13 de janeiro de 2010

Zangado com a publicidade

A publicidade é quase toda uma mentira. E online ainda é pior. Infelizmente, não há outra maneira de financiar as publicações na Internet excepto através da publicidade, porque as pessoas não gostam de pagar para ler. O aparecimento recente de publicidade de extremo mau gosto nas páginas desta revista levou-me à decisão radical temporária de retirar toda a publicidade. Caso o leitor não saiba, eu não tenho meio de controlar que tipo de publicidade surge nas páginas da Crítica. Apelo por isso à sua ajuda: faça um donativo ou uma subscrição voluntária da Crítica, para ajudar a manter esta revista. Obrigado!

42 comentários:

  1. Hummm... Experimenta outro servidor de anúncios. Julgo que o SAPO tem, mas também podes encontrar aquilo que procuras em http://www.bidvertiser.com/ , em http://www.smorty.com/ ou noutros serviços do mesmo género.

    O problema, quanto a mim, é outro que não o serviço de publicidade: grande parte das pessoas clica mais rapidamente num anúncio sobre o "teste da morte" ou "loiras malandras" do que em anúncios com conteúdos mais sérios. Isso explica que sites sem qualquer interesse sejam tremendamente visitados, como o daquela desempregada inglesa que resolveu contar a sua (suposta?) vida sexual num blog e ganhou rios de dinheiro à custa do voyeurismo alheio.

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  2. acredito que pessoas clicam, seja na logosofia ou no anúncio da nossa senhora de qualquer coisa só pela parceria mesmo....

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  3. (pretensamente) falo em nome dos estudantes e afins do brasil, que um dia farão um donativo voluntário á Crítica!

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  4. desculpe pelo anônimo e pelo flood. e mais uma correção: leia-se "à" no segundo comentário anônimo.

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  5. O mais impressionante é isso mesmo, Sérgio. O género de anúncios que o Google estava a colocar nas páginas servidas em Portugal, mas não no Brasil, incluía... o jogo da flatulência. É incrível. Mas o mais incrível é o que dizes e bem: esses são os anúncios que mais dinheiro dão, porque é nisso que mais pessoas clicam. Quanto me passar o azedume vou ver se consigo anúncios pornográficos, pois assim fico rico. Que miserável é a humanidade!

    Esclareço que não foi pelos anúncios religiosos que por vezes surgem na Crítica que tomei esta decisão.

    Obrigado, Sérgio, pelas sugestões.

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  6. assinatura? não, obrigado.

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  7. Por acaso - e não me importo nada de dar a cara - concordo com o sistema de assinaturas.

    Estamos em crise? Dizem que sim, embora não creia que seja para todos. Mas o certo é que o pessoal não se importa nada de ser assinante da SporTV, que custa mais de 20 euros por mês, qualquer coisa à volta de 500 euros por ano; o estádio do Dragão tem, garantidos, mais de trinta mil bilhetes, mesmo que a equipa jogue mal, apesar de os bilhetes custarem 25 euros ou mais; "toda" a gente tem um telemóvel xpto que tira fotografias, vibra ao som da música e faz tostas mistas, por módicos cento e tal ou duzentos euros; mas quando se fala de assinar / pagar conteúdos intelectuais, ai-jesus-que-lá-vou-eu.

    Quem não tem dinheiro para pagar 20, 30 ou 50 euros por ano (!) em produtos culturais, é porque, de facto, não precisa deles - porque não os merece.

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  8. Tiraste-me dos dedos as palavras...

    Mas há um aspecto aqui que até se relaciona com o meu post anterior sobre a ficção científica economicamente alienada: é a crença falsa, mas muito comum, de que a cultura deve ser gratuita, por ser um direito. A água também é um direito, mas não é grauita. A questão é que nas sociedades contemporâneas os produtores culturais são pagos indirectamente pelas pessoas, através dos impostos que financiam as universidades e etc., e isso fá-las pensar que a cultura é barata. Pelo contrário, os produtos culturais são caríssimos porque envolve o tempo de alguém que demorou décadas a ter a preparação necessária para ser produtor cultural e alguém que, como todas as outras pessoas, não vive do ar -- tem de comprar comida, roupas, habitação, etc., e se ninguém lhe pagar os serviços culturais que presta, não poderá prestá-los e terá de fazer outra coisa.

    Mas, claro, a Crítica é paga exclusivamente por quem o desejar fazer.

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  9. O leitor tem a opção de bloquear a publicidade: basta um simples Add-on no browser. Exemplo: http://noscript.net/ ou https://addons.mozilla.org/en-US/firefox/addon/1865 . Para além disso quem não gosta da publicidade nem de "plugins" no browser ainda tem a hipótese de ver o blog no leitor RSS à sua escolha.

