30 de janeiro de 2010

Horto-grafias

O Helder tem a paciência de comentar aqui este meu post. Posso estar enganado, mas parece-me que o Helder usa um argumento que não funciona, segundo o qual não faz mal ter incongruência ortográfica nas famílias de palavras, porque isso já existe foneticamente. Isto não parece funcionar porque há uma grande diferença: a incongruência fonética, se existe, é determinada em liberdade pelas pessoas (por exemplo, eu, e outras pessoas, pronuncio o “p” de “Egipto,” ao contrário do Helder); ao passo que a incongruência ortográfica foi decretada por lei.

O que é ridículo é fazer leis e ficar com tantas incongruências e coisas ilógicas e excepções e coisas sem sentido como se tinha sem legislação; porque, nesse caso, mais vale estar quieto. No séc. XIX a língua portuguesa era um caos pior do que hoje? Não acredito. As pessoas sabiam escrever e entendiam-se por escrito; havia jornais e escritores decentes. O que melhorou? Nada. Apenas se mudou a confusão de um lado para o outro. E esse é sempre o problema das coisas feitas por via legislativa no que respeita à ortografia: uma ou duas pessoas sentem que são capazes de fazer melhor do que todos os escritores e autores anteriores, do que toda uma tradição centenária, e depois usam o poder político para nos impor as suas ortografias preferidas. E isso é arrogância — que rapidamente revela os seus limites quando se começa a ver que a ortografia não ficou “mais lógica” do que antes, estando ao invés cheia do mesmo tipo de tolices que antes tinha, mas noutras palavras.

Para que isto fique claro: considero tão ridículo fazer leis para tirar o “p” de uma palavra como leis para pôr o “p” nessa mesma palavra. O ridículo é haver leis ortográficas. Mas mais ridículo ainda é haver leis ortográficas que não tornam de modo algum a ortografia “mais lógica,” seja lá isso o que for.

Muitas pessoas pensam que uma ortografia é “mais lógica” se espelhar a fonética — mas isto não é linguisticamente possível. A fonética tem ritmos de evolução próprios, e diferenças regionais próprias, muitíssimo diferentes das ortográficas. Se fôssemos por essa via, os alentejanos deveriam escrever “nã” os do norte “non” e muitos outros “não,” os brasileiros deveriam escrever “Brásiu” (os portugueses “Brasil”) e as pessoas deviam escrever “tácsi” em vez de “táxi” ou passar a pronunciar “táchi” ou passar a pronunciar “tácsa” quando falam de taxas.

Em suma, o perfeccionismo ortográfico é uma ilusão linguística e o perfeccionismo ortográfico por via legislativa é, além de uma ilusão, soberba epistémica: a ilusão de que uns quantos linguistas são capazes de fazer uma ortografia mais perfeita do que a que se foi dinamicamente construindo ao longo de gerações. E, claro, nunca conseguem fazer a prometida ortografia perfeita; fazem apenas uma ortografia diferente da anterior.

14 comentários:

  1. Concordo plenamente, Desidério. E considero o ridículo ainda maior por um simples motivo: é impossível haver uma língua portuguesa única, pois a semântica, essa nenhuma lei na face da Terra pode alterar; e ela varia, bem o sabemos, de acordo com as regiões e/ou os países. Então, essa suposta lusofonia, da forma como os nossos legisladores a entendem, não passa de uma ilusão.

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  2. A mim parece-me também uma saudade dos tempos em que havia só uma norma ortográfica, em Portugal e no Brasil. Mas a ideia de que isso seria vantajoso ainda está por demonstrar. E o modo mais simples de usar uma só ortografia nas instâncias internacionais, se é isso que atrapalha tanta gente, é fazer como os ingleses, que não têm qualquer ortografia unificada e não devem atrapalhar-se na ONU com as suas mais de seis variantes ortográficas.

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  3. Já agora acrescento outro factor. Só na Crítica há quase 1500 artigos publicados com duas ortografias: a antiga portuguesa e a antiga brasileira (consoante a origem dos seus autores). Se as pessoas agora desatarem a mandar-me artigos nas novas ortografias, ficaremos com quatro ortografias diferentes. Como é que isto facilita seja o que for?

