1 de março de 2010

Contra o acordo ortográfico, uma ILC

Cidadãos lançam iniciativa contra acordo ortográfico no Facebook: notícia no Público. A ideia tem todas as hipóteses de vencer, pois lança mão de uma figura constitucional que só uma vez foi usada antes em Portugal, e com sucesso: ILC, Inciativa Legislativa de Cidadãos. Ligação...

5 comentários:

  1. Interessante a iniciativa. Só me entristeceu um pouco o tom nacionalista dos comentários no facebook, como se o acordo tentasse convergir ao português do Brasil, e ainda por cima por imposição dos brasileiros. É um neo-colonialismo, é isso? Acho que não. A explicação mais econômica é a de que o acordo foi feito por burrocratas que representam muito mais seus próprios interesses do que os de seus compatriotas. Cá e lá.

    Só mudam as moscas...

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  2. Também não gostei desse aspecto — e sempre achei esse discurso histérico, além de falso. Contudo, estando eu agora a trabalhar com a nova ortografia e a estudar um pouco a questão, compreendo melhor a posição. Porquê? Por duas razões.

    A primeira é que um texto brasileiro escrito com a nova ortografia ou a antiga quase não se nota a diferença; num texto português as diferenças surgem logo ao fim de umas frases.

    A segunda é que os brasileiros violaram o acordo; na verdade, para todos os efeitos práticos, tornaram-no vácuo e sem aplicação. Poucas pessoas sabem que o texto do acordo ortográfico estabelece duas coisas fundamentais. Primeiro, princípios gerais da mudança ortográfica, visando exclusivamente a unificação. Segundo, que a unificação será feita construindo um Vocabulário da Língua Portuguesa, por todos os países signatários, tendo o texto do acordo como orientação. Isto é sensato, da parte dos autores do acordo, porque não há maneira de prever todos os casos; é preciso ver palavra a palavra. Mas a Academia Brasileira de Letras violou o acordo publicando um vocabulário brasileiro sozinha (talvez por interesses comerciais, para vender o Houaiss e o Aurélio), e portanto agora mesmo que todos os países aceitem o acordo ortográfico já não será possível haver um só vocabulário da língua. Haverá sempre pelo menos dois: o de Portugal e o do Brasil (os restantes países lusófonos seguem a norma portuguesa).

    Por estas duas razões, e apesar de eu não concordar com termos xenófobos e histéricos como “neocolonialismo”, os críticos portugueses mais estridentes do acordo têm uma certa razão, ainda que exagerem um bocado. Não fosse Portugal um país governado por semianalfabetos, e o parlamento daria o acordo como legalmente vácuo, porque foi claramente violado pelo Brasil. Seria o que faria Espanha caso o Chile decidisse fazer um vocabulário só para eles; afinal, o grande sonho (independentemente de concordarmos com ele) de quem fez o acordo era ter um só vocabulário, como acontece nos países de língua castelhana. Mas para isso nenhum país se pode outorgar o direito de fazer um vocabulário próprio: todo o vocabulário tem de ser feito por representantes de todos os países.

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  3. Sou um dos "signatários" desta iniciativa. No meu comentário sobre o porquê de ter aderido, fui claro quanto a facto de isto não ser uma questão política, mas técnica. Quanto menos alarido e ruído político-nacionalista, melhor para a causa.
    No entanto, compreendo os "desabafos". Durante este tempo todo, andaram alguns a tentar impingir o acordo com argumentos não técnicos, mas sim políticos.
    Penso que a iniciativa deve ser analisada pelo seu valor interno e não por estarmos ou não de acordo com os "desabafos". Eu, por exemplo, não estou.
    Estou convencido que este blog irá tratar / abordar o tema com a seriedade e imparcialidade habituais.

    José Veiga Coelho - Lisboa

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  4. Obrigado pelos comentários. Eu de fato não sabia da vergonhosa atuação da ABL. Achava que eles haviam deixado de ser referência há muito tempo, tornando-se mais um desses clubes exóticos...

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  5. Interessante a colocação de ambos, Leonardo e Desidério. Tendo a concordar com ambos, mas creio que o Leonardo no fim tem uma grande razão, a ABL já há muito deixou de ser referência em matéria de língua, mesmo estando nela pessoas como um Evanildo Bechara. Se tornou um clube exótico, e só me lamento que ela ainda seja referência para matéria de língua, porque sempre quando tem uma oportunidade de fazer e demonstrar uma atitude correta, acabam por atuar vergonhosamente. O pobre do Machado deve estar a revirar no túmulo!

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