    Uma hipótese também possível é só permitir publicidade com texto (penso que existe/existia essa publicidade no google ads).

    Acho que deve manter a publicidade dado que é um meio perfeitamente legítimo de obter receita e, como disse acima, quem faz questão de não ver publicidade tem vários meios à sua disposição para a evitar.

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  10. Concordo com o Celso. A mim não me faz confusão nenhuma o jogo da flatulência. Aturei bem pior do que isso todos os dias durante quatro anos de faculdade.

    Ainda assim, vou tornar-me assinante.

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  11. O problema da Crítica é que não há capacidade para produzir material novo que justifique a assinatura. Eu deixei de ser assinante porque estava cansado de ver sempre os mesmos artigos na primeira página. Por acaso a desistência coincidiu com um artigo do Desidério no Público que foi bastante controverso mas não foi esse o motivo da desistência. Foi apenas uma coincidência, a decisão foi anterior.

    Para ser viável como revista paga, a Crítica teria de sofrer uma renovação total e adoptar uma metodologia diferente da que tem actualmente.

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  12. António: não é justo. A Crítica pode ter altos e baixos, mas, para além de ser o repositório mais rico de filosofia em (não de) língua portuguesa que eu conheço, continuamente dá a conhecer ao público lusófono o que de melhor se publica em diversas disciplinas da filosofia e em pensamento crítico. Isto não é para dar graxa aos autores do blog, mas muitos dos livros e problemas filosóficos que me fizeram ter um gosto diferente pela filosofia foi a Crítica. Só me espanta é estar há tanto tempo na rede, visto o "mercado" a que se destina. Por minha parte, espero para o mês que vem fazer uma subscrição (Janeiro é janeiro...).
    OBrigado
    Pedro

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  13. Eu concordo com o sistema de assinaturas sim (apesar de eu acumular dividas cada vez mais). Meu único medo é (e que talvez seja o mais provável e real dos acontecimentos): A Tsunami de informações corrompidas pouco construtivas, arrasando e oprimindo aquelas em que há realmente verdadeiras liberdades de expressões. A primeira já vence de goleada nos dias de hoje, imagine se o outro time vier a se deslocar para a defesa.

    Ps: Não é contraditório defender a liberdade de expressão, e ao mesmo tempo restringir a liberdade de sua expressão?

    Talvez para defender as assinaturas não existem razões, mas prefiro me apegar nesse caso somente as paixões.

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  14. A partir do momento em que o acesso é livre e gratuito, realmente é uma questão de consciência individual e de liberdade também pagar ou não a Crítica. Agora mesmo depositei uma pequena quantia para ajudar as vítimas do terramoto no Haiti. Com efeito, não sou um tipo de pessoa muito virada para as campanhas humanitárias ou voluntariado. Penso mais rapidamente em mudar de computador ou comprar um gadget qualquer do que ajudar uma organização não governamental que, com o dinheiro de um gadget mata a fome durante uma semana a 10 crianças. Mas há uma coisa que ajudo de imediato que é aquilo que reconheço vir de encontro aos meus interesses profissionais e pessoais. Por essa razão até faço um esforço se necessário para comprar mais um livro que me interessa. Mas não faço um esforço para ajudar as vitímas do terramoto no Haiti. Em todo o caso, como diz lá acima o Sérgio e o Desidério, acredito que há em mim um defeito de crenças que é necessário saber corrigir.

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  15. Esqueci de referir um aspecto no meu anterior comentário, mas queria fazer esta referência sem enunciar qualquer juízo de valor que pode ofender injustamente as pessoas: é curioso que o Desidério, Director da Critica, tenha referido que a "máquina das flatulências" é a pub que mais dinheiro dá à CRítica. Ou seja, temos filosofia e da boa com o patrocínio de flatulências electrónicas. Mas o "catita" disto é que a pub que dá mais dinheiro é a que os visitantes e leitores mais clicam. Ora, isso significa que os visitantes e leitores de filosofia sentem mais curiosidade pelas flatulências do que por outras coisas. E realmente já estou como o PR lá mais acima: bem que eu suspeitava durante a licenciatura que a coisa andava a cheirar a flatulências.