    As reformas ortográficas pertencem a um tempo em que quase não havia livros e quase não havia jornais e não havia Internet e a maior parte da população era analfabeta. Hoje em dia é pura e simplesmente falta de respeito por milhares de pessoas que já sabem escrever de uma maneira e subitamente ficam sem saber como se escreve uma dada palavra ou se se usa hífen ou não ou trema ou não. Para que fim? Nenhum que se veja. É ridículo.

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  4. Sem tirar nem pôr: este acordo é desnecessário, tal como todos os acordos ortográficos ou reformas de cima para baixo.

    Só tenho pena que os argumentos anti-acordo, por vezes, batam ao lado quando clamam contra a influência brasileira na língua portuguesa. Tal argumento é absurdo, porque, que eu saiba, os brasileiros falam português e, assim sendo, é natural que influenciem a sua própria língua. No máximo, a desvantagem seria a influência da variantes brasileiro na variante portuguesa, mas querer construir um muro entre duas variantes da mesma língua quando nem sequer há muros muito altos entre línguas diferentes cheira a medo do diferente e um certo chauvinismo.

    Mas, como diz o Desidério, o problema do acordo é, acima de tudo, este: a sua inutilidade.

    P.S. Em relação a ortografias perfeitas, veja-se o que dá as tentativas de melhorar a ortografia: http://en.wikipedia.org/wiki/Shavian_alphabet
    (O inglês tem, de facto, um ortografia bastante complexa, mas...)

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  5. Os acordos ortográfico, na verdade, vão acabando com a história de cada uma das palavras e termos que eles modificam. É uma lástima! Sem falar que poucos questionam até onde o Estado deveria por a mão na língua, pois não me parece que deveria ser de sua alçada.

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  6. Tive uma ideia esses dias: uma fusão ortográfica envolvendo as gramáticas do Brasil e de Portugal. Nessa fusão, ambas as gramáticas estariam corretas em qualquer país. Na prática, ninguém iria ter de mudar a forma de escrever que aprendeu, já que a forma que sempre usou estaria correta. As coisas ficariam basicamente como sempre foram, pelo menos no início. Mas com as vantagens de:

    -Termos nossa língua reconhecida pela ONU;

    -Um imigrante de outro país lusófono não ter de reaprender a escrever o Português, e poder dizer que o seu Português é tão válido quanto o do outro naquele país;

    -Os livros e outros materiais serem publicados em outros países lusófonos em suas formas originais, sem nenhuma preocupação com estarem infringindo regras locais.

    Penso que isso facilitaria o tal intercâmbio cultural pretendido pelos propositores do acordo, sem o grande ônus causado por ele: um rebuliço nas formas de escrever que todos já sabem.

    O que vocês pensam?

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  7. Sim, mas isso já é possível fazer. Ninguém impede um editor brasileiro de vender livros em Portugal com a variante brasileira, e de facto alguns fazem-no. Idem ao contrário.

    A mentira política, Filipe, é isto: vende-se aos políticos e às pessoas a ideia de que esta reforma ortográfica é para unificar, para conquistar o mundo, etc. Mas não é. Para fazer tal idiotice bastaria declarar uma delas a oficial, na ONU, ou declarar ambas. Na verdade, como é evidente, ambas as variantes são legítimas e reconhecidas como tal internacionalmente. E ao passo que há duas variantes de português há muitas mais de inglês, por exemplo.

    A mentira é então esta: aquelas pessoas que fizeram a reforma ortográfica queriam apenas mudar a ortografia, só porque sim, e não por quaisquer razões de unificação. Mas mentem e dizem aos políticos e às populações que é para unificar. Se fosse para unificar o princípio da reforma não teria sido o fonético! É preciso nunca esquecer isto. Se queremos unificar ortograficamente as duas variantes, o princípio fonético é precisamente o que NÃO se pode usar, porque falamos as mesmas palavras de maneiras diferentes. Daí o caso de “espectador” e “espetador.” Qual é a vantagem de nós passarmos a escrever a mesma palavra de maneira diferente, quando agora ambos a escrevemos do mesmo modo? Em que sentido é isto uma unificação, Filipe?

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  8. Em sentido nenhum, ora! Numa conversa anterior, já "capitulei"; admito já que a ideia de uma unificação ortográfica é impossível, ou muito onerosa. No meu comentário, tratei do assunto em geral, que é a preservação da Língua Portuguesa. Isto é, que impeçamos que, no curso da história, o pt-BR e o pt-PT se tornem em idiomas distintos.

