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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2010

Direcção da adequação, livros e leitores

A direcção da adequação ou do ajuste é um conceito importante em filosofia, nomeadamente em ética. Diz respeito à direcção primária da adequação que existe entre afirmações descritivas e normativas. Numa afirmação descritiva, procuramos primariamente adequar a afirmação à realidade: dizemos “A neve é branca” e queremos que isto se adeqúe ou ajuste à realidade da neve. Numa afirmação normativa, não procuramos primariamente adequar a nossa afirmação à realidade, mas antes indicar como queremos que a realidade mude para se adequar à nossa afirmação: dizemos “Não devia haver guerra” e queremos que a realidade se adeqúe ao que estamos a dizer. Não se deve pensar, contudo, que tudo o que se faz numa afirmação descritiva é adequar a descrição à realidade, nem que tudo o que se faz numa afirmação normativa é indicar como a realidade se deveria adequar ao que dizemos. Em ambos os casos são detectáveis adequações na direcção inversa: dificilmente é concebível uma afirmação normativa sem element…

Confusão sobre valores

Eis confusão muito comum sobre valores: sem Deus, ou sem uns factos esquisitos (como lhe chamou J. L. Mackie: o termo original é "queerness"), não há valores. E portanto tudo vale. Quem leu alguns romancistas russos do séc. XIX e alguns filósofos existencialistas do séc. XX conhece bem esta conversa.

Penso que esta conversa é uma confusão. Uma grande confusão. A confusão começa com a mitologização objectificante dos valores. Os valores são coisas que têm a ver com o invisível, com deuses, com algo desse género. Assim, os valores existem e são objectivos porque são o que um deus ordena. Sem esses deuses, não haveria então valores. Esta ideia é factualista, curiosamente, pois é a ideia de que os valores existem e são objectivos porque de facto são ordenados por um deus.

Mas a confusão é que nesta concepção se está a olhar para os “factos” errados. Mesmo que existam deuses e eles ordenem coisas, não pode ser por eles as ordenarem que são valores. Não pode ser porque um deus or…

Diógenes de Sínope

É absurdo trazer de volta um escravo que fugiu. Se um escravo pode sobreviver sem um senhor, não é terrível admitir que o senhor não pode viver sem o escravo?

O pensamento político de Orwell

A Antígona acaba de anunciar a edição portuguesa de George Orwell: Uma Biografia Política, de John Newsinger, com tradução de Fernando Gonçalves.

Mandeville, os moralistas e a economia

Uma tendência curiosa ao longo de todas as épocas, e ainda hoje, é um certo discurso moralista contra as escolhas livres da generalidade das pessoas. Às tantas, defende-se até que essas escolhas não são realmente livres, presumivelmente por serem muito diferentes das dos intelectuais. Que são livres, pois claro.

O que está em causa é uma certa incapacidade para aceitar e compreender a diferença. A mim não me interessaria ter o género de vida prezada pela generalidade da população, baseada em automóveis, futebol, novelas, Coca-Cola, frivolidades e mesquinhices. Mas qual é o problema de as pessoas preferirem essas coisas? Presumivelmente, se tivessem o meu tipo de vida seriam tão infelizes quanto eu seria se tivesse o tipo de vida delas. Além disso, se toda a gente tivesse o meu tipo de vida, como argumentou Mandeville no séc. XVIII, seríamos todos presumivelmente muito pobres, pois é a frivolidade e a mesquinhez que é o motor da economia, fazendo as pessoas comprar desenfreadamente o …

Whitehead, ciência e pensamento

Chega-me notícia atrasada da edição brasileira de um importante estudo de Alfred North Whitehead, A Ciência e o Mundo Moderno, pela Paulos, do qual podemos ler aqui um excerto entusiasmante. Fica a referência.

Olhar de cima e ver de baixo

Há uma metáfora morta sistematicamente usada que denuncia aspectos infantis da humanidade. Refiro-me às palavras “superior” e “inferior” e outras semelhantes. Do que estas palavras realmente falam é de hierarquias sociais; mas depois são usadas para querer aparentemente dizer outra coisa. Fala-se então de ensino superior e capacidades superiores; e diz-se que uma ideia ou filosofia ou prática ou disciplina é superior a outra.

Esta terminologia esconde a obsessão simiesca dos seres humanos com as hierarquias sociais; e ao colocar num só par de palavras conceitos tão diversos como “sofisticação”, “beleza”, “valor”, “dificuldade”, ou a sua ausência, oculta numa sombra viscosa o que realmente faz algo ser melhor ou pior do que outra coisa.

O futebol é superior à filosofia? Em termos sociais, num certo sentido, sim: ganha-se muito mais dinheiro, caso se seja bem-sucedido, tem-se mais namoradas, e é-se infinitamente mais popular. Se é isso que uma pessoa valoriza, é superior. Se o que alg…

Pátria e infantilidade

A propósito de infantilidade, uma das ideias que me vem logo à cabeça é a de pátria. Acho que fazem todo o sentido os versos de uma canção francesa de Maxime Le Forestier "Je m'en fous de la France, on m'a menti / On a profité d'mon enfance pour me faire croire à une patrie" (Estou-me nas tintas para a França, fui enganado / Aproveitaram-se da minha infância para me fazerem acreditar numa pátria).

Se me perguntarem por que razão digo que essa história da pátria é uma fantasia, a minha resposta pode soar algo decepcionante para alguns. Digo que não passa de uma fantasia pelo mesmo tipo de razões que digo que as histórias de bruxas não passam de fantasias. Afinal de contas, preciso de melhores razões para acreditar numa pátria do que para não acreditar.

Haverá por aí alguém que me consiga apresentar boas razões para ser patriota?

Raciocínio e infantilidade

Ocorre uma coisa curiosa quando se põe pessoas sem formação intelectual adequada perante um problema que exige raciocínio intenso: muitas dessas pessoas riem-se e assumem uma atitude infantil, lúdica. Eis uma hipótese explicativa: como essas pessoas se desabituaram de raciocinar intensamente quando se tornaram adultas, voltam a viver a sua experiência infantil de raciocinar intensamente. Isto é curioso, dado que denuncia uma grave distorção da realidade. Raciocinar intensamente não é coisa própria de crianças apenas. É graças ao raciocínio intenso que há sinfonias, física quântica, medicina sofisticada, filosofia e matemática — e os lados práticos dessas coisas, como aviões, micro-ondas, telemóveis, televisões de plasma. Considerar que o raciocínio intenso é infantil, ou meramente lúdico, poderá resultar de uma vida inteiramente passiva, de consumidor dos produtos do raciocínio intenso feito por outros.

Paradoxo de Protágoras

Protágoras deu aulas (do que hoje consideríamos Direito) a um aluno pobre, aceitando nada receber até ele ganhar o seu primeiro caso em tribunal. O aluno ficou formado, mas evitou sempre defender casos em tribunal, para não ter de pagar a Protágoras. Então, este levantou-lhe um processo em tribunal, declarando aos juízes: "Se eu ganhar este caso, ele tem de me pagar porque ganhei a minha exigência. Mas se eu não ganhar, quer dizer que ele ganhou a causa. Então, nos termos do contrato original, ele tem de me pagar também. Logo, em qualquer caso, ele tem de me pagar."

Os juízes ficaram impressionados. Deram então a palavra ao arguido, que declarou calmante: "Se eu ganhar a causa, então não tenho de pagar, precisamente porque ganhei a causa. Mas se perder, então também não tenho de pagar, pois segundo o contrato original só tem de lhe pagar as aulas quando ganhar o meu primeiro caso em tribunal. Logo, em qualquer caso, não tenho de lhe pagar."

E agora?

Gottfried Leibniz

Dado que a felicidade consiste na paz de espírito, e dado que a paz de espírito permanente depende da confiança que temos no futuro, e dado que essa confiança se baseia no conhecimento que devemos ter sobre a natureza de Deus e da alma, segue-se que o conhecimento é necessário para a verdadeira felicidade.

Heraclito segundo Kahn

A Paulus editou o Dicionário de Filosofia de Cambridge, org. por Robert Audi, obra de consulta obrigatória para todos os estudantes e professores de filosofia. Agora chega-me notícia da edição de A Arte e o Pensamento de Heráclito, de Charles Kahn. Consultei com muito proveito este livro quando era estudante de graduação (não na biblioteca da minha universidade, cujos livros mais recentes eram dos anos 50, mas na excelente biblioteca da Universidade Católica de Lisboa, a Biblioteca João Paulo II). Guardo memória de um bom livro sobre Heraclito, que apresenta também novas traduções dos fragmentos que nos chegaram dos seus escritos. Kahn é um dos grandes especialistas na história da filosofia grega, com uma vasta bibliografia na área. Este livro torna-se agora leitura obrigatória para professores e estudantes brasileiros do pensamento de Heraclito.

Primeira Tertúlia da Crítica

Está marcada a primeira Tertúlia de Filosofia da Crítica, em Lisboa: será na sexta-feira, 4 de Junho, entre as 21:30h e as 24:00h. Espera-se que seja a primeira de muitas!

A livraria Trama, perto do Largo do Rato, manifestou um grande entusiasmo em acolher esta tertúlia. Eles têm um espaço muito agradável, com uma zona de estar e café que parece ter sido pensada à medida desta iniciativa. A Trama promove vários eventos por semana, com especial relevo para concertos e música. A agenda está carregada, razão pela qual apenas em Junho nos podem receber, no entanto poderemos depois agendar a Tertúlia com uma periodicidade mensal constante.

Pretendo, durante os próximos dias, seleccionar um tema para este primeiro encontro. A ideia é sugerir algumas leituras e eventualmente lançar um debate inicial aqui no blogue. Na Trama será também promovido o evento e as referências bibliográficas sugeridas.

Agora pergunto: têm ideias e sugestões relativamente aos temas a debater?

Para o primeiro enco…

Russell sobre Gellner sobre a filosofia linguística

Ernest Gellner (1925-1995) publicou originalmente em 1959 uma crítica polémica à chamada filosofia linguística, uma corrente da filosofia analítica que muitas pessoas confundem com a totalidade da filosofia analítica. Entre os praticantes da filosofia linguística encontravam-se Austin, Ryle, o Wittgenstein tardio e Strawson. Contra este modo de fazer filosofia analítica estava o próprio Bertrand Russell, que escreveu um memorável prefácio à obra de Gellner.

Li esse prefácio quando era aluno de graduação. Não teve grande influência em mim porque já nessa altura procurava a filosofia e desprezava quem despreza a filosofia e procura substituí-la por outra coisa qualquer (sociologia, história da filosofia, história das ideias, psicologia, crítica literária, crítica social ou existencial, lógica, linguística, etc.). Parecia-me ridículo que num curso de filosofia filosofia fosse aquilo de que menos se falava, aproveitando cada qual para substituir a filosofia por outra coisa qualquer. Hoje…

Liberdade de expressão

Há limites à liberdade de expressão? Quais? E porquê? Estas são algumas das perguntas a que Nigel Warburton procura dar resposta no livro Free Speech, de que acabo de publicar uma recensão aqui.

Concurso Bizâncio

Tome-se a frase F) “Sócrates não atravessará a ponte” e as seguintes condições:
Sócrates aproxima-se de uma ponte;Quem disser a verdade atravessará a ponte; Quem disser uma falsidade não a atravessará;Só há um Sócrates;E este Sócrates diz: “Sócrates não atravessará a ponte”.A frase F é verdadeira ou falsa? Os autores das duas melhores respostas na caixa de comentários receberão da Bizâncio um exemplar cada de Enigmas da Existência. Condições: o concurso termina dia 26 de Março, às 23:59; todos podem participar, mas só os leitores que vivem em Portugal poderão receber o prémio.

indexicais, proposições e contingências da língua

As frases em que se usa indexicais (expressões como "aqui", "ali", "isto", "aquilo", "agora", etc.) têm propriedades curiosas. Por exemplo, a frase "estou aqui" tem a propriedade de ser verdadeira em todas as circunstâncias em que a proferimos; seja onde for que nos encontremos, é sempre verdade que estamos "aqui" pois o conteúdo de "aqui" varia com a circunstância em que é proferido. Daqui pode resultar a ilusão de que a verdade da afirmação "estou aqui" é necessária, ou que a afirmação é logicamente verdadeira. Esta ilusão resulta de uma confusão básica entre frases e proposições. A proposição, ou aquilo a que chamamos "afirmação" é o conteúdo que a frase exprime, por exemplo: está a chover, its raining, es regnet, il pleut - são quatro frases mas exprimem uma só afirmação ou proposição. Imaginemos que estou no Porto, às 15:00 do dia 20 de Março de 2010 e que nesse preciso momento digo …

Qualidade superlativa

Ao procurar outra coisa, deparei-me com esta maravilhosa definição de a priori, na Enciclopédia Universal da Texto Editora:
Em lógica, designa um argumento cujo valor de verdade — uma proposição só pode ter um valor de verdade Verdadeiro ou um valor de verdade Falso — é conhecido antes de se proceder a qualquer experiência.Repare-se no preciosismo: o mesmo autor ignorante que não consegue compreender que falar de valor de verdade de um argumento é como falar da sua cor (um erro categorial), e que não quer dar-se ao trabalho de ler qualquer coisa simples das muitas já existentes em Portugal sobre o que é o a priori, dá-se ao cuidado de alertar o leitor para a particularidade de em lógica uma proposição só ter dois valores de verdade. Já em física ou história, presume-se, uma proposição pode chegar a ter uns trinta ou quarenta valores de verdade. Eu não sei é quais são.

Verdade e variabilidade

Considere-se uma dada afirmação “p” verdadeira. Aceite-se que algo a faz ser verdadeira. Chamemos a isso “r”, a realidade que faz “p” ser verdadeira. Por exemplo, se “p” for “A água é H2O” a realidade da composição química da água faz “p” ser verdadeira.

Eis uma confusão comum. Considere-se agora que “p” é necessária. A confusão é então dizer que a mesma realidade r não pode fazer “p” ser verdadeira. Isto porque r não pode variar. Como não pode variar, não pode fazer “p” ser verdadeira.

Que isto é uma confusão vê-se se considerarmos que r faz “p” ser verdadeira em virtude de r ser o que é e não em virtude de r variar ou deixar de variar. Se r varia, “p” é contingente. Se r não varia, “p” é necessária. Mas em ambos os casos r faz “p” ser verdadeira porque “p” exprime r. E o que há em r que faz “p” ser verdadeira é r ser a realidade que “p” exprime. Nada mais. Seria muito estranho, e na verdade insustentável, pensar que o que há em r que faz “p” ser verdadeira é a variabilidade de r, …

Filosofia e pensamento crítico

O Tomás Magalhães Carneiro tem desenvolvido um importante trabalho com sessões públicas de filosofia prática, no seu Café Filosófico. O Tomás resolveu gravar algumas dessas sessões e partilhar com todos na internet. Para além de tudo esta parece-me ser uma boa atitude já que não temos disponíveis muitos vídeos de filosofia e pensamento crítico disponíveis em língua portuguesa. Pode aceder neste link.

Enigmas da Existência

Está já à venda o livro Enigmas da Existência: Uma Visita Guiada à Metafísica, de Earl Conee e Theodore Side, em tradução de Vítor Guerreiro e com a minha revisão científica . É o sexto volume da colecção Filosoficamente, da Bizâncio.

Podemos ler aqui mais informações sobre o livro, assim como uma crítica que publiquei no jornal Público aquando da edição original inglesa. E podemos ler três dos dez capítulos do livro: "Identidade Pessoal", "Por Que Não Nada?" e "O Que é a Metafísica?"

Em breve, iremos oferecer aqui exemplares deste livro. Fique atento!

Uma sugestão para os professores de Filosofia

A Sociedade Portuguesa de Filosofia, em parceria com a Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, organiza este ano a 8ª edição dos Encontros Nacionais de Professores de Filosofia, nos dia 10 e 11 de Setembro 2010, em Portimão. Neste âmbito, está aberto o prazo de candidaturas para a apresentação de comunicações em língua portuguesa sobre quaisquer tópicos considerados relevantes para o ensino da Filosofia. As comunicações não devem exceder os 30 minutos, de modo a reservar pelo menos 20 minutos à discussão.

Para saber mais, pode procurar aqui.

Mentira ou ignorância

José Eduardo Agualusa, romancista angolano, tem defendido a aplicação da nova ortografia no seu país, Angola, e usa aqui um argumento que resulta de mentira ou ignorância:
Importamos livros de Portugal e do Brasil. Isso significa que temos livros em duas ortografias no nosso território, facto que suscita natural confusão, sobretudo aos leitores recentemente alfabetizados — em particular jovens e crianças. O argumento é que com a nova ortografia Angola poderia importar indiferentemente livros de Portugal ou do Brasil, sem diferenças ortográficas. Isto é falso. Com ou sem acordo ortográfico, os leitores angolanos irão ler nos livros portugueses as palavras “económico”, “génio” e “facto”, lendo “econômico”, “gênio” e “fato” nos brasileiros. Além disso, onde antes do acordo liam “espectadores” ou “aspecto” nos livros de qualquer país, depois do acordo irão ler “espetadores” e “aspeto” nos livros portugueses, se os editores adoptassem o acordo (o que não está a acontecer e não é previsível…

Proposições e frases eternas

Acabei de publicar mais um excerto da minha tradução de Palavra e Objeto, de W. v. O. Quine, cuja publicação na Vozes está agora para breve. Desta vez é a secção 40 (Proposições e Frases Eternas), a juntar à 56 (Ascensão Semântica).

A Crítica está desde ontem de cara lavada. Espero que os leitores gostem. Se notar algum problema faça "reload" (tecla F5 ou control-R). Se o problema persistir, contacte-me.

Coleção Mestres do Pensar

A editora Loyola nos tem brindado com algumas boas novidades de filosofia. Vale a pena divulgar a sua coleção de bolso "Mestres do Pensar", que já foi lançada a algum tempo. Os autores são filósofos de competência reconhecida e com exceção do livro de Hare sobre Platão, todos os livros foram traduzidos da coleção “Very Short Introductions”, da editora Oxford. Eu só tive um pequeno problema: pura e simplesmente não encontrei a coleção “Mestres do Pensar” no site da editora Loyola. Como o leitor pode reparar, o título que aparece no site é outro: Mestres do Pensamento. Até agora estou sem compreender o motivo dessa troca de nomes, vai entender!

Música

Eis alguns dos problemas filosóficos da música.

W. V. O. Quine

Não há qualquer outro sentido mais profundo de “realidade” do que o sentido em que pertence à própria ciência procurar a essência da realidade, com o seu método hipotético-dedutivo de conceptualização e experimentação, método que se corrige a si mesmo.

Filosofia do direito em português

A maioria das editoras brasileiras tem o péssimo hábito de divulgar mal os seus livros: a publicidade na área é amadora, os catálogos das editoras geralmente são desatualizados e só sabemos das novidades quando nós mesmos procuramos nas livrarias ou somos informados por alguém que conhecemos. O meu objetivo aqui é informar que uma bibliografia básica de qualidade inteiramente em português já está disponível para os interessados em filosofia do direito:

Valor Respeito E Apego, de Joseph Raz

Razão Prática e Normas, de Joseph Raz

Problemas de Filosofia do Direito, de Richard A. Posner

Filosofia - Moral e Política: Liberdade, Direitos, Igualdade e Justiça Social, de Paul Smith

Lei Natural E Direitos Naturais, de John Finnis

O Conceito De Direito, de L.A.Hart

Ensaio sobre Teoria do Direito e Filosofia, de L.A.Hart

Direito, Liberdade, Moralidade, de L. A. Hart

H. L. A. Hart, de Neil MacCormick

Retórica e o Estado de Direito, de Neil MacCormick

Argumentação Jurídica e Teoria do Direito, de Neil Mac…

O feminismo de Mill

Acabo de publicar uma recensão de Fernanda Belo Gontijo do livro A Sujeição das Mulheres, de J. S. Mill (Almedina).

Kenny na Gradiva

A Gradiva acaba de anunciar a publicação em Abril, Junho, Setembro e Novembro dos quatro volumes da Nova História da Filosofia Ocidental, de Sir Anthony Kenny. Originalmente publicada na Oxford University Press, e com edição brasileira pela Loyola, trata-se da mais importante história da filosofia publicada nos últimos vinte anos pelo menos. Actualizada, rigorosa, de leitura agradável, é uma obra obrigatória para professores, estudantes e qualquer pessoa interessada na história da filosofia. E é bonita só de folhear graças à riqueza das ilustrações.

Uma das importantes inovações desta obra é que cada volume está dividido em duas partes. Na primeira, apresenta-se uma narrativa cronológica das ideias dos principais filósofos da época respectiva, integrando-os no seu contexto histórico, social, político e económico. Na segunda, Kenny aprofunda os problemas, teorias e argumentos discutidos na época, tema por tema: com capítulos dedicados à ética, Deus, ciência, metafísica, linguagem, etc…

Uma Pequena História do Mundo

Ernst Gombrich é conhecido sobretudo como historiador da arte. Mas é um historiador da arte que revela um tipo de preocupações fora do comum entre os historiadores. O seu livro Arte e Ilusão aventura-se mesmo por domínios da psicologia e da filosofia da arte, onde consegue revelar uma solidez inesperada. A filosofia da arte de Goodman, por exemplo, foi notoriamente influenciada por Arte e Ilusão.  Fiquei com bastante curiosidade quando, no Verão passado, me deparei numa livraria com um pequeno livro de bolso das Edições Tinta da China intitulado Uma Pequena História do Mundo, de Gombrich, destinado a jovens adolescentes. Decidi comprar. Bastou-me começar a ler o primeiro dos 40 curtos capítulos do livro para já não conseguir parar. 
Gombrich escreve de uma forma tão clara e acessível sobre a história do mundo (sim, começa antes  mesmo de haver pessoas) que faz lembrar Sagan acerca da ciência. Nesta história não nos deparamos com uma sucessão de factos e datas apresentados de forma dogmá…

Thomas Nagel

Uma hipótese científica pode ser falsa e sem sustentação indiciária. Isso é uma razão suficientemente boa para não a ensinar na escola às crianças. Não é necessário argumentar que não é ciência, nem que nem sequer é ciência irremediavelmente má.

O direito de defender o criacionismo

Levei um susto ao ser informado que Thomas Nagel, filósofo respeitado e influente, tenha escolhido o livro criacionista Signature in the Cell: DNA and the evidence for Intelligent Design, de Stephen C. Meyer, como um dos melhores livros do ano. O livro é repleto de especulação religiosa contrária ao evolucionismo e (como acontece com os outros livros desse gênero) sequer é mencionado na literatura científica relevante.

Fui procurar mais informações e descobri que Nagel tem defendido recentemente ("Public Education and Intelligent Design", Philosophy & Public Affairs 2008) que o criacionismo não é pseudociência, mas má ciência. E como toda má ciência ainda é um tipo de ciência, argumenta Nagel, as decisões jurídicas de proibir o ensino do criacionismo são incorretas. Eu discordo deste argumento. Como qualquer pessoa que se deu ao trabalho de discutir calmamente com um criacionista sabe, as hipóteses criacionistas são imunes ao processo normal de justificação crítica e argu…

Theodore Dalrymple

Theodore Dalrymple já foi comparado a George Orwell, e não é apenas por usar um pseudónimo literário; no entanto, não se situa à esquerda, politicamente, mas antes à direita. Mas encontra-se nele, de facto, algo da mesma lucidez de Orwell: inteligência penetrante e uma insistência em ver a realidade sem as distorções das ideias feitas, das ideologias partilhadas e do que se considera que é bonito pensar hoje em dia, ambos servidos por uma prosa quase tão magistral quanto a de Orwell.

"Thank You For Not Expressing Yourself" acaba de ser publicado e é sobre este fenómeno inacreditável que se encontra nos comentários da Internet: a falta de civilidade, simpatia e sensatez. Tudo começa com o que aconteceu recentemente a Dawkins, que pretendeu eliminar o imenso ruído (comentários irrelevantes e sem relação com o conteúdo que supostamente estaria a ser comentado) dos comentários do seu site; a reacção não se fez esperar, e todos os nomes feios lhe chamaram. E a primeira ideia é l…

Heidegger e o nazismo

Heidegger era nazi. Contudo, muitos admiradores do filósofo consideram que esse é apenas um aspecto da sua biografia, mas não da sua filosofia. Outros, contudo, consideram que a filosofia de Heidegger é intrinsecamente nazi, não sendo a experiência de ler o Mein Kampf muito diferente da de ler Sein und Zeit. É isto mesmo que defende Emmanuel Faye, professor de filosofia na Universidade de Rouen.

Arte e instinto

O Aires Almeida já tinha aqui falado que esta seria uma leitura a fazer em 2009. Agora podemos fazê-la em língua portuguesa. Arte e Instinto de Denis Dutton. A edição é da Temas & Debates, 2010. Fica convidado o Aires para expor com maior precisão o conteúdo desta obra.

Filosofia e ciência

Quando dou aulas de filosofia existe sempre um problema que incomoda os meus alunos e que gostava de discutir com os nossos leitores. Será que a ciência resolve os problemas que os filósofos colocam ao longo de tantos séculos? Se a resposta for afirmativa então segue-se outra questão: e será possível fazer ciência sem fazer filosofia ao mesmo tempo? Se a resposta continuar afirmativa, então qual é o ponto exacto que nos faz compreender quando se está a fazer filosofia e quando se está a fazer ciência?

Cambridge Companion to Atheism

A edição portuguesa de Cambridge Companion to Atheism, org. por Michael Martin, já tem capa e é bonita. Com tradução minha, este volume tem artigos, entre outros autores, de William Lane Craig, Keith Parsons, Evan Fales, Daniel C. Dennett, David O. Brink, Quentin Smith e Patrick Grimm. Editada pela 70, estará à venda em Portugal em finais de Abril. Um capítulo está disponível na Crítica: "Teorias Antropológicas da Religião", de Stewart E. Guthrie.

Weinberg, a ciência e os seus críticos

Acabo de publicar uma recensão de Pedro Pereira Romano do livro Facing Up, de Steven Weinberg.

Vale a pena fazer um comentário à parte final da recensão, na qual o Pedro refere a posição algo crítica de Weinberg perante a filosofia. Isto é algo que já li noutro livro do autor. Em pratos limpos, a crítica parece tola, porque é algo como "não tem aplicação prática, logo não interessa". Um pouco como dizer que tal como a biologia é inútil porque seria largamente irrelevante para um pastor, assim também a filosofia seria inútil porque é largamente irrelevante para um cientista.

Há um sentido em que Weinberg tem razão, e outro em que não o tem.

O sentido em que não tem razão é óbvio: a filosofia, tal como outras áreas da investigação, não são importantes por causa do seu carácter prático ou por permitir fazer melhor ciência ou pontes ou curar doenças, mas apenas porque são as nossas melhores tentativas para enfrentar problemas que nos interessam. E não interessa se não consegui…

A liberdade de expressão tem graus?

Muito se tem falado ultimamente em Portugal sobre liberdade de expressão. A baixa política tem-se encarregado de tornar a discussão desinteressante: uns dizem que há liberdade de expressão em Portugal e outros que não, consoante a filiação partidária. Parece que é tudo uma questão de haver ou não haver liberdade de expressão. Mas vale a pena pensar se essa (há ou não há?) é uma forma correcta de colocar a questão da liberdade de expressão, pois, se houver graus de liberdade de expressão, a discussão muda de figura. 
O que acha o leitor?