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  16. não creio que isso seja inteiramente justo. Os visitantes da Crítica clicam na publicidade para ajudar o site. Se o que lhes aparece basicamente à frente são flatos, é nos flatos que eles clicam. Nao acredito que a grande maioria dos cliques, se não mesmo todos, tenham a ver com interesse pela publicidade. Pelo menos digo-o eu, que nunca clico na publicidade por nem sequer me ocorrer a ideia de lá clicar. Não me lembro sequer de o fazer. Sempre odiei a maior parte da publicidade. Inestética, Ininformativa, Irracional. (raramente a publicidade respeita a inteligência do consumidor ou o trata como um sujeito racional - é este o seu aspecto mais odioso. Por outro lado, não podemos acusar os publicitários de conspiração, porque a publicidade trata as pessoas como irracionais porque elas se deixam levar muito facilmente por qualquer irracionalidade sugestiva)

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  17. Olá a todos!

    Uma Visão Económica:
    As pessoas pagam por aquilo a que atribuem valor, ou por aquilo a que são obrigadas pelos "impostos". Os comentários de quem contribuiu para a Crítica, provam isto mesmo.

    A água (ainda) é gratuita, pelo menos em Portugal. Se quiserem ir a uma fonte no meio da montanha recolher garrafões de água, não têm de pagar nada por ela. O que é pago é o serviço de a transportar da fonte até às nossas casas.

    Uma visão de Marketing:
    A publicidade (em geral) é um mal necessário resultante da sociedade da abundância. Quando existe carencia de bens para satisfação de necessidades, ou apenas um bem para a satisfação de cada categoria de necessidades, a publicidade não faz falta nenhuma.
    Se considerar-mos também o princípio conhecido de que "90% de tudo é Merd...", então a situação que irritou o Desi é perfeitamente compreensível e expectável.

    Eu também não gosto dos anuncios da flatulencia e não sei porque é que clicam nele? Não vislumbro se é para ajudar a crítica ou por interesse genuíno! Mas entendo que é coerente com o "voyeurismo" da sociedade contemporânea que pagou à tal inglesa (estória que desconhecia) ou que dã tantas audiências televisivas por esse mundo fora aos "Big Brothers" e afins...
    Quero com isto dizer que os Publicitários fazem anuncios para os seus mercados-alvo. E quando não atingim esse mercado alvo, o anuncio deixa de estar no ar. Isto na Internet acontece com mais rapidez do que em qualquer outro média. Portanto a flatulencia é um anúncio eficaz, porque se mantém no ar.

    Não tenhamos dúvidas de que quando o público internauta, requintar os seus instintos e deixar de clicar nas flatulencias,esses anuncios terminam em menos de nada. Infelizmente esta é uma hipótese que ´~ao considero provável.

    Uma Visão Pessoal:
    A internet não teria tido o crescimento exponencial que teve (e tem) se a maioria dos seus conteúdos fossem pagos. Comparo o fenómeno com o da televisão por cabo. Se os clientes tivessem de pagar além da comodidade de terem vários canais por um custo mensal razoavelmente baixo, todos os conteúdos do chamados canais codificados ou pagos. O serviço não teria actualmente mais do 10% dos clientes que na verdade tem. A penetração dos canais pagos no universo de clientes da TV Cabo em Portugal, ronda os 20%. Maioritariamente os clientes ficam satisfeitos com os conteúdos "gratuitos" aceitando pagar o serviço de transporte de sinal de TV com qualidade e a possibilidade de acederem a 40 canais da treta.

    Eu considero que a Internet é um média extraordinário e pode contribuir positivamente para muitas coisas boas a nível mundial. Nunca Portugal esteve tão próximo do Brasil (e vice versa) como agora! E estou acima de tudo a falar de pessoas, não de instituições.

    A questão dos conteúdos (ou serviços) pagos, nasce quando alguém se lembra de que a Internet pode ser um meio de fazer negócio além de ser um meio de comunicação que facilita os negócios. Então aparece quase tudo aquilo que eu considereo perverso e "mau" na Internet: o SPAM, os PopUps, os anuncios flatulentos, os sites de acesso pago, as fraudes por e-mail, o marketing-viral, as mentiras multiplicadas em cadeia...

    Mas eu reconheço que tenho uma visão muito "clássica"!

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  18. Uma pergunta incómoda:

    Por que razão se protesta tanto por causa de acesso pago a sites de conteúdo filosófico ou literário ou artístico, mas não há aparentemente sinal de movimentos contra o acesso pago à pornografia? Seria interessante haver um gráfico que mostrasse com alguma precisão quantos dólares em todo o mundo o "proletariado" paga para ver rabos. Ou quanto se gasta em frivolidades pagas, em geral, sem que haja quaisquer movimentos de protesto.

