24 de janeiro de 2010

Impessoal e reflexivo, de novo

Já falei nisto, mas insisto. Há uma diferença óbvia entre “A Joana pode vestir-se” e “A Joana pode-se vestir.” No primeiro caso, trata-se de ela poder vestir-se a si mesma, presumivelmente por ser uma pessoa saudável. No segundo caso trata-se de afirmar o mesmo que a passiva “A Joana pode ser vestida”, que quer dizer o mesmo que “Alguém pode vestir a Joana.” O que está em causa é uma certa confusão entre verbos reflexivos e o impessoal.

Do meu ponto de vista, está correcto dizer “Pode-se argumentar que...”, pois isto é apenas o impessoal de “Podemos argumentar que...”; e está incorrecto o reflexivo "Pode argumentar-se que...", pois não faz sentido que um argumento se argumente a si mesmo.

Note-se também que quem não aceita o meu argumento fica sem oportunidade para escrever “poder-se-ia”, o que seria estranho.

Trata-se de um pormenor, mas a vida intelectual sofisticada é feita de pormenores.

23 comentários:

  1. Dica interessante. Nossa língua é muito rica. As nuances e o detalhe fazem a diferença.

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  2. O incrível é o modo como em português estas irracionalidades tendem a tornar-se norma devido à pura teimosia. Em inglês uma dupla negativa é simplesmente um erro. Ponto final. Como a lógica não muda só por se atravessar o canal da mancha, devia ser igualmente errada em português. Contudo, como muita gente usa a dupla negativa, arranja-se a desculpa de que "é para dar ênfase" e transforma-se a javardice em norma linguística. Claro que isto só é possível quando aliado à doença do "prontos, mais ou menos, coiso", ou seja, à mania de pensar que os detalhes não importam e que só a ideia geral interessa, desde que eu seja compreendido na mercearia a comprar batatas, serve, não é preciso burilar mais. A ideia da "ênfase" é simplesmente ridícula no caso da dupla negativa. Vou passar a escrever coisas como "subir para cima" e depois digo que está bem porque é só para dar ênfase. Afinal, esta nem tem a consequência da dupla negativa, que é inverter o sentido do que se afirma.

    O mesmo acontece com esta treta da confusão entre reflexivo e impessoal. E ninguém é tão teimoso nisto como os supostos guardiães da norma linguística. Preferir-se-á mil vezes transformar o erro em norma através de um ilusionismo pragmático como a treta da "ênfase", do que reconhecer o erro e simplesmente não o cometer. O resultado depois é termos uma língua cheia de confusões, o que se revela mal é preciso usá-la com grande cuidado e pormenor.

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  3. 1. No caso da dupla negativa, a mesma é aceite em algumas línguas e noutras não, sem qualquer relação com a lógica. As regras de gramática não são criadas para obedecer aos desejos de termos uma língua que obedece a este ou aquele critério lógico. Em português, "não há nenhuma hipótese" é aceitável, mas em inglês não é possível dizer, na norma, "there isn't no chance". Também em inglês é necessário explicitar sempre o sujeito, enquanto em português tal não é necessário ("Falei com ele"; "I spoke with him").

    Ambas as regras são traços próprios de cada língua e apenas a influência do inglês traz esta polémica ao português. Também o inglês tem destas manias criadas artificialmente, como a proibição do "split infinitive", criada há uns séculos para adequar as regras do inglês à gramática latina (tal como hoje se pretende proibir a dupla negativa portuguesa como espelho da regra inglesa).

    Não existe a mínima perda de clareza ao dizer "não há nenhuma hipótese" em vez de "não há qualquer hipótese". Aliás, "proibir" a primeira hipótese reduz os recursos expressivos da língua, sem qualquer acrescento em termos de precisão, para lá dum infundado e desnecessário desejo de adequar a gramática a operações lógicas básicas. Se quisermos ir por aí, temos de mudar toda a estrutura da língua. Mas, como disse, "não há nenhuma hipótese" é perfeitamente claro para todos os falantes.

    Por fim: a nossa língua tem tantas confusões como qualquer outra língua. O estilo de cada um é que pode ser confuso ou não.

