31 de março de 2010

Direcção da adequação, livros e leitores

A direcção da adequação ou do ajuste é um conceito importante em filosofia, nomeadamente em ética. Diz respeito à direcção primária da adequação que existe entre afirmações descritivas e normativas. Numa afirmação descritiva, procuramos primariamente adequar a afirmação à realidade: dizemos “A neve é branca” e queremos que isto se adeqúe ou ajuste à realidade da neve. Numa afirmação normativa, não procuramos primariamente adequar a nossa afirmação à realidade, mas antes indicar como queremos que a realidade mude para se adequar à nossa afirmação: dizemos “Não devia haver guerra” e queremos que a realidade se adeqúe ao que estamos a dizer. Não se deve pensar, contudo, que tudo o que se faz numa afirmação descritiva é adequar a descrição à realidade, nem que tudo o que se faz numa afirmação normativa é indicar como a realidade se deveria adequar ao que dizemos. Em ambos os casos são detectáveis adequações na direcção inversa: dificilmente é concebível uma afirmação normativa sem elementos descritivos ou uma afirmação descritiva sem elementos normativos.

Este pedaço de banalidade filosófica tem uma relação interessante com uma banalidade mais chã: qual é a “direcção da adequação” quando se escreve um livro, ou um blog, ou um artigo? Neste caso não se trata exactamente de direcção da adequação, tecnicamente falando, mas de um conceito análogo: podemos chamar-lhe “direcção da atenção”. Parece que algumas pessoas entendem trabalhos como este blog, um livro ou um artigo primariamente como algo que visa chamar a atenção para o autor ou autores, prestigiando-o, e não como trabalhos que visam primariamente servir os leitores. É verdade que um autor muito publicado e muito lido ganha uma certa notoriedade, e poderá ter de ter cuidado para não ficar um tolo vaidoso, mas se a sua motivação original foi ficar famoso, algo de errado há na sua cabeça. Publicar livros e artigos é dar coisas a conhecer aos nossos semelhantes, chamando-lhes a atenção para algo fora deles e fora do autor. Do mesmo modo que eu muito ganho cognitivamente com os livros que leio, sem os quais eu seria uma besta provinciana sem saber sequer que há biliões de galáxias ou o que foi o Império Romano, ou o que é a direcção da adequação em ética, devolvo aos leitores algo do que tenho aprendido. A direcção da atenção não é do que escrevo para mim, mas do que escrevo para as realidades acerca das quais escrevo.

Em sociedades iletradas ou quase, a vida intelectual é vista como um mero adereço social de promoção pessoal. A direcção da atenção vai toda ou quase toda para o autor, e não para as realidades de que ele fala. Nessas sociedades, ler um autor é promovê-lo, prestar-lhe um serviço — e ameaçar não o ler é uma afronta, um perigo a evitar. Mas quando a direcção da atenção não é essa, a ameaça de não ler um autor não surte qualquer efeito: o autor tenta prestar um serviço aos leitores e no dia em que não tiver leitores passa a ser apenas leitor e a usufruir do serviço dos muitos autores que lê, sem ter de pagar em esforço autoral.

4 comentários:

  1. Já agora... uma terceira banalidade, que de certo modo decorre (digo eu) da segunda, a que podemos chamar a "direcção da distribuição".

    Entendidos como produtos sociais, (quero dizer, com a "atenção" centrada nos leitores ou usufruidores), os bens culturais devem ser distribuídos (ou disponibilizados) a todos os potenciais destinatários nas condições mais favoráveis para estes. Designadamente, e apenas para exemplificar: deve o autor receber apenas o $uficiente para continuar a produzir; deve o distribuidor receber apenas o $uficiente para continuar a distribuir; devem criar-se mecanismos de distribuição o menos onerosos possível (a Internet seria um meio privilegiado...); deve...

    (ou esta banalidade não o é tanto como eu digo?)

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  2. O "suficiente" para continuar a produzir, nessa ordem de ideias, inclui ter as mesmas condições que os leitores que, por exemplo, pagam ligações à internet, telemóveis de 100 euros, combustível para o automóvel, apartamento, água, luz, gás, etc.
    Ou será que os autores têm uma obrigação especial de ascetismo, para que um caixeiro de uma loja de tintas, p. ex., possa comprar mais coisas?

    Antes de fazer traduções trabalhei como caixeiro em várias lojas de tintas e, ao contrário do que sucede hoje, tinha o dinheiro certo todos os meses, não tinha de esperar um trimestre inteiro para ser pago (como por vezes sucede), ser pago às mijinhas (como por vezes sucede), e ter de andar à caça de trabalho constantemente, em vez de acordar todos os dias para ir tranquilamente para o mesmo sítio, contando que a "caça" só vai começar, provavelmente, na data de fim do contrato.
    Claro que enquanto estava na loja também não dava quase 50% da riqueza que produzia ao estado nem tinha de passar a vida a preencher declarações cuja falta ou esquecimento implicam multinhas de 200 euros.

    Claro que, dito isto, também gostava de ter o meu apartamento, pagar as minhas contas, passear ao fim de semana e gastar mais em coisas que me agradam. Ironicamente, fazia mais isso nos tempos em que era caixeiro. Hoje passo férias e fins de semana ao computador... falem agora os leitores, em particular aqueles que valorizam a cultura, contra os escandalosos lucros das editoras.

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  3. Mas falem antes de ir gastar 50 euros no estádio do dragão, outros tantos no Dolce Vita em camisas novas, e umas vodcas com laranja à noite. É que a cultura é um direito do proletário, mas o vendedor de vodca e as tabaqueiras já merecem ganhar bem porque são capitalistas respeitáveis - não é como esses capitalistas ordinários que prostituem a cultura, como os editores.

    Os autores... bem, esses que se proletem, que depois de voltar do dragão e com o panço bem cheio de cerveja não há paciência para estas coisas. A malta quer é dormir e não ler livros que pode fotocopiar em vez de comprar por 1/3 do preço do bilhete para o dragão.
    O curioso é que nesta sociedade de proletários pelintras, quando há jogo no dragão, as filas de automóveis são tantas que até vão pela estrada fora.

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  4. expressão macaca: filas de automóveis estacionados nas imediações.

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