4 de janeiro de 2010

Uma hipótese política


Acabei de publicar o meu polémico artigo de opinião O Fim da Política. Está aberta a discussão.

20 comentários:

  1. Coloquei um linque para o artigo no meu blogue.

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  2. Não diria o fim da política mas o fim dos políticos. O fim dos políticos não faz acabar com a política. Assim como a morte de deus ou o fim dos padres não vai levar ao fim da religião. Conheço muitos ateus que têm uma devoção de tipo religioso por Obama.

    Um modelo por competência, tal como o Desidério o apresenta, parece-me que é a mesma coisa que substituir o actual modelo (seja ele o que for) por um modelo científico. Isto é, a política dar lugar à ciência. Ora, duvido que seja isso que as pessoas querem. Ou melhor, o que se passa é que as pessoas não sabem o que querem. E é por isso que me pareceu apropriado o Desidério apelar à República de Platão, mesmo que saibamos que os critérios de política e de ciência no tempo de Platão eram diferentes dos critérios do nosso tempo. Claro que o equivalente à demonstração empírica da ciência física na ciência política é a crítica (interpretação e argumentação acerca da verdade). Mas o ‘tempo primo’ da ciência política não é o presente mas o futuro.

    À medida que a política se transforma em ‘media, jornalismo’ os critérios da crítica também se vão transformando. A ciência é ao mesmo tempo domínio público e domínio privado. A ciência não avança sem o acto isolado do cientista e ao mesmo tempo sem estar inserido num âmbito institucional. Esta compulsão actual para a ciência poderá ser a razão do fim dos políticos, ou dos religiosos profissionais.

    Quanto à história dos Neandertais, é curioso que ainda pouco se sabe sobre eles e já se estudou muito. As peças não coincidem e até são contraditórias. Eles desaparecem em pleno máximo glaciar (há 25 a 30 mil anos) na Eurásia. Seriam tão inteligentes como os seus parentes ‘sapiens’? falavam? Qual a causa da sua extinção? Ninguém sabe. Ora, ‘eles’ estariam em princípio melhor adaptados ao frio do que ‘nós’, mas fomos nós que sobrevivemos e eles não. Há quem diga que fomos nós que os matámos, por sermos mais inteligentes do que eles. Será?

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  3. Desidério, o texto está excelente. Deixo apenas duas notas:

    1. É possível que o afastamento da vida política resida na explicação que propõe. É igualmente possível que estejamos apenas mais racionais.

    E ideia (assumidamente provocadora) foi defendida há uns tempos por um académico que dizia que, sendo o acto de votar altamente irracional (um voto não faz diferença mas cada pessoa não tem direito a mais do que isso), a melhoria dos níveis educativos aumentaria a percentagem de pessoas com consciência desse fenómeno.

    Um mecanismo similar permitiria explicar por que razão países com níveis de desenvolvimento mais baixos ou países em situação de crise (alturas em que tendemos a mandar a razão às malvas) tendem a registar taxas de abstenção inferiores à média. Infelizmente, não me lembro do autor da ideia.

    2. Concordo com a ideia de que as massas olham para a democracia como algo instrumental. Mas duvido que tolerem a ditadura. Porque, mesmo que levem esse instrumentalismo ao limite, as ditaduras são, por natureza, avessas aos mais variados direitos: não só políticos (liberdade de expressão, p. ex.) como económicos (a liberdade de abrir um canal de televisão, de fazer concorrência às empresas monopolistas, de fazer comércio com o exterior).

    É por isso que, apesar de o regime chinês continuar a ser tecnicamente uma ditadura, os graus de liberdade que concede à sua população terem vindo a crescer desde a década de 80. Isto aparece em todos os índices de liberdade política/económica, nem sequer estamos a falar de dados ocultos.

    Já agora, e a título de curiosidade, quais são as outras "excepções" que o livro que está a ler refere? O estudo mais recente que eu li apontava apenas para Singapura. Actualmente, a ideia de que a liberdade política anda lado a lado da liberdade económica é uma das conclusões mais seguras da ciência política.