    2. Um pormenor: "A Joana pode vestir-se" tem como sujeito "A Joana"; "Pode argumentar-se" não tem como sujeito "O argumento", mas sim um "ele" implícito que, por via de estarmos perante o impessoal, nunca pode ser explicitado em português. Por isso, dizermos "Pode argumentar-se" não tem como sentido, para nenhum falante do português, "o argumento pode argumentar-se a si próprio", tal como a frase "A Joana pode vestir-se" também não é exactamente a mesma coisa que "Pode vestir-se a Joana" (neste último caso o sujeito já não é "a Joana", mas sim o tal "ele" obrigatoriamente implícito).

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  4. Só um esclarecimento: nada do que disse implica um ataque à lógica. Acho que o estudo da lógica no secundário é importantíssimo e penso que todos ganhamos em expressar-nos de forma mais clara.
    No entanto, estamos a falar de sintaxe e não da lógica do texto: é essa a confusão que tentei esclarecer.
    Por exemplo, o facto de "não há nenhuma hipótese" ser perfeitamente aceitável em português não implica que a frase "É mentira que o João não tenha ido a Paris" não queira dizer "O João foi a Paris". Aí sim, estamos a falar de lógica ou da falta dela. No caso da "dupla negativa", estamos a falar de regras sintácticas, que mudam conforme as línguas.
    Cumprimentos a todos!

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  5. Outro exemplo (e prometo que vou dormir!): em francês, a negativa implica quase sempre duas partículas negativas ("ne" e "pas", por exemplo), sem qualquer problema lógico. A frase "não há nenhuma hipótese" também tem esta característica (o português permite a utilização de duas partículas negativas para expressar a negativa). Outro "pormenor": não há, que eu saiba, nenhuma língua em que a dupla negativa tenha o sentido de "afirmação", ou seja, em nenhuma língua (nem em inglês) a utilização de duas partículas negativas torna a frase afirmativa. Em todas as línguas, a dupla negativa tem o significado de negativa, sendo que em algumas línguas é uma construção correcta segundo a norma (ex. português), enquanto noutras não o é (ex. inglês). Estes são factos linguísticos, independentes da opinião própria relativa à lógica de cada língua.

    As regras sintácticas não têm de seguir regras lógicas ou matemáticas: estamos a falar de coisas diferentes. O nosso discurso é que pode ser lógico ou ilógico.

    Cumprimentos de novo!

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  6. Ótimo comentário. A observação está não só correta como levanta a riqueza de nossa língua, que, pelo menos aqui no Brasil, anda sendo muito mal falada e escrita.

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  7. Não concordo com a questão da dupla negativa, Marco, se me permite. Não se trata de copiar a língua inglesa, mas de respeitar a inteligibilidade. Concordo que na linguagem coloquial a dupla negativa com sentido de negativa não levanta problemas. Mas também em inglês não levanta problemas, e é realmente usada assim (apenas a norma culta rejeita tal uso).

    E não se trata de copiar a língua inglesa, mas de ficar sem recursos expressivos na língua sofisticada, se permitirmos a baldice da negação dupla para dar ênfase. O que significa dizer “Não há nada”? Em muitos textos filosóficos que escrevi ou traduzi preciso de dizer isto não no sentido de dizer que não há coisa alguma, mas no sentido de dizer o que o nada não existe. E é em muitos casos deste género, quando estamos a fazer com a língua mais do que comprar batatas ou dizer mal de políticos, que o uso da dupla negativa como mera ênfase (morta, dado que já nem tem poder de ênfase por ser sistematicamente usada) é uma tolice. A língua culta não poderia permiti-lo. Permite-o. Logo, é porque não há sequer língua culta em português.

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  8. Mais uma vez se apresenta um facto sociológico (muitas línguas toleram a baldice) como se isso conferisse carácter normativo ao uso, como se o justificasse. Quando questiono a legitimidade de usar a dupla negativa não estou a pedir uma lista de quais as línguas (além do português) onde isto se faz. Estou a perguntar o que justifica nessas línguas que se tolere sistematicamente isso no uso literário, não coloquial, etc. Se eu perguntar o que justifica que se roube, não é uma lista de muitas pessoas que roubam que vai responder à pergunta.

