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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2010

Vamos brincar à unificação

O uso do acento circunflexo ou agudo nas vogais passa a depender da forma como essas vogais são lidas em cada país. Visto que a pronúncia de palavras como tônico / tónico é diferente no Brasil e nos restantes países, na prática continua a escrever-se da mesma forma: em Portugal, nos PALOP e em Timor continua a escrever-se tónico, no Brasil mantém-se a forma tônico. No entanto, ambas as formas passam a ser legalmente corretas em todos os países, desde que usadas de forma sistemática, sendo a norma de cada país a determinar a forma que deve ser usada no seu espaço geográfico.Fonte: http://www.portaldalinguaportuguesa.org/index.php?action=vop&page=crit1

Deixem-me ver se entendi. Agora temos uma só ortografia. Viva! Vamos conquistar o universo. Mas, no Brasil só pode escrever-se "tônico" e em Portugal "tónico". Tal como, na nova ortografia, no Brasil se escreve "excepcional", "espectador" e "percepção", ao passo que em Portugal se escr…

A pequena celebração

Li Bai (701-762), também conhecido como Li Po, foi um dos melhores poetas chineses, talvez até o melhor, só rivalizado pelo imenso Du Fu. Um dos seus poemas que me tem acompanhado na memória ao longo dos anos, na tradução inglesa de J. C. Cooper, é esta pequena celebração, que aqui traduzi para português --  partindo da versão inglesa, pois infelizmente não sei mandarim. Este poema em particular, um dos mais belos, foi objecto no séc. XX de inúmeras traduções inglesas. Escolhi a que mais gosto. Depois da minha tradução, está a tradução inglesa usada numa composição musical de Vangelis, que a acompanha na perfeição.

A pequena celebração, de Li Bai

Bebo entre as flores uma garrafa de vinho.
Somos três, se contarmos a minha sombra
E a Lua cintilante.
A Lua nada sabe felizmente sobre vinho,
E a minha sombra nunca tem sede.

Canto e a Lua ouve-me em silêncio.
Danço e também a minha sombra dança.
Em todas as celebrações há a tristeza da despedida,
Mas esta tristeza é-me desconhecida.
Quando…

Proposta para uma nova ortografia

Eis uma sugestão a todos os que, algo sofisticamente, têm argumentando que devemos adoptar a nova ortografia, mas reconhecem que tem vários problemas que devem ser corrigidos. Vamos então corrigi-los. Só os mais graves.

Hífenes. Esqueça-se aquela ambiguidade do texto oficial, e use-se antes o bom senso: aceite-se a norma anterior porque temos mais que fazer do que mexer em hífenes, e para os casos bicudos adopte-se a regra simples de usar hífen ou não consoante precisamos de marcar que se trata de uma só palavra, mas composta, como “cor-de-rosa” (até porque uma rosa pode não ter cor de rosa), ou consoante se trata de uma aposição como “anti-” (não vejo a vantagem fantástica de ter de escrever “antissocial”).

Consoantes mudas. Esqueça-se o absurdo critério fonético, que obrigaria portugueses a deixar de escrever “aspecto” passando a escrever “aspeto”, ao passo que os brasileiros continuariam a escrever “aspecto”, entre muitos outros casos. Elimine-se apenas as consoantes mudas que nenh…

Introdução ao Pensamento Islâmico

Chega-me a notícia desta novidade da 70: Introdução ao Pensamento Islâmico, de Abdullah Saeed.

Ned Block e Philip Kitcher

"Misunderstanding Darwin" é uma boa discussão do último livro de Jerry Fodor e Massimo Piatelli-Palmarini.

Um erro estrutural no pensamento de muitos filósofos é o que podemos chamar possibilismo: a ideia de que seja qual for a possibilidade em que se consegue pensar, terá de ser excluída por um qualquer argumento dedutivo formal ou então teremos de viver com ela. Este género de falácia está presente na ansiedade cartesiana para excluir a mera possibilidade vaga de estar a sonhar e nos argumentos cépticos contra a possibilidade do conhecimento. A resposta correcta é a dada por Russell em Os Problemas da Filosofia: não se pode excluir logicamente tais possibilidades, mas não há qualquer razão para as aceitar, e são menos plausíveis do que as outras.

