10 de fevereiro de 2010

Lógica, para que te quero?

O discurso anti-lógica é muito frequente e, por vezes, resulta até em discussões algo caricatas.

Há já alguns anos argumentei, a propósito de um despacho do ministério da educação, com um colega de filosofia a favor de uma dada interpretação que eu, ao contrário dele, considerava correcta. Recordo-me de, às tantas, referir que se tratava de um simples modus tollens.

- Lá vens tu com a treta do modus tollens e da lógica, atalhou ele. Quero lá saber da lógica! Se o modus tollens fosse preciso para as pessoas se entenderem, os Papalagui nunca se entenderiam uns aos outros. Ora, ninguém duvida que os Papalagui se entendem muito bem entre si.

- E daí?

- Daí que o modus tollens não é preciso para as pessoas se entenderem, concluiu.

Perante tal resposta, só me ocorreu perguntar:

- Mas olha lá, não me consegues convencer disso sem usares um modus tollens?

- Hã?

9 comentários:

  1. É como a gramática. As pessoas não precisam de saber gramática para falar gramaticalmente. Mas daí não se segue que não estejam a usar uma gramática.

    Já agora, é como a física. As pessoas não precisam de saber física para estar sujeitas às leis da física e ter de agir de acordo com elas.

    O que faz as pessoas argumentar dessa maneira contra a lógica é o desconforto que têm por outras pessoas dominarem algo que elas não dominam. E é pena, porque se quisesse dar-se ao trabalho, poderiam dominar os rudimentos da lógica em três ou quatro meses de estudo tranquilo. Na verdade, para saber o elementar que os alunos do secundário que estudam pelos nossos manuais sabem, basta estudar dois ou três sábados.

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  2. Para nos entendermos usamos frases gramaticais, saibamos ou não gramática. Para termos uma compreensão mais profunda do modo como construímos frases, e para nos tornarmos mais ágeis nessa tarefa e aumentar o poder de nos exprimirmos satisfatoriamente para nós e para os outros, estudamos gramática (entre outras coisas).

    Uma pessoa pode tocar um instrumento ou cantar sem saber música. Mas conhecer a estrutura da música, ser capaz de ler música, ter conceitos teóricos de música, aumenta não só a nossa competência musical e capacidades de expressão como também o prazer que a música nos dá.

    Assim, as pessoas já raciocinam antes de estudarem lógica, mas estudando lógica sabem mais sobre a estrutura do raciocínio e aprendem a raciocinar mais agilmente.

    Mas há pessoas para quem qualquer apelo a conhecimentos que não sejam comuns entre intelectuais de taberna é uma grande arrogância sobre o género humano. O estranho é que são estes tipos que normalmente desatam a citar grego e alemão sem saber nem uma nem outra língua, discorrendo infinitamente sobre mistérios tão profundos tão profundos que os distinguem imediatamente de qualquer taxista. Pena é quando vamos examinar com cuidado as suas palavras, ou seja, de um modo logicamente disciplinado, e constatamos que por cada 5 frases dizem apenas uma banalidade desinteressante, reconhecível por qualquer taxista, não fosse o palavreado tão carregado de açúcar que até provoca hipertensão arterial.

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  3. Pois, ou como as leis da natureza. Não precisamos de as saber para que a natureza funcione. mas conhecer as leis da natureza é um bom meio para compreender o seu funcionamento.
    Aires, mas essa atitude é a atitude da generalidade das pessoas em relação à generalidade do saber tipificado em expressões como, "a teoria não tem nada a ver com a prática", "já vens com conversas sérias?", "lá vem este com filosofias". O que eu acho mais caricato nisto é que muitas das vezes conhecemos este tipo de atitude de pessoas com formação académica, o que deixa a nú desde logo a qualidade da formação tida.

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  4. E já agora: uma das maiores desilusões que tive foi quando fui para a Universidade. Antes dos meus 18 anos nunca tinha entrado ou visto uma universidade na vida. Só pela imaginação e pelo que me contavam os professores do secundário é que eu sabia o que era a universidade.E os meus modelos de vida de estudante eram uns primos que tinham acabado o 12º ano. Isto pode parecer exagero, mas eu estava sózinho a imaginar o que era uma universidade e, dentro da minha cabeça, a universidade era um viveiro de cultura e de gente interessada. Imagina que a universidade devia ser só gente como o meu professor de filosofia do 12º ano que eu admirava muito. O que mais acabei a encontrar na universidade foi gente a falar das suas crises existenciais e pessoais, professores inclusivé. O desinteresse por ciência era generalizado. E fiz uma cadeira de lógica sem algum dia ter percebido muito bem para que a fiz. E tinha razão na minha ignorância: então mas para que preciso eu de aprender um modus tollens para na aula seguinte acontecer uma de duas coisas:
    1) o professor despejava a matéria, "vomitando" as ideias de Kant ou Paul Ricoeur
    2) O professor passava as aulas com autores tão distantes de tudo como Derrida ou Levinas.
    Na verdade fiz um curso inteiro sem aplicar uma única vez um modus tollens.
    É bom saber e reconhecer que os licenciados em filosofia pura e simplesmente não sabem o que é um modus tollens. Eu ainda ouvi falar nisso sem perceber para que servia, mas muitos outros passam o curso todo, concluem com média 15 ou 16 um curso de filosofia sem sequer ouvir falar em tal coisa. Daí não me espanta que não saibam para que serve, como se aplica, qual a utilidade, etc e tal.

