25 de janeiro de 2010

Língua culta?

Várias vezes tenho afirmado publicamente que a língua portuguesa não é uma língua culta. Isto, evidentemente, gera reacções de espanto e até de raiva. Porque se opõe à retórica nacionalista que dá às pessoas a ideia contrária. E Camões? Assis? Eça? Pessoa?

Muito bem, apanharam-me. Confesso que é um exagero dizer que a língua portuguesa não é culta. O que se passa é que, além das línguas meramente locais e sem produção escrita, todas as línguas são mais ou menos cultas, em vez de serem ou não cultas. Trata-se de uma linha de continuidade do menos para o mais culto, e não de uma descontinuidade entre o culto e o inculto, o tudo e o nada.

Se pensarmos desta maneira, a língua portuguesa está logo no início dessa linha, entre as mais incultas do planeta. Porquê? Porque a produção científica e cultural na língua portuguesa é diminuta. Claro que a generalidade das pessoas, consumidoras de futebol, novelas e jornais, não se dão conta da situação. Mas mal se entra um pouco mais fundo em qualquer área — história, arqueologia, literatura, física, filosofia, matemática, musicologia — se vê que quase não há bibliografia original em língua portuguesa sobre estes temas. Raios, nem sequer traduzida, quanto mais original.

Por isso, continuo a afirmar rebeldemente: a língua portuguesa não é uma língua culta. Na melhor das hipóteses, está na escola primária.

12 comentários:

  1. Acontece que te esqueces de uma circunstância especial: é que a língua portuguesa foi abençoada pelo Papa quando veio de visita a Portugal há uns anos, o que faz dela uma língua culta, mesmo que só meia dúzia de pessoas a tenham chegado a usar realmente como uma língua culta. A diferença significativa é que ao passo que outras línguas têm de produzir e trabalhar para serem cultas, a nossa é culta por decreto do mandatário divino na terra.E se sabes porque as canetas caem na lua, também devias saber isto.

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  2. Esqueci-me disso! Além disso, é culta também porque se faz leis sobre a ortografia, o que imediatamente a projecta internacionalmente. Até ouvi dizer que os russos estão a pensar adoptar o nosso acordo ortográfico, para se projectarem na Índia. A projecção internacional da nossa língua nada tem a ver com a produção cultural original em língua portuguesa, mas sim com leis que determinam como se escrevem as palavras.

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  3. Desse ponto de vista a única língua culta seria a língua Inglesa, pois a grande maioria das publicações são escritas em inglês, ou para uma maior divulgação logo traduzidas. O Inglês é o Latim dos nossos dias, simplesmente porque é uma linguagem pragmática e universal. Que importância tem essa suposta cultura da língua? O Importante é o conteúdo.

    Outro pormenor são as comparações aqui feitas. Comparar artigos científicos com literatura mais artística é despropositado. São incomparáveis.

    Que dizer então do nosso prémio Nobel que nunca renunciou a sua língua apesar do exílio "forçado"?

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  4. Por falar em musicologia (e porque há por aí melómanos), saíu há pouco tempo uma obra ímpar na bibliografia especializada e que vai ajudar o português a ser uma língua menos culta. Trata-se da "Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX", dirigida pela musicóloga Salwa Castelo-Branco. A lacunar historiografia musicológia portuguesa preencheu mais um espaço em branco. Aleluia!

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  5. Caro Desidério, você está certíssimo. E não está sozinho em suas considerações. Olavo Bilac tem um soneto, "Língua Portuguesa", que fala exatamente sobre o tema que você aborda:

    Última flor do Lácio, inculta e bela,
    És, a um tempo, esplendor e sepultura:
    Ouro nativo, que na ganga impura
    A bruta mina entre os cascalhos vela...

    Amo-te assim, desconhecida e obscura,
    Tuba de alto clangor, lira singela,
    Que tens o trom e o silvo da procela
    E o arrolo da saudade e da ternura!

    Amo o teu viço agreste e o teu aroma
    De virgens selvas e de oceano largo!
    Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

    Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
    E em que Camões chorou, no exílio amargo,
    O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

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  6. Obrigado pelas palavras de Bivac, Rodrigo.