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  19. isto não era um panfleto contra os hábitos dos internautas que investigam a rotundez dos rabos. É uma pergunta dirigida aos internautas que se dizem aficcionados da cultura, da literatura e da filosofia mas se escandalizam com o acesso pago a essas coisas. Estatisticamente, e dado que o tráfego mundial para ver rabos deve superar em septiliões de impulsos por segundo o tráfego para ler filosofia, devia haver movimentos gigantescos de protesto dos proletários contra a exploração da pornografia paga. Mas há tanto disso quanto há movimentos de proletários contra os jogos de futebol ao vivo pagos ou contra a TVSport paga.

    Se perguntarmos a razão, o proletário dirá imediatamente que quem dá o rabo ao manifesto e quem dá chutos na bola tem de ser pago.

    QED

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  20. Bom, as pessoas pagam o que realmente valorizam. O que dizem valorizar mas não valorizam, não pagam. É nesse sentido que o comércio é um soro da verdade.

    Nesse sentido também a publicidade é um soro da verdade. O que é curioso, porque a publicidade é ao mesmo tempo uma mentira, porque quase toda a publicidade é enganosa. A publicidade é uma mentira no sentido em que o que publicita não é o produto real — sobretudo na Internet. Mas é ao mesmo tempo um soro da verdade por revelar as reais preferências e interesses das pessoas, por oposição aos que dizem ter. Na Crítica as campanhas de publicitárias que envolvem flatulência dão muito mais cliques do que as outras. E isto é a Crítica. Agora imaginem o que é coisas como o MSN ou o Yahoo ou outras tolices ainda mais básicas.

    É neste sentido que a Internet quase nada muda, ao contrário do que muitas pessoas pensam. Não é diferente da TV aberta: é quase só lixo, não por qualquer conspiração dos capitalistas, mas porque essas são as reais preferências das pessoas, apesar de não o quererem admitir. Disse “quase nada muda” a Internet, porque apesar de tudo muda alguma coisa: sem Internet não haveria a Crítica e o acesso à informação e livros de qualidade. Mas quase nada muda no sentido em que a Internet passou a reproduzir as preferências maioritárias das pessoas, a partir do momento em que se popularizou e em que vingou o modelo Google, que é igual ao da TV aberta, consistindo em encarar a “produção de conteúdos” como um mero meio para dar muito dinheiro às empresas que controlam a publicidade, ao passo que as publicações de qualidade lutam para conseguir manter-se viáveis economicamente. O que eu acho realmente significativo, psicologicamente, é como pessoas que se dizem contra os grandes capitalistas podem achar graça ao modelo económico actual da Internet, que consiste em pessoas voluntariamente produzirem coisas de borla, para empresas com o Google ganharem milhões. Lembrem-se que por cada dólar que o Google me paga se eu usar a publicidade deles, eles devem ganhar muito mais — sem produzir quaisquer conteúdos. Exactamente como as grandes companhias discográficas ou os grandes editores. Os outros fazem, eles ganham o dinheiro. Onde está a diferença?

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  21. a diferença está no hedonismo vazio de quem fica maravilhado por publicar todas as parvoíces que lhe vão no íntimo. Há tempos li uma imagem curiosa do que a Internet é: milhões de gajos a gritar "eu, eu, eu..." para o resto do mundo, onde ninguém realmente comunica (ou pouco o faz).

    Isto também é soro da verdade, porque a rebeldia política de algum anticapitalismo pára logo no limiar do hedonismo vazio. Essas pessoas mudam facilmente de opinião se, de repente, passarem a ver o capitalismo como algo que torna possível o hedonismo vazio. O capitalismo é uma chatice quando parece financiar o hedonismo vazio de outros mas não financia o meu. Não é que haja uma questão de fundo contra o hedonismo vazio.

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  22. Bem, não sei se a publicidade é consequência do que as pessoas querem, como parece defender o Desidério, ou se, ao contrário, ela é consequência. Estou a meter-me em terreno alheio, mas acho que um dos princípios do marquetingue é o de criar necessidades nas pessoas. Mas também não é de todo pacífico que essas necessidades sejam menos reais do que a necessidade de pensar pela própria cabeça.E mesmo na publicidade creio que há publicidade oca e outra nem tanto. Vou arriscar um exemplo que serve de sustento à minha hipótese: o caso do desporto e dos icones de sucesso predispõem os miúdos a gostarem de educação física, pelo menos a maioria. Imagino que o mesmo se pudesse passar com a filosofia. Mas talvez isto seja o sonho utópico. Será mesmo que os seres humanos estariam preparados para assistir e participar em debates filosóficos com a mesma voracidade com que o fazem em relação ao futebol?

