5 de janeiro de 2010

Mentiras ortográficas




José Mário Costa defende aqui o acordo ortográfico e insurge-se contra o editorial do Público que citei aqui. E diz que quer pôr os pontos nos is. E põe, num certo sentido. Mostra que o acordo ortográfico é uma mentira política.

Afirma, sem provas, que só há uma ortografia inglesa oficial, e não várias, como toda a gente sabe. Poderia ter esclarecido melhor as coisas, mas esta ambiguidade favorece a mentira. E qual é a mentira? É esta: fazer reformas ortográficas é diferente de fazer acordos ortográficos. Os reformistas aproveitam a pretensa necessidade política, internacional, de ter uma ortografia oficial para mudar a ortografia à maneira deles.

Vejamos a confusão conceptual. O que quer dizer José Mário Costa quando afirma que só há uma ortografia inglesa oficial? As pessoas lêem isto e pensam que significa que as palavras inglesas se escrevem todas da mesma maneira em todos os países anglófonos, e que essa é a ortografia usada na ONU. Isto é falso. Mas, claro, ele não disse literalmente a mentira, pelo que não pode ser acusado de mentiroso. Mas as pessoas lêem a mentira à mesma. Enfim, estamos habituados a isto nos políticos desonestos.

Mas o que a afirmação quer realmente dizer é uma de duas coisas:
  1. Ou que a ortografia oficial inglesa torna legal qualquer maneira de escrever, seja a americana seja a inglesa ou outra qualquer na ONU. Portanto, tanto se pode escrever “scepticism,” à inglesa, como “skepticism,” à americana. Não é preciso obrigar seja quem for na Inglaterra a escrever como os ingleses ou vice-versa. Nos documentos oficiais da ONU tanto se pode escrever de uma maneira como de outra.
  2. Ou então quer dizer que se escolheu uma das ortografias inglesas, que foi eleita como oficial, sem ter de obrigar as pessoas do país que não tem a ortografia oficial a mudar a maneira como escrevem.
Ora, tanto num caso como no outro, não torna necessário reformar a ortografia da língua portuguesa; torna apenas necessário fazer um acordo ortográfico que ou declarasse que todas as variantes ortográficas, portuguesa e brasileira e outras, são oficiais, ou que uma das variantes era a oficial (a brasileira, por exemplo, por ser um país muitíssimo mais importante internacionalmente do que Portugal).

Não foi isto que se fez, como se sabe. Os linguistas aproveitaram para mentir, confundindo as águas, e para obrigar as pessoas a escrever como eles querem. A mentira torna-se mais absurda, e é isso que o editorial do Público sublinha, precisamente porque o texto do acordo aceita realmente ortografias múltiplas em vários casos. Mas então… por que não fazer apenas um acordo que declara que tanto se pode escrever “excepto” como “exceto”? Para quê fazer ao mesmo tempo uma reforma, que obriga as pessoas a mudar a maneira como escrevem?

A razão é só uma. Os linguistas que fizeram o texto do acordo mentem aos políticos, fazendo-os acreditar que só tirando o “p” do “excepto” é possível ter uma ortografia oficial única. Mas isto é mentira, pura e simplesmente.

Em conclusão: concordo com o Miguel RM, que parece considerar o artigo de José Mário Costa a última palavra neste debate. Mas não pelas suas razões. É a última palavra porque é a prova acabada da mentira política que é este acordo ortográfico.

9 comentários:

  1. Não considero nada a última palavra, só afirmo que EU não tenho nada a acrescentar. Mas já que está a exercer o seu espírito crítico, farei o mesmo. Um dos problemas sérios dos inimigos do acordo ortográfico (AO) é tentarem jogar com a ignorância de muuitas pessoas em relação a estas questões. É óbvio que nunca houve no mundo de língua inglesa qualquer problema de divergência linguística significativa entre os vários países. Isso deve-se obviamente à força das instituições, nomeadamente as académicas (universidades de Oxford e Melbourne, por exemplo) e das empresas editoriais, nomeadamente as dos EUA. Eu também gostaria muito que a chamada "sociedade civil" portuguesa tivesse a mesma qualidade e dependesse menos do Estado. Mas vivo na realidade e tenho um respeito pesado pelos factos. Se o Desidério e os outros inimgos do AO conseguirem, através da sua militãncia e do seu empenhamento na defesa da língua portuguesa (como a entendem), resultados magníficos para essa nobre causa, serei o primeiro a inclinar-me e a felicitar-vos. Mas, até prova em contrário, penso que só estão a atrapalhar.

