17 de janeiro de 2010

Truthmaker

O termo inglês "truthmaker" quer literalmente dizer "fazedor de verdade," e foi esta a expressão portuguesa usada pelo professor Abílio Rodrigues Filho na sua tese de doutoramento, disponível aqui. Esta expressão, contudo, soa mal em português, porque ao contrário do inglês não usamos por sistema "fazedor." Um car maker não é um fazedor de automóveis mas um fabricante de automóveis, um juice maker não é fazedor de sumos, mas uma máquina de sumos. De modo que fica a questão de saber que expressão portuguesa exprimirá melhor o conceito.

E de que conceito se trata? É muito simples: é apenas a ideia, defendida por alguns filósofos, de que algo faz as afirmações verdadeiras serem verdadeiras. Tome-se a afirmação "Hoje está calor em Ouro Preto", proferida num dado contexto de elocução, num dado momento, por um dado locutor. A ideia é que se tal afirmação for verdadeira, então há algo que a faz verdadeira -- nomeadamente, o calor de Ouro Preto. Claro que saber depois pormenorizadamente o que é esse algo (Será um facto? Ou um estado de coisas? Ou qualquer outra coisa?) é uma questão em aberto. A ideia é apenas que algo faz uma afirmação verdadeira ser verdadeira, quando é verdadeira.

Como exprimir isto em português, se não quisermos usar fazedor de verdade? Eis duas hipóteses, entre outras: verofactor e veridador. Nenhuma tem a simplicidade do inglês, que só usa termos banais (maker e truth). Mas ambas estão correctas etimologicamente, se entendermos factor no sentido latino de feitor e não no sentido de aspecto.

Para ajudar a discussão, eis um mesmo artigo traduzido por Vítor Guerreiro das duas maneiras propostas, aqui e aqui. Trata-se do artigo "Truthmaker," de Trenton Merricks, retirado de A Companion to Metaphysics. Qual das versões funciona melhor nos seus diversos contextos? O que pensa o leitor?

28 comentários:

  1. Eu costumo traduzir usando "fator de verdade".

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  2. Parece-me muito fraco. Por exemplo, se fores coerentista há factores de verdade -- a coerência entre afirmações ou crenças -- mas não há truthmakers. Ou estou a ver mal, Alex?

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  3. Viva,

    "factor de verdade" (ou fator) não me parece viável pela razão de que as teorias que não postulam truthmakers podem ainda assim aceitar que há factores que contribuem para a verdadm e, isto é, aspectos acerca da verdade de x. (esta objecção não funciona se "factor" for entendido como "fazedor" ou "feitor")

    Para o coerentismo, por exemplo, não há truthmakers mas há um factor que contribui para a verdade, que é a consistência de crenças.

    O problema está na adopção de um termo que possa evitar estas confusões entre "feitor" e "aspecto". O "veridador" tem a vantagem de não se comprometer com uma ontologia de factos e de ser mais claro, pois a ambiguidade entre "feitor" e "aspecto" simplesmente desaparece para dar lugar à sugestão de algo que "dá" ou "garante" a verdade da afirmação.

    Pensemos nestoutro exemplo: os diversos ingredientes de uma sanduíche não causam a existência da sanduíche nem transformam em sanduíche algo que não era antes uma sanduíche. Os diversos ingredientes simplesmente garantem a existência da sanduíche, mas não de um modo causal. Pensando nisto, "veridador" é inclusive melhor do que o inglês "truthmaker", pois evita de todo as sugestões temporais associadas ao "fazer" - transformar em x algo que antes não era x - e de facto não se trata de "fazer" em verdade aquilo que antes não era verdade. "Veridador" significa "que garante a verdade" - é a opção mais universal, além de ser a mais escorreita, como se vê pelas palavras associadas que podemos usar:

    teoria veridativa, veridatividade, veridação.

    Que são muito mais elegantes do que "verofactividade", "verofactiva" e "verofacção".

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  4. Poderia ser "Criadores de verdade(s)"?
    Como em "prepare to meet thy Maker": "prepara-te para te encontrares com o teu Criador".
    Compreendo que "veridador" seria mais correto; mas também penso que é um termo muito menos interessante. Expressões como "truthmaker" ou "Criador de verdade" são por si só, interessantes, ou até mesmo, divertidas.