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  9. Obrigado pelas respostas aos meus comentários nocturnos!
    Vou talvez escrever um pouco mais do que devia; penso que todos gostamos de uma boa discussão, e gostaria de explicar os meus argumentos de forma mais explícita.
    Quanto a mim, não se trata de falácia factualista. A lista de línguas mostra apenas que a dupla negativa não é uma falha específica do português (sendo que nalgumas línguas é uma característica obrigatória).
    Por outro lado, para considerarmos a dupla negativa como uma falha, teríamos de provar que a sua utilização implica um discurso menos lógico, o que não é o caso. A dupla negativa (um mecanismo sintáctico) é uma forma que várias línguas têm para expressar um valor lógico: a negação. Pode servir como ênfase ou ser aliás a única forma permitida de expressar a negação (como no caso do francês).
    Dizer que a dupla negativa está errada em português apenas pode ter como base a crença de que a sintaxe deve obedecer a operações lógicas de forma matemática, sendo que assim a dupla negação equivale a uma afirmação. Ora, a sintaxe não funciona assim e não deve funcionar assim: a sintaxe é um conjunto de regras que cada língua possui para criar sentido; é esse sentido pode ser mais ou menos lógico. Ou seja, a dupla negativa é como a mão que rouba ou não rouba: posso utilizá-la para expressar uma negação lógica ou ilógica ou ainda verdadeira ou falsa ("Não tenho nada no bolso." pode ser verdadeiro ou falso, mas, em português, tem o mesmo significado que "o meu bolso está vazio"). Além disso, a dupla negativa aumenta a gama expressiva duma língua, sem diminuir a capacidade de nos expressarmos de forma lógica.
    [continua]

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  10. O que quero dizer é: cada língua tem os seus mecanismos para expressar a negação, que podem implicar uma, duas ou mais partículas. Daí não devemos tirar conclusões sobre a lógica desta frase. Estamos a falar de coisas diferentes. A sintaxe pode estabelecer que, para criar a negativa, são necessárias duas partículas (tal como pode estabelecer que o sujeito pode ser explícito ou implícito). Não há nada de ilógico nisto (reparem que esta frase tem uma dupla negativa, cujo sentido é perfeitamente transparente para todos os falantes do português). O facto de o francês necessitar de duas partículas negativas para expressar o valor negativo ("ne" e "pas") não lhe tira qualquer tipo de lógica. É uma regra equivalente à regra que obriga a utilizar o verbo auxiliar “to do” para expressar a negativa no que toca à maioria dos verbos ingleses. Da mesma forma, em português, por exemplo, palavras como “nenhum”, “nada”, etc. estão ao mesmo nível do “pas” francês: implicam o verbo na forma negativa. Daqui não decorre que haja dois valores negativos que se anulam (nem devia decorrer).
    Para expressar operações lógicas, a melhor forma é utilizar a notação lógica. Tentar martelar a sintaxe para se adequar a operações lógicas não dá bom resultado e cria expressões como “tenho nada no bolso” (em vez de “não tenho nada no bolso”) ou “je ne sais” (em vez de “je ne sais pas”). Ninguém torna o discurso mais claro por deixar de utilizar a dupla negativa. Isso só aconteceria se esta pudesse ter o significado de afirmação, que não tem (mais uma vez, em nenhuma língua). Porque haveria de ter? Na nossa sintaxe, a repetição duma afirmação reforça-a; o mesmo acontece na negação (a lógica está no sentido de cada enunciado, não nas várias regras sintácticas que o mesmo segue).
    Dizer que cada partícula negativa numa frase tem um valor lógico que deve ser tratado como numa expressão lógica (ou seja, dizer que "Não há nenhum homem alto" deve ser entendido como "há alguns homens altos") é extrapolar as regras das operações lógicas para a sintaxe, quando são coisas diferentes. "Não há nenhum homem alto" é uma forma perfeitamente gramatical e lógica de expressar o sentido que todos percebemos na frase.
    Se assim não fosse, teríamos de recusar frases como "Não tenho nada na mala"; "Não sei nada sobre o assunto"; Não tenho nenhum problema com a questão" e por aí fora. Ora, não há nada nestas frases que indique que os seus autores estejam a ser menos lógicos do que se dissessem "Tenho nada na mala"; "Sei nada sobre o assunto", etc.
    (Para dizer "o nada não existe", podemos dizer "o nada não existe" ou, de forma um pouco estranha, "não há o nada". Segundo as regras sintácticas portuguesas, "não há nada" tem outro sentido.)
    2. Isto não quer dizer que, na minha opinião, o uso de determinada expressão a legitime ou a torne lógica. Nada disso. Há formas muito mais claras de falar ou escrever do que outras, há frases confusas e frases límpidas, há textos lógicos e textos ilógicos. Só que a dupla negativa não tem nada a ver com isso: é uma das regras do português com que trabalhamos. O francês é uma língua bastante culta (para usar a tal linha de continuidade) e utiliza duas partículas para expressar a negativa (sei que daí não deriva necessariamente a aceitação da dupla negativa; mas ajuda a mostrar que não há desvantagens intrínsecas na utilização da mesma). Considerar a frase "Não tenho nada no bolso." como incorrecta não traz qualquer vantagem lógica e não mostra qualquer falta de "logicidade" do português. Na realidade, parece-me que insistir nestes pontos acaba por nos fazer desviar a atenção das verdadeiras falácias, das falhas de raciocínio, das canetas que voam na lua (“não há nenhuma caneta que voe na lua!”) e por aí fora.
    Deixem-me que vos diga que esta é uma discussão interessantíssima! A descoberta da Crítica foi uma dos grandes prazeres que tive nos últimos tempos. Obrigado!