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  2. Caro Miguel

    Uma coisa que o Miguel nunca me fez a justiça de reconhecer é que os meus argumentos contra o acordo ortográfico não têm muito a ver com os argumentos de Vasco Graça Moura. Claro que ele é mediático e eu, felizmente, não sou. Mas os argumentos valem por si e não pelo mediatismo dos seus autores.

    A quem argumenta como eu os defensores do acordo ortográfico como o Miguel nunca, nunca deram resposta. E esta é mais uma não resposta. Aqui eu apresento argumentos, e o Miguel não lhes responde. Nomeadamente, não explica por que razão não poderíamos fazer um acordo ortográfico sem ter de reformar as ortografias.

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  3. É espantosa a inversão causal do argumento miguelista: as sucessivas reformas ortográficas não só não produziram quaisquer benefícios como são evidentes os malefícios (a confusão de ortografias diferentes não nos permite ler textos do sec XIX quando os ingleses lêm bem textos do sec XVIII). O razoável seria dizer a quem nos quer impor algo: "a menos que haja razões muito fortes para isto... vocês só vão atrapalhar". É fantástica a inversão causal. Estamos a atrapalhar exactamente o quê? Isto é como a ideia de que devemos acreditar em certas falsidades porque isso é útil. A resposta "não atrapalhem" não é uma refutação dos argumentos contra o acordo. É uma defesa da mentira útil. Útil para quem? Para um miúdo de 10 anos que tem de aprender duas ortografias, ou tenta ler um livro que encontra na biblioteca da casa com o título "sciências musicais", e fica intrigado com aquele "s"? Bom, explicam-lhe que alguém eliminou o "s" para que ele escrevesse mais facilmente, o mesmo miúdo que na aula de inglês escreve "science" sem sofrer quaisquer traumas. Para quê, porque a alguns parvos faz imensa confusão que a variante brasileira do português seja a mais usada em documentos oficiais e nas legendas de uma série televisiva?

    Há uma razão para a aparente incongruência de se legislar a ortografia mas não a gramática, sem ver nisso a contradição quando se diz que é preciso legislar para haver normas. O que conta é a aparência, o superficial. Os colonialistas da língua sabem muito bem que não basta querer para ser e que a variante brasileira não vai deixar de ser a predominante nos documentos oficiais e nas legendas das séries. Então tiveram esta ideia genial: se as duas variantes escreverem "óptimo" sem "p", a quem está de fora até parece que se trata apenas da mesma variante e não da variante brasileira. Afinal, ambos escrevem do mesmo modo.
    Nem sequer a defesa da língua está em causa neste disparate. É a mera possibilidade de alguns idiotas dizerem que afinal somos os maiores do mundo. A gramática e o léxico não importam. O que importa é olhar-se para um documento e, superficialmente, não ser claro qual das variantes do português se está a usar. É este o interesse "geopolítico" da asneira.

    Não há léxico para exprimir o ridículo, a pequenez destas flatulências mentais. Pessoas que alguma vez tivessem interesses intelectuais genuínos nunca cogeminariam semelhante parvoíce. Limitar-se-iam a enriquecer a língua com bons trabalhos de referência, bons textos, bons dicionários.

    Mas que outra coisa esperaríamos do pretensiosismo académico português aliado à burrice política?

