7 de janeiro de 2010

Ortografia, de novo

Helder Guégués refere aqui um artigo de Francisco Miguel Valada publicado hoje no Público de hoje sobre o acordo ortográfico. Trata-se de um conjunto de argumentos para mostrar que a reforma ortográfica está linguisticamente mal feita. Isto é algo que praticamente todos os linguistas afirmam, incluindo os que defendem a unificação ortográfica da língua portuguesa.

Para não haver dúvidas, as minhas posições são as seguintes:
  1. Para termos uma ortografia oficial, não precisamos de mudar a ortografia — essa é a mentira política dos defensores do acordo ortográfico. Precisamos apenas de sancionar oficialmente as ortografias existentes, ou escolher uma delas como a ortografia oficial da ONU.
  2. As ortografias, como a gramática, o léxico e a fonética, não devem ser mudadas por decreto, mas sim pelo uso.
  3. Mudar as ortografias não serve qualquer propósito benéfico.
  4. Mudar as ortografias é maléfico porque viola o direito que os lusófonos têm de conseguir ler o seu legado linguístico. Isto é particularmente grave hoje, porque os meios digitais permitem aos anglófonos ter acesso gratuito a imensos livros com mais de 80 anos, ao passo que os lusófonos não — porque os livros escritos em português com mais de 80 anos têm uma ortografia ilegível para o cidadão comum.

12 comentários:

  1. No que respeita ao ponto 4, esqueci-me de referir os milhares de páginas escritas em português que existem na Internet, como aqui na Crítica, que subitamente ficam todas ortograficamente erradas. O que fazer a isso tudo?

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  2. Também concordo que a ortografia não deve ser alterada por lei: uma evolução gradual e "comunitária" é mais correcta; o acordo é inútil, o que não quer dizer que não venha a ser aplicado.

    Dito isto, penso que a mudança ortográfica não é um mal em si e ocorreria naturalmente (aliás, tal tem acontecido com o uso do hífen, por exemplo). Só não é me parece que deva seja feita por lei (embora seja isso que acontece no caso de línguas como o espanhol, o francês, o alemão...).

    As mudanças graduais e naturais não invalidariam obras anteriores. A ortografia inglesa também evoluiu (os vitorianos escreviam "do n't" e não "don't", por exemplo). Por exemplo, a mudança de 1973 -- "sozinho" em substituição a "sòzinho", etc.) não invalidou os livros anteriores.

    Como curiosidade, veja-se o início de As Cidades e as Serras, como foi escrito por Eça de Queirós (ou Queiroz). Parece-me bastante perceptível:

    "O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival. No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro. E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora. Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em Paris, nos Campos Elyseos, n.º 202. [2] Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em Lisboa o D. Galião, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força facil, levantou o enorme Jacintho―até lhe apanhou a bengala de castão d'ouro que rolára para o lixo."

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  3. Concordo. Mas discordo do seguinte: o texto do Eça é perceptível -- consegue-se ler mais ou menos. Consegue, quem? Quem tem uma formação escolar superior. Quem não a tem, fica completamente confundido. E mesmo eu, ao ler isto, não sei em que casos ("familia", por exemplo) se escrevia mesmo assim ou se a transcrição foi mal feita.

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  4. Caro Desidério Murcho,

    Em primeiro lugar, cumprimento o autor de "Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade", que li e sobre o qual gostaria um dia de trocar algumas impressões. Saúdo também o autor de "Ortografia kafkiana".

    Garanto-lhe que é necessário neste momento demonstrar que ISTO (o AO 90)está mal feito. A razão é muito simples: se nos perdermos na discussão "é necessário" vs. "não é necessário", o "é necessário" ganha porque está no poder e com esse argumento o processo é imparável.

    Por esse motivo, é necessário discutir este Acordo, esperar que se entenda que ele é péssimo, esperar pela sua impugnação e depois retomar o debate "é necessário" vs. "não é necessário".

    Para que as coisas fiquem bem claras, não sou a favor de qualquer Acordo, porque considero perfeitamente desnecessário. Isto está bem claro no meu livro “Demanda, Deriva, Desastre - os três dês do Acordo Ortográfico” (doravante, DDD) e já o tornei claro, quer nas apresentações do meu livro, quer no Seminário de Tradução da União Latina, no passado mês de Novembro.

    Quando digo no artigo: "sou favorável a uma reforma ortográfica (sob forma de acordo ou sob outra forma)" deve entender-se o que está para trás. O que está para trás é que um Acordo (exemplos são o AO 86 e o AO 90) só é possível através do “critério fonético” inventado ad hoc. Este critério é inconcebível. Logo, sendo inconcebível, o Acordo é impossível.

    Esquecendo por um parágrafo o Acordo, jamais me ocorreria propor uma revisão profunda da ortografia. O que me ocorreria, sim, seria analisar uma proposta de reforma (Acordo), como fiz (e muitos outros fizeram)e manifestar a minha opinião, baseada em razões técnicas. No limite, proporia o fim da ambiguidade na hifenização (que é confusa e mais confusa se torna com o AO 90) e analisaria propostas, para avaliar a sua procedência ou não. Esse é o meu limite. Mas não imporia uma reforma aos outros Estados da CPLP.

    O AO 86 e o AO 90 demonstram que a necessidade da reforma é pura e simplesmente política, não sendo necessária em termos sociais, culturais ou linguísticos.

    Quando afirmo no artigo "Sou favorável a uma reforma ortográfica que dignifique a minha língua", refiro-me ao início do parágrafo: "Sou favorável ao Acordo Ortográfico de 1945".

    Com isto, quero dizer que o AO 45 está bem feito e não se deve mexer no que bem feito está. Aliás, garanto-lhe que as falhas que detectei no AO 45 se devem a ter sido feito sob a pressão de se tratar de uma reforma à luz de um Acordo (por exemplo, a queda do acento de "dezóito" e "combóio").

    Quanto ao que digo no artigo: "as divergências morfossintácticas e lexicais impedem tal projecto, no mínimo, megalómano". Isto significa que não entendo linguisticamente a necessidade de um Acordo Ortográfico. Aliás, no meu livro, dedico algumas páginas a essa matéria.

    Os argumentos que apresento no artigo do Público estão a milhas dos argumentos dos linguistas “que defendem a unificação ortográfica da língua portuguesa".

    Cordialmente,

    Francisco Miguel Valada

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  5. Discordo. O texto de Eça consegue ler-se perfeitamente — mesmo por quem não tem formação escolar superior. Quanto ao vocábulo sobre o qual tem dúvidas, é irrelevante para a discussão. Imagine o Desidério que num texto lia «maoísta» e noutro lia «maoista». Admitindo que tal facto o perturbava, impedia-o acaso de compreender o que lia?
    Helder Guégués

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  6. Caro Francisco

    Muito obrigado pelos seus esclarecimentos, e pelas suas palavras. Concordo consigo: estrategicamente, o melhor a fazer é mostrar a inanidade linguística do texto do acordo. O argumento do Miguel RM é que o texto do AO não é realmente muito bom, mas que devemos primeiro aceitá-lo e depois melhoramo-lo. Bizarra, esta ideia.

    Aqui no Brasil, a nova ortografia já foi adoptada nos seus dois principais dicionários, o Houaiss e o Aurélio. E a Academia Brasileira de Letras já o sancionou, interpretando-o como lhe apeteceu, violando muitas vezes o seu teor ou pelo menos o seu espírito. A verdade é que no Brasil quase ninguém dá pela diferença entre a velha e a nova ortografia porque as diferenças não são significativas, ao contrário do que ocorre em Portugal. Aqui no Brasil um jornal escrito com a nova ou com a velha ortografia quase não faz diferença. Em Portugal é bastante diferente. Já tentei escrever com a nova ortografia; e se estiver a escrever português brasileiro não tenho problemas. Mas se estiver a escrever português de Portugal tudo aquilo me parece absurdo e sem razão de ser. Esta impressão resulta em parte dos erros linguísticos do AO. Ao contrário do que afirma Malaca Casteleiro, a “imagem fonética” e a “imagem gráfica” não são entidades apartadas, mas antes realidades que se influenciam mutuamente. Aliás, se fossem realidades apartadas, como se justificaria uma reforma ortográfica que assenta na fonética? E como se pode pretender unificar a ortografia com base na fonética, se a fonética é o que (felizmente) mais separa a diversidade de maneiras de falar o português?

