30 de março de 2010

Confusão sobre valores

Eis confusão muito comum sobre valores: sem Deus, ou sem uns factos esquisitos (como lhe chamou J. L. Mackie: o termo original é "queerness"), não há valores. E portanto tudo vale. Quem leu alguns romancistas russos do séc. XIX e alguns filósofos existencialistas do séc. XX conhece bem esta conversa.

Penso que esta conversa é uma confusão. Uma grande confusão. A confusão começa com a mitologização objectificante dos valores. Os valores são coisas que têm a ver com o invisível, com deuses, com algo desse género. Assim, os valores existem e são objectivos porque são o que um deus ordena. Sem esses deuses, não haveria então valores. Esta ideia é factualista, curiosamente, pois é a ideia de que os valores existem e são objectivos porque de facto são ordenados por um deus.

Mas a confusão é que nesta concepção se está a olhar para os “factos” errados. Mesmo que existam deuses e eles ordenem coisas, não pode ser por eles as ordenarem que são valores. Não pode ser porque um deus ordena que torturar crianças inocentes é um mal que isso é um mal. Não pode ser porque um deus ordena que ajudar as pessoas é um bem que isso é um bem. É tão implausível pensar que o bem e o mal é o que alguém ordena, mesmo que esse alguém seja um deus, como pensar que as leis da aritmética resultam da legislação de alguém, mesmo que esse alguém seja um deus.

Esta concepção factualista de valores é exactamente análoga a atribuir o vento a poderes mágicos. É pura mitologia. E como mitologia que é, trata-se de pensamento factualista, mas que olha para os factos errados, inventando-os onde não existem.

Quando falamos de valores, os factos relevantes são as preferências de agentes que podem ter preferências. Uma pessoa que está a ser torturada preferia não o ser, e é isso que conta. Uma pessoa que precisa de ajuda, preferia ser ajudada, e é isso que conta. Nós somos agentes valorativos. Não podemos evitar isso, tal como não podemos evitar beber água, defendeu Hare com razão. Os valores são factos sobre as nossas preferências. Preferências essas que podem ser mais ou menos defensáveis e sábias. Depois, temos um problema de coordenação de preferências: um terrorista tem a preferência de matar mil pessoas com uma bomba, e essas mil pessoas têm a preferência de não serem mortas por ele dessa maneira. Temos de pensar que preferências são defensáveis e porquê. Temos de argumentar.

Não gosto dos chamados “novos ateístas”, que incluem Dawkins (mas ele é maravilhoso a fazer divulgação científica) e Sam Harris. Parecem-me estridentes e por vezes mentirosos. Parecem-me mais interessados em guerra política e social do que na verdade. Mas neste vídeo Sam Harris insiste numa ideia interessante: os valores são factos, mas não o género mitológico de factos que é ainda infelizmente comum associar aos valores. Vale a pena ver, ouvir e discutir.

24 comentários:

  1. Por mais que o digam, não me posso gabar de entender que valores o sejam só porque alguém ordena seja o que for. Preferências por si sós também não determinam nada, porque não passam disso e cada um prefere o que lhe aprouver. Para evitar grandes desenvolvimentos, direi que só existem valores se existirem crenças, mormente Fé e o sentimento de dever associado.

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  2. Gostei do seu post Desidério e confesso que fiquei bem impressionado com a apresentação do Sam Harris: nunca li nada dele e pensei que ele argumentasse tão mal quanto o Dawkins, mas parece que me enganei.


    Sobre o tópico do post: eu já acreditei piamente no mito dominante de que a objetividade na moral não poderia existir sem fatos que garantam isso - num primeiro momento não acreditei que existisse objetividade na moral porque duvidava da existência de tais fatos, num segundo momento passei a acreditar que existia essa objetividade porque acreditei na existência de tais fatos - veja, por exemplo, aquele texto que tenho publicado na Critica "Moore e os intuicionistas contra o naturalismo". E hoje eu acredito na objetividade da moral sem esses fatos.

    Pensando em retrospectiva, abandonar essa idéia foi difícil porque pura e simplesmente todos pensavam desse modo. Os filósofos que defendiam objetividade moral sem fatos, como Thomas Nagel, pareciam cometer falácias de petição de princípio. Eu digo pareciam, porque obviamente eu fui incapaz de perceber a sofisticação dos argumentos de Nagel. E fui incapaz de perceber isso porque o meu departamento de filosofia era muito fraco e quando o departamento é fraco, as idéias nunca são avaliadas com imparcialidade: vence a força do número.