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  5. A expressão "fator" é mesmo ambígua. Mas não vejo que isso seja um problema fatal para a tradução.

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  6. Fatal, claro que não é. Mas então também "fazedor de verdade" não é fatal, e sempre é mais directo, apenas soa estranho porque não usamos "fazedor" para coisa alguma.

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  7. Pois é, por isso que acho "fator de verdade" melhor apesar da ambigüidade.

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  8. Pois, mas se conseguirmos dar logo a ideia de algo que faz uma afirmação verdadeira ser verdadeira, melhor. "Factor de verdade" é nesse aspecto pior do que "verofactor" ou "veridador". Mas tem a vantagem de não ser uma latinice!

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  9. Eu não vejo problema em utilizar o termo "fazedor de verdade", e penso que seja uma boa tradução feita pelo Abílio.

    Eu penso que as comparações com outros termos em inglês não sejam boas. Por que ao dizer "car maker" sabe-se que é um construtor de carros, da mesma forma sabe-se o que é uma máquina de fazer sucos. Mas, a natureza ontológica de um "fazedor de verdade" não se sabe o que é exatamente, por isso discute-se.

    Não é por que não se usa por sistema (alias, o que quer dizer isso?) o termo "fazedor de verdade" que ele não pode ser utilizado. "Fazedor" deriva do verbo "fazer" e está lá no dicionário.

    Além do mais, penso que "veridador" e "verifator" são neologismos feios.

    Da mesma maneira, acho ruim a alternativa "criador de verdade", pois dá a idéia de que verdades podem ser criadas, e descriadas, ao bem entender do vivente.

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  10. É discutível a utilização da Etimologia para a apropriação vernacular de uma palavra de outra língua, no entanto é um critério que dever ser sempre ponderado.
    Usando este critério parece-me razoável a opção “verifactores” - e não me parece aqui sensato entender “factores” como “aspectos” da verdade –, e menos razoável a opção veridictores (embora me pareça a mais eufónica), por ser teoricamente comprometida e estar relacionada com a Pragmática e a Análise do Discurso. Os veridictores seriam aqui entendidos de acordo com o truthmaker axiom, tal como foi enunciado por J. Fox – “… by a truth maker for A, I mean something whose very existence entails A”.

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  11. Há analogias muito simples: "predador", "elucidador", "liquidador"
    ... "conferidor"

    No caso particular do "veridador" vejamos:

    Já temos em uso a palavra "verificador", e como analogia próxima temos "mericarpo" (parte de fruto), em que a primeira palavra constituinte ("meros" - parte) declina em "i" (meri-). Portanto, nenhum problema em declinar "vero" em "i" e adicionar a segunda palavra constituinte, que neste caso é "dador" - aquele que dá ou garante.

    Acho que fazemos um uso demasiado gratuito do qualificador "neologismo". Devemos reservar essa qualificação para quando introduzimos palavras que não são deriváveis do uso comum do nosso léxico e gramática, por exemplo, o verbo "scanar" que já se tornou comum no uso coloquial, e no Brasil creio que se terá normalizado ainda mais com o "escanear", embora o próprio verbo inglês descenda do verbo latino "scandere", que deu em português moderno "escandir" (decompor versos nas unidades métricas).

    Ora, no caso de "veridador", tal como acontece com o verbo "instanciar" (que já ouvi considerar neologismo) não se trata de fazer enxertos, mas de usar algo que é perfeitamente derivável dos usos que já temos. Se há instâncias há a acção de instanciar. Se podemos falar em mericarpos e em verificadores, podemos falar em veridadores.

    Neologismos são a contraparte lexical da enxertia na horticultura, e não o desenvolvimento de um fruto com uma cor ligeiramente diferente dos outros que estão no mesmo ramo.

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  12. OIá Vitor, grato pela sua aula de gramática. Agora estou até um pouco mais simpático a opção "veridador", apesar de ainda não ver bem qual é o problema com "fazedor de verdade".

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  13. Não é que haja um problema com "fazedor de verdade" em si mesmo. A questão é se podemos ter um termo simples, elegante, económico, e sem ambiguidades, que funcione e seja derivável dos usos já existentes.

    Na tradução de expressões como "truthmaking theory" (teoria que postula truthmakers - e não teoria que funciona como truthmaker) como faríamos? Teoria dos fazedores de verdade? Pessoalmente, imagino logo uma tribo de pequenos construtores de verdades, uma imagem poética mas estranha. No entanto "teoria veridativa" ou "teoria da veridatividade" soa muito melhor em contexto filosófico.