    PR

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  4. Na verdade, deixo mesmo uma terceira nota: eu gostava de poder assinar com o meu nome e não com o nome da porcaria do meu blogue. Há alguma forma de o fazer? Pelo que vejo, a conta de wordpress só permite esta opção...

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  5. O texto de Desidério é pertinente, denso e de difícil comentário. Creio que a sua tese fundamental se baseia na ideia de que existe determinados pressupostos inevitáveis e que, por isso mesmo, pouco há a fazer. Dá o exemplo do homem de neandertal para ilustrar a sua ideia. Será que o degelo funciona da mesma maneira que as sociedades? O que Desidério parece querer dizer é que os movimentos sociais obedecem a determinadas nuances que transcendem os fenómenos individuais e, por isso, pouco há a fazer. Em parte parece pertinente, por outro lado, algo aí nos repugna, talvez pela pseudo-noção» que possuímos quanto à possibilidade de sermos intervenientes na sociedade, pelo menos através do voto, tal como é referido no texto. Numa situação limite, então nada seria possível, muito menos a nossa liberdade.
    O fim da política poderá ser deste modo questionado. Possivelmente, nunca houve política e por isso nunca poderá haver fim de uma coisa que não existe ou não existiu.
    Contudo, discutimos aqui no blogue. Nunca antes houve tanta consciência política e intervenção política. Será isto pura e simplesmente aparência? Será um poder alcançado para entreter as pessoas, levando-as a acreditar que possuem poder? Creio que não. Pelo facto de haver uma melhoria da qualidade de vida das pessoas e essas mesmas pessoas se interessarem mais pela praia do que pela cidadania, não significa que não haja proporcionalmente um aumento do interesse pela cidadania. Aquando da proclamação da República na Câmara de Lisboa, e enquanto se faziam os discursos de circunstância, passavam na praça várias pessoas com o seu gado para o trabalho totalmente alheadas dos acontecimentos. Actualmente seria possível isto acontecer? Talvez não. Porquê? Porque houve um aumento considerável da atenção das pessoas face à cidadania. Creio ser esta a ideia do «onumeroprimo» e do F. Dias, nomedadamente com a questão levantada pelo último parágrafo.

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  6. PR, eu penso que vale a pena contrastar dois livros: o de John Kampfner, Freedom for Sale, e o de Ben Wilson, What Price Liberty. O primeiro é cosmopolita, tratando de Singapura, China, Rússia, Emiratos Árabes Unidos e Índia, como exemplos de regimes superficialmente democráticos (uns) e superficialmente ditatoriais (outros) mas que se encontram a meio do caminho e mantêm as populações satisfeitas porque têm produzido um crescimento económico sem precedentes. Depois trata da Itália, Reino Unido e EUA, como exemplos de democracias tradicionais nas quais as liberdades políticas são cada vez mais postas em causa, quer em nome da segurança quer em nome do espectáculo e do crescimento económico, sem que o povo reaja mal a isso.

    O segundo trata da história da batalha pelas liberdades no Reino Unido, do séc. XVII aos dias de hoje. Como Wilson mostra, não há um conceito unívoco de liberdade, nem um conjunto fixo de liberdades, nem uma maneira automática de garantir o máximo de liberdades. É tudo muito casuístico, e nenhum sistema institucionalmente garante a liberdade, se as pessoas em si, os governantes, os parlamentares, os juízes, as polícias, e — sobretudo, sobretudo — as pessoas comuns, não tiverem em si respeito pela liberdade e bom senso.

    Ora bem, se você agora aplicar isto ao problema mais geral tratado por Kampfner, torna-se fácil argumentar que há uma certa ingenuidade quando se pensa que a liberdade económica dá origem à liberdade política. Isto é ingénuo porque pressupõe 1) que há um conceito simples e unívoco de liberdade política (e não há tal coisa) e 2) que as pessoas comuns valorizam a liberdade política (o que é demonstravelmente falso).