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  23. isso faz-me lembrar o argumento das mentiras úteis. Parece-me simplesmente odioso. O desejável é que as pessoas fossem atraídas pelo que é bom ou necessário enquanto indivíduos autónomos, racionalmente, e não por mera sugestão irracional. Gostar de filosofia como se venera um ídolo de rock dificilmente constitui algo valioso. Se os filósofos ganhassem tanto como as estrelas de futebol ou do rock, os putos aderiam em massa à filosofia, mas isso pouco valor teria. Não seria interesse genuíno pela filosofia mas sim por coisas exteriores. Fama e dinheiro.

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  24. Essa hipótese é provavelmente a que melhor explica a realidade. Com efeito é mais ou menos essa a realidade que a escola, enquanto instituição, impõe às pessoas. Ou não? Bem, estou aqui a pensar somente no interesse genuino que um puto possa ter pela física ou matemática. Quantos o têm? Mas, afinal, de onde vem o interesse genuíno por alguma coisa? Uma pessoa não pode ter interesse genuíno por um ídolo rock tal como tem por filosofia? Creio que sim. A diferença, acho, está no que a filosofia faz por uma pessoa e no que a idolatria faz.

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  25. Uma boa explicação para o facto de os miúdos se sentirem mais atraídos pelo futebol do que pela física é o facto de a maior parte dos miúdos ter um nível económico relativamente baixo, o que os deixa, logo à partida, excluídos das experiências mais intelectuais.

    No Brasil, por exemplo, o futebol é o hobby de todos os miúdos. Mas o que é que seria de esperar, tendo em conta que uma boa parte não chega sequer a ir para a escola? Uma bola de futebol é muito mais fácil de adquirir do que anos e anos de escolaridade.

    Por outro lado, nos países nórdicos há de facto um interesse genuíno dos miúdos por matemática, física e filosofia. Talvez não haja um interesse generalizado em estudar prolongadamente cada uma destas disciplinas, mas a maioria dos miúdos brasileiros também não tem interesse em treinar futebol oito horas por dia e fazer trabalho de ginásio. Quer só dar uns pontapés e jogar uma 'peladinha'.

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  26. a generalidade das pessoas não tem interesse em estudar prolongadamente seja o que for, por trabalho ou lazer. Apanhar a ideia geral, o mais ou menos, o coiso e tal... a generalidade dos académicos não são menos calões do que o miúdo que falta aos treinos de futebol. É raro, seja em que estrato social ou condições envolventes for, encontrar alguém que leva a sério realmente aquilo que faz, com unhas, dentes, garra, energia.

    E é uma ideia falsa a de que quem se dedica à criação intelectual tem sempre boas condições para o fazer. É tão generalizado como a calinice na maioria o facto de aqueles que se dedicam com unhas e dentes a algo terem falta de condições para o fazer. Mas conseguem-no mesmo assim. O hedonista vazio, por mais condições que acumule, nunca chega. Está sempre um passo aquém do "verdadeiro" momento em que começará enfim a fazer alguma coisa... na sua imaginação.

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  27. O que o Vítor está aqui a dizer foi retratado por Eça, no séc. XIX. Leia-se Os Maias: dois jovens, ricos, com a melhor educação da altura, cheios de ideias para fazer Grandes Coisas... nada fazem, são uns inúteis, não passam de dandis.

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  28. Vítor, há sempre excepções. Mas, em média, melhores condições económicas tendem a induzir interesses intelectualmente mais elevados.

    Não é líquido que quem nasça em berço de ouro goste de metafísica (embora seja seguramente mais provável que o faça se estiver num lar recheado de livros e diariamente debater este tema com familiares). Mas quem nem sequer sabe ler não gostará seguramente.

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  29. Tentando ajudar: http://fusionads.net/ a Fusion preza por anúncios relevantes, com design criativo e não intrusivo. Talvez seja uma boa opção de troca ao Adsense.

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  30. Lembrando que a Crítica não é acessada apenas por professores universitários ou eruditos de plantão, também é acessada por estudantes que, no máximo, conseguem uma bolsa de estudos ou estão sendo sustentados pela família para poderem se dedicar em tempo integral à faculdade. Ocasionalmente, um dia antes de aparecer essa postagem sobre os anúncios, discutia com meus colegas sobre como clicar nos anúncios (por mais grosseiros que fossem) era nossa forma de contribuir. O que, claro, não anula a possibilidade de eles aumentarem a qualidade. Sugeri uma opção acima.

