6 de março de 2010

Heidegger e o nazismo

Heidegger era nazi. Contudo, muitos admiradores do filósofo consideram que esse é apenas um aspecto da sua biografia, mas não da sua filosofia. Outros, contudo, consideram que a filosofia de Heidegger é intrinsecamente nazi, não sendo a experiência de ler o Mein Kampf muito diferente da de ler Sein und Zeit. É isto mesmo que defende Emmanuel Faye, professor de filosofia na Universidade de Rouen.

19 comentários:

  1. Já agora Frege era um professo nazi, anti-semita e tinha Adolf Hitler como um dos seus heróis.

    Todavia não deixamos de considerá-lo um filósofo importante e inovador.

    Estranho, contudo, porque é que Heidegger é frequentemente acusado de ter colaborado com o partido nazi e a sua obra estar contaminada pela ideologia nazi e o mesmo não ser feito em relação a Frege e a grande parte da elite cultural e científica alemã. Deve ser um problema de relações públicas...


    Não conheço a obra acusatória em causa, mas, por via de regra parece-me um exercício dúbio confundir o criador com a criatura, isto é, o autor com a obra.

    Mas não podemos deixar de nos interrogar como é que dois filósofos importantes deixaram-se associar a um movimento que actualmente nos parece completamente demencial.

    Teremos talvez de dar razão a Einstein, segundo o qual só havia duas coisas infinitas no universo, a saber: o próprio universo e a estupidez humana.

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  2. A questão é saber se as ideias filosóficas de Heidegger (ou Nietzsche) são nazis, ao passo que as ideias filosóficas de Frege nada têm a ver com o nazismo. O que Faye argumenta é que as ideias filosóficas de Heidegger são nazis; que ele era nazi não é novidade.

    O que Fay faz não é argumentar "Heidegger era nazi, logo as suas ideias filosóficas eram nazis", mas antes de procurar ideias nazis na sua obra filosófica.

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  3. E, já agora, qual é o problema de ter ideias nazis ou anti-semitas?

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  4. O Desidério está a inverter a causalidade a respeito de Nietzsche. Assim também poderíamos dizer que Platão tinha ideias comunistas.

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  5. caro domingos. pelos vistos, o mito continua, tal como com nietzche há-de continuar. cito duas citações do próprio heidegger retiradas do seu mais do que famoso "Discurso do Reitorado": "O saber, porém, é muto menos forte que a necessidade" (Ésquilo) e "Tudo o que é grande expõe-se à tempestade." (Platão) E essa identificação entre "Ser e Tempo" e "Mein Kampf" é a mais pura estúpidez!

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  6. Mesmo que seja verdade que tudo o que é grande se expõe à tempestade, daí não se segue que tudo o que está exposto à tempestade é grande. Do mesmo modo, mesmo que seja verdade que todos os génios são loucos, não se segue daqui que todos os loucos são génios. Mas este curioso erro de raciocínio é lateral à questão. E a questão é saber se um determinado conjunto de ideias filosóficas é ou não totalitarista, racista e elitista. A cronologia aqui também é irrelevante. Trata-se é de saber se as ideias de Nietzsche, ou de outro qualquer filósofo, se levadas à prática, configuram ou não uma sociedade exatamente análoga à sociedade nazi.

    E ainda ninguém respondeu à pergunta: qual é o problema de ser nazi?

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  7. Quem acha que o nazismo é um problema é Faye, que no fim do livro defende a criminalização do ensino de Heidegger.

    Nada mau para quem se insurge contra Heidegger e o nazismo.

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  8. Um argumento ad hominem é falacioso quando invoca algo acerca do carácter ou da prática de uma dada pessoa que não tem relação com a conclusão em discussão. Pode ser que Faye seja nazi, ou ditatorial, ou racista, ou elitista, ou irracionalista. Mas daí não se segue que a filosofia de Heidegger não é qualquer uma dessas coisas. No máximo, põe apenas em causa os argumentos que Faye usa para estabelecer que a filosofia de Heidegger é nazi.

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  9. "Qual é o problema de ser nazi?(ter ideias nazis)"
    As atitudes (ideias, valores, crenças, etc.) estão na base dos comportamentos. Todos sabemos qual foi o resultado das "ideias nazis", o extermínio de milhões de pessoas. Qual é o problema? Para os nazis não foi "problema" nenhum.
    Magda

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  10. pela lógica da Magda devíamos proibir a expressão de ideias comunistas e católicas, tendo em conta o estalinismo e a inquisição. Isto não significa dizer que há uma "boa" versão do nazismo. Até pode muito bem ser que todas as ideias fascistas impliquem a agressão, a guerra, e todas essas coisas (pelo menos é o que penso) mas a questão é saber se devemos ou se temos razões para tentar inibir alguém de exprimir ideias fascistas. As ideias têm de ser refutadas (se não representam adequadamente o mundo tal como é ou como deve ser) e não silenciadas.

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  11. Caro Desidério: o que entende pro ser Nazi? Se ser Nazi é acreditar e tentar por em prática as ideias expostas por Hitler em Mein Kampf posso responder à pergunta.
    Mas se a sua ideia de ser Nazi é diferente desta, aí já teria que a conhecer para tentar responder.

