6 de janeiro de 2010

Kenny sobre Russell sobre Tomás de Aquino

Todos os que estudam Tomás de Aquino estão em dívida para com o papa Leão, pelo estímulo que a sua encíclica deu às edições eruditas da Suma e de outras obras. Mas a promoção do santo a filósofo oficial da Igreja também teria um efeito negativo. Impediu o estudo filosófico de São Tomás pelos filósofos não católicos, nada atraídos por alguém que foram levados a ver como mero porta-voz de um determinado sistema eclesiástico. O problema agravar-se-ia quando Pio X, em 1914, seleccionou vinte e quatro teses da filosofia tomista, para que fossem ensinadas nas instituições católicas.
Bertrand Russell, na sua História da Filosofia Ocidental, resume a reacção laica à canonização da filosofia de São Tomás: «Havia muito pouco de verdadeiro espírito filosófico em Tomás de Aquino: ele não podia, como Sócrates, dar seguimento a um argumento, até onde quer que este pudesse chegar, uma vez que conhecia de antemão a verdade, toda ela declarada na fé católica. Arranjar argumentos para uma conclusão que está dada de antemão não é filosofia, mas sim uma alegação especial».
Em boa verdade, dizer-se de um filósofo que procura boas razões para aquilo em que já acredita não é uma acusação grave. Descartes, sentado à lareira, embrulhado no seu roupão, procurou razões para acreditar que era exactamente isso o que estava fazendo e gastou muito tempo para as encontrar. O próprio Russell gastou muita energia em busca de provas para aquilo em que já acreditava: os Principia Mathematica ocupam centenas de páginas para provar que um e um são dois.
Julgamos um filósofo pela solidez, ou falta de solidez, da sua argumentação, não pelo local onde foi encontrar as suas premissas ou o modo como passou a acreditar nas suas conclusões. A hostilidade para com Tomás de Aquino, por causa da posição oficial que ocupa no catolicismo, ainda que compreensível, é, pois, injustificável, mesmo para filósofos laicos.


12 comentários:

  1. a questão não está tanto em em se saber a priori a conclusão (todos nós já conhecemos de alguma forma aquilo que procuramos saber).

    o problema está quando não se consegue "dar seguimento a um argumento, até onde quer que este pudesse chegar" justamente por pôr em causa as nossas crenças.

    e sim, descartes também não tirou as devidas conclusões quando colocou a hipótese do génio maligno, por exemplo. mas isso só mostra a vulnerabilidade dos seus argumentos.

    o mesmo acontece (porventura mais) com s. tomás de aquino.

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  2. Consistência da argumentação? O que interessa isso de um argumento ser consistente? Intessa é ser sólido ou não, e não consistente ou não.

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  3. Original:

    "We judge a philosopher by whether his reasonings are sound or unsound"

    Portanto, onde está "consistência" deve-se ler "sólido" e onde está "inconsistência" deve-se ler "não sólido".

    Sobre o mito dos argumentos consistentes (=coerentes):

    http://blog.criticanarede.com/2009/11/o-mito-dos-argumentos-coerentes.html

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  4. Oops, tens razão Desidério. Não cheguei a confrontar com o original e acreditei que o Kenny se tinha desleixado. Mas não, claro. Desleixado fui eu. Corrigido. Obrigado.

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  5. Pensas que o Kenny é o Châtelet ou o Abbagnano?

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  6. onde posso encontrar esses escritos do Kenny? Qual é a referência bibliográfica?

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  7. Trata-se de quatro volumes de história da filosofia, que serão em breve publicados na Filosofia Aberta, da Gradiva. Estão já publicados no Brasil, na Loyola. E, claro, podem ser comprados no original, na Amazon. Basta procurar por Kenny New History of Western Philosophy.

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  8. Já há data para a publicação na gradiva? Depois avisem no blog...

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  9. "A hostilidade para com Tomás de Aquino, por causa da posição oficial que ocupa no catolicismo, ainda que compreensível, é, pois, injustificável, mesmo para filósofos laicos."

    Esta hostilidade só é comparável àquela que os filósofos crentes têm para com pensadores situados do lado do ateísmo.

    Enfim, o preconceito existe dos dois lados da barricada...

    Helder Mendes

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  10. O primeiro volume está previsto sair lá para Abril e os restantes três ao longo do ano. Não conheço história da filosofia que se aproxime em qualidade a esta de Kenny, tanto no que diz respeito ao rigor histórico como, sobretudo, ao rigor filosófico.

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  11. Caro Aires,

    Ando à procura nas livrarias da "História concisa da filosofia ocidental" do Kenny e dizem-me todos que o livro esgotou e parece que já não há mais edições. Agora, onde posso encontrar este livro?

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  12. Já agora, por curiosidade. Existe uma colecção de inícios dos anos 80, da D quixote que se chama Mestres do Passado e que inclui um pequenino volume de introdução a Tomás de Aquino, assinado pelo Kenny.
    Domingos:
    A solução passa por pesquisares na internet e até o comprares on line. Há uma livraria no Funchal que tem um elevado stock de edições nacionais, muito embora não te garanta que os livros estejam em muito bom estado. Vê no site as fotografias de como eles arrumam os livros. O certo é que encontramos lá coisas há muito esgotadas. Toma lá o link:
    http://livraria-esperanca.pt/loja/

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