmo admitindo a possibilidade técnica de uma expansão cósmica extraterrestre, compreende-se melhor por que razão não andam por aí extraterrestres a fazer compras em Paris. É que isso é proibitivamente caro para eles, tal como é proibitivamente caro para nós irmos à Lua para trazer de lá... gelo.

9 comentários:

  1. Caro Desidério,

    A maioria da SciFi usa o género como crítica ao presente do autor, criando experiências sociais/humanas literárias que isolam as variáveis que quer discutir, um pouco como nas experiências científicas. Aquela SciFi das naves aos tiros umas às outras, realmente, não há muita paciência.

    Concordo com o que diz que a economia restringe o espaço de acção tecnológico e ter humanos a explorar o Cosmos, para as nossas restrições biológicas e éticas, é muito muito caro e complicado.

    Mas há hipóteses não demasiado mirabolantes. Por exemplo, o que temos feito desde a ida à Lua é enviar robots para o espaço. E nada impede que daqui a uns séculos tenhamos (nano-?)robots que se possam reproduzir e viajar pelo espaço colonizando planetas e reproduzindo-se de forma automática (podendo enviar informação sobre esses novos sistemas solares e, quem sabe, descobrindo vida). As viagen seriam rápidas pela leveza da nave (uns miligramas) e pela aceleração (sem humanos a coisa é mais fácil). Este cenário não exige demasiado, e quase nada da nossa energia e recursos (ao contrário do que disse, o que não falta no Universo é energia).

    Um abraço e um excelente 2010,

    João Pedro Neto

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  2. Há um interessante artigo intitulado “There Is No Fermi Paradox”, de Robert A. Freitas, sobre o impropriamente designado “paradoxo de Fermi”. Freitas afirma,entre outras coisas, que o pseudo-paradoxo é uma falácia lógica e carece de operadores modais que exorbitam do estrito âmbito do cálculo proposicional.



    Se A, então provavelmente B
    Se B, então provavelmente C
    Não C
    (Então não B)
    Então não A

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  3. Enquanto lia, não podia deixar de pensar nesse quadro:

    http://www.smbc-comics.com/index.php?db=comics&id=1733

    (e ao pousar o mouse sobre o botão vermelho surge um outro desenho, explicando o argumento do Desidério...)

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  4. Voltando ao tema: a nanotecnologia será aplicada espacialmente, mas não será desenvolvida para esse fim porque isso não é rentável. Se a nanotecnologia permitir fazer algo como telemóveis que provocam orgasmos ou assim, então a nanotecnologia será desenvolvida por causa disso e depois será usada para outros fins menos prosaicos.

    E não sei até que ponto o género de dinheiro generoso que hoje existe na investigação científica pura irá continuar durante muito tempo. Há medida que a tecnologia lucrativa for mais e mais lucrativa, os contribuintes irão começar a perguntar-se para que raio andam a pagar a gajos e gajas para descobrir cenas que não interessam senão a eles mesmos. A minha previsão é que o investimento da ciência pura tem os dias contados, e a contagem decrescente começa quando as pessoas perceberem que o argumento do costume -- é preciso investir na ciência pura porque nunca se sabe de onde vem a inovação que dá dinheiro -- é uma mentira bonita.

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  5. Desidério,

    Mas existe um grande e potente motor da inovação tecnológica, que eventualmente terá interesse no desenvolvimento dessa tal tecnologia, seja ela nano ou macro: a guerra!

    Foi na indústria da guerra, salvo erro, que nasceu a internet, o gps e outras coisas que tais. Penso também que foi na indústria da guerra que se desenvolveu a aviação, automóvel, comunicações, combustíveis, plásticos e afins.
    A indústria espacial também contribuiu alguma coisa, mas não sei se esta não será apenas mais uma frente de batalha da indústria da guerra...

    Será que a colonização espacial pode ser um subproduto da guerra?

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  6. Desidério,

    O seu texto está excelente, mas eu discordo de você em praticamente tudo. Como é que podes saber se a nanotecnologia aplicada ao espaço vai ser rentável ou não? De onde vem essa crença bonita de que o público sabe para onde vão os seus impostos ou se importam com isso? Eu tenho a impressão de que isso é apenas whishful thinking da sua parte. Você gostaria que essas verbas fossem cortadas, pois acha isso injusto. Eis um fato que precisamos considerar nessas discussões: o avanço tecnológico geralmente traz consigo o barateamento da própria tecnologia. Exemplos cotidianos não faltam: celulares, computadores e tvs cada vez mais complexos custam cada vez menos. É natural, portanto, que se desenvolvermos tecnologias espaciais barateassem o custo de tudo ao longo do tempo, podendo até mesmo ser autossustentáveis. Motivações possíveis para desenvolver essa tecnologia são inúmeras (escassez de recursos naturais, necessidade de evitar a morte do sol, etc.). Portanto, não há paradoxo algum nem na acepção comum do termo. Devemos tomar cuidado com essas predições negativas sobre a tecnologia, a tendência é sermos citados como idiotas pelas gerações futuras. Seremos como aquele infeliz que disse que as pessoas nunca precisariam mais do que 4 MB de memória nos seus computadores.

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    1. Mas então ficas na mesma: onde estão os extraterrestres e as suas nanomáquinas?

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    2. Mas como sabes que não existe vida inteligente, e aparecerão daqui a um mês? Ou já passaram por nossa galáxia no passado e nos ignoraram? Eu não acredito nisso, é claro, mas excluímos essas possibilidades muito facilmente.

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