    O que eu penso é o seguinte: a maior parte do que nós concebemos como liberdades políticas fundamentais são irrelevantes para a generalidade das pessoas. Se não houver perseguições políticas, mas a imprensa for algo controlada, se os governantes derem liberdade económica e permitirem a produção de riqueza, a maior parte das pessoas não quer saber de certos tipos de liberdades políticas que você e eu consideramos fundamentais. Pense bem. Para que raio serve a liberdade de dizer mal do governo nos jornais, para o cidadão médio? Ao cidadão médio interessa-lhe ter uma vida boa. Não lhe interessa, e até tem nojo, do espectáculo dos comentadores e políticos a lavar a roupa suja em público. O que interessa ao cidadão médio é ganhar dinheiro. E para isso os governantes têm de fazer regras claras e ter instituições que funcionam claramente para garantir que quem trabalha tem a certeza de ter uma vida cada vez melhor.

    Já agora, a talhe de foice comunista, parece-me que o que alimenta a mentalidade marxista no Brasil é, entre outras coisas que incluem a pura ignorância bibliográfica, o facto de nos países sem instituições que garantam a justiça económica vive-se sem qualquer garantia de que o trabalho honesto seja recompensado com maior riqueza — porque a corrupção é constante e corrói toda a vida económica nacional. Em circunstâncias destas não se pode criticar as pessoas por serem marxistas, pois vêm na economia de mercado exclusivamente uma maneira de a corrupção servir quem já tem poder económico, e não uma maneira de dar poder económico a um número cada vez maior de pessoas.

    (Se fizer logoff do Wordpress, pode escrever o seu nome na caixa de comentários, o que muito agradeço.)

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  7. Não, Daniel, o meu texto não é sobre a nossa incapacidade de intervenção, como se um determinismo social nos impedisse de fazer o que queremos ou tornasse inútil o que fazemos individualmente. É sobre o desinteresse que a maior parte das pessoas tem pela vida pública.

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  8. Desidério,

    Concordo com a ideia de que as pessoas, em média, não atribuem uma prioridade absoluta à liberdade. Mas isto é uma verdade um pouco trivial. Caso contrário, todas as democracias acabariam invariavelmente por degenerar numa espécie de minarquia absoluta.

    Mas dizer que não há qualquer ligação entre liberdade política e liberdade económica é uma afirmação muito mais forte do que esta anterior.

    É possível argumentar que uma pequena ditadura pode manter a populaça entretida enquanto garantir crescimento económico. O problema é que, tipicamente, as ditaduras não costumam ser solo fértil para estimular este crescimento. Na verdade, até costuma ser o contrário.

    E note que as limitações à liberdade política no caso das ditaduras não são exactamente do género de se proibir os meios de comunicação social de dizer mal do primeiro-ministro. Normalmente, vão um pouquinho para lá disto, o que torna as coisas menos suportáveis :)

    Os casos concretos que aponta não são perfeitos para corroborar a tese. A China, por exemplo, tem tido um crescimento económico espantoso -- mas também tem tido desenvolvimentos políticos assinaláveis. Basta olhar para a forma como as revoltas populares são tratadas: há dez anos era com tanques de guerra, hoje é com prevenção policial.

    O mesmo processo se passou no Chile, que é hoje um caso paradigmático de sucesso económico na América Latina. O capitalismo coexistiu com Pinochet durante algum tempo - mas o capitalismo ficou e Pinochet passou com o tempo. Chile e China confirmam a ideia de que a liberdade económica é um poderoso 'gatilho' para despoletar a liberdade política.

    Quanto à Rússia e Emirados Árabes, penso que a teoria é de aplicação mais difícil. A ligação liberdade política/liberdade económica só é válida quando o crescimento é propulsionado pelo mercado e não pela exploração de recursos naturais. A correlação perde muita força nestes casos (mas é um fenómeno conhecido e incluído em na maioria dos modelos que estimam a relação).