Mas o possibilismo é persistente. Está presente no idealismo e no kantismo, tão prevalecente nas zonas mais anémicas da cultura filosófica: como não se consegue provar matematicamente que existe um mundo largamente independente d…

Novidades editoriais da Gradiva

Da Gradiva, chega-me a notícia de alguns livros prometedores: A Grande Separação: Religião, Política e o Ocidente Moderno, de Mark Lilla, discute as relações complexas entre o poder político e religioso no contexto europeu. Não sei o que defende o autor, mas ao contrário do que por vezes se pensa, não é preciso ter um estado laico para não haver guerras e conflitos religiosos; essa é apenas uma das maneiras de tentar resolver o conflito entre o poder secular e o religioso.

David S. Landes, A Revolução no Tempo, é um dos mais importantes livros publicados em 2009 em Portugal: divulgação científica e histórica de qualidade, mostrando o desenvolvimento da ciência e tecnologia da medição do tempo, coisa que hoje damos como garantida e simples, mas que está longe de o ser.

Morte por Buraco Negro, de Neil deGrasse Tyson, autor já equiparado a Carl Sagan pela sua capacidade para comunicar de modo entusiástico e acessível ideias científicas complexas, é também uma leitura prometedora. Erros …

Filosoficamente

O próximo título da Filosoficamente, colecção de filosofia da Bizâncio, está prestes a sair: Enigmas da Existência: Uma Viagem Guiada pela Metafísica, de Earl Conee e Theodor Sider. É uma excelente introdução elementar à metafísica, para quem não tem medo de raciocinar intensamente. Não tendo referências históricas, o livro procura dar ao leitor a experiência do que é lidar directamente com alguns dos problemas centrais da metafísica; à semelhança de Que Quer Dizer Tudo Isto?, de Thomas Nagel, e Sabedoria Sem Respostas, de Daniel Kolak e Raymond Martin, é uma daquelas obras que eu adoraria ter lido quando tinha 15 anos, e espero que seja igualmente estimulante para os leitores portugueses, tenham 15 anos, 30, 60 ou 90 -- ou qualquer outra idade. Ainda não sei como será a capa portuguesa, por isso ilustro esta notícia com a capa original da Oxford University Press.

Cepticismo na grécia antiga

Acabo de publicar aqui a apresentação de Jaimir Conte de Os Céticos Gregos, de Victor Brochard.

Projecto musical divulga ciência e filosofia

“Projecto divulga ciência e filosofia através da música Fonte: YouTube O projecto "Symphony of Science" foi idealizado por John Boswell (músico) como veículo para fazer chegar o conhecimento a uma audiência habitualmente arredada da área científica. Há cerca de dois meses começou a colocar 'clips' no YouTube. Já ultrapassou o milhão de visitantes.” In: Jornal Público

O que é a consequência lógica?

Um dos problemas mais interessantes em filosofia da lógica é tentar compreender como uma conclusão é uma consequência lógica (válida) das premissas. Nós podemos dizer que as premissas implicam a conclusão ou que a conclusão se segue validamente das premissas, mas qual é a melhor maneira de explicar esse fenômeno? É este problema que Stephen Read aborda de maneira clara no segundo capítulo de seu livro Thinking About Logic. Uma tradução livre desse capítulo, da autoria de Guilherme de Oliveira, Cristiano Picasso e revisada por Abílio Rodrigues, está aqui. Como não é uma tradução profissional certamente contém erros, que devem ser apontados.

Uma experiência deliciosa

Experimente ler A Vida Sexual de Immanuel Kant, de Jean-Baptiste Botul. Mesmo sem saber que se trata de mera fantasia, escrita não por um pretenso filósofo (Botul nunca existiu) mas antes por um jornalista francês brincalhão (Frederic Pagés), dificilmente poderá o leitor levar a sério tal livro. Mas não foi isso que fez Bernard Henry-Lévy. Elevando ao cúmulo do ridículo uma certa maneira de ser intelectual em Paris -- maneira que nada tem a ver com a melhor tradição do pensamento francês -- e que consiste em substituir o pensamento pelos jogos de palavras e pela autoridade da citação de tantas referências que o leitor fica com falta de ar, o que lhe provoca a necessária hipnose do intelecto para levar esses autores a sério, a grande estrela televisiva do (des)pensamento francês leu o livro falsamente assinado por Botul e refere-o no seu último trabalho como se fosse um livro a sério e não uma brincadeira. A minha recensão do Botul está aqui. E a notícia do i sobre a miséria de Henry-L…

É errado sentir culpa?