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  11. Uma língua tem maior ou menor poder expressivo, clareza e estruturação. O modo como usamos a dupla negação gera confusões. Não, é claro, em textozecos de jornal ou na conversa sobre a novela, mas em muitos textos filosóficos. Volta e meia vejo esse problema em textos filosóficos e tenho de chamar a atenção dos alunos.

    Ora bem, nada custa evitar tal tolice. Eu nunca escrevo nem traduzo usando duplas negativas enfáticas com valor de negativa. Os textos ficam mais explícitos, menos ambíguos, mais correctos. Não, é claro, quando escrevo palermices como estas, em que tanto faz. Mas quando escrevo coisas mais sofisticadas faz uma enorme diferença.

    As línguas são o que as pessoas fizerem delas. Não são entidades estáticas. São dinâmicas. Vão mudando consoante as necessidades das pessoas. De modo que argumentar que é assim porque tem sido assim não funciona. Terias de mostrar (ui, desculpe o tu) que não há perda de clareza e precisão na negação dupla com sentido de negação. Mas há. Basta ler alguns textos filosóficos bons sobre por que há algo em vez de nada para isso começar logo a aparecer, sistematicamente.

    Portanto: o que está em causa é se melhoramos ou não a inteligibilidade dos textos usando uma norma culta diferente da norma popular que temos hoje. E a resposta é “sim”. O único género de argumento contra isto é mostrar que o uso que temos hoje nunca dá origem a problemas, e não que não dá origem a problemas no registo popular.

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  12. Compreendo o argumento, mas não me parece razoável exigir que, para ser aceitável pela norma, determinada construção nunca crie problemas. Quase todas as construções sintácticas criam problemas numa ou noutra situação ou num ou noutro contexto. Estaríamos a restringir de forma absurda a norma da língua; o que temos é de ter mais cuidado nesses mesmos campos e utilizar a língua de forma clara nesse momento.

    Por exemplo, o facto de o sujeito poder ser implícito em português pode criar problemas quando queremos dizer frases como "Tinha a faca e o queijo na mão". Estamos a falar da primeira ou da terceira pessoa? Neste caso, teremos de explicitar, mas tal não implica que o sujeito implícito deva ser erradicado da língua. Assim, se a dupla negativa cria problemas, não a devemos utilizar quando cria problemas. Além disso, generalizar esta proibição implicaria aceitar expressões como "tenho nada nos bolsos", tal como generalizar no caso do sujeito implícito implicaria termos de começar a dizer "eu vou", "eu sou", etc. em todas as situações. Como dizes (também retribuo o "tutear"), a língua é dinâmica e a própria norma deve aceitar diferentes "subnormas" dependendo da área e da utilização da língua: a escrita filosófica não é o mesmo que a escrita da História, ou da literatura, e a norma deve "apanhá-las" a todas.