    Se podemos ter um termo técnico com uma só palavra, etimologicamente correcto e elegante, por que manter uma expressão mais complexa?

    Veridativo, veridatividade e veridador não são mais estranhos do que "conferidor", "classificativo" ou "condutividade". Aliás, respeitam as mesmíssimas regras de derivação.

    A desvantagem de "verofactor" é que só em latim é livre de ambiguidades, e não dá alternativas tão elegantes como "veridativo", "veridação", e "veridatividade", quando tivermos de usar a palavra noutros contextos.

    O exemplo de "condutividade" é excelente aqui. Também o "consolidativo". - veridativo, veridatividade.

    Uma analogia melhor é a de "validador" e "validar" - Imagine-se que adoptamos "verofactor" e queremos dar a forma verbal, tal como damos para "consolidador" - "consolidar". O que sairia daí? Verofazer / verofacção? Compare-se com a elegância de "veridar" / "veridação"! Agora compare-se isto com "validar" e "validação". Poderíamos estar mais perto do uso comum?

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  14. "veridador" tem a vantagem, ao contrário do que me pareceu sugerir o Desidério, de não ser uma latinice (e "verofactor" é uma latinice) - como se pode ver muito bem pela analogia com "validar" e "validação".

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  15. Existe em português a palavra veridicção e veridictor. Um veridictor pode ser entendido como algo que "dita", "garante" a verdade de um enunciado ou proposição que é tomada como verdadeira

    Pedro Vieira

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  16. E o termo "verifixador" (ente ou coisa que fixa a verdade)?
    De "verifixar".
    Já temos verificar e verificador.
    Podemos passar a ter "verifixar" e "verifixador".
    E também "verifixável", "verifixação", etc.
    Penso que veridador não é tão sugestivo.

    Herculano Lago

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  17. Já compreendo que a opção "criador de verdade", sugerida por mim, foi considerada ruim. Só gostaria de lhes pedir ajuda para entender o porquê; sou estudante de Matemática/Eng. Química, e não tenho conhecimento profundo (talvez nem tenha conhecimento superficial) de Filosofia.
    Por exemplo, o comentador Renato Mendes disse:
    "Da mesma maneira, acho ruim a alternativa 'criador de verdade', pois dá a idéia de que verdades podem ser criadas, e descriadas, ao bem entender do vivente."
    Peço-lhes ajuda para entender o conceito: que "vivente"? Pensei que os truthmakers eram fatos, em razão dos quais uma verdade existia. Assim: uma pedra em cima duma mesa verde faz, ou "cria" a verdade "há uma uma pedra sobre a mesa verde". Não é assim?

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  18. filipe,

    truthmakers podem ser factos para quem defende uma ontologia de factos e aceita que há truthmakers, ou seja, coisas que garantem a verdade das proposições. O coerentista não vê as coisas deste modo. Para o coerentista a verdade é um factor da consistência de crenças e não de um estado de coisas no mundo, um facto, ou qualquer outra categoria, que garante ou dá ou faz a verdade da crença.

    "criador de verdade" sugere algo contra-intuitivo. Considere a verdade do teorema de pitágoras. Essa verdade foi criada pelo acto mental de Pitágoras ao descobrir o teorema? Há algum facto ou estado de coisas que "cria" a verdade do teorema? O verbo "criar" é mau aqui porque sublinha precisamente aquilo que em "fazedor" é uma mera sugestão e que nós queremos evitar. "Criador" elimina aquilo que "fazedor" tem de positivo e de aplicável aqui, e dá ênfase apenas ao que não desejamos. Daí a analogia com os ingredientes da sanduiche. Os ingredientes não "criam" a sanduíche, funcionam antes como uma condição de existência ou o garante da existência da sanduíche. A vantagem de "veridador" é ser compatível com qualquer ontologia. A única teoria com a qual "veridador" é incompatível é com a teoria uqe rejeita truthmakers mas que ainda assim pode aceitar factores de verdade, como a consistência de crenças.