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  9. Caros Todos

    Sem os recursos filosóficos que são patentes nos comentários anteriores, mas com muita reflexão política e experiência de diversos mercados livres e menos livres (ou regulamentados, em economês), gostaria também de deixar aqui o meu contributo. Para já telegráfico:

    a) Refere-se o artigo de base à "falência do sistema democrático"?
    b) Quando é que as tais "pessoas" participaram mais na vida pública? Ou na Política? Ou na Decisão dos destinos de uma nação, sem ser nas referidas convulsões/revoluções?
    c) Claro que se hoje, por hipótese, fosse proclamada a "monarquia" em São Bento, quem é amanhã não ia trabalhar? Tais pastores de 1910? Quem é que não trabalhou no 25 de Abril de 1974?
    d) Quem é que fez o 25 de Abril? Parece que está hoje claro, para quem quer "saber" destas coisas, que a Revolução dos cravos foi feita por militares com falta de dinheiro e por um punhado de comunistas, bem organizados e clandestinos, mas que em "Democracia" não chegaram nunca a arrecadar sequer 20% dos votos expressos. E os outros que não fizeram a "revolução"?
    e) Desde quando a melhoria do nível de vida se "correlaciona" com a liberdade económica? Ou com a Liberdade Política? Ou com a Democracia? - Uso aqui o termo correlação, no seu sentido estatístico, de explicação do comportamento de uma variável independente (causal) e uma dependente.

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  10. f)Tomemos o caso de Portugal: Não há Liberdade de iniciativa Privada para fazer uma televisão Regional; ou para produzir e consumir combustíveis de origem biológica; ou para criar uma companhia aérea; ou para montar um sistema empresarial de reciclagem de polipropilenos!!!
    g) A questão da luta por melhores e mais estáveis condições de vida, parece ter maiores probabilidades explicativas das motivações para a participação das massas! Não na política, mas nas convulsões/revoluções: Portugal não se fez há 800 anos por nenhum movimento dos Vimaranenses, mas sim porque um conde "Teso" descobriu que os "Alarves" do Sul tinham Ouro. Ouro com que ele podia pagar as promessas feitas a quem o acompanhava.
    Os descobrimentos fizeram-se porque havia um montão de miseráveis (em Portugal e por essa Europa fora) que tanto lhes dava roubar para comer, como morrer no mar "Oceano" desde que lhes dessem comida!
    h) Efectivamente o poder do voto individual é absolutamente irracional. Além de que entregar as decisões de "quem e como" se conduz uma nação, nas mãos da populaça é de uma irresponsabilidade atróz. Ontem os Reis mandavam por direito divino. Hoje os Presidentes ou Primeiros Ministros, mandam por delegação do povo, manipulado! Não pelo Marketing, como é uso dizer (o economês mais uma uma vêz) mas pelas apuradas técnicas de comunicação e de psicologia de massas, postas em prática pelos media corrompidos. Quer sejam os trdicionais Mass-Media quer sejam os novos Micro-Media.
    i) A falência da Democracia e/ou dos sistema Liberal e/ou Capitalista, tal como a implosão/sabotagem da ex-URSS têm um denominador comum. São sistemas impostos de "Cima para Baixo", mesmo que disfarçados de escolha pelas bases/povo. E estes sistemas faliram, porque não resolveram os problemas básicos das "pessoas". A leste não conseguiram em 70 anos elevar as condições de vida acima do que a história teria feito se os "Czares" tivessem continuado no poder.
    A Ocidente, depois do pico de bem-estar alcançado nos idos de 70 do Séc. passado, os problemas desse desenvolvimento/crescimento não foram de maneira nenhuma sequer detectados pelas diversas variantes de "Democracia". Esta imobilidade (o tal morto que caminha) levou ao aparecimento de movimentos e associações de cidadãos "pariculares" preocupados com a resolução efectiva dos mesmos: as chuvas ácidas, a escassez de peixe, a erosão e degradação dos solos agrícolas, a escassez de água, a assistência às vítimas do SIDA, à reintegração dos sem abrigo, à ajuda médica, educativa e de alimentação em África, para contrariar as ineficiências da ONU. Estas estruturas têm várias características inéditas: Nasceram no seio do sistema capitalista, utiliza os modelos capitalistas, tira partido deles, alavanca os donativos com mais eficiência, apresentam melhores resultados verificáveis e nasceram no seio de comunidades particulares, ou seja de "Baixo para Cima".