    Sem querer abusar da paciência, pus-me a pensar nesta discussão.

    Qualquer dos meus interlocutores deseja uma linguagem mais clara, mais lógica, desejo que eu partilho sem hesitação. Assim, qual a origem desta divergência?

    Na realidade, penso que está no próprio conceito de "dupla negativa". Em lógica, significa dois valores negativos que, assim, se anulam e criam um valor positivo (corrijam-me se estiver enganado; algo como ~~p=p).

    Ora, em termos de sintaxe, temos dois tipos de "dupla negativa":

    (a) Construções como "Não há nada", em que na realidade estamos perante uma só negativa, dividida em dois morfemas. Ou seja, chamar "dupla negativa" a esta construção é erróneo: a negativa é só uma, expressa em duas partículas, de acordo com as regras de cada língua (como em francês: ne+pas). Podemos chamá-la "negativa de partícula dupla", ou "negativa complexa", mas não deveríamos utilizar "dupla negativa", porque negativa, aqui, há só uma.

    (b) Construções como "Não é nada que eu não tenha dito", em que de facto temos duas negativas que se anulam (equivale a dizer "é algo que eu disse"). Confusões relacionadas com esta dupla negativa são, de facto, confusões lógicas.

    Não concordar com a negativa de partícula dupla (a) é o mesmo que não concordar com a conjugação da terceira pessoa do indicativo. Utilizar correctamente a dupla negativa em (b) é uma exigência lógica (ou seja, utilizá-la com sentido positivo).

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  13. Outro pormenor que talvez ajude a esclarecer a minha posição: uma frase pode ter várias negações (sendo que uma dupla negação deverá ter um sentido positivo), mas uma oração, em português, ou é negativa ou é afirmativa, usando-se para expressar esses dois valores vários tipos de construção válidas, incluindo construções em que a negação é expressa por mais do que uma partícula. A negação é uma propriedade sintáctica da oração e não duma palavra em particular ou duma frase composta. Por isso, "não há nada" (em que "nada" é um pronome indefinido e não o substantivo "o Nada") é uma oração negativa, tal como "não tenho nada no bolso", "não há nenhum homem", ou "não há qualquer homem" ou "elle ne sait rien" (são tudo orações negativas). A frase "não foi nada que eu não tivesse dito" contém duas orações negativas e, em consequência, é afirmativa (significa "eu já tinha dito isso").

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  14. Marco, as pessoas hoje nos EUA, de certos estratos culturais, usam “There ain’t none here” como em português; e o mesmo acontecia no Reino Unido até há 50 anos (não sei se ainda ocorre hoje). Portanto, esta era uma subnorma da língua inglesa. Por que razão se rejeitou essa norma noutros estratos da língua? Por provocar confusões escusadas e por retirar poder expressivo à língua. Mas só nos apercebemos disso quando usamos a língua em contextos muitíssimo sofisticados.

    Ora bem, eu sei que a norma balda da língua tuga é dizer “Não está aqui ninguém” em vez de “Não está aqui qualquer pessoa”, como seria mais claro. Não estou a querer mudar tal coisa. Estou só a dizer que quem escrever com lucidez e cuidado não tem qualquer razão (cá está, não escrevi “não tem nenhuma razão”) para aceitar esta balda. Só não se topa que é balda e não dá origem a confusões quando usamos a linguagem apenas para fazer relatos de futebol ou para contar histórias engraçadas na literatura. Qualquer discurso mais sofisticado vai ter problemas, porque não é óbvio, em variadíssimos contextos, que se compreenda claramente tratar-se de uma negação apenas.