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  12. A questão é que poucas pessoas conhecem as ideias defendidas por Hitler, ou por Mussolini. Algumas das suas ideias são muito defendidas hoje em dia por pessoas que não fazem a mínima ideia de que estão a defender ideias nazis e fascistas. Eis algumas delas: a) a razão é muito redutora, a emoção é superior, b) não há valores universais, tudo é relativo a cada Nação, c) dos fracos não reza a história, a história é escrita pelos vencedores, que definem igualmente a verdade, d) a ciência experimental e lógica é “judaica”, inferior, ao sentir profundo e emocional, que vem do fundo da alma e expressa profundidades que se perdem no fundo dos tempos.

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  13. Caro Vitor Guerreiro

    Não sei se tem conhecimento da proibição na Alemanha do uso de símbolos nazis, qual será o motivo? Claro que isso não impede, infelizmente, a existência de movimentos clandestinos neonazis.
    Magda

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  14. Essa proibição, como muitas outras que existem na Alemanha e na Áustria (como a proibição de publicar o Mein Kampf de Hitler), só mostra que a mentalidade nazi está ainda presente. Só falta queimarem livros na rua.

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  15. Pois é meu caro Desidério realmente muitos não sabem as ideias defendidas por Hitler e Mussolini e como tal falam muito.

    Quanto ao ponto c) da lista de coisas que apresenta devo dizer que infelizmente é verdade. E com verdade quero dizer que realmente a história que nos é normalmente apresentada quer nos manuais escolares, quer em documentários, etc é um tipo de história em que os fracos não aparecem. É um desfilar de uns poucos iluminados que conseguem guiar as massas gentias para a salvação e bem estar. Por isso adoro o livro de Zinn que muito fez por desmanchar este mito pernicioso.
    E normalmente também são os ditos fortes que ditam a "verdade". Não foi Churchill que disse algo do género: "Sei que história será simpática para nós porque tenciono escrevê-la"?
    Quanto ao seu último comentário: só peca por utilizar as palavras "mentalidade nazi". Acho que muito melhor seria dizer "mentalidade autoritária" (acho que a palavra authoritarian em inglês serve muito melhor para o que quero expressar) porque é isso que de facto é. Muita gente não percebe o que Rosa Luxembourg já disse há muito tempo: "Freedom only for the members of the government, only for the members of the Party — though they are quite numerous — is no freedom at all. Freedom is always the freedom of dissenters. The essence of political freedom depends not on the fanatics of 'justice', but rather on all the invigorating, beneficial, and detergent effects of dissenters. If 'freedom' becomes 'privilege', the workings of political freedom are broken."
    Tenho algo que se deve parecer um ódio visceral à ideologia e práticas Nazi, mas ainda assim acho que devemos deixar quem assim pensa exprimir as suas ideias. No entanto compreendo perfeitamente (e compreender não é concordar) o porquê de tais medidas na Alemanha de hoje.
    Só para terminar: acho que nestes casos extremos a ideia da livre expressão torna-se mesmo muito complicada.

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  16. Se o "Homem" não fosse o "lobo do Homem" e a "História da humanidade um imenso matadouro" não eram precisas regras, proibições e sanções. Se a proibição de livros, símbolos, etc., impedir que se repitam episódios macabros talvez não seja assim tão errado fazê-lo.
    Magda

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  17. Afinal como saber se um determinado livro ou idéia terá consequências desastrosas?
    Das quatro idéias nazi apontadas acima todas estão presente hoje, e mesmo que estivessem combinadas ainda assim não garantiria a existência de governos semelhantes ao da Alemanha nazi.Penso que não há como perceber se uma determinada idéia terá as consequências que desejamos, livros não devem ser proibidos somente pela possiblidade de eventos ruins.Caso contrário deveriam retirar de circulação livros comunistas por também ter gerado massacres.

    Bruno

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  18. A obra de Heidegger é de difícil compreensão e, de fato, aberta à muitas interpretações em virtude da linguagem em que é expressa. Não duvido que muitas partes de Ser e Tempo possam ser interpretadas ou aproximadas de teses ou concepções nazistas. No entanto, penso que provar a suposta afinidade entre conceitos e teses expressos na obra Ser e Tempo e conceitos e teses nazistas exige muita criatividade e imaginação. Em outras palavras, é preciso inserir ou criar muita coisa estranha ao pensamento de Heidegger ou superinterpretá-lo para provar a tese de que Ser e Tempo é uma obra nazista. Se é legítimo lançar mão de tal estratégia de interpretação, então é legítimo e é possível fazer isto com outras obras, inclusive, com Marx, Hegel, Tomás de Aquino, Aristóteles, Platão e até mesmo com a Bíblia. No novo testamento, por exemplo, no evangelho de João, há certas afirmações que poderia ser interpretadas como anti-semitas. E, neste caso, poderíamos concluir, com criatividade e imaginação, que o novo testamento influenciou o nazismo ou introduziu o anti-semitismo no pensamento ocidental!
    Mas tudo isso é muito suspeito, e não creio que seja filosoficamente sério. Posso fazer, como Adorno fez, e dizer que Ulisses era um proto-burguês, mas não sei se isto seria verdadeiro de um ponto de vista filológico e histórico. Posso encontrar traços masoquistas na concepção de pacifismo de Gandhi, mas isto não significa que ele defendia o masoquismo como filosofia de vida.
    A minha hipótese é de que o livro de Faye é perda de tempo. Porém, eu posso estar errado. Mas a probabilidade é pequena.

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  19. Acerca de Frege, por favor, digam qual texto ou possibilidade de se enquadrar o autor como "anti-semita" e "proto-fascista"; Grato

    Anônimo

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