    Propus, então, a tal fusão ortográfica, como auxiliar aos esforços para o intercâmbio cultural: seria reconhecer ambas as ortografias como oficiais nos dois países. Algum editor já pode vender livros em Portugal com a variante brasileira, mas (corrija-me se eu estiver errado), seria como publicar um livro em idioma estrangeiro que todos soubessem ler. Aquela forma de escrever não é válida lá, de verdade, ou é? E se um menino brasileiro, de tanto ler livros em pt-PT acabar por escrever "Egipto", em uma dissertação? Pobre menino, perderá pontos. Daí a um tempo, surgirão professores recomendando que os jovens evitem ler a variante que não a do seu próprio país, para que não corrompam a sua ortografia. Não quero dizer que deva-se aprender as duas formas na escola! De jeito nenhum! Só desejo garantir que alguém, por ser estrangeiro lusófono, ou por ter sido influenciado pelo intercâmbio cultural, não será prejudicado. Sem essas garantias, penso que o tal intercâmbio fracassará.

    É sobre essa ideia que pergunto: o que você pensa?

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  9. Saramago, e outros autores, não permitem que se mude no Brasil a ortografia dos seus livros, e eu acho muito bem. Outros autores brasileiros farão talvez o mesmo, relativamente a publicar em Portugal. É esse o caminho. Na verdade, são os editores que temem que os leitores rejeitem os livros com a ortografia, léxico e gramática do outro país; mas os leitores não se importam.

    Quanto aos contextos escolares: é só considerar qualquer das duas ortografias, gramáticas e léxicos correctos. Nada custa dar a conhecer às pessoas de ambos os países as diferenças das duas variantes.

    Já agora conto uma história engraçada. Uma vez um amável leitor da Crítica enviou-me um email para eu corrigir uma tradução qualquer na qual eu tinha escrito “pequeno-almoço”, pensando que era um galicismo! Este leitor era tão alheio à cultura portuguesa que desconhecia que em Portugal um café da manhã é apenas um café que se bebe de manhã, ao passo que a refeição que se toma de manhã se chama mesmo “pequeno-almoço”, como em França. Também se chama “desjejum”, o que é até mais correcto, mas este termo caiu infelizmente em desuso desde o séc. XIX — presumivelmente porque era mais fino usar uma expressão afrancesada.

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  10. Bom, entendo o que você disse, mas, infelizmente, não consegui compreender o que você achou da ideia. Comparando o meu "Propus, então, a tal fusão ortográfica, como auxiliar aos esforços para o intercâmbio cultural: seria reconhecer ambas as ortografias como oficiais nos dois países." com o seu "Quanto aos contextos escolares: é só considerar qualquer das duas ortografias, gramáticas e léxicos correctos. ", entendi que você esteja de acordo com ela.

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  11. Sim, não vejo problema na ideia. Contudo, é natural que nas escolas brasileiras se adopte a norma brasileira e nas portuguesas a portuguesa. O que não deve é insistir-se que só uma delas é correcta. Ambas o são. E nas universidades e outros documentos legais qualquer uma delas deveria ser aceitável.

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  12. Só para desabafar: fiquei mesmo chateado quando vi no expresso.pt uma simples palavra adoptada para o novo acordo: aspe(c)to. A palavra aspeto lê-se "aspêto", e aspecto, "aspécto", ou seja, ao retirar o "c" muda-se a forma de ler a palavra, o que é irritante e sem sentido.

    Portanto o "Por outro lado, não consideramos a ideia de que a ortografia afecta a fonética, mas sim o contrário." é treta.

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  13. É claro que é treta. Essa é uma das razões pelas quais uma pessoa pode, por princípio, ser favorável a reformas ortográficas, mas ser contra esta em particular -- porque, linguisticamente falando, está mal feita: torna a ortografia mais ilógica e até mais difícil de aprender.

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  14. Sobre o comentário do Filipe Calvário, que com gramáticas e ortografias comuns entre Portugal e o Brasil, teríamos, de entre outras músicas celestiais, «...nossa língua reconhecida pela ONU», deixo a minha opinião no link seguinte. E insisto que o "português-unificado-língua-oficial-na-ONU" é uma abominável Mentira de Estado. Renegada, depois, pelo próprio Estado. Assim: http://issuu.com/roquedias/docs/jrd_aolp_onu?mode=a_p

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