    Obrigado pela paciência. Aguardo pelo "contraditório"!

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  11. O que f. Caria pretende provar é que o bem estar económico favorece a participação política? Assim sendo, poderemos dizer que actualmente temos mais participação política do que há uns anos? Se a resposta for afirmativa, creio que concordo genericamente consigo.

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  12. O importante é o seguinte: correlação não é causalidade. E basta alguns casos em que essa correlação não exista para acabar de vez com a ideia de causalidade.

    China e Singapura não são democracias, nem há qualquer perspectiva de que o venham a ser. E no entanto têm tido um crescimento económico que nunca país algum tinha antes atingido. E continuam a ter.

    Para tornar plausível a ideia de que a liberdade económica de algum modo dá origem à liberdade política seria preciso explicar por que razão isso ocorre. E não há qualquer boa explicação. É apenas um artigo de fé. Como todos os artigos de fé, é imune ao contra-exemplo. É como os comunistas: a história provou que a teoria deles não funciona, mas quantos comunistas há que o tenham reconhecido?

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  13. Desidério,

    O que diz está incorrecto. A pobreza também está altamente correlacionada com o crime. O facto de o Madoff ter sido um aldrabão de primeira e o meu vizinho de baixo, que ganha 600 euros por mês, ser uma paz de alma não invalida a correlação - uma das mais bem explicadas e constatadas da sociologia e economia modernas. Em ciências sociais, um caso é um caso. E centenas são centenas...

    O erro está em confundir necessidade com influência. Ao contrário do que acontece com a Lei da Oferta e da Procura, segundo a qual mais Procura implica necessariamente um preço maior, a teoria que discutimos diz apenas que a economia exerce influência na política. A abordagem tem, por isso, de ser estatística. E os contra-exemplos têm de ser estatisticamente relevantes.

    Outro erro está em misturar abusivamente variáveis dicotómicas com variáveis cardinais. O nível de rendimentos de um país oscila num largo espectro: de 0 a infinito. Mas a liberdade política também, e é por isso que o Desidério não pode apenas olhar para os países como democracias/não democracias. Caso contrário só se apercebe da ligação entre as duas variáveis quando a segunda transpuser finalmente a fronteira que separa as democracias das não democracias.

    Para dar um exemplo, se estiver a estudar a relação entre horas de estudo e resultados de exames não pode criar uma escala em que as horas variam entre "0/24 por dia" e as notas variam entre positiva/negativa. Se o fizer, vai encontrar imensos casos em que mais horas de estudo não produzem qualquer resultado nas notas, já que só uma pequeníssima faixa de alunos está, em qualquer momento, prestes a transpor as categorias positiva/negativa.

    É por isso que os investigadores desta área constroem modelos de análise com "graus de democracia" e "graus de rendimento". E é aí que a correlação é altíssima. De facto, constata-se qu o nível de rendimento de um país é a melhor variável para prever o seu grau de liberdade política. (Neste esquema, Singapura é o único caso que escapa à previsão; a China está dentro do patamar esperado).

    Finalmente, é falso que esta hipótese seja apenas uma "macroteoria" sem qualquer "microfundamentação". Dou-lhe alguns exemplos (grande parte dos quais com confirmação experimental também):

    a) A liberdade económica implica a diminuição do peso do Estado. Isto diminui as formas de coagir a economia e a capacidade de subornar os grupos cativos com favores ou benesses. Isto permite perceber por que é que todas as ditaduras começam sempre com o aumento da regulação económica (Alemanha Nazi, Itália fascista, etc.)

    b) A liberdade económica estimula o crescimento, que cria classes médias com preocupações que vão para lá da mera subsistência. Preocupam-se agora em ter acesso a jornais, cinemas, música. A censura é menos tolerada e o regime torna-se mais aberto.

    c) A liberdade económica estimula as trocas com o exterior, o que fornece exemplos de novos regimes políticos. A troca de ideias estimula o debate e a discussão intelectual, que por sua vez ajuda a tornar caducos os mitos nos quais assenta a pretensa legitimidade do regime despótico.

