O Helder tem a paciência de comentar aqui este meu post. Posso estar enganado, mas parece-me que o Helder usa um argumento que não funciona, segundo o qual não faz mal ter incongruência ortográfica nas famílias de palavras, porque isso já existe foneticamente. Isto não parece funcionar porque há uma grande diferença: a incongruência fonética, se existe, é determinada em liberdade pelas pessoas (por exemplo, eu, e outras pessoas, pronuncio o “p” de “Egipto,” ao contrário do Helder); ao passo que a incongruência ortográfica foi decretada por lei.
O que é ridículo é fazer leis e ficar com tantas incongruências e coisas ilógicas e excepções e coisas sem sentido como se tinha sem legislação; porque, nesse caso, mais vale estar quieto. No séc. XIX a língua portuguesa era um caos pior do que hoje? Não acredito. As pessoas sabiam escrever e entendiam-se por escrito; havia jornais e escritores decentes. O que melhorou? Nada. Apenas se mudou a confusão de um lado para o outro. E esse é sempre o problema das coisas feitas por via legislativa no que respeita à ortografia: uma ou duas pessoas sentem que são capazes de fazer melhor do que todos os escritores e autores anteriores, do que toda uma tradição centenária, e depois usam o poder político para nos impor as suas ortografias preferidas. E isso é arrogância — que rapidamente revela os seus limites quando se começa a ver que a ortografia não ficou “mais lógica” do que antes, estando ao invés cheia do mesmo tipo de tolices que antes tinha, mas noutras palavras.
Para que isto fique claro: considero tão ridículo fazer leis para tirar o “p” de uma palavra como leis para pôr o “p” nessa mesma palavra. O ridículo é haver leis ortográficas. Mas mais ridículo ainda é haver leis ortográficas que não tornam de modo algum a ortografia “mais lógica,” seja lá isso o que for.
Muitas pessoas pensam que uma ortografia é “mais lógica” se espelhar a fonética — mas isto não é linguisticamente possível. A fonética tem ritmos de evolução próprios, e diferenças regionais próprias, muitíssimo diferentes das ortográficas. Se fôssemos por essa via, os alentejanos deveriam escrever “nã” os do norte “non” e muitos outros “não,” os brasileiros deveriam escrever “Brásiu” (os portugueses “Brasil”) e as pessoas deviam escrever “tácsi” em vez de “táxi” ou passar a pronunciar “táchi” ou passar a pronunciar “tácsa” quando falam de taxas.
Em suma, o perfeccionismo ortográfico é uma ilusão linguística e o perfeccionismo ortográfico por via legislativa é, além de uma ilusão, soberba epistémica: a ilusão de que uns quantos linguistas são capazes de fazer uma ortografia mais perfeita do que a que se foi dinamicamente construindo ao longo de gerações. E, claro, nunca conseguem fazer a prometida ortografia perfeita; fazem apenas uma ortografia diferente da anterior.
14 comentários: