25 de fevereiro de 2010

Proposta para uma nova ortografia

Eis uma sugestão a todos os que, algo sofisticamente, têm argumentando que devemos adoptar a nova ortografia, mas reconhecem que tem vários problemas que devem ser corrigidos. Vamos então corrigi-los. Só os mais graves.

Hífenes. Esqueça-se aquela ambiguidade do texto oficial, e use-se antes o bom senso: aceite-se a norma anterior porque temos mais que fazer do que mexer em hífenes, e para os casos bicudos adopte-se a regra simples de usar hífen ou não consoante precisamos de marcar que se trata de uma só palavra, mas composta, como “cor-de-rosa” (até porque uma rosa pode não ter cor de rosa), ou consoante se trata de uma aposição como “anti-” (não vejo a vantagem fantástica de ter de escrever “antissocial”).

Consoantes mudas. Esqueça-se o absurdo critério fonético, que obrigaria portugueses a deixar de escrever “aspecto” passando a escrever “aspeto”, ao passo que os brasileiros continuariam a escrever “aspecto”, entre muitos outros casos. Elimine-se apenas as consoantes mudas que nenhum lusófono pronuncie; apesar de mesmo assim ficarmos com os disparates orto-fonéticos de “ação” (que em Portugal se lê intuitiva e correctamente como “assão”, sem o “a” aberto), sempre seria melhor do que a mentira actual, segundo a qual temos agora uma nova ortografia unificada… mas com duas variantes, que é exactamente o mesmo que tínhamos antes.

Viagem no tempo. Em vez de se ter permitido que duas pessoas sem grande sensatez humana e ainda menos competência linguística fizessem entre eles um texto absurdo, depois sancionado por políticos semi-analfabetos, contratava-se verdadeiros linguistas das novas gerações, gente com menos de 40 anos e cuja lista de leituras não termina toda mais ou menos nos anos 40 do século passado. E teríamos tido, de certeza, um resultado cientificamente sólido e humanamente equilibrado. E, quem sabe, uma verdadeira unificação ortográfica. Até nem era difícil: era começar por eliminar o cientismo axiomático que pretende mudar as ortografias com base em Grandes Princípios Gerais, e fazer uma coisa pragmática, olhando para todas as diferenças ortográficas e eliminando ora as de um lado ora as de outro, caso a caso. Que tal?

6 comentários:

  1. Péssima proposta. Por vários motivos:

    1) Mostra que tens mau perder por causa da luta que fizeste contra o acordo;

    2) Entras por soluções de compromisso o que mostra nova derrota;

    3) Propôr pessoas com menos de 40 anos a elaborar normas linguísticas só dá para dizer: prontos, antensão os kotas paçaramse? É assim que vai escrever a nova geração(é uma caricatura mas não anda longe da realidade).

    ResponderEliminar
  2. Discordo:

    3) Vejo indícios (felizmente, e em várias áreas, da economia à história) de que os novos académicos portugueses são mais competentes do que os das gerações anteriores. O que se poderá explicar pelo simples facto de que as suas bibliografias não estarem apodrecidas no tempo.

    1) Isto para mim não é um jogo de futebol; não há perder e ganhar. Há é trabalho real: estou envolvido em projectos editoriais que visam publicações luso-brasileiras, e a nova ortografia, supostamente unificada, não é afinal unificada porque continuam a existir duas variantes ortográficas (além das lexicais e gramaticais).

    2) Uma proposta de genuína unificação ortográfica seria muito bem-vinda editorialmente, e eu nunca o neguei. O que sempre neguei foi que o objectivo desta nova ortografia fosse a unificação — não o é. Por exemplo, imagina que publicas um livro em Portugal e no Brasil supostamente com a nova ortografia. Se seguires a norma portuguesa, escreves “económico”, mas “econômico” se a brasileira; mais ridículo ainda: se seguires a brasileira, continuas a escrever “espectáculo” e “aspecto”, como na antiga norma portuguesa, mas se seguires a nova norma portuguesa escreves “espetáculo” e “aspeto” — num caso, escreves como o leitor português espera, mas com a nova norma brasileira, e no outro escreves como o brasileiro não espera, porque usas a nova norma supostamente unificada. Lindo, não é?

    ResponderEliminar
  3. e que mal haveria em escrever "os kotas paçaram-se"?

    pelo menos segundo os critérios dos acordistas nenhum: está tão "próxima da fonética" como "os cotas passaram-se".

    ResponderEliminar
  4. E ainda há uma mais idiota: é que se dermos ouvidos ao princípio de que a ortografia deve seguir a fonética, nesse caso temos de ter tantas línguas, quanto as pronúncias e sotaques. Por exemplo, aqui na Madeira jamais se poderia aceitar que "continente" se escreva "continente", mas sim "contenente". "piloto" passaria a ser "pilhoto". O curioso é que isto seria um regresso ao passado, já que antes da massificação da TV e meios de comunicação e da escola, era na verdade o que tínhamos, uma espécie de torre de babel dentro da mesma língua. Uma das vantagens de não mudar a ortografia foi precisamente a de pôr toda a gente a entender-se. Ora se mudamos de ortografia de 30 em 30 anos como podemos defender que o que está em causa é a unidade da língua? Mudanças periódicas produzem o efeito oposto, sem que se produza mais resultados além da confusão.

    ResponderEliminar
  5. Só incompetentes poderiam usar como critério de uma reforma ortográfica entre países com fonéticas tão marcadamente diferentes o princípio da fonética. É como usar como critério a cor da pele para unificar a cidania lusófona. O único critério é a história, que nos une a todos. E a história, no caso da língua, é a etimologia e o uso já consagrado. Portanto, o que havia a fazer era pegar em todas as diferenças ortográficas uma a uma e eliminá-las todas ou tornar ambas as variantes aceitáveis e sem fronteiras.

    ResponderEliminar
  6. Tem toda a razão! Eu estou no 12º ano e faz-me uma confusão tremenda, bem como a todos os meus professores, de línguas ou não. Quer dizer, se o Reino Unido, montes de vezes maior que Portugal, nunca fez um acordo ortográfico a)entre os reinos (Escócia, onde muitos ainda falam gaélico, Gale, onde ainda se fala galês) e b)entre as ex-colónias, como os EUA ("cor" lá escreve-se "color" e no Reino Unido "colour") e a Austrália, muito mais influentes que o Brasil, por que raio este pequeno país havia de fazer um acordo absurdo com uma sua ex-colónia? Já agora, porque não desatamos todos a falar criolo ou a dizer "nemnem" em vez de "bebé"? É que ainda por cima querem tirar letras que dizem não se ler ou dizer mas muitos lêem e dizem. Eu digo "Egípeto" e não "Egito" e "Opetimizar" e não "Otimizar"... Andei 12 anos na escola a aprender a escrever, a minha professora de Português dá aulas há 30 anos e tem alguns 20 de estudos e esses 50 anos de Português agora são deitados fora? E isto tudo porque, como sempre, Portugal se quer por em bicos de pés!

    ResponderEliminar