    Concordo que não se vai agora impedir as pessoas de escrever como bem lhes apetecer, ou ainda menos de falar. Estou só a dizer que se uma pessoa quer escrever com lucidez em português, contrariando a balda do costume, não irá usar a negação desse modo porque cedo ou tarde terá problemas se o fizer para falar de mais do que de trivialidades quotidianas. Mas é claro que sei que Fernando Pessoa e Eça, só para usar dois exemplos que conheço bem, usavam a negação dessa maneira: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Curiosamente, já vi muita boa gente a “filosofar,” interpretando isto como se dissesse literalmente que o narrador do poema não é coisa nenhuma, mas sim algo, em vez de dizer que é um nada sem significado.

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  15. a) A evolução da construção da negativa em inglês é uma determinada evolução, que não tem impacto na expressividade da língua. Há línguas em que esta construção tem uma evolução diferente e nada nos garante que a norma do inglês não venha a aceitar de novo a construção da negativa com duas partículas. O francês obriga à utilização de duas partículas, sem que tal seja mais confuso do que no caso do inglês.

    Outro exemplo do mesmo tipo: no português do Brasil, o sujeito implícito está a desaparecer, e tal não significa que seja melhor (ou pior) que o sujeito explícito (o francês não permite o sujeito implícito, o espanhol permite: é um dos parâmetros arbitrários de cada sintaxe). A evolução de cada língua segue caminhos difíceis de descortinar e determinado facto da evolução do inglês não tem de ter impacto noutras línguas.

    b) Balda é utilizar uma construção de forma a que possa ser ambígua. Por exemplo, o pronome "seu", em português, não indica o género ou número do possuidor, ao contrário do que acontece em inglês ("his", "her", "their"). É um "problema" do português, e por isso devemos evitar o pronome "seu" em frases como "O João deu à Ana o seu livro" -- o livro é do João ou da Ana? Tal não implica que o pronome "seu" não seja legítimo (repare-se na utilização correcta da dupla negativa com sentido afirmativo nesta frase). Assim, se a construção "não+verbo+nada" é ambígua em determinado contexto, não se deve utilizar. No entanto, será difícil, tirando casos muito particulares, confundir o pronome "nada" com o substantivo "(o) nada". Diz-me o Desidério que "não é óbvio, em variadíssimos contextos, que se compreenda claramente tratar-se de uma negação apenas." Não consigo encontrar um grande número de casos em que esta construção possa ser confusa (tal como também não encontro muitos casos em que a construção "não+verbo+nenhum" seja ambígua). Seja como for, nos casos de ambiguidade, não devemos utilizar tais construções, tal como também devemos ter cuidado com os pronomes possessivos, etc. Há imensas áreas de utilização sofisticada e formal da língua em que estas construções não criam qualquer ambiguidade e são usadas de forma correcta e clara.

    (Já agora, a regra sintáctica do português implica que a construção da negação quando se utiliza a palavra "nada" implica o verbo na negativa quando "nada" vem a seguir ao verbo, mas não quando vem antes. "Nada há" = "Não há nada".)

    c) Balda é (não) compreender as regras da sintaxe do português de forma a interpretar as frases "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” em sentido diverso daquele que é óbvio segundo essas mesmas regras. Dizer que o poeta quer dizer que “Sou algo” porque existem duas partículas na construção da negativa faz tanto sentido como dizer que "je ne sais pas" quer dizer "je sais" porque as duas partículas anulam-se. Duas negações anulam-se, mas aqui temos apenas uma negação, segundo as regras sintácticas portuguesas (e francesas, espanholas, etc.). As capacidades linguísticas dos falantes permitem distinguir perfeitamente as duas situações, como no caso que referi: “Não é nada que eu não tenha dito”, em que há uma negativa com duas partículas (construção sintáctica) e ainda uma dupla negativa com sentido afirmativo (a lógica da frase, que tem duas orações negativas).

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  16. d) Balda também é confundir regras sintácticas com a lógica de determinada frase. Nada há de pouco lógico na frase "Não há nada no argumento que não leve a concluir..." : temos duas construções sintácticas da negativa perfeitamente aceitáveis (utiliza duas partículas no primeiro caso e uma só no segundo, de acordo com regras sintácticas bem documentas e compreendidas por todos os falantes) e temos o sentido afirmativo que advém de existirem duas orações negativas na frase: os falantes do português compreendem perfeitamente que uma dupla negativa tem como sentido uma afirmação. A confusão vem de se achar que "não há nada" é uma dupla negativa: é apenas uma forma de expressar uma negação (tal como "ne+rien" em francês, etc.). É incrível como os mecanismos internos dos falantes conseguem "apanhar" este tipo de cambiantes, mas é o que acontece (e é espantoso).