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  31. Penso que a ideia de que alguém poderá sentir mais interesse por atividades intelectuais se for estimulada pelo ambiente explica em parte, pois evidente que um analfabeto não poderá sentir falta de ler Shakespeare, e assim em diante.
    Porém eu discordo de que a condição social tem papel tão importante nas escolhas intelectuais dos indivíduos, fica parecendo que quem não faz essa escolha é por ignorância, parece aquela idéia platônica de que quem faz o mal o faz porque não conhece o bem. Pois bem, eu discordo porque penso que isso não procede. O interesse intelectual, ou sua ausência, não provém da condição social. Se assim o fosse, eu não esperaria que existissem tantas socialites fúteis e nem tantos playboys no mundo. Certamente não foi ausência de oportunidade de ir para uma excelente universidade que faltou a Paris Hilton por exemplo.
    Gostaria de ter uma resposta mais adequada a questão, como estimular e fazer alguém gostar de atividades intelectuais, porém percebo que tanto a inspiração quanto a coação falham com bastante frequencia.

    Desidério, será que o Crítica poderia vender coisas, ou é inviável? Por coisas me refiro a camisetas e similares.

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  32. Obrigado pela sugestão, Gilson. Parece uma alternativa sensata aos anúncios Google. Infelizmente, só trabalha em língua inglesa e com empresas nessa língua.

    Vender canecas, etc., não é prático porque as empresas que fazem esses serviços estão localizadas nos EUA, geralmente, ao passo que o público da Crítica é maioritariamente brasileiro (34 %) e português (34 %).

    Gostava de dizer uma palavra sobre o mito de que é por falta de condições económicas que as pessoas não se interessam pela cultura. Se isso fosse assim, como explicar que seja mais fácil vender calças de designer ou iPods do que livros de filosofia? Este parece-me um mito difícil de desalojar porque realmente ocorre que uma parte da população muito pobre não pode escolher interessar-se pela cultura, porque nem sequer teve escolaridade. Mas os últimos 30 anos mostraram outra realidade: mesmo dando condições económicas e acesso barato à cultura, a esmagadora maioria das pessoas escolhe voluntariamente frivolidades. E eu penso que têm todo o direito a isso, sendo até ofensivo vir alguém dizer que essas pessoas não estão a escolher o que realmente gostam. E quem escolhe a cultura, está a escolher o que realmente gosta, ou quer apenas impressionar as pessoas do seu círculo social?

    Voltando aos anúncios, há algo curioso em tudo isto. Os anúncios mais irritantes, com imagens aos saltos e partes especiais da anatomia humana, são os que dão mais dinheiro. Eu posso escolher anúncios Google só com texto, mas esses quase não dão dinheiro. Não nos diz isto algo interessante sobre a natureza humana?

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  33. Não entendi, como assim as empresas estão localizadas apenas no EUA?
    É só achar uma empresa que faça o produto com o logo, e colocar pra vender em algum lugar no site do crítica. Camiseta então é facílimo de se fazer, e ainda dá para fazê-las com o logo do crítica, o que vira uma espécie de propaganda.

    Se o caso for de achar o tipo de propaganda mais lucrativa , então a melhor mesmo é a pornografica.

    Seria interessante descobrir como funciona o sistema de propagandas do google. Se eles relacionam a propaganda ao site ou ao visitante. Pesquisei mas não encontrei a resposta...

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  34. Retomando uma questão anterior, da pornografia vs. conhecimento, coloco a questão de outra forma, pois parece-me que os investigadores (na Internet) são tratados ao mesmo nível dos maiores adictos de pornografia. Ou seja, enquanto se investiga algo pela rama, há matéria a rodos (e o mesmo se passa com a pornografia – que se encontra onde menos se espera), mas quando se pretende aceder a informação de facto relevante, só é possível mediante pagamento (e o mesmo se passa, por comparação, no domínio da pornografia – quando os “voyeurs” pretendem ir para além das “amostras grátis”). Se esta última situação não está aqui em causa a anterior merece uma reflexão. Por exemplo, quando artigos científicos dos anos 70, que já serviram de referência a dezenas ou centenas de outros artigos (ao longo de quase 40 décadas!), só são acessíveis mediante pagamento, então pomos em causa a ideia feita da “sociedade da informação”. Quando não se valoriza propriamente o conhecimento e, por consequência, a sua máxima divulgação, mas pelo contrário, quando ele é “escondido” do investigador comum, como se estivesse reservado apenas a quem tiver o “estômago” de um pornógrafo, então esta não é certamente a “sociedade da informação”.


    Confrontado com a possibilidade de alguém não poder aceder a esta revista por não ter como pagar (ou mesmo por estabelecer outras prioridades), ou ainda, a Crítica não ter como subsistir com a máxima qualidade desejável devido a factores financeiros, então parece-me que qualquer um iria preferir a presença de qualquer tipo publicidade – admitindo-a como um mal necessário.