    P.S.- Peço desculpa pelo tamanho do comentário mas tinha muito a dizer e, às 4h da manhã, não há muito habitualmente muito que fazer :D

    um abraço,

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  14. Olá a todos, as 4 da manhã são mesmo terríveis :)

    Efectivamente correlação não é causalidade, mas também não há causalidade sem correlação positiva robusta.

    Quando me referi às organizações cívícas, não me estava propriamente à referir à "política", pois esta está irremdiavelmente associada às ideologias e sistemas vigentes, que não têm dado bom recado da governação. As estruturas "Bottom-up" possuem várias especificidades, que fogem ao paradigama corrente da política como a temos conhecido:
    a) Nascem onde existem os problemas;
    b) Não dependem de subsídios estatais;
    c) Têm um grau de sucesso/eficácia incomensuravelmente superior aos megaprojectos da ONU/UNICEF/Cruz Vermelha, entre outros;
    d) Encontram as suas fontes de financiamento nos "mercados" geridos pelos sistemas capitalistas;
    e) Evoluem e adapatam-se ao seu contexto ou meio ambiente, como os sistemas biológicos.
    Um bom exemplo disto é o sucesso do micro-crédito.

    Quanto à China que tanto impressiona o Desi, gostaria de sublinhar alguns factos fundamentais que podem contribuir para explicar a situação. Não conheço o detalhe dos modelos econométricos aplicados ao mercado chinês (até porque sou de micro...).
    1) A população chinesa ronda os 1.300 milhões, mas o milagre económico só está a produzir efeitos para cerca de 300 milhões de chineses concentrados nas mega-metrópeles industriais como Guangzhou ou Shenzhen. Os outros 1.000 milhões são camponeses que praticam sobretudo uma agricultura de subsistência e vivem na idade média, em total dependência do clima, que não tem sido simpático. Portanto só 23% da população chinesa está ligada ao milagre económico.
    2) Estes camponeses têm sido uma fonte inesgotável de "mão de obra escrava" para as empresas de "sucesso". Pagam ao governo para saírem dos campo durante cerca de 3 anos. Pagam às empresas onde fazem jornadas diárias de mais de 12 horas, porque estas cobram-lhes o investimento de formação que estão a fazer com eles: ensinar a quinar, a soldar, a manipular químicos, construção em betão e aço, informática, inglês, etc.
    Esta é a principal razão da elevada competitividade da produção chinesa em massa: Produtos sem inovação tecnológica, recursos humanos não especializados, consequente fraca qualidade e portanto preços baixos, muito baixos nos sectores de menor valor acrescentado: Texteis e afins, electrónica de consumo velha (que qualquer estudante de 2º do Técnico desenha e executa sózinho).
    3) Os produtos de mais elevada qualidade que também já existem, são transacionados a preços quase iguais aos que se obtêm nos países de Leste ou mesmo na Alemanha ou Itália.

    Em conclusão, não há nada de estranho na opção de desenvolvimento que está a ser aplicada numa economia só aparentemente, Liberal. É uma solução clássica de desenvolvimento acelerado de implementação típica em sistemas políticos autoritários.

    Se adicionarmos os astronómicos níveis de corrupção da administração pública e os problemas sociais e culturais previsivelmente resultantes desta industrialização acelerada de agricultores esmagados nos novos ambientes urbanos...

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  15. Obrigado pelos esclarecimentos. Mas não me convence. Correlação, mesmo forte, pode ser mera contingência histórica devido a factores comuns. E basta um cisne preto para me pôr de pé atrás.