    É claro que pode ser que não exista objetividade na moral ou que exista uma objetividade na moral que dependa de fatos - e é possível defender as duas coisas de maneira profissional na filosofia. Mas defender idéias de maneira sofisticada e profissional é diferente de aceitar de maneira dogmática um punhado de idéias sem conhecer a bibliografia relevante.

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  3. Desidério,
    Fizeste bem em divulgar este video. Há um aspecto que já te notei em outras coisas que escreveste e que discordo.Estes autores estão interessados na verdade. Para o Dawkins, por exemplo, é científico que deus não existe, como tantas outras coisas que defende científicas nos livros de divulgação de ciência. A ideia de que um valor é um facto é interessante, como é interessante a ideia de que deus não existe é factual.

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  4. Ainda não tive tempo de assistir a essa palestra, mas acho que vale a pena acompanhar o diálogo entre Sam Harris e Sean Carroll:

    http://blogs.discovermagazine.com/cosmicvariance/2010/03/29/sam-harris-responds/

    (nessa postagem há referências para os capítulos anteriores da discussão)

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  5. um antigo inquisidor (ou um moderno) diria precisamente que as meras preferências das pessoas não são moralmente substanciais e o que importa é a Fé; mormente, a fé do inquisidor em como o fogo purifica a alma e salva os hereges. Por outras palavras: o que conta é a preferência do inquisidor, como de resto aprenderam bem a lição os fascistas, nazis e estalinistas do séc. XX.

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  6. Como "contra-ponto", cito a Suma Teológica de Tomás de Aquino:

    "[porque é Deus quem dá a morte e tira a vida], é sem nenhuma injustiça que a morte pode ser infligida a quem quer que seja, inocente ou culpado, por ordem de Deus.

    De modo semelhante, o adultério é a união com a mulher de outrem; mas esta mulher foi-lhe destinada por uma lei divina positiva. Assim, se um homem se une a uma mulher qualquer por ordem de Deus não haverá adultério nem fornicação.

    A mesma razão vale para o roubo, que é o arrebatar dos bens de outrem. Com efeito, tomar o que quer que seja por ordem de Deus, Senhor do universo, não é de modo nenhum um roubo, pois não é tomá-lo contra a vontade do proprietário".

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  7. Vítor Guerreiro,

    faz suposição do que diria um inquisidor e pode supor livremente o que lhe aprouver. Mas isso não aquece nem arrefece no que concerne à questão do ser e do dever-ser. E não é metodologicamente correcto utilizar elementos factuais (muito menos suposições factuais)como argumentos lógicos. De resto, como compreenderá, nada do que fizeram ou fizerem as pessoas, grupos, etc., alterará a questão e a resposta que se lhe haja de dar.

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  8. Mas eu apresentei um argumento. Não é relevante que algum inquisidor diga factualmente aquilo, basta que o raciocínio subjacente seja algo a que recorra quem acha que as preferências das pessoas não são algo suficientemente digno em que fundamentar um discurso moral. O que eu quis mostrar é que mesmo no caso do inquisidor, que elege um "facto esquisito" como fundador do discurso moral, o que ele está na verdade a fazer é a dar prioridade à sua preferência demente de "salvar" os outros contra a vontade destes, e através do assassínio, ignorando as preferências das suas vítimas sem quaisquer razões para o fazer.
    E isto é importante porque é o que os seres humanos não se cansam de repetir com o seu comportamento: seguem cegamente as suas preferências por mais malucas que sejam, mas assim que se deparam com as preferências dos outros, sobretudo quando estas chocam com as preferências do próprio (como no caso do inquisidor, que tortura e mata), começa logo a exigir provas matemáticas de que tem mesmo, mesmo, mesmo, mas mesmo mesmo mesmo o DEVER de atender às preferências dos outros, confirmar a solidez das suas razões para agir, antes de desatar a dar livre rédea às suas preferências malucas, por muita satisfação que a tortura dos outros lhe traga.

    Claro que os factos aqui são irrelevantes: basta adaptar o mesmo raciocínio a situações menos "inquisitoriais", onde se desatende às preferências dos outros mesmo sem chegar ao extremo de os torturar.

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  9. Vítor Guerreiro,

    ainda não manifestei a minha opinião e espero que não me leve a mal por isso. Tentei ser o mais objectivo e neutral possível. Não obstante, face às suas considerações, quanto mais não seja por mera hipótese, se alguém, "inquisidor", ou estupor, ou estripador, ou outra coisa qualquer, adopta um comportamento desses, o que acha que "devem" os outros fazer? Filosoficamente aceitar a diferença? Respeitar a liberdade dele? O direito dele às suas crenças e às suas ideias?