    Té,

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  35. Tenho uma solução mais simples: que uma pessoa que bebe pelo menos 8 cafés por mês e goste muito de ler a Crítica (tem todo o direito de não gostar, de a ignorar ou de nos mandar passear) pague uma subscrição mensal que equivale precisamente a esse valor. É muito inferior a um bilhete para um jogo no dragão, a um jogo de PSP ou a uma rodada de shots no bar do Quim.

    apreciadores de cultura de todos os países uni-vos.

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  36. Vitor Guerreiro

    É possível a Crítica ser uma revista filosófica com sucesso comercial. Tenho a certeza que existe um nicho de mercado com interesse em temas filosóficos e que não se importaria de pagar uma subscrição. Se juntarmos o Brasil e Portugal há um potencial de leitores em língua portuguesa muito extenso.

    O problema, na minha modesta opinião, é o formato do site, o estilo e o tipo de conteúdos.

    Em tempos eu vi uma boa ideia do que pode ser uma revista de filosofia na internet. Foi pena ter acabado. O site continua online:

    http://www.intelectu.com

    O actual formato da Crítica não é apelativo e quando se vê uma primeira página (como já vi em tempos, se a memória não me falha) só com divulgação de livros ninguém paga uma revista desse tipo nem quando a primeira página não é actualizada regularmente. Para se ter uma revista online paga ou com donativos é necessário um mínimo de profissionalismo.

    Vejam este exemplo de um site que tem uma secção sobre filosofia (ver "issues") e que também pede donativos:

    http://www.mercatornet.com/

    É necessário publicar artigos que despertem o interesse das pessoas, mesmo as não ligadas à filosofia. Com uma base alargada de leitores é depois possível que uma parte aceite pagar.

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  37. Barbara,

    Não me leve a mal o comentário, mas a sua sugestão (vender coisas) pressupõe que os leitores da Crítica dão mais valor a uma caneca com um logotipo da Crítica do que aos seus conteúdos!! Isso talvez seja verdade nalguns casos, mas não deixa de ser triste...

    José Oliveira
    "Quando não se valoriza propriamente o conhecimento e, por consequência, a sua máxima divulgação, mas pelo contrário, quando ele é “escondido” do investigador comum, como se estivesse reservado apenas a quem tiver o “estômago” de um pornógrafo, então esta não é certamente a “sociedade da informação”."

    Não percebi a lógica do que diz. Acha que "sociedade de informação" implica forçosamente que toda a informação seja grátis e universal?!
    Qual é o sentido de afirmar que a dita "sociedade de informação" não pode cobrar por um determinado activo pelo qual as pessoas estão dispostas a pagar?

    Eu, pela minha parte, acho inadmissível que a Ferrari não me ponha um carro à porta. Veja lá que se eu quiser um eles me obriguam a pagar uma fortuna para o ter (não que eu quisesse um Ferrari, mas serve para explicar o ponto). Esta sociedade não é certamente a sociedade de consumo, pois até nos obrigam a pagar para consumir...

    A internet facilita bestialmente a transmissão e o acesso à informação, mas produzi-la continua a custar uma fortuna, vidas inteiras de trabalho. Pensar que uma vez que custa virtualmente zero armazenar, disponibilizar e transmitir a informação implica que ela custe zero é uma falácia. Essa falácia leva a que as pessoas não queiram pagar por qualquer tipo de informação, nomeadamente à Crítica. Essa falácia leva a que as pessoas não se importem de comprar uma caneca com o logotipo da Crítica, mas achem inadmissível pagar 20€ duas vezes por ano para ter toda a informação que aqui consta disponível 24h por dia.

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  38. parente,

    a crítica não precisa ser uma revista de massas, nem com grande sucesso no mercado. Quando a crítica começou a ser paga muitas pessoas escreveram protestos a lembrar que gostavam de usar os conteúdos do site nas aulas que davam e que não o iriam fazer por ter de pagar 8 cafés por mês para o fazer.

    Preparar um texto como o artigo de metafísica da música que publiquei há dias não se faz em 15 minutos. Foram pelo menos dois dias gastos na redacção, mais uns tantos para outra pessoa rever, dar feedback e para eu reestruturar algumas passagens. Fora o tempo investido na investigação e nas leituras, para chegarmos ao ponto de estar em condições de argumentar uma dada questão.

    Ora, tudo isto custa, pois o tempo que dedicamos a fazê-lo é tempo que não dedicamos a fazer outras coisas. Está certo que não escrevi esse artigo para mero usofruto dos leitores, também é para mim, mas acho perfeitamente justo que se há uma série de pessoas que gosta, que quer consumir, que valoriza, que até se dispõe a usar algum do nosso material em aulas, que se sente ajudada por nós... contribua pelo menos o valor ridículo de 8 cafés por mês, que para nós já dá pelo menos para pagar o espaço.