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  4. Bom, vou ter de voltar a explicar-me. Sempre reconheci ao Desidério Murcho (DM) uma qualidade de argumentação que não encontrei em Vasco Graça Moura (VGM) nesta matéria, mas em política as companhias contam. Tenho a certeza de que DM e VGM não partilham as ideias xenófobas de muitos comentadores anti-acordo ortográfico, mas a verdade é que se "deitam" com eles, pois fazem número. Vamos então à questão das reformas ortográficas. Em todas as grandes línguas internacionais de países com tradições políticas centralizadoras (Alemanha, China, Espanha, França, só para citar algumas) tem havido ao longo da história reformas ortográficas. Não se trata pois duma originalidade da língua portuguesa. Em todos os casos há sempre contestação a tais reformas e ainda bem, pois o debate público é politicamente interessante. O caso português só é mais complicado devido ao facto "incómodo" (para alguns) de haver uma nação muito mais poderosa (Brasil) do que a antiga potência colonial (Portugal). Quanto à questão das vantagens, qualquer pessoa entenderá que não interessa a ninguém haver duas versões portuguesas de um acordo interncional, por exemplo, se for possível haver só uma. Também não entendo a frase "não ser claro qual das variantes do português se está a usar". Claro que será claro, mas qual é o problema? A mim choca-me que haja em Portugal milhares de licenciados em Língua Portuguesa que não conheçam a norma brasileira, nem a literatura brasileira. Isso sim, é um sinal de indigência intelectual das nossas academias. O acordo pode ajudar a que a norma brasileira e a norma portuguesa sejam bem conhecidas em todo o mundo lusófono, em vez de permanecermos nesta pasmaceira actual em que no Brasil só meia dúzia de académicos conhecem a norma portuguesa e, inversamente, em Portugal se passa o mesmo. Fazer reformas ortográficas é um trabalho difícil e ingrato, bem mais fácil é só discordar de qualquer tipo de reformas.

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  5. "A mim choca-me que haja em Portugal milhares de licenciados em Língua Portuguesa que não conheçam a norma brasileira, nem a literatura brasileira."

    O problema não é os licenciados conhecerem mal a literatura brasileira. Que eu me lembre dos tempos da faculdade, o problema dos licenciados em línguas é conhecerem mal qualquer literatura que seja, e nisso são semelhantes aos licenciados em filosofia ou qualquer outra área: são treinados, como símios, para repetir coisas confusas e complicadas sobre temas que compreendem mal, fazer muitas citações e...

    Sentir vergonha de admitir que não leram x ou y, e sentirem-se chocados quando alguém admite que não leu x ou y.

    Os estudantes em geral não têm curiosidade intelectual alguma. O que nada tem a ver com vertentes analíticas ou continentais, porque os da "analíticos" em geral fazem o mesmo que os continentais: repetir confusamente coisas que não compreendem bem e projectar uma imagem de superioridade académica. No ano em que saí da faculdade, alguns dos alunos que até tinham melhor performance em termos de notas raramente ou nunca discutiam fosse o que fosse nas aulas. O que me lembro é de as pessoas ficarem caladas e darem risinhos com o canto da boca quando alguém lá arranjava coragem para dizer alguma coisa de si próprio. Mas nisto não têm inteiramente culpa pois as academias começam a treinar as pessoas assim a partir do primeiro dia do primeiro ano do curso, precisamente com as palermices do "é chocante que..." O que é chocante? Que somos todos uns asnos que quando muito têm uma boa ideia na vida? Sim, e que tem isso?

    "Quanto à questão das vantagens, qualquer pessoa entenderá que não interessa a ninguém haver duas versões portuguesas de um acordo interncional, por exemplo, se for possível haver só uma."

    Em primeiro lugar, nao é preciso suprimir as outras variantes para ter um acordo sobre que variante do português usar em circunstâncias x e y. Não é preciso legislar sobre o modo como as pessoas devem escrever. Mas aos reformadores interessa obscurecer isto porque se largarmos a palermice de confundir normas linguísticas com legislação ficamos confrontados com a clareza da disputa: o único problema para as mentes confusas que cozinharam o acordo é mesmo haver uma potência que não é Portugal, a fazer mais legendas de séries, telenovelas e documentos oficiais.

    No entanto, a variante americana do inglês é predominante, sem que isso afecte negativamente as produção literária, filosófica e científica britânica. Pelo que o ónus da prova recai novamente sobre o reformador: Se é assim tão difícil fazer reformas ortográficas, se gera mais confusão do que aquela que resolve, se há culturas que passam muito bem sem isso... para que raios vamos gastar recursos e meter o governo a legislar sobre o modo como as pessoas escrevem?

    Ok, vamos passar por tudo isso, produzir todas as desvantagens que têm sido sublinhadas neste blog ao longo dos meses em inumeráveis argumentos que nunca foram respondidos ou refutados directamente. E depois? Depois os estudantes daqui a 10 anos vão escrever "óptimo" sem "p" e vão continuar tão intelectualmente desinteressados como nos meus tempos de licenciatura e como hoje, não por causa da ortografia (que vai continuar a ser objecto de reformas por vindouras mentes confusas) mas porque a vida académica portuguesa é uma anedota. Precisamente porque ninguém leva a sério a discussão pública. Ela quando muito é "interessante"... ou seja, é uma Coisa Boa, da qual dizemos Coisas Bonitas, porque é politicamente correcto (talvez daqui a uns anos deixe de ser e então podemos deixar-nos de tretas), mas a que na verdade ninguém está disposto a dedicar dois dedos de esforço nem a permitir que influa siginficativamente no conjunto de crenças que definem a vida mental dos "académicos".

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  6. inferir que é desejável fazer reformas ortográficas só porque muitos países o fazem é uma falácia factualista: quando perguntamos se é bom e necessário fazer uma reforma ortográfica estamos precisamente a perguntar o que confere normatividade ao facto sociológico. Logo não podemos apresentar o facto sociológico (muitos fazem) como fundamento da normatividade. Não fundamentamos a moralidade de uma acção apontando para o facto sociológico de que muitas pessoas se comportam assim, nem conferimos caracter normativo a uma pretensão de verdade apontando para o facto de que muita gente acredita na verdade da afirmação. A justificação envolve mais do que isso. Envolve a discussão dos argumentos e a coragem de aceitar aquilo que resulta de uma discussão séria e imparcial dos argumentos. Bradar aos céus "parem com isso que só atrapalham" é indício de falta de argumentos. É indício de que se está a adoptar a estratégia "vamos acreditar e propagar uma falsidade porque isso nos parece útil" - perguntar "útil para quê?" seria também atrapalhar, portanto... interrompa-se a discussão. Discussão é bonita, é interessante, mas quando os académicos falam, acabou a brincadeira. Não andamos aqui a brincar, há muito que fazer. Etc.

    Os "académicos" da filosofia fazem o mesmo. Se tentarmos discutir o melhor modo de, por exemplo, traduzir "truthmaker", e a discussão se prolongar mais do que 5 minutos, chegam logo umas vozes a tentar por fim à coisa, porque não é um assunto Verdadeiramente Académico. Nunca é. As discussões reais ficam sempre aquém de serem Verdadeiramente Académicas. O que acontece a seguir? A discussão morre e as pessoas param finalmente de falar umas com as outras, sossegando-se os ânimos. A partir daí a "discussão" converte-se em propaganda a uns eventos, muito académicos, muito divertidos, em que alguém fala confusamente durante uma hora sobre algo que o público ignora. Ninguém discute, mas todos vão para casa a sentir-se mais inteligentes e socialmente dignos, porque estão no maravilhoso mundo à parte da "comunidade académica".

    é isto a vida intelectual portuguesa.

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  7. Caro Miguel

    Obrigado pela paciência. Os seus argumentos não me convencem de modo algum, lamento.

    1: Você comete a falácia das más companhias. Sim, muitas pessoas em Portugal que são contra o acordo ortográfico (AO) são-no pelas piores razões xenófobas. Mas isto é irrelevante. No tempo da guerra civil norte-americana muitas das pessoas que eram contra a escravatura do sul era por razões puramente económicas e não por humanitarismo. E depois? Por causa disso vamos sustentar a escravatura?

    2: Alguns países fazem reformas ortográficas, outros não. Se podemos concluir que vale a pena fazer reformas ortográficas porque alguns o fazem, então também podemos concluir que não vale a pena fazê-lo porque alguns não o fazem. O que isto nos mostra é que temos de nos dar ao incómodo de pensar por nós mesmos, em vez de tentar imitar o estrangeiro.

    3: Não interessa haver duas versões de um acordo internacional? Mesmo aceitando tal coisa, isto não implica uma reforma ortográfica, como já demonstrei cabalmente. Implica apenas que se oficialize qualquer das variantes ortográficas existentes. E por isso qualquer acordo poderá estar escrito em qualquer das variantes. Afinal, é apenas isso que a actual reforma + acordo faz, pois tanto poderemos ter um acordo internacional com “facto” como com “fato”.

    4: Do facto de ser mais fácil discordar de qualquer reforma ortográfica não se segue que seja bom fazer reformas ortográficas. Também é mais fácil discordar da discriminação das mulheres do que concordar com ela.

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  8. O novo link do artigo de José Mário Costa: https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/acordo/alguns-pontos-nos-ii-sobre-o-acordo-ortografico/2155

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