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  10. A ideia de referir os valores a uma entidade supra-histórica pode ter o efeito de paradoxal de remeter a esmagadora maioria dos valores humanos para a esfera da relatividade completa. Já um filósofo e sociólogo húngaro, demasiado ignorado, dizia isto há quase um século. Os valores são historicamente construídos e indiciam um determinado estado do acordo entre as pessoas (acordo que pode supor, claro está, debate). O facto de os valores terem uma raiz histórica em nada os remete necessariamente para a esfera da relatividade, ao contrário do que pretende fazer crer o argumento "supra-histórico". Da mesma maneira que foi no quadro de um determinado estado de desenvolvimento civilizacional que Watson e Crick construíram um modelo adequado do ADN, também o tabú do incesto ou o casamento homossexual são construções históricas.

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  11. Carlos Ricardo Soares,

    o problema é quando os outros nos tentam impor as suas ideias sobre assuntos acerca dos quais não há certeza.

    Se não há certeza, deve-se sempre aceitar que os outros também podem estar certos.

    Nuno.

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  12. Carlos Ricardo Soares,

    outra questão:

    por que não é metodologicamente correcto utilizar elementos factuais (muito menos suposições factuais) como argumentos lógicos?

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  13. Um argumento "lógico" (gostava que me dissessem o que é um argumento que não é lógico) tanto pode ter premissas factuais (ou conclusão) como não. Quem quiser aprender um pouco de lógica tem já hoje em Portugal alguns livros aconselháveis. E vários artigos, na secção de Lógica da Crítica. Pensar que num "argumento lógico" não pode haver elementos factuais é como pensar que a Terra é plana.

    Agradeço que os leitores ignorantes se abstenham de fazer afirmações erradas. Estudem primeiro, e depois comentem. Filosofia não é conversa de café. Ou de parlamento, já agora.

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  14. Exacto. As premissas (ou conclusões) de qualquer argumento tanto podem ser factuais como meras possibilidades. E é óbvio que qualquer argumento é lógico, distinguindo-se entre eles por outras características, como a validade ou a invalidade, por exemplo.

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  15. Já agora, de que método ou métodos fala, em que área de investigação, para investigar o quê?

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  16. Fm-Ra,

    O que eu tive em mente (e os filósofos explicam isso sem dificuldade) foi «argumento lógico-dedutivo» , que «a lógica não depende dos objectos do nosso mundo, não depende dos conteúdos pensados ou dos objectos referidos pelo pensamento. Preocupa-se apenas com a forma pura e geral dos pensamentos.»

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  17. Desidério Murcho,

    Fiquei chocado com a sua entrada dura. Vai ter que ter paciência. Não enfio a carapuça porque ela não me serve.
    E aproveito para dizer que não é, nem nunca foi, minha intenção dar lições a ninguém. Sou o mais humilde e curioso dos aprendizes. Não assumo nem aprecio ares professorais, menos ainda tiques de cátedra. Por isso, nunca diria de alguém que é ignorante. Não há ninguém que o não seja, é verdade. Dizer que alguém é ignorante até pode ser uma redundância. Pode ser humanamente compreensível e desculpável pelos contornos insultuosos, se não para quem o diz, para o visado.
    Espero não estar a perder tempo em dizer o que é sobejamente sabido.
    Um filósofo digno desse nome, e enquanto tal, ou simples amador da filosofia, não recorre a esse expediente para demonstrar que alguém está errado ou não tem razão. A verdade de uma afirmação não depende das virtudes da pessoa que a faz. Nunca achei, nem li em lado nenhum, que filosofar seja dar banhos de ignorância, como quem dá banhos de porrada ou de futebol. Se alguma vez os filósofos o desejaram, tanto quanto sei (ninguém sabe tudo) não o conseguiram. Também não sei se têm algum complexo por isso. Filosofia não se faz passar por basófia. Filosofar não é hostilizar, nem tentar confundir, nem laborar em ambiguidades, ou segundos sentidos, por avidez ou não de fazer proselitismo. Filosofar não é convencer a qualquer custo, de qualquer modo, do que quer que seja. Filosofia não é uma ditadura de sábios ou deuses arvorados em supremo tribunal do conhecimento ao qual todo o mortal ignorante, antes de falar, se deve dirigir para obter sentença do acerto do que pretende dizer. A Filosofia não são jogos de palavras, por mais divertido que isso seja.

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  18. Peço desculpa se entendeu o meu comentário ofensivamente, Carlos. Não foi essa a intenção. Mas isto aqui não é o café; não é um lugar onde cada qual vem dizer a primeira coisa que lhe ocorre. É a coisa mais natural do mundo que uma pessoa não saiba o que é um argumento, lógico ou não. Só que este não é o lugar para essas pessoas virem mandar bocas. Uma atitude de aprendizagem é bem-vinda, mas não a atitude de quem não está interessado em estudar o que está à sua disposição. É uma questão de boa educação: quem não está interessado em perder tempo a estudar coisas básicas, não pode exigir que os outros estejam interessados em atender às suas tolices. É também uma questão de ecologia: antes de se escrever, estuda-se, para não poluir o mundo ainda mais com mais disparates.

    Ignorantes somos todos, mas é uma questão de grau; quem não está disposto a estudar coisas básicas está estragar a discussão dos outros porque não permite que se saia do mesmo sítio. Seria como estar a discutir astronomia e aparecer alguém convencido de que a Terra é plana; se essa pessoa realmente quer discutir astronomia, primeiro vai estudar o básico; ou então pede educadamente orientação para os seus estudos.

    A razão pela qual exijo este bom senso e esta boa educação é que quando os comentários começam a incluir palermices ignorantes, os comentadores de quem se pode aprender alguma coisa calam-se e fica só o lixo da ignorância e o disparate das ideias irreflectidas. E isso eu não permito aqui. Há muitos espaços na Internet para cada qual dizer as palermices que quiser. Este não é um desses lugares.

    E deixo um apelo a todos os leitores: os comentários que denunciam ignorâncias gritantes devem pura e simplesmente ser ignorados; quem merece resposta é quem tem coisas interessantes a dizer, ainda que discordemos delas, coisas essas baseadas no conhecimento das coisas e na reflexão cuidadosa.

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  19. Carlos Ricardo Soares,

    sim, a lógica talvez dependa apenas do raciocínio, ou talvez seja mais correcto dizer que ela é o próprio raciocínio. Mas o raciocínio tem de ser sobre algo (ainda que seja sobre a lógica). E esse algo sobre o que o raciocínio é pode ser factual ou meramente possível. Por isso, essa tirada do metodologicamente correcto é incorrecta.

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  20. Acrescento que o que acima escrevo tanto se aplica a argumentos dedutivos como a outros.

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  21. Esta conversa sobre a lógica é absurda porque se está a confundir sistematicamente o estudo da coisa com a coisa. A lógica estuda o raciocínio ou argumentação, mas não é ela mesma o raciocínio ou argumentação que é objecto do seu estudo.

    A lógica estuda a validade de raciocínios que podem ser sobre batatas ou deuses, tanto faz, porque estuda apenas os aspectos formais dos raciocínios. Mas daqui não se pode inferir que os raciocínios estudados pela lógica não são sobre batatas ou deuses. Isto é tão palerma como pensar que só porque na geometria dos sólidos nunca se fala da cor dos cubos e das pirâmides, então os cubos e as pirâmides estudados na geometria não têm cor.

    Que raio tem esta conversa tonta a ver com o meu post ou com o vídeo? Cá está o problema que quero sempre evitar no blog: quando alguém diz palermices, acaba-se por falar de outra coisa e não do que interessa. Portanto, mandar bocas à toa é uma forma subtil de impedir a possibilidade de uma discussão de ideias interessante. É por isso que procuro evitar isso neste blog.

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  22. Voltando ao tema original do post. J. Rachels, em "Elementos de Filosofia Moral", apresenta um sub-capítulo com o título "Existirão Factos Morais"? Ele inicia afirmando "Um juízo moral - ou qualquer outro tipo de juízo de valor - deve estar apoiado em boas razões".
    Nagel, em "A Última Palavra", afirma algo que me parece cabal (ou mesmo seminal) a esse respeito (Em "Ética"): "Não existe um análogo moral do mundo externo - um universo moral que nos imponha em termos de causalidade".
    Eu tenho hoje que a expressão "fato moral" é ininteligível. O que há, na melhor das hipóteses, são juízos, decisões ou consensos morais, muitos materializados no Direito.
    O grande problema está em obter alguma objetividade ética (ou moral), ou em abordar-se a ética objetivamente. Essa, aliás, sua razão de ser enquanto área de interesse filosófico ou mesmo apenas intelectual. Essa empreitada, assim simplesmente colocada, ofusca um problema extrememente interessante e importante: o que é de fato "objetividade"?
    E aqui eu volto a Nagel, seja porque ele está no que eu chamo de meu limite intelectual (ainda não tive contato com abordagens superiores à dele, ou mesmo que a refutassem), seja porque eu concordo com ele, e das consequências de tal abordagem. "Objetividade", apesar de sua definição original ou léxica, apresenta-se simplesmente como uma espécie de estado místico onde todos concordam sobre algo. O problema da definição original é que, uma vez que todo conhecimento dá-se no sujeito, então não pode haver algo que literalmente 'independa' do sujeito. Mas isso soa bastante suspeito, pois ninguém diria que o resultado de uma soma possa ser 'dependente' de quem soma. Ainda que se objete que o resultado poderia ser outro, essa objeção não é legítima, simplesmente por ser ininteligível, mesmo para quem apresenta a objeção.
    Trazendo isso ao universo ético, uma decisão moral será 'objetiva' quando todos estiverem de acordo com ela, e quando negá-la for impossível. É claro que nessa seara a objetividade enfrenta sérios desafios, mas isso não reduz sua aspiração à objetividade. Isso de fato joga de volta ao sujeito que argumenta a responsabilidade pelo que afirma. E seja qual for o argumento, ele não poderá conter passos ininteligíveis, algo típico do relativismo moral. E do religioso, eu sustento, ainda que a moral religiosa gabe-se de ser a única de fato 'objetiva'.
    O risco disso - é um risco que eu quero correr - é que as caixas metafísicas deixam de ser caixas a serem abertas (para então serem divulgadas), e passam a ser caixas vazias a serem preenchidas (como os conceitos de 'bem' e 'mal' por exemplo).
    []s,
    Nypoa

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  23. Voltando ao tema original do post. J. Rachels, em "Elementos de Filosofia Moral", apresenta um sub-capítulo com o título "Existirão Factos Morais"? Ele inicia afirmando "Um juízo moral - ou qualquer outro tipo de juízo de valor - deve estar apoiado em boas razões".
    Nagel, em "A Última Palavra", afirma algo que me parece cabal (ou mesmo seminal) a esse respeito (Em "Ética"): "Não existe um análogo moral do mundo externo - um universo moral que nos imponha em termos de causalidade".
    Eu tenho hoje que a expressão "fato moral" é ininteligível. O que há, na melhor das hipóteses, são juízos, decisões ou consensos morais, muitos materializados no Direito.
    O grande problema está em obter alguma objetividade ética (ou moral), ou em abordar-se a ética objetivamente. Essa, aliás, sua razão de ser enquanto área de interesse filosófico ou mesmo apenas intelectual. Essa empreitada, assim simplesmente colocada, ofusca um problema extrememente interessante e importante: o que é de fato "objetividade"?
    E aqui eu volto a Nagel, seja porque ele está no que eu chamo de meu limite intelectual (ainda não tive contato com abordagens superiores à dele, ou mesmo que a refutassem), seja porque eu concordo com ele, e das consequências de tal abordagem. "Objetividade", apesar de sua definição original ou léxica, apresenta-se simplesmente como uma espécie de estado místico onde todos concordam sobre algo. O problema da definição original é que, uma vez que todo conhecimento dá-se no sujeito, então não pode haver algo que literalmente 'independa' do sujeito. Mas isso soa bastante suspeito, pois ninguém diria que o resultado de uma soma possa ser 'dependente' de quem soma. Ainda que se objete que o resultado poderia ser outro, essa objeção não é legítima, simplesmente por ser ininteligível, mesmo para quem apresenta a objeção(continua no comentário seguinte).

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  24. (continuando)

    Trazendo isso ao universo ético, uma decisão moral será 'objetiva' quando todos estiverem de acordo com ela, e quando negá-la for impossível. É claro que nessa seara a objetividade enfrenta sérios desafios, mas isso não reduz sua aspiração à objetividade. Isso de fato joga de volta ao sujeito que argumenta a responsabilidade pelo que afirma. E seja qual for o argumento, ele não poderá conter passos ininteligíveis, algo típico do relativismo moral. E do religioso, eu sustento, ainda que a moral religiosa gabe-se de ser a única de fato 'objetiva'.
    O risco disso - é um risco que eu quero correr - é que as caixas metafísicas deixam de ser caixas a serem abertas (para então serem divulgadas), e passam a ser caixas vazias a serem preenchidas (como os conceitos de 'bem' e 'mal' por exemplo).

    []s,
    Nypoa

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