    A crítica foi gratuita durante 10 anos. Se ao fim de 10 anos uma pessoa continua a consumir um dado produto é evidente que esse produto terá algum valor para a pessoa. Ignorar que produzir esses conteúdos custa riqueza e tempo a quem o faz é puro egoísmo. Você paga muito mais por um jornal ou uma revista em que 50% são anúncios publicitários.

    Claro que a pessoa é livre de achar que os nossos artigos não valem um flatus e que não devem pagar um cêntimo para os consumir. Mas se os valorizam e consomem, não vejo qual o drama de dar um contributo que é praticamente simbólico. Se todos os visitantes que a revista tinha quando era gratuita pagassem um euro mensal, creio que podíamos esquecer as traduções e a vida académica e começar a produzir conteúdos para a revista. Mas a questão é que todos valorizam mas só 1% está disposta a pagar nem que seja 50 centimos.

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  39. Vítor

    A Crítica nunca poderá ser uma revista de massas, nisso estou de acordo, mas poderá ser concebida para agradar a um público específico e que motive o pagamento.

    O site está, na minha opinião, mal estruturado. A parte designada por "revista" poderia ser actualizada apenas uma vez por mês e deveria ser de acesso pago. Teria depois o arquivo da revista onde poderia vender cada artigo por si. Se existe um mercado de professores de filosofia, então organize-se outra parte do site para esse público específico. Siga os programas do ensino secundário, coloque materiais de apoio às aulas e pode ter professores e alunos interessados.

    Depois tem o blogue, pode ter uma secção de notícias e actualidades e outra coisa qualquer de artigos avulso e de acesso livre.

    Depois é uma questão de marketing e de cativar os leitores.

    Dá trabalho? Com certeza que dá. Perde tempo? Não tenho dúvida. Ganhará alguma vez dinheiro? Não sei. Mas se lhe der prazer o esforço compensa.

    Eu já fui assinante da Crítica e sê-lo-ei novamente se o site melhorar. Poderei dar um donativo agora, isso não me incomoda nada. Vou fazê-lo já, já.

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  40. Jaime Quintas,

    dei um exemplo muito concreto. Não generalizei, como sugere, porque nesse caso, pelo que entendo da sua posição, nem estaríamos em desacordo.

    Também separei esse exemplo da minha observação relativamente à Crítica para que não ficasse associada à ideia anterior de exploração/especulação do conhecimento.

    Muito obrigado pela atenção.

    Té,

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  41. Caro José Oliveira,

    Parece que interpretei mal o seu comentário original como defendendo que a informação deveria ser sempre de acesso livre, sob pena de se colocar em causa a dita "sociedade de informação". Peço desculpa por isso.


    abraço,
    Jaime

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  42. Parente, o problema é: quem quer escrever sem ser pago? É um pouco como um círculo vicioso. Mesmo quando a Crítica era obrigatoriamente paga, havia tão poucos subscritores que eu não podia pagar mais de duas ou três traduções ou artigos por mês! Faça as contas. Um tradutor a ganhar muito mal recebe 5 euros por página (e eu não pagava isto, pagava mais). Um artigo pequeníssimo de 10 páginas dá 50 euros. Cada assinante pagava 4 euros por mês. Assim, para cada artigo de 10 páginas, eu tinha de ter 10 assinantes. Se pensar que nunca tive mais de umas poucas dezenas de assinantes, vê que por mês nunca poderia ter mais de uns poucos artigos. E não estou a contabilizar o trabalho medonho que me dá a mim rever as traduções.

    Mas pensemos agora noutro aspecto: a escrita de artigos. A mesmíssima razão pela qual a Intelectu está parada há anos é a razão pela qual a Crítica não publica tantos artigos quantos os que o Parente gostaria de ler (e felizmente que gostaria! É de leitores assim que gosto). E a razão é que poucas pessoas querem escrever artigos desses. Estão demasiado ocupadas com obrigações profissionais: aulas, ensaios técnicos para escrever, conferências, etc. E, convenhamos, nem toda a gente tem o gosto de comunicar com o grande público, e estão no seu direito. Claro, se eu pudesse pagar... teria de certeza mais pessoas a escrever artigos, como acontece nos jornais.

    Mas não façamos drama. A Crítica está para ficar. Já passou por muitas fases, com mais ou menos produção, mas continua e continuará de portas abertas enquanto eu for o director. Com a generosidade de alguns leitores, como o Parente (obrigado pelo donativo!), e com o entusiasmo de alguns colaboradores, poderemos continuar a fazer algo útil para estudantes e professores, e interessante para o grande público.

    Todas as sugestões são sempre bem-vindas, e podem escrever directamente para o meu email.

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