    Estou muito céptico quanto à possibilidade de bloquear este AO em Portugal. A força costuma ganhar nestas coisas, e não a razão e a argumentação. O que se lê nos jornais, dos defensores do AO, é geralmente mentira, ou meias verdades, ou pura megalomania absurda. Muitos políticos podem pensar que algumas dessas mentiras de sabor mais imperialista são verdadeiras — que, assinando este AO, ganhamos importância internacional. Quem não gosta de soluções simples? Se não ganhamos importância internacional pela economia, ciência, cultura, filosofia, ideias ou livros, vamos ganhá-la pela maneira como escrevemos “excepto”?

    Por outro lado, a última reforma ortográfica alemã ficou só no papel. Em parte porque alguns jornais não a adoptaram. Outros adoptaram-na durante algum tempo, mas depois desistiram. Talvez o mesmo ocorra em Portugal.

    O que pensa o Francisco?

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  7. Talvez tenha razão, Helder. Quem não tem formação escolar adequada e lê à toa, tanto faz, porque está de qualquer modo habituado a só entender uma pequena percentagem do que lê e não está habituado a subtilezas e pormenores — só quer apanhar a ideia geral. Portanto, para estes, não faz mal. Para quem tem formação escolar adequada, deverá ser suficientemente sofisticado para entender o texto. Portanto, tanto num caso como no outro, não faz mal. Talvez tenha razão e sou apenas eu que sou muito comichoso. Gosto de saber se o que estou a ler está correctamente escrito ou não; dou muita importância aos pormenores, e desconfio de textos mal digitados. Se o texto tiver a ortografia de 45, eu sei ver se é uma gralha; se for a ortografia anterior, não sei. Aliás, a julgar pelo assassínio da ortografia nos comentários dos jornais de maior circulação, estamos a discutir o sexo dos anjos, pois aquela ortografia, com AO ou sem AO, continuará a escrever “voçê” (mas também é interessante ver de onde virá este erro).

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  8. Esqueci-me de referir um aspecto caricato, que é já o resultado desta macacada toda. A edição anterior do Aurélio continha todas as variantes lusitanas: tinha "correcto" e "correto". Agora só tem "correto". Então, ficámos melhor ou pior?

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  9. Entretanto, eis outro argumento, para o Helder. Se tanto lemos Eça de uma maneira como de outra, para quê mudar a ortografia? Não seria mais bonito ler o homem como ele escreveu? Irra, até o nome do homem escrevemos mal!

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  10. Este último argumento era exactamente onde queria chegar. Penso inclusivamente que ler várias ortografias pode ser um bom exercício mental e uma forma de darmos mais atenção à língua. Cumprimentos a todos!

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  11. Caros,

    Sou brasileiro e professor de língua portuguesa, e sinceramente, achei um absurdo esse acordo, a desculpa dada para ele acontecer é a mais tola e embaraçosa possível. Ainda não consegui me adaptar ao acordo, e no fundo ele não muda nada.

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  12. Caro Desidério,

    Peço desculpa pelo atraso na resposta.

    Sem dúvida que uma aplicação em Portugal se sujeita a uma situação semelhante à alemã. Dupla grafia no mesmo território, uma da administração pública e outra do cidadão. Se acrescentarmos a esta equação o factor dupla grafia criado pelo instrumento ortográfico, a situação prevê-se não só bizarra, como catastrófica.

    Prevejo que tudo corra muito mal e não estou satisfeito com isso. Os nossos alunos e os nossos professores vão sofrer imenso com a aplicação de um AO 90, que é inútil, perigoso e produto da mais elevada irresponsabilidade académica.

    Quanto ao argumento de "está mal, mas vai-se corrigindo"... Pois bem: está mal e já se disse antes de os VOLPs irem para o prelo. Por que motivo não se corrigiu antes de publicar? Por que motivo se andam a vender VOLPs com erros, ao preço de 60 EUR. Erros, não só de base, como de interpretação das Bases.

    Agora, tenho de ir.

    Volto à carga para falar da sua obra, profundamente mais interessante do que a encomenda aceite por meia-dúzia de pessoas, que ousaram levar a cabo uma experiência, sem a avaliar e (pior do que isso) ignorando o redondo chumbo que levaram.

    A usa obra, sim, é produto de qualidade científica.

    Cordialmente,

    Francisco Miguel Valada

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