    Mais liberdade política é importante para quem, exactamente? O que você pensa parece-me uma ilusão, e tanto pior por parecer científica. Desde que o estado deixe as pessoas produzir e usufruir da riqueza, não ande a prender pessoas, e as deixe fazer o que querem, para que raio é realmente preciso a democracia? Afinal, quantas pessoas votam na Europa ou nos EUA? E quantas pessoas participam na vida política? E qual é a quantidade dos jornais dedicada à política e a dedicada a frivolidades?

    O que as pessoas querem nada tem a ver com parlamentos, votações, vida pública. Querem que não as chateiem, querem educação boa, limpeza nas ruas, segurança, perspectivas de carreira, dinheiro, férias, viagens, televisões, etc. A liberdade política só é importante para uma pequeníssima parte da população. O restante da população sempre a apoia as convulsões políticas porque espera um futuro economicamente melhor. Se tiverem já uma vida boa, que razões poderão ter para querer toda a chatice das eleições e debates políticos e sei lá mais o quê? Tudo isso é mero passatempo de políticos, mas não das pessoas comuns.

    Escreva isto que lhe digo. O futuro do mundo é Huxley. Não é Orwell. Não é uma dicotomia entre riqueza e democracia, por um lado e pobreza e ditadura, por outro. É a tecnocracia, em que os governantes são como que gestores. E você não terá jamais, em condições como Shangai, milhares de pessoas a manifestar-se nas ruas a pedir eleições e tal. Isso não serve para coisa alguma seja a quem for, excepto à classe política que nas democracias, como sabe, são especialistas não em gestão dos países, mas em retórica barata — e depois rodeiam-se de pessoas que podem ou não ser realmente boas gestoras.

    Uma vez mais, obrigado pelos esclarecimentos. Tenho noção que o PR sabe muito mais disto do que eu. E se continuar a ter paciência, vá dizendo coisas, pois gosto sempre de ler quem procura refutar-me com razões bem pensadas, como as suas.

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  16. Desidério,

    Eu concordo com o essencial do seu comentário. O jogo político, a "vida cívica" e a "participação pública", são , em grande parte, tretas. O importante é ganhar dinheiro, viver a vidinha e que ninguém nos chateie. Mas há três pontos importantes que gostava de salientar.

    Em primeiro lugar, os regimes despóticos não nos deixam propriamente "viver a vidinha". Na China já não há anos sangrentos como os da Revolução Cultural mas o Governo tem um poder discricionário para matar e torturar.

    Mesmo que, ao contrário do que acontecia antes, os alvos sejam escolhidos a dedo e a população não passe, na sua maioria, pelo suplício das mãos fracturadas a martelo, a ameaça está sempre no ar. E ninguém tem pachorra para aturar um regime que leva ao calvário quem procura "tiananmen" no Google.

    Em segundo lugar, penso que subestima a importância que damos ao exercício da escolha. Olhe para as pessoas nos centros comerciais: grande parte do gozo que têm a comprar as coisas mais fúteis não está no uso que lhes vão dar mas no mero acto de ver, procurar e decidir entre as várias alternativas.

    E não adianta dizer-lhes que têm um burocrata muito bom que percebe imenso de moda e lhes vai comprar as melhores calças ou o melhor biquini. O exercício da escolha é uma parte constitutiva do prazer das compras.

    Penso que o mesmo acontece com o voto político - e que é por isso ouvimos tanta gente defender a democracia de forma abstracta, mesmo quando não liga pêva ao voto em situações concretas. O importante é a liberdade de escolha estar lá. O vegetarianismo também só tem significado real se se puder comer carna. Sem isso não é vegetarianismo, é uma imposição externa pessoalmente pouco recompensadora.