Frequentemente dizemos coisas como "Eu estou com a consciência pesada, não deveria ter feito aquilo" ou "Eu não me sinto culpado por ter feito isto". Essas afirmações indicam que a noção de culpa parece ter alguma relevância para a compreensão da natureza das prescrições morais. Mas no contexto da própria ação moral, sentir culpa é certo ou errado? Alexandre Machado, filósofo de distinções finas, nos oferece uma deliciosa reflexão sobre esse problema aqui.

asylum ignorantiae

Lat. refúgio da ignorância. Um conceito ou método obscuro, não aberto ao escrutínio crítico, ao qual se recorre de modo a disfarçar a própria ignorância ou ausência de reflexão crítica.

Lógica, para que te quero?

O discurso anti-lógica é muito frequente e, por vezes, resulta até em discussões algo caricatas.

Há já alguns anos argumentei, a propósito de um despacho do ministério da educação, com um colega de filosofia a favor de uma dada interpretação que eu, ao contrário dele, considerava correcta. Recordo-me de, às tantas, referir que se tratava de um simples modus tollens.

- Lá vens tu com a treta do modus tollens e da lógica, atalhou ele. Quero lá saber da lógica! Se o modus tollens fosse preciso para as pessoas se entenderem, os Papalagui nunca se entenderiam uns aos outros. Ora, ninguém duvida que os Papalagui se entendem muito bem entre si.

- E daí?

- Daí que o modus tollens não é preciso para as pessoas se entenderem, concluiu.

Perante tal resposta, só me ocorreu perguntar:

- Mas olha lá, não me consegues convencer disso sem usares um modus tollens?

- Hã?

Partir de uma petição de princípio

Eis um argumento curioso. Uma pessoa diz algo banal; por exemplo: que todos os seres humanos erram. Daqui segue-se que uma atitude seguidista, iniciática, perante pretensos sábios é talvez desavisada. Agora entra a pessoa que precisamente gosta das atitudes iniciáticas e argumenta: você está a partir de uma petição de princípio (expressão maravilhosa, mais ou menos como “você está a navegar navegando”) porque pressupõe que todos os seres humanos erram.

Ora, o interessante nisto é que aparentemente não se parte de uma petição de princípio (não consigo libertar-me desta maravilha!) se partirmos da ideia oposta de que alguns seres humanos não erram. E porquê? Porque desse ponto de partida segue-se o que essa pessoa aprecia: a relação iniciática mestre/discípulo, a hipnose do intelecto, a aceitação de tudo o que alguém diz, por mais estranho que seja (aliás, quanto mais estranho mais valor iniciático tem!).

Ou seja: aceita-se partir do que leva ao que queremos, mas não do que leva ao qu…

Definições

Justine Kingsbury e Jonathan McKeown-Green ajudam-nos aqui a compreender melhor as definições e o que corre mal com tantas definições filosóficas, como as definições de arte e de conhecimento.

A estética de Heidegger

Eis a apetitosa introdução do novo artigo sobre a estética de Heidegger da SEP, da autoria de Iain Thomson:

Heidegger is against the modern tradition of philosophical “aesthetics” because he is for the true “work of art” which, he argues, the aesthetic approach to art eclipses. Heidegger's critique of aesthetics and his advocacy of art thus form a complimentary whole. Section 1 orients the reader by providing a brief overview of Heidegger's philosophical stand against aesthetics, for art. Section 2 explains Heidegger's philosophical critique of aesthetics, showing why he thinks aesthetics follows from modern “subjectivism” and leads to late-modern “enframing,” historical worldviews Heidegger seeks to transcend from within—in part by way of his phenomenological interpretations of art. Section 3 clarifies this attempt to transcend modern aesthetics from within, focusing on the way Heidegger seeks to build a phenomenological bridge from a particular (“ontic”) work of art by Vi…

História da filosofia e história das ideias

Confunde-se muito a história da filosofia com a história das ideias. Roger Scruton esclarece aqui a diferença.