    Não vejo a vantagem de introduzir "verifixador". Uma vez que haja um veridador, a verdade da afirmação é garantida pelo veridador. Um verifixador dá a ideia de algo, diferente do estado de coisas ou facto que "dá" a verdade, mas que tem a função posterior de "fixar" essa verdade, ou mantê-la na existência. Um verifixador seria, por exemplo, o Deus cartesiano, que primeiro cria as verdades e depois se certifica de que elas continuam a ser o que são, mas que pode, por qualquer desígnio obscuro, decidir que amanhã já não será assim. (pelo menos poderia fazê-lo, ainda que não o faça).

    "veridicção" parece apontar para algo de natureza linguística. Faz-me pensar na dicção ou na expressão. E o veridador, se é algo, não é uma entidade linguística. Por exemplo, o veridador de " "gato" é uma palavra com 4 letras" não é a palavra "gato" mas o facto de todos os espécimes bem formados da palavra "gato" terem uma certa estrutura: 4 letras - isto para os espécimes gráficos, para os espécimes fonéticos a coisa não é tão clara.
    Por outro lado, entendido como "dictor" - aquele que dita, aquele que pronuncia o "fiat" - é indesejável. A veridação é compatível quer com uma ontologia onde há deuses ou um Deus que dita as verdades do mundo, quer com uma ontologia onde não há deuses nem as verdades são o que são por desígnio. "Veridictor" sugere demasiado, nesse sentido, o arbítrio de uma entidade legisladora. Não se trata disso. Um veridador não tem de ser fruto do desígnio, divino ou outro tipo de desígnio inteligente.

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  19. Penso que "verofactor" não é uma boa opção. É fácil confundí-lo com "fator de verdade". Veridador não é um termo imediatamente claro, mas é menos pior. Fazedor de verdade, criador de verdade e verifazedor podem, à partida, dar erroneamente a entender a ideia de que há verdades a serem fabricadas. "Verifixador" parece melhor. Expressa a ideia de modo simples e com clareza imediata.

    Fernanda B. G.

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  20. de um modo mais simples, ainda acerca da "criação":

    "veridadores" são compatíveis com verdades eternas (não interessa se há tais coisas ou não). São maximamente inclusivos. Assim, suponhamos que existe Deus e que este é omnipotente. O veridador da afirmação "Deus é omnipotente" é o facto ou estado de coisas de Deus ser omnipotente. Mas esse veridador e a verdade que ele garante não foram criadas, pois são co-eternas com Deus.

    Podemos arranjar outros exemplos, sem entidades divinas.

    O que interessa é que o termo maximamente inclusivo e neutro parece "veridador" e nenhuma das outras alternativas.

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  21. "Veridicção" e "veridictor" não ocorrem no Houaiss, nem no Aurélio nem no dicionário da Porto Editora. Curioso, não é? Mas uma pesquisa rápida na Internet mostra que são termos usados nos estudos retóricos. O termo, contudo, não é uma alternativa a "veridador", mas apenas um termo próximo, que trata de outra coisa: do acto de garantir a elocução de uma verdade, ou do locutor dessa verdade. Todavia, parece-me uma informação preciosa esta que nos trouxe este leitor.

    "Verifixador" soa bem. Infelizmente, não diz o que se quer. Não queremos falar de algo que fixa as verdades, mas de algo que faz uma frase verdadeira ser verdadeira. "Criador de verdades" também não diz o que queremos. Não queremos estar comprometidos com a ideia de que as verdades foram criadas, num qualquer sentido, mas apenas com a ideia de que um gato preto em cima na cadeira faz a frase "O gato preto está em cima da cadeira" ser verdadeira, mesmo que não crie essa verdade.

    Repito o agradecimento ao leitor que nos trouxe a "veridicção", uma informação importante.

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  22. na verdade, o uso de "veridicção" aumenta a legitimidade de "veridação" e "veridador". Estabelece um precedente que foi já aceite.

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  23. Algo que faz uma frase verdadeira ser verdadeira.
    Algo que dá verdade a uma frase verdadeira.
    Algo que garante a verdade de uma frase verdadeira.
    Algo que estabelece a verdade de uma frase verdadeira.
    Um dos sentidos de "fixar" é "estabelecer".
    Um "verifixador" será, assim, um estabelecedor de verdade.
    Mais neutro e inclusivo do que isto parece-me difícil.
    Será?

