12 de fevereiro de 2010

Uma experiência deliciosa

Experimente ler A Vida Sexual de Immanuel Kant, de Jean-Baptiste Botul. Mesmo sem saber que se trata de mera fantasia, escrita não por um pretenso filósofo (Botul nunca existiu) mas antes por um jornalista francês brincalhão (Frederic Pagés), dificilmente poderá o leitor levar a sério tal livro. Mas não foi isso que fez Bernard Henry-Lévy. Elevando ao cúmulo do ridículo uma certa maneira de ser intelectual em Paris -- maneira que nada tem a ver com a melhor tradição do pensamento francês -- e que consiste em substituir o pensamento pelos jogos de palavras e pela autoridade da citação de tantas referências que o leitor fica com falta de ar, o que lhe provoca a necessária hipnose do intelecto para levar esses autores a sério, a grande estrela televisiva do (des)pensamento francês leu o livro falsamente assinado por Botul e refere-o no seu último trabalho como se fosse um livro a sério e não uma brincadeira. A minha recensão do Botul está aqui. E a notícia do i sobre a miséria de Henry-Lévy está aqui. É mais um escândalo de Sokal, mas agora sem o Sokal.

5 comentários:

  1. Outro vexame que mostra bem o nível do trabalho feito pelos filósofos continentais, sobretudo os franceses. O curioso é que depois de ver essas palhaçadas pela vigézima vez, ainda escuto umas desculpas (de filósofos analíticos ainda por cima!) de que devemos conceder o benefício da dúvida nesses casos, de que criticar tão duramente esses filósofos é partidarismo ideológico ou que a filosofia ficaria muito sem graça sem essas 'diferenças'.

    Engraçado que nunca lhes ocorre que ninguém concede o benefício da dúvida ao Alan Sokal, que defender essa falta de rigor indefensável é sinal de politicagem suja pra manter convívio acadêmico e que a filosofia fica muito melhor sem essas palhaçadas.

    ResponderEliminar
  2. Tinha visto a notícia e logo fui ver a revista Discutindo Filosofia (sobre o Kant), onde apresentavam uma indicação do livro, sem apontar que tinha sido o autor irreal.

    É a vida.

    Abraço.

    ResponderEliminar
  3. Prezado Desidério,

    Sou um estudante de Filosofia e lógica brasileiro e aprecio o seu trabalho.

    Acredito que o trabalho acerca de fatos da vida privada dos filósofos acaba sendo imaginativos demais por conta da "mística" que envolve a filosofia para o senso comum. De qualquer forma, é melhor conhecer um trabalho sério de um autor sério. Quando o objetivo é o conhecimento

    Samir

    ResponderEliminar
  4. Essas críticas cheias de ironias costumam ser das melhores. Quero ler!

    ResponderEliminar
  5. Livro engraçado, gafe risível. Daí a comentar o sucedido com a generalização «outro vexame que mostra bem o nível do trabalho feito pelos filósofos continentais, sobretudo os franceses» é um grande (e lamentável) salto. Recomendo que tanto autores descuidados como comentadores exaltados sejam levados - e se levem a si próprios - menos a sério.

    ResponderEliminar