    Em terceiro lugar, não devemos desprezar as prebendas e benefícios atribuídos a faixas segmentadas do eleitorado. Mesmo quando a ideologia não é importante há sempre possibilidade de "comprar" eleitorado, algo que acontece recorrentemente a cada quatro anos (basta olhar para a lista de benefícios fiscais e respectivos destinatários). E isto é um forte incentivo à "participação cívica" no "acto eleitoral". Eu, por exemplo, estaria muito interessado em votar num partido que prometesse uma isenção de IRS aos bracarenses com idades entre os 23 e os 25 anos :)

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  17. boa noite, estou a ver que a divergência de ideias surge, como em qualquer assunto, sendo possível estabelecer assim um debate/dialogo!
    hoje encontro me com pouca disponibilidade, mas queria salientar o facto de ter apreciado os exemplos- contra exemplos supra transcritos e passarei aqui noutro dia para poder aprender mais umas coisas e expressar a minha opinião!

    cumprimentos,
    PEDRO MATOS

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  18. há efectivamente algo de errado em querer apenas uma vida boa e descurar a vida pública? há algo errado em privilegiar a liberdade económica e não ter nenhum interesse na liberdade política? existe algum problema em querer uma vida boa, e viver bem? não existem problemas nem nada está errado, num sistema capitalista a soberania é sempre dos consumidores, eles decidem, eles podem escolher, eles pensam no que querem, no que desejam. Claro que há marketing, e coisas do género, há quem queira vender, do mesmo modo que se publicar um livro quero que leiam o que escrevi, pelas minhas ideias ou pela minha história e quero ganhar dinheiro com isso, se não quisesse ganhar dinheiro com isso colocaria num blog, onde não receberia nada. existe algum problema no sistema capitalista? se partir da perspectiva que as pessoas são exploras, estarei numa concepção claramente marxista, e quais foram os resultados desse óptimo sistema? pelas leituras que faço de economistas e filósofos, como o caso de Rothbard ou de Von Mises, não há economia socialista, apenas economia capitalista. de que modo é correto querer pensar a democracia? claro que filosoficamente isso tem interesse, dá para escrever livros, fazer umas palestras, mas o jogo democrático será sempre dos mesmos, claro que pode existir uma democracia directa, é verdade, mas se questionar os resultados dos referendos, ou se os referendos mesmo não satisfazerem 100% da população, haverá uma pequena parte que seja. eu não seja prejudicada, é claro. eu não preciso da democracia para o meu dia a dia, especialmente se essa democracia significar que os piores são eleitos, depois quando se fala em democracia e soberania popular, isso pode equivaler a que a maioria decida ter uma ditadura como o nazismo? outra inconstâncias da democracia. eu não quero democracia, apenas quer liberdade económica, mesmo enquanto estudante de filosofia, o que me interessa é uma reflexão não sobre a democracia, mas sobre o anarco-capitalismo, um sistema que visa a plena liberdade económica. um pequeno aparte do anarco-capitalismo, os seus argumentos que interessam como a privatização de uma sociedade devem ter uma base moral e não apenas utilitários, isto é, não devem ter indícios apenas em base de custo e beneficio, isso é pouco, mas devem fundamentar-se na razão humana, e na moral, na ética anarco-capitalista (ou libertária para evitar cair em contradições dos termos, pois anarco-capitalismo poderá ser uma contradição, especialmente para os anarquistas que defendem uma sociedade coletiva e criticam tanto o capitalismo como o estado, mas a sua solução é em vez do estado, existe outra instituição que viole a propriedade do outro - acabar com o capitalismo quer dizer, acabar com o dinheiro e ter um sistema de trocas directas, que é inexequível, do ponto de vista económico). a democracia possui incoerências no seu seio, do mesmo modo que qualquer forma de estatismo, que simplesmente equivale a violação da propriedade de cada um, especialmente como neste sistema social democrata na Europa que os roubos são feitos através dos impostos, ou onde se pedem às pessoas que pagam quando um bando vai à falência, e se privilegia o monopólio estatal, ou um banco central. acima de tudo quem quer este sistema são os burocratas de sempre, sendo sempre auxiliados por intelectuais, em épocas anteriores eram apoiados pela igreja, mas neste momento são por economista ou cientistas sociais que com os discursos científicos privilegiam o estado. há alguma coisa que não possa ser executada por meios privados, onde atualmente quem controla é o estado? correios? telefone? segurança? justiça? algum deles não seria mais eficaz do modo privado?

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  19. Este é o novo link para o artigo: http://criticanarede.com/fimdapolitica.html

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