19 de janeiro de 2010

Parafernália filosófica

Algumas pessoas queixam-se que a filosofia é muito abstracta. Em resposta a esta queixa pensei fazer uma listagem dos adereços concretos da filosofia. Lembrei-me logo do burro de Buridano, que tem uma certa concretude de peso, e da navalha de Ockham, que dá muito jeito aos filósofos hirsutos. Além disso, não podemos esquecer a guilhotina de Hume, que dá sempre jeito em tempos de revolução, e também da sua bifurcação (fork, por vezes mal traduzido por forquilha — o que é pena, porque dava jeito ter mais esta concretude na nossa parafernália). Russell, para não se ficar atrás de Ockham, falou do barbeiro de Sevilha, porque não lhe ocorreu que havia barbeiros em Londres.

Philippa Foot, contrariando o seu sobrenome, ou talvez por isso mesmo, trouxe-nos outra concretude de peso: um trólei. Nozick foi menos corajoso e apenas nos trouxe uma informe máquina de prazer, sem especificar infelizmente como funciona, para não se ficar atrás de Platão que nos legou a inesquecível caverna, mas também o seu anel de Giges, que Tolkien roubou assim que o apanhou distraído.

Sem peso, propriamente falando, mas fazendo as outras coisas terem peso, temos a Terra Gémea de Putnam, que não se compara contudo com a infinidade de mundos possíveis tão concretos quanto o mundo efectivamente existente, de David Lewis — a prova definitiva de que só as más-línguas podem considerar abstracta a actividade filosófica. O mesmo Putnam modernizou o antiquado génio maligno de Descartes, que contudo era bem concreto, e ofereceu à posteridade filosófica um cérebro numa cuba, sem especificar contudo de quem era. Frege, mais comedido, limitou-se a falar do que já existia, a Estrela da Manhã e a Estrela da Tarde, mas Meinong insistiu na existência da Montanha de Ouro, o que mostra que nem sempre os alemães têm falta de tacto. Esta última asserção foi contudo perigosamente posta em causa pelo legado de Hegel à posteridade: o último homem, só para fazer pirraça a Platão que nos deixou o terceiro homem, sem contudo falar dos outros dois.

Mais adereços filosóficos importantes? Dê-nos a conhecê-los nos comentários.

21 comentários:

  1. Lembro agora de Hempel e o seu inesquecível mastro com sombra. E kripke, que achou por acaso um celeiro vermelho que ele achou que era real, era real, mas ele não sabia disso. Há também zumbis (Chalmers), homens do pântano (Davidson), uma cientista daltônica que se chamava Mary(Jackson) e um quarto chinês (Searle). Rawls falava o tempo todo de um grupo de pessoas que usavam um tal de véu da ignorância cobrindo a cara. Um tal de Zenão falou de uma flecha que nunca atingia o alvo. Locke e Hobbes só falavam de um tal de estado de natureza e Rousseau de um tal de General Will - terminei o livro sem entender muito bem, acho que não gostei do general. Sei que os filósofos também falam sem parar de montes de areia e carecas.

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  2. Russell também tinha o seu bule de chá, conhecido como "Russell's teapot", por causa de seu artigo "Is there a God?":
    "Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados – em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada."

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  3. Esqueci de mencionar o atual rei da França que é careca e não existe (Russell) e da percepção do morcego (Thomas Nagel)

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  4. os duzentos táleres de Kant, os que estão no bolso e os imaginários.

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  5. E o Panóptico do Bentham, e o Parque Humano do Sloterdijk ; e o túnel de vidro do Parfit; e o homem flutuante de Avicena; e a máquina abstracta de Deleuze; e o homem-máquina de La Mettrie; e o génio maligno - espantalho epistemológico - e o pedaço de cera de Descartes; e a folha de alumínio de Hume; e o super-homem de Nietzsche; e o líquido XYZ e o cérebro numa cuba de Putnam – o espantalho epistemológico contra-ataca - ; e o melhor objecto-argumento ad baculum para usar numa discussão filosófica: o atiçador de Wittgenstein.

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  6. E o homo sacer de Agamben;e o círculo hermenêutico de Gadamer...

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  7. E há um barco que ainda anda por aí à deriva, capitaneado pelo senhor Neurath. E o assassino de Smith, que Searle ainda não encontrou. Temos ainda os matemáticos ciclistas e as partes indiferenciadas de coelho, que Quine encontrava sempre que ouvia dizer gavagai. Por sua vez, Kivy vê cães S. Bernardo à frente, sempre que ouve música em tons menores.

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  8. Ah, e depois temos o SER que gosta muito de clareiras, pastores e casas.

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  9. e a famosa vela que aquecia a mão de Descartes, para além dos sonhos. E as masturbações que Wittgenstein falou brevemente num dos cadernos.

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  10. Há também o relógio de Paley, a carruagem de Platão, a máquina de Turing, o gato de Schrödinger.

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  11. O relógio de Descartes; o camelo o leão e a criança de Nietzsche; a pomba de Kant; o porco e o Sócrates de Mill; o sol que nasce para Hume, Popper...

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  12. Bem claro e o Super Homem do Nietzsche! Realmente o Nagel andou bem perto da BD quando falou do morcego. Por momentos poderia estar a pensar no Batman.
    Mas provavelmente quem saiu mais da abstracção foi o Foucault, que escreveu um livro sobre as palavras e as coisas, sendo que as coisas envolvem desde o copo para beber a água até à escova de dentes.
    Contudo, há ainda alguns que foram considerados filósofos e que falaram de tudo, menos de filosofia :-)

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  13. Mas os meus preferidos são os objectos absurdos de G. C. Lichtenberg: "uma colher dupla para gémeos", "uma cama imóvel para poder andar no quarto durante a noite" e "uma faca sem lâmina à qual falta o cabo"

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  14. Pitágoras divertia-se imenso com sinos e cordas esticadas.

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  15. não esqueçamos dos brinquedinhos e máquinas sexuais de marquês de sade que o auxiliavam no filosofar com o esperma; do pêndulo de schopenhauer no qual a vida pendula entre o tédio e a dor, popularmente evidenciado pela avareza de paixões aos domingos; e, a jarra de heidegger, a qual o sentido de sua existência é seu espaço vazio, consequentemente, como seria do ser da cerveja sem tal vazio para ser preenchido e logo esvaziado?

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  16. Acho que se esqueceram da Máquina de Apostas do Pascal.

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  17. Já agora, não sei se conhecem os action philosophers:

    http://doarcodavelha.blogspot.com/search?q=action+philosophers

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