    Herculano Lago

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  24. Olá para todos.
    Cheguei um pouco atrasado nessa conversa, mas vamos lá.
    A expressão ‘fazedor-de-verdade’ de início pode mesmo parecer estranha, mas ainda acho que é a melhor opção, pelas seguintes razões.
    Em português, é natural dizer, como disse o Desidério, que algo faz verdadeira uma proposição verdadeira. Mas se s faz verdadeira p, s é o fazedor-de-verdade de p.
    O título da versão em espanhol do texto do Gonzalo Rodriguez-Pereyra ‘Why Truthmakers’ é ‘Por qué hacedores de verdad’. Aparentemente, já está estabelecido em espanhol que ‘hacedor de verdad’ traduz ‘truthmaker’.
    ‘Fazedor’ está no velho e bom Aurélio.
    Não acho ‘fator de verdade’ uma boa opção – nesse ponto concordo com o Vitor Guerreiro. Por outro lado, ele diz que há uma sugestão temporal associada ao ‘fazer’, o que não concordo. Quando dizemos ‘s faz verdadeira p’ não há obrigatoriamente um sentido temporal, pois podemos dizer, por exemplo, que uma prova faz verdadeira um teorema, e não há um sentido temporal nesse caso.
    Quanto à opção ‘veridador’ me soa muito pior do que ‘verifazedor’, sugerida pelo Renato Mendes, ou a alternativa ‘verofazedor’. Ambas me foram sugeridas há bastante tempo pelo Paulo Faria. Dentre todos os neologismos, ‘verofazedor’ me parece o melhor – afinal, já usamos ‘verofuncional’ sem problema algum. Eu quase acatei a sugestão do Paulo Faria, mas no fim acabei sendo conservador e optando pelos fazedores-de-verdade.
    Na verdade, minha dúvida (que ainda persiste) é entre ‘fazedor-de-verdade’ e ‘fazedor de verdade’. Optei pela primeira porque de início escrevia-se ‘truth-maker’, mas confesso que não sei se é uma boa razão.
    Abraços

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  25. o "estabelecer" é indesejável porque sugere a ideia de um poder subjectivo que decreta ou institui a verdade da proposição, ou pelo menos sugere que há um momento no tempo em que a verdade é estabelecida, mas o termo técnico para truthmaker tem de ser compatível com todas as ontologias capazes de suportar truthmakers, e não apenas com uma teoria particular sobre a verdade.

    O mais neutro e inclusivo possível é o verbo "dar" no mesmo sentido em que o usamos coloquialmente em operações aritméticas: "dois mais três dá cinco" - nunca houve um momento em que se estabeleceu a verdade de "2 + 3 = 5" e o verbo "dar" é compatível quer com o voluntarista cartesiano, quer com o mais austero nominalista, quer com o defensor de entidades abstractas, precisamente porque não se compromete com qualquer deles.

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  26. 1.
    “Dois mais três dá cinco”.
    E se dois mais três não “quiserem” dar cinco?
    2.
    Expressões matemáticas tão simples tendem a ser consideradas factos matemáticos básicos que devem ser simplesmente memorizados.
    Os seus termos adquirem, por isso, uma “neutralidade” que não têm.
    Mas até o mais elementar tem que ser demonstrado e explicado.
    Ao fazê-lo, apercebemo-nos que o termo “dar” transmite à expressão aritmética dificuldades interpretativas inesperadas.
    Tal como os termos “emprestar” ou “tirar” - a propósito da subtracção – ou outros equivalentes.
    São termos metaforicamente muito ricos que transmitem, quer se queira quer não, a ideia de “negociação” (e não há acto mais dependente de um “poder subjectivo”, qualquer que ele seja, do que o acto de negociar).
    Daí que se devam utilizar outro tipo de termos : agrupar, reagrupar, decompor, estabelecer, etc.
    Em conclusão: aquilo que tira neutralidade ao discurso matemático não pode dar “neutralidade matemática” ao discurso filosófico.
    3.
    “Um veridador dá a verdade”.
    Dá?
    Bem, dá se quiser mas se não quiser …


    Bibliografia

    - Aharoni, Ron, Aritmética para Pais, Temas de Matemática, Gradiva, 2008.
    - Ma, Liping, Saber e Ensinar Matemática Elementar, Temas de Matemática, Gradiva, 2009.


    Herculano Lago

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  27. Ambos os links da postagem não existem mais:
    http://criticanarede.com/docs/truthmaker1.pdf
    http://criticanarede.com/docs/truthmaker2.pdf

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