2 de fevereiro de 2010

Entrevista da Prometeu

Fui entrevistado pela revista Prometeus, e o resultado está aqui. Note-se que a entrevista tem infelizmente várias gralhas, que espero que sejam corrigidas. Todas as críticas são bem-vindas.

5 comentários:

  1. Muito boa entrevista, Desidério! Chamou-me a atenção em pareticular a noção de educação que vejo aos poucos ser perdida: a que ela é o meio para as pessoas "exteriorizarem" seus talentos, inclusive, como você sabe, certamente, é a acepção real da palavra "educação". Não sei em Portugal, mas aqui no Brasil, onde há currículo único e um tipo de educação padronizada, sem compromisso com talentos, fica cada vez mais difícil colocar em prática este tipo de educação.

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  2. Concordo com a “ideia de que a história da filosofia seria como que uma propedêutica da filosofia não tem em conta a dialéctica enriquecedora entre a filosofia e a história da filosofia”. Também é verdade que, antes do aparecimento da filosofia analítica, a formação e o treino em filosofia não diferia muito da formação dada nos Departamentos de Literatura e História: exegese dos textos canónicos imersos numa herança textual incomensurável; alguma reflexão mais ou menos apologética sobre as virtualidades e actualidade desses textos; obrigação de estabelecer relações reveladoras e pertinentes entre eles. Até 1965 (entre 1940 e 1960 a filosofia analítica controlou os mais importantes departamentos de filosofia nos Estados Unidos) e no contexto USA, era possível aos professores dos departamentos de Literatura e de história terem alguma ideia dos temas e interesses dos colegas dos departamentos de filosofia. Conversamente, e porque o trabalho de exegese e hermenêutica dos textos filosóficos carecia de utensilagens críticas, literárias e históricas, os Departamentos de Filosofia acolhiam-se placidamente nas “Humanities”, o que aconteceu até à “Crisis” destes Departamentos.
    Se é certo, convenhamos, que o excessivo historicismo e filologismo de uma certa filosofia “Continental” (péssimo rótulo!), transformaram a filosofia num exercício histórico-crítico – muito devedor de uma certa Hermenêutica e crítica literária –, também é verdade que a filosofia analítica (Qual? De que geração? De que filiação? Péssimo rótulo!) moveu-se, não raras vezes, por impulsos a-historicistas. Lembremos, por exemplo, a injunção de Quine para nos esquecermos da História da Filosofia ou a opinião suspicaz de David Lewis em relação às “opiniões” do passado.
    É verdade que, contemporaneamente, há uma historiografia analítica que evita os anacronismos de algumas Histórias da Filosofia, apodadas de analíticas, que “julgavam ver em Kant um proto-Strawson e em Aristóteles um proto-Russell”, mas também é verdade que há quem considere que a designação “analítica” só é aplicável a estas novas historiografias “por cortesia”, já que são indistinguíveis das historiografias realizadas por um historiador das ideias ou da cultura.

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  3. Todos os rótulos são enganadores se forem mal entendidos. Nações Unidas? Mas desde quando estão unidas? E estão lá nações, ou estados? Sacro Império Romano? Mas era realmente um império, e seria sagrado? Nem era, num certo sentido, romano. E que dizer de segunda-feira? Quando ocorreu a primeira feira?

    Claro, nada disto faz sentido. Usamos essas palavras como nomes e não como descrições. E por isso o seu conteúdo descritivo não conta. Pode ter contado no passado, mas perdeu essa ligação ao conteúdo. Tal como uma cidade que se chama Figueira da Foz não adopta outro nome se entretanto o rio mudar o seu curso e a sua foz já não se situar na cidade em causa.

    Portanto, “filosofia analítica” e “filosofia continental” devem ser vistos como rótulos, nomes, sem conteúdo descritivo. A maior parte dos filósofos analíticos nunca fez uma análise, muitos deles vivem no continente europeu e a maior parte da filosofia continental é hoje feita nos EUA, nos departamentos de literatura, e não na Europa.

    Eu não vejo grande interesse na distinção entre filosofia analítica e continental. Para mim, tanto me faz, desde que seja bem feita. E sou tão crítico com Quine como com Heidegger ou com qualquer outro. Portanto, não estou minimamente interessado numa espécie de concurso televisivo para saber se ganha a filosofia analítica ou a continental. Para mim até pode ganhar a chinesa. Tanto me faz.

    No entanto, há uma mentira académica que se continua a pregar aos alunos e que urge corrigir: que a filosofia analítica é só positivismo lógico, e que é minoritária, e que é a-histórica e tudo isso. Tudo isto é mentira. As pessoas devem ser livres de fazer filosofia como quiserem. Mas a liberdade de escolha implica saber que escolhas há. E não se sabe que escolhas há quando não se divulga junto dos alunos a maior parte da bibliografia filosófica contemporânea.

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  4. Prezados,
    Fora posto no ar um texto não convenientemente revisado. O problema parece ter sido resolvido agora. Antes de atualizarmos o site oficial sempre testamos tudo no espelho no qual está a presente edição da Prometeus: http://revistaprometeus.site90.com/artigos.htm
    Quanto ao tema em questão, tive a ideia de entrevistar o Desidério pelas estranhíssimas reações que percebi por parte de alunos em na Universidade Federal de Sergipe. Alguns em plena aula faziam perguntas como “Para que serve estudar Platão ou Górgias?” Ou ainda: “Se eu estudar filosofia analítica, estarei perdendo meu tempo nessas aulas de história da filosofia”. Já é difícil convencer um jovem a ler nos dias de hoje, dada a profusão de meios de comunicação mais populares que a leitura. Quanto a isso, que nos lembremos do que nos disse Sloterdijk em sua célebre conferência “Regras para o parque humano: uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo”, bem como do alerta mais recente de Jonathan Barnes em seu artigo intitulado “Bagpipe music” (Topoi 2006) quanto ao progressivo (e, segundo ele, irrevogável) abandono dos estudos clássicos em todo o Ocidente. Desidério, no meu entender, coloca o assunto em pratos limpos: não há como se fazer filosofia sem conhecer história da filosofia; e, para se fazer história da filosofia com qualidade, é preciso conhecer filosofia e saber filosofar.
    Aldo Dinucci (editor da Prometeus)

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  5. Muito obrigado pelas correcções, Aldo.

    Quanto a desculpas para não ler, elas sempre existirão. Uns invocando umas desculpas, outros outras, juntam-se contudo no desconhecimento das bibliografias fundamentais da sua própria área de estudos, o que é inaceitável.

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