23 de fevereiro de 2010

Ned Block e Philip Kitcher

"Misunderstanding Darwin" é uma boa discussão do último livro de Jerry Fodor e Massimo Piatelli-Palmarini.

Um erro estrutural no pensamento de muitos filósofos é o que podemos chamar possibilismo: a ideia de que seja qual for a possibilidade em que se consegue pensar, terá de ser excluída por um qualquer argumento dedutivo formal ou então teremos de viver com ela. Este género de falácia está presente na ansiedade cartesiana para excluir a mera possibilidade vaga de estar a sonhar e nos argumentos cépticos contra a possibilidade do conhecimento. A resposta correcta é a dada por Russell em Os Problemas da Filosofia: não se pode excluir logicamente tais possibilidades, mas não há qualquer razão para as aceitar, e são menos plausíveis do que as outras.

Mas o possibilismo é persistente. Está presente no idealismo e no kantismo, tão prevalecente nas zonas mais anémicas da cultura filosófica: como não se consegue provar matematicamente que existe um mundo largamente independente de nós, então não existe tal mundo e tudo é pensamento, representações, ideias nossas, interpretações, narrativas; como há sempre várias maneiras de descrever a mesma realidade, incompatíveis entre si mas compatíveis com os mesmos dados, então a realidade é indeterminada, ainda que exista.

Precisamente por se apoiarem no possibilismo, Fodor e Piatelli-Palmarini cometem os erros apontados por Ned Block e Philip Kitcher. Para aqueles autores, teria de haver uma maneira lógica de excluir propriedades esquisitas, mas como não há tal coisa, acabou-se a teoria de Darwin, porque agora qualquer uma de uma infinitude de propriedades poderá ser responsável pela selecção. A resposta de Block e Kitcher é como a de Russell: não podem ser excluídas, mas são irrelevantes cientificamente.

Só faltava acrescentar que o raciocínio científico deve o seu sucesso, entre outras coisas, ao conservadorismo epistémico, que é o que se opõe ao possibilismo. Consiste em ser tão conservador quanto possível ao levantar hipóteses explicativas; avança-se apenas para entidades, energias, forças, seja o que for de afastado do senso comum, quando isso é mais económico e plausível do que continuar a usar as explicações e categorias que já usávamos antes. Quem me dera que mais filósofos compreendessem este aspecto fundamental do sucesso epistémico e parassem de explorar meras possibilidades lógicas a favor das quais não há qualquer motivação, esperando depois que os refutem. Como Moore viu, a hipótese de que tenho duas mãos é muito mais plausível do que a hipótese de que os cépticos têm razão; ambas podem estar erradas e ambas podem ser refutadas, mas qual delas é mais sensato aceitar?

4 comentários:

  1. Prezado Desidério, o fato de haver uma possibiidade contrária ao que assumimos no presente, não seria uma forma de garantir a veracidade ao que postulamos enquanto essa possibilidade contrária não se concretizar? Isso parece nos remeter ao falsificalismo popperiano, embora essa noção, senso-comum, esteja mais para uma deturpação conveniente.

    A própria ciência, mesmo dentro de seu formalismo, estabelece um campo explicativo de tal froma que seja possível construir suas possíveis refutações e testar sua resistência. Claro que o estabelecimento dessas possibilidades refutativas está longe do posibilismo abordado por você. Mas o possibilismo parece ser apenas uma extrapolação ingênua ou a-metódica desse mesmo expediente.

    Veja que estou apenas pensando alto a partir de seu texto, sem querer afirmar contrapontos ou gerar conflitos.

    Se, por exemplo, temos uma tese a favor de algo, não nos basta apenas como possibilidade de sua veracidade a inexistência de refutações possíveis. É justamente a existência da possibildiade real de refutação que a torna verossímil, enquanto resistir e não for refutada. O grau de exigência do status refutativo que parece delimitar o possibilismo.

    Eu concordo com você em termos filosóficos. Mas quando se trata da materialidade científica, mais espcificamente na questão criacionista (que se constitui em um projeto claro de invasão de magistério), infelizmente o bom senso solicitado por Russel não é o bastante em termos sociais e de formação cultural.

    Quando falo isso não estou falando da prática científica, onde o possibilismo tem seu antídoto estruturado (como você mesmo aponta). Mas na questão científica ligada ao estatuto social do conhecimento científico. Ao senso-comum qualquer possibilidade que lhe afague suas necessidades psicológicas entra no roll das verdades possíveis, e merece tanto crédito quanto o mais consolidado e estruturado corpo de pensamento.

    Fico imaginando se não houvesse filósofos preocupados com o possibilismo na medida em que precisa considerá-lo a partir das mentes crédulas para combatê-lo. Logo, o senso-comum modificaria o magistério científico, por mais ligado que ele esteja a uma validação empírica: só nos restaria a tecnologia e não mais a especulação criativa relevante.

    Abraços...

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  2. Prezaddo Desidério:
    A última frase do penúltimo parágrafo diz: "não podem ser exccluídas, mas não irrelevantes cientificamente". Quererá dizer... mas são irrelevantes científicamente?
    Um abraço

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  3. É isso mesmo, já corrigi! Muito obrigado pela atenção!

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  4. O novo link do artigo é este: http://bostonreview.net/ned-block-philip-kitcher-misunderstanding-darwin-natural-selection

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