    Não, Micael, a língua inglesa não é a única língua culta. Há muitíssimos materiais noutras línguas, como o alemão e o francês. Para não falar no grego ou no latim. A cultura de uma língua reflecte apenas a cultura de quem a fala. Se quem a fala nada ou quase nada produz de ciências, história, filosofia, literatura, etc., então a língua fica com esse viço agreste de que fala o Bivac.

    Parabéns pela Enciclopédia! Isso sim, faz mais pela língua do que todas as reformas ortográficas juntas.

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  7. Micael,

    agora há que fazer a pergunta: há mais publicações em inglês porque se trata de uma língua "pragmática e universal" ou será antes que o inglês é uma língua "pragámtica e universal" precisaemnte porque nela se produz mais e, em geral, melhor?

    Isto não significa que não haja boa literatura e boa filosofia noutras línguas. Não é uma questão de tudo ou nada, nem se trata de uma espécie de jogos sem fronteiras entre países, a ver quem marca mais pontos na corrida ao título de culto. Nenhum prémio Nobel ou outro suprime as estarrecedoras lacunas culturais de uma língua onde predomina a mentalidade de que fazer leis para mudar as palavras é mais importante do que escrever dicionários que não metem nojo... por comparação a um dicionário inglês que se preciso não consumiu metade dos recursos e subsídios.

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  8. depois o pragmatismo pouco tem a ver com a coisa. O inglês é uma língua pragmática não devido à cultura (se fosse só pela cultura seria menos universal, tal como o latim só era universal entre as pessoas cultivadas, o povão usava línguas mais pragmáticas, como o português) - o pragmatismo está associado ao poder económico e militar, à diversão de massas, como o cinema, a televisão, etc, ou seja, está associado ao dinheiro.

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  9. Não vejo língua mais culta que a Grega e o que se produz hoje com ela? O latim e o alemão possuem características semelhantes que os tornam cultos como língua. Penso que a língua que mantém em sua estrutura a possibilidade de construção de sentido que esteja atrelado à própria estrutura de entendimento de um grupo, é uma língua culta.

    O problema, penso eu, é estabelecer o que é culto ou não pelo critério de quantidade de publicações. Não vejo como um critério que nos remeta a uma análise mais profunda.

    O português, como língua que abriga palavras que perderam o sentido de sua raiz e os modificadores de sufixo e prefixo, tornando-os vocábulos isolados em si mesmos, enrigeceu sua capacidade dinâmica de criar sentido e conceitos. Isso, a meu ver, torna-a menos culta.

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  10. Caro Desidério,
    Concordo plenamente contigo. Agora mesmo, ao traduzir aforismos matemáticos do sânscrito para a língua portuguesa, a dificuldade de chegar aos termos técnicos precisos é tremenda, porque não existe muita coisa similar. Até hoje não temos uma tradução da Metafísica direta do grego, dos Upanishads também não. E por aí vai. Como disseste: "nem sequer traduzida, quanto mais original." O Gilberto bate em cheio no fim de seu texto: nossa língua "enrigeceu sua capacidade dinâmica de criar sentido e conceitos". É o que tenho insistido: temos de voltar ao ensino do trivium com competência.

    Abraços.

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  11. O problema central é que muito da história da lingua portuguesa foi perdida ou esquecida, o nosso sistema bibliotecario nacional de catalogação é deficitario, os incentivos a cultura são historicamente irrisórios, e os novos escritores de filosofia como eu, etão escondidos em redes digitais como blogs, myspace e outros sites, ansiando por serem descobertos pelos leitores...

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  12. Não é uma questão meramene quantitativa. É uma questão de abrangência. Se alguém quiser saber algo sobre astronomia, história do Egipto clássico, filosofia, história da música, química ou biologia, exclusivamente em português, nada ou quase nada aprende, mesmo considerando não apenas as obras originalmente escritas em língua portuguesa, mas também as que foram traduzidas para o português.

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