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  5. Parece-me justo reconhecer que o conhecimento da lógica moderna desempenha um papel fundamental na formação filosófica. Nos últimos decénios esta lógica desempenhou um papel crucial na renovação de algumas “core areas” da investigação filosófica. A metafísica e a ontologia, a epistemologia e a filosofia da mente sofreram o influxo produtivo desta lógica de modo insofismável. Parece-me porém pouco prudente, digamos assim, identificar a argumentação em geral e a argumentação filosófica em particular com esta lógica. Correndo o risco de estar a ensinar o Pai-Nosso ao cura, gostaria de lembrar que há procedimentos inferenciais estudados pelas “Lógicas Naturais”, “Informais”, “Pragmática” e “Análise do Discurso”, que não são redutíveis ao estrito formalismo da consistência e da implicação material da Lógica Moderna.
    Sendo certo que a argumentação filosófica recorre copiosamente a estes procedimentos, parece-me pouco sensato sublinhar a maior “virtude” filosófica da filosofia analítica conotando-a com um absoluto rigorismo lógico-formal que, em boa verdade, não existe.
    Timothy Williamson, no seu livro “The Philosophy of Philosophy”, escreve sem rebuço o seguinte: «We who classify ourselves as “analytic” tend to fall into the assumption that our allegiance automatically grants us methodological virtue. According to the crude stereotypes, analytic philosophers use arguments while “continental” philosophers do not. But within the analytic tradition many philosophers use arguments only to the extent that most “continental” philosophers do: some kind of inferential movement is observable, but it lacks the clear articulation into premises and conclusion and the explicitness about the form of the inference that much good philosophy achieves. Again according to the stereotypes, analytic philosophers write clearly while “continental” philosophers do not. But much work within the analytic tradition is obscure even when it is written in every day words, short sentences and a relaxed, open-air spirit, because the structure of its claims is fudged where it really matters».

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  6. Na Crítica, a secção de lógica chama-se apropriadamente "Lógica e argumentação" e nela não se encontra apenas lógica formal, mas também lógica informal. Nenhuma lógica informal, contudo, pode ser correctamente entendida senão como extensão, pelo menos parcial, da lógica formal. E o modus tollens é tão básico que até quem diz criticar os limites da lógica usa tal coisa sem se aperceber disso. Como quem diz "Não estou a falar". Curioso, não é?

    O que Williamson visa não é aplaudir a argumentação vaga que infelizmente se vê muitas vezes na filosofia analítica, mas antes dizer que é preciso explicitar a argumentação, mostrando cuidadosamente quais são as premissas e qual é a conclusão, e como se vai de umas para outras -- ao invés de apenas sugerir tal coisa com um discurso prolixo.

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  7. Já agora vale a pena acrescentar o seguinte. A lógica não é um algoritmo para solucionar problemas filosóficos. Não é como uma máquina na qual metemos numa ponta os problemas e saem da outra as soluções. A lógica, formal e informal, é apenas um instrumento de controlo de erros. Permite-nos raciocinar melhor, evitar erros, ser mais criativos, ver mais longe. Não é uma água de alcatrão, uma solução milagrosa. É apenas um instrumento, como um microscópio para um cientista: não faz o trabalho por ele.

    O ridículo da rejeição da lógica, contudo, é muito maior do que o ridículo que seria a rejeição do microscópio. É que é possível rejeitar coerentemente o microscópio — basta não o usar — ao passo que a rejeição da lógica é sempre incoerente — a pessoa que diz rejeitá-la, usa à mesma a lógica, porque não pode parar de raciocinar; apenas se recusa a raciocinar com cuidado (porque se está nas tintas para isso e porque o que lhe interessa realmente na filosofia é ter pensamentos bonitos, edificantes, inspiradores, ou então interessa-lhe exprimir a sua raiva, frustração, etc.). E, claro, quem diz recusar a lógica apressa-se a aplaudir qualquer resultado da lógica mais técnica que pareça confirmar o que ela já pensa. É um conto do vigário: se sair caras, ganho eu, se sair coroas perdes tu.

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  8. A ideia de usar a lógica para resolver problemas filosóficos é como a ideia de usar a gramática para escrever bons romances. Mas há maneira de não usar a gramática quando se escreve um romance? E o que significa ser "contra" a gramática? Escrever coisas como "João ser profunda pensador" porque isso é mais profundo do que "João é um pensador profundo", que é algo muito redutor? Em que sentido é que as frases agramaticais "captariam melhor" uma realidade que misteriosamente se esquivaria às frases gramaticais, bem construídas? Por outro lado, a boa construção das frases é apenas uma condição elementar de escrever bem, não é um método para escrever bem, ter boas ideias, ou resolver problemas. O mesmo sucede com a lógica, que estuda padrões de inferência, e não se ocupa, como alguns afirmam, de "captar a realidade".

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  9. Caros colegas

    Meu nome é Samir Gorsky, sou um estudante de lógica brasileiro doutorando pelo CLE-IFCH-UNICAMP.

    Me parece um interessante exempĺo da aplicação de auto-referência em que não há perigos de incosistências. A linguagem possui este artifício. A lógica já é um pouco mais restrita, todavia consegue-se ainda alguns "dribles" semânticos sobre esta questão.

    Coim relação à crítica acerca da utilidade da lógica. É nítida a sua invalidade. A estruturação do raciocínio provou-se extremamente eficiente não só para a compreensão em termos de comunicação intersubjetiva como também em termos de estruturação de teses ou de pesquisas as mais variadas. A própria ideia de interação entre agentes pensantes pode ser moldada a partir de construtos formais (como ocorre por exemplo pela teoria dos jogos). Tais modelos explicam não só simples interações cotidianas como também questões políticas e econômicas de várias ordens. Ignorar informação ou conhecimento ou construir discursos com tais propósitos é que pode ser considerado ineficaz para o entendimento.

    Gostaria de aproveitar também esta oportunidade para divulgar um blog de lógica do qual sou responsável

    http://logicaefilosofia.blogspot.com/

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