    Por fim, resta-nos concluir que, num texto sofisticado, quando aparecer uma construção como "Não há nada neste argumento..." vou continuar a compreender o texto e a considerá-lo perfeitamente aceitável e o Desidério vai compreendê-lo da mesma forma, embora o considere pouco sofisticado. Este facto nada de mal traz ao mundo (ou não traz nada de mal ao mundo).

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  17. As línguas evoluem numa ou noutra direcção em função do que algumas pessoas que a usam fazem com ela. É por isso que é falacioso argumentar que devemos usar a língua de uma certa maneira porque toda a gente entende bem na maior parte dos contextos. Porque sendo assim nunca se teria mudado coisa alguma. A língua muda sempre. A questão é se queremos que mude à balda, ou se queremos que mude no sentido da maior precisão. É só isso que está em causa. O exemplo do “ele” nos escritos brasileiros é muito bom por isso mesmo. Eis uma mudança em que ninguém pensou. Resulta apenas de a maior parte dos livros que estão hoje nas livrarias brasileiras são traduções do inglês feitas à maluca. É isto que queremos nas mudanças de uma língua?

    As relações entre descrição e norma são sofisticadas. O tique do linguista descritivo é olhar apenas descritivamente para a língua, como se esta nos fosse dada por deuses. Não é. É feita por nós. Todas as normas linguísticas são feitas por nós. A diferença é fazê-las com pés e cabeça ou fazê-las à toa.

    A dupla negativa em português dá origem a demasiada imprecisão, mal se sai da língua quotidiana e se tenta exprimir um pensamento mais complexo. Daí a minha analogia com o que ocorre com o inglês. Não é por provocar confusão no uso popular da língua que se decidiu que a dupla negativa era um erro. Aí, não haveria confusão alguma. Fez-se isso por uma questão de precisão noutros contextos. E qual é o problema de se ter feito isso? Do ponto de vista descritivo, que é o seu, nenhum, já que se fez. Mas ironicamente antes de isso ter sido feito você argumentaria que não se devia fazer, porque não estava feito. Estranho argumento.

    Eu não aceito conservadorismos linguísticos nem revoluções ortográficas feitas de encomenda. São dois extremos igualmente indefensáveis. A língua, se a queremos precisa, tem de se alimentar de pequenos toques de quem a usa para a tornar mais escorreita e precisa. Isto significa que precisamos de uma boa dose de bom senso, navegando entre a norma e a descrição. Nem devemos reificar a norma abstracta, feita no gabinete à revelia das pessoas, nem reificar qualquer uso que as maiorias dão à língua só por serem maiorias.

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  18. O Desidério diz-me que estou a ser descritivista, mas não estou. Há más e boas utilizações da língua. Critico e evito todas as construções ambíguas, incluindo o pronome "seu" e a negativa com várias partículas em textos sobre lógica ou sobre "o nada". Mas, tirando esses textos, leio vários textos sofisticados e complexos onde a negativa com duas partículas é perfeitamente clara e bem utilizada: em física, biologia, direito, história, etc. (e em francês, por exemplo).

    A construção verbo na negativa + partícula negativa complementar ("não é nada", "não há nenhum") é uma construção típica das línguas latinas, que pode ser bem ou mal usada (tal como os pronomes e todas as outras regras sintácticas). Não me parece que a frase "Não há nada neste argumento que nos leve a...." não pudesse aparecer em qualquer texto legal. (Aqui estou a utilizar a dupla negativa do sentido da frase, não da sintaxe, com o sentido correcto de afirmação: "Parece-me que a frase pode aparecer...").

    Penso que a discussão radica na confusão quando à natureza das regras sintácticas. Tal como determinado conceito pode ser expresso como "dog", "cão" ou o que for, o sentido da negação pode ser expresso por uma, duas ou mais partículas, dependendo da língua. Tal não implica que se aceite tudo. Considerar que a frase "Não foi nada que eu não tivesse dito" significa que "eu não disse nada disso" é um erro lógico e sintáctico. Esse tipo de erros deve ser evitado. Utilizar duas partículas ou pronomes ou o que for de forma ambígua deve ser evitado.

    Mas, tal como não afirmo que a utilização do pronome "seu" é sempre fruto de falta de sofisticação (o uso em expressões ambíguas é que o é), o uso da negativa com várias partículas também só é "balda" ou pouco sofisticada se der origem a ambiguidades.

    Em inglês, a negativa com duas partículas foi recusada pela norma, por várias razões, mas em francês não o foi (é, inclusivamente, obrigatória). Daí deriva que em francês a negativa é pouco sofisticada ou imprecisa? Claro que não: há utilizações mais ou menos precisas, mas todas utilizam duas partículas. Como disse, também em português, podemos utilizar esta construção de forma precisa ou não e é aí que nos devemos bater: pela utilização clara, precisa e lógica da língua. Diga-me: se lhe disser que "não há nada naquele quarto" ou "Portugal não teve nenhum rei chamado Rodrigo", estou a ser pouco lógico ou preciso? Se estas frases, nalgum contexto, possam ser interpretadas de forma ambígua (como todas as frases podem ser interpretadas de forma ambígua em certos contextos), basta não as utilizar ou reformulá-las de forma menos ambígua (tal como devemos reformular "O João deu à Joana o seu livro" para "O João deu o seu livro à Joana" ou "O João deu à Joana o livro dela", dependendo do sentido).

    Daqui não me parece que se possa inferir que estou contra a mudança. Antes pelo contrário. Estou apenas contra a condenação duma velha construção das línguas latinas, que só faz mal a alguém se cair em mãos erradas, com base na confusão entre uma regra sintáctica clara (a construção da negativa utilizando duas partículas) com o sentido da frase (em que uma dupla negação tem sempre o sentido de uma afirmação, desde que não nos expressemos à balda, como infelizmente acontece muitas vezes).

    Parece-me nada mais haver a fazer que não seja concordar em discordar...

    (Subscrevo sem qualquer hesitação quando diz "Nem devemos reificar a norma abstracta, feita no gabinete à revelia das pessoas, nem reificar qualquer uso que as maiorias dão à língua só por serem maiorias.")

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  19. Pois, parece que pelo menos conseguimos ver onde discordamos. É uma questão de ênfase. Não me importaria que se escrevesse “Não me importaria nada” sistematicamente desde que isso não provocasse tanta imprecisão e confusão. Nos casos em que a provoca, estamos ambos de acordo que deve ser evitada. A discórdia é que pensas que não provoca assim tanta confusão. Mas eu penso que é mais prático nunca usar esse tipo de construção, porque a língua não precisa dela e nós não precisamos de seguir tradições cegamente.

    Quero dar-te os parabéns pela qualidade da tua argumentação e pela seriedade e simpatia. Espero que continues a falar-nos aqui na Crítica de coisas da tua especialidade. Recensões de livros, por exemplo, são particularmente bem-vindas!

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  20. No português brasileiro, em mais uma das muitas diferenças gramaticais teóricas ou práticas para a variante lusitana, não se diria “A Joana pode vestir-se”, mas sim “A Joana pode se vestir”. De fato, as preferências por posições clíticas diferem bastante no Brasil e em Portugal --- no Brasil a próclise é sempre preferida à mesóclise e à ênclise.

    O exemplo proposto ficaria, assim, ainda mais sutil no Brasil, mostrando a diferença entre o impessoal de
    “A Joana pode-se vestir”
    e o reflexivo de
    “A Joana pode se vestir”.

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  21. Desidério, agradeço a atenção à minha argumentação e, claro, agradeço também esta revista, que é um tesouro. É sempre bom discutir com quem não tem medo de pensar, mesmo sobre aquilo que outros considerariam pormenores (mas, enfim, os pouco curiosos costumam ser desinteressantes). Esta revista é, entre outras coisas, um verdadeiro prazer. Vou continuar a ler